terça-feira, fevereiro 22, 2005

Síndrome de Sereia


Erté


Esse texto foi publicado há dois anos, no site Mito & Magia, numa época em que procurava insistentemente compreender as razões da rivalidade feminina. Já passei a fase. Compreendi e descompreendi. E relativizei - tem gente que é do mal mesmo e aí chamar a figura de naja, naza, cascavel, sacana, babaca, etc etc, é mais do que lícito, seja homem ou mulher. Lasquem-se. Xingo mesmo. Por outro lado, minha paciência se esgotou completamente com a “Síndrome da Fada-Boazinha” – mocinhas queridocas que amaciam ursinhos mas que insistem em não tomar o imprescindível Sitocol, tônico revitalizante do bom-senso. Fichas que não caem nunca. Joanas-sem-braço. Sonsas. Antes o surto de sereia, mil vezes sereia, pois ao menos é óbvio. Dá pra compreender. Mulheres ... na boa ! Menos chilique e mais ação. Bem, dito isso, divirtam-se. Adoraria alguns comments. O assunto continua polêmico.

Zoe

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Minha irmã é uma Sereia


Leah Demchick


Lealdade. Palavra desconhecida entre as mulheres? Dizem que sim, parece até existir um consenso quanto à falta de irmandade feminina. Pergunte a um homem e a resposta não raro, será: - São competitivas, cheias de artimanhas, não gostam umas das outras. Milhares de mulheres afirmariam o mesmo.

Claro, tem o caso da querida Tia Matilde, grande carinho de tod@s, orgulho de nunca ter brigado com uma amiga. E diversas manifestações da amizade e cumplicidade na vida e na Arte sobre as quais teceríamos uma Colcha de Retalhos, se o assunto não fosse outro: A Falta de Lealdade entre as mulheres, assunto cheio de espinhos entre Rosas e Camélias.

Onde isso acontece? Em qualquer lugar. Em casa, no trabalho, nas festas, em velórios, até dentro do ônibus.

Como acontece? Lembra daquela cena particular apimentada feita da mais pura insídia que derivou para um barraco de histórias inquietantes? Claro que lembra. Se não aconteceu com você, com certeza com uma amiga.

Em que medida isso acontece? Parece freqüente.

Por quê, ao certo? - Diversos motivos... Deslinda-se então um rosário de hipóteses: mulheres competem por vaidade; porque são naturalmente vingativas; por um par de calças ou um “príncipe encantado”; porque ficam magoadas e não sabem lidar com isso; porque é inerente à sua natureza, característica feminina nata; porque fazem jus a um estereótipo socialmente construído. Alguns chegam afirmar que, em certos casos (foi Freud, não?), é desejo sexual não reconhecido por pessoas do mesmo sexo.

Verdades ou Chavões? Cabe questionar. Vamos lá.

Se estamos falando da falta de lealdade feminina é possível pressupor então que exista uma maior lealdade entre os homens. Parece que eles resolvem as pendências de uma forma mais direta. Na maior partes das vezes sim, embora também tenhamos exemplos contrários. A deslealdade existe nos dois sexos, é humana.

Então é bom pontuar de que tipo de deslealdade estamos falando e o que tem a Sereia a ver com isso, partindo da primeira peça de um quebra-cabeça que venho tentando montar faz tempo. E para isso, peço a ajuda de vocês – é um jogo com mais de mil peças.

Parceiras Na Lua Negra – A Natureza Instintiva

Todos sabemos que nos agrupamentos ditos primitivos, a mulher passava o período menstrual em reclusão, afastada do convívio social, já que diversos tabus advinham do sangue feminino. A mulher não poderia cozinhar, plantar, colher e muito menos ter relações sexuais. O sangue menstrual sempre gerou medo porque o seu poder é intenso. Os homens fugiam desse contato porque acreditavam que ficariam impotentes para realizar suas atividades, ou seja, que a força do sangue poderia enfraquecê-los. O tempo de reclusão era o momento da solidão feminina, época de reabastecimento, em que o descanso dos afazeres domésticos e do sexo poderia soar como um alívio.

É dito que existe uma tendência de que as integrantes de um mesmo grupo, menstruem juntas. Caso não exista luz elétrica à noite, apenas os influxos da Lua, as mulheres sangrariam na Lua Negra. Recolhiam-se então em um mesmo espaço, o que geraria uma maior integração do feminino. O trato com o sagrado seria intensificado e a mulher poderia conectar-se de forma mais profunda à sua natureza instintiva.

Atualmente, a relação da mulher ocidental com o corpo e seus ritmos é completamente diferente. Não temos mais esse tempo precioso dedicado a nós mesmas, período em que existia a possibilidade de dar vazão ao lado escuro da Lua. Ao contrário: não raro as mulheres detestam ficar menstruadas porque isso as recorda de suas limitações e da sua natureza real, ou seja, cíclica.


Magritte /Siren

Se para uma mulher “primitiva” o período que antecede às regras também poderia ser uma época de maiores agitações internas, para a mulher moderna, sucumbir ao sabor da natureza instintiva é bastante inconveniente. As demandas do cotidiano não deixam espaço para uma saudável reclusão. As terríveis cólicas e a batida TPM são um reflexo da falta de integração com nossos processos internos. Remédios e também a supressão da menstruação são cada vez mais utilizados para resolver esse “problema”. E estamos cansadas de saber que esse não é um processo apenas biológico e hormonal, mas também, psicológico.

Esther Harding, em seu livro Os Mistérios da Mulher, mais especificamente no capítulo que trata sobre o sentido interior do ciclo lunar, nos apresenta um desenho feito por uma de suas pacientes. Nesse desenho estão retratados cinco aspetos de uma Deusa e sua relação com as fases da Lua.

A primeira mulher apresenta um vestido de escamas decotado, na altura dos seios, e atrás dela a lua começa a crescer. A segunda traz o vestido de escamas na cintura e sua imagem de lua está pela metade. A terceira tem o vestido aos seus pés, totalmente nua e revelada, frente a uma lua cheia. A quarta, apresenta a roupa na altura dos quadris, com a lua decrescendo, também pela metade. A quinta traz o vestido tampando os seios, e a lua está no fim da minguante.

O sexto aspecto, em que a mulher estaria completamente tomada pelas escamas, não é mostrado no desenho. É o aspecto misterioso, secreto, no qual o instinto toma conta do feminino e que, para o homem, é tabu – significa a doença e morte.

Ela é toda instinto.

A Sereia Inconsciente

Representada sem pernas, a Sereia é mulher, mas não tem um sexo humano. Seu rabo é psi, natural das águas, do plano submerso das emoções. Metade mulher - cabeça e coração. Metade peixe - o sexo escondido, inalcançável, fechado em uma armadura de escamas. A Sereia mitológica não tem sexo e, no entanto, personifica o fascínio do feminino, que se traduz em música e beleza. Pode não existir no mundo real, mas o inconsciente coletivo está convencido que a sereia existe, é um arquétipo pulsante.

A Mulher-Sereia, ou seja, uma mulher humana com a Sereia incorporada, conhece todos os meandros da sedução, mas não entra em contato sadio e consciente com a sua sexualidade porque é uma sexualidade submersa. Poderíamos dizer, para efeito didático, que apresenta uma sexualidade “não humana”. É um recipiente selado. Por conseqüência, não alcança integrá-la em sua psique. E ao emergir das águas do inconsciente e refluir em um corpo de mulher, não raro causa situações de difícil resolução. É a Alma Primitiva que irrompe, sem avisar.


Tempting Eve/Russ Horseman


Esther Harding diz que essa energia instintual não é boa nem má, mas que se estiver entregue a si mesma só pode produzir efeitos não-construtivos. Nesse momento é necessária a intervenção humana para que se converta essa energia em trabalho. Quando uma mulher está entregue a uma inundação de energia instintiva, não consegue se satisfazer em nenhum relacionamento amoroso. E na maior parte das vezes, é a última a aceitar que é uma prisioneira do próprio instinto. É uma mulher auto-erótica.

O peixe é um animal de sangue frio. Uma mulher tomada pela Sereia, seduz de forma compulsiva, sem a mediação de qualidades humanas como o amor, a compaixão e o escrúpulo.

Encarna a Femme Fatale e, se faz sucesso num primeiro momento entre os homens, não é nada popular entre as mulheres. É uma Mulher-Anima, intrinsecamente identificada com um arquétipo. É presa de sua Sombra, até o momento que consiga reconhecê-la e integrá-la. E este é um processo complicado, por que ao contrário da mulher “primitiva”, a Sereia moderna dificilmente entra em contato direto e consciente com a sua natureza instintual.

A Sereia causa um grande incômodo nas outras mulheres, principalmente para aquelas que, ao contrário da Mulher-Peixe, não se permitem vazão alguma da sua natureza primitiva. São dois pólos: a inundação pelo instinto e o represamento da natureza instintual.

A rivalidade se instala assim que a Sereia entra em cena, aberta com todas suas garras: aquela que não aceita esse aspecto em sim mesma, se retrai na mesma hora.

Nesse momento, o poder da Sereia lhe parece é infalível, mesmo que a mulher em questão não seja nenhuma “Gilda” Hayworth, nenhuma Marlyn Monroe. Seu rosto, afinal de contas não é tão bonito. Mas incomoda. Alguma coisa... o que será?


Brian Brokwell

Sua sensualidade? Sua alegria? Seu despojamento? A presença da Sereia paira no ar, como um perfume aquático. Pior se for perto de certo colarinho, aí o caso é grave, uma séria ameaça.

Ciúmes: - “Agi por instinto de preservação” - motivo para vinganças malignas e tramóias horrendas. Quem, qual mulher dentre nós, nunca mordeu os lábios de raiva, na melhor das hipóteses, por causa de uma Outra?

- “Mas ela merecia, aquela .... aquela ...” e daí pra frente, sabemos de cor os xingamentos: palavras que mulher nenhuma gostaria de escutar mas que não pensa duas vezes antes de proferir.

Acho muito estranho uma mulher chamar a outra de “Filha da Puta”, principalmente no meio pagão, no qual se pressupõe uma maior consciência do feminino. Não é estranho? Esse bordão é repetido sem pensar. Nem nos damos conta do que estamos dizendo, embora saibamos exatamente o que a expressão significa. No entanto, é linda a evocação a Isthar, não é mesmo? Deusa, que em um dos seus múltiplos aspectos, é a Deusa do Amor Sexual, e chamada de “A Grande Prostituta da Babilônia”: - Uma prostituta compassiva, sou eu – diz Isthar.


Ishtar

E Ishtar é a deusa que irá dar origem a Atargatis, a primeira Deusa Sereia, e que como é do conhecimento de todos, é aquela que castra o homem – seus discípulos eram emasculados. Na época elizabetana, Sereia era sinônimo de prostituta. Assim a Rainha Elizabeth chamava a sua rival, Mary da Escócia. Bem, provavelmente, Mary era mais bonita que Elizabeth.

Hoje, se a “Sereia” for considerada bem dotada por Afrodite, é vulgar ou burra. Se vista como mais inteligente ou articulada, é chamada de pedante. Olhou de solslaio para algum marido ou namorado e foi flagrada:– “uma sirigaita, uma oferecida”.

Na hora da raiva, nenhuma mulher presta. Nenhuma, são todas iguais, as doidivanas descabeladas, medusas e horrendas. O mundo está repleto de Sereias, ávidas para levar o seu Ulisses, seu querido Ulisses, pra baixo d’água e para bem longe de você.


lá-lári-lá-lá

E quando a Sereia É você? Lembra-se daquela festa? Daquela garota com um namorado de arrancar suspiros de qualquer mulher? Recorda-se das suas atitudes? Correr para o banheiro com a “melhor” amiga para retocar o batom, acertar o decote, ver se a derrière está em cima, e jogar os cabelos para o alto?

- “Não, imagina. Eu nem dei em cima dele. Ele que me olhou e ai, sabe como é, ninguém é de ferro. E depois, a mulher dele é uma perua hor-ro-ro-sa. Viu como ela é gorda? E o cabelo ressecado? Sem contar o modelito, péssimo.”

O quê, você nunca fez isso? Compreendo. Você é uma mulher bacana, nunca caiu nessa armadilha, ou melhor, nem passou perto dela. O exemplo não serviu.

Tentemos outro: Agora, temos um homem desacompanhado. Você anda meio chateada com aquele último fora, uma história que não deu certo. Ele é um cara legal, mas você só está a fim de se divertir. E se diverte. Só que o moço fica apaixonado ... ah, esse cara é um chato. Não pára de me ligar, não larga do meu pé.

Isso também nunca aconteceu com você? Que estranho...e raro. Mas e se, de repente, esse mesmo moço aparecer, com uma loira escultural (morena ruiva, etc.) e passar na sua frente? Você continua mantendo a mesma postura? Ou parte para reconquista? E se parte, parte por quê? Porque gosta de desafios ... certo, já entendi.

Pintei um quadro negro, acredito, e até radicalizei para poder mostrar os contrários. Mas não exagerei, é assim mesmo. Acontece de formas mais sutis, mais refinadas, mas no final das contas, é sempre a mesma coisa. E depois, é necessário borrar o espaço em branco desse assunto tabu para que seja possível inscrever-se nele. Tema polêmico, controvertido e de difícil conclusão. E desagradável, mas não mais desagradável do que os efeitos maremóticos causados por uma Sereia em ação. Seja quando estamos no papel da Sereia Sedutora, seja quando somos vítimas dela. A pergunta é: Como ficar numa boa?

Já tratamos da questão do instinto feminino. Mas não podemos deixar de lado, quem parece estar no centro das atenções - o homem. Seria o homem então referência e causa de posturas sedutoras femininas que recriminamos quando encarnadas no papel de vítima? E quando vestidas de escamas, a razão para que sejamos extremamente benevolentes para conosco mesmas, encontrando desculpas que justificam as atitudes de explícita sedução?

Mas será mesmo o homem, o ponto-chave da questão? Nos tempos em que garantir um par equivalia a obter um espaço na sociedade; na época em que casar era a finalidade e necessidade básica de uma sobrevivência digna, dá até para entender. Muito da “sereia em ação” se deve ao medo ancestral que permanece no fundo de cada uma de nós. Mas é um medo atávico e que não corresponde mais à realidade, uma época em que a mulher se sustenta e é aceita pela sociedade, seja criando seus filhos sozinha ou mesmo em produção independente.


Family

Homens não são necessários para prover nosso sustento, - podemos trabalhar. Homens são necessários para uma troca estimulante e que se dá em um nível de companheirismo e igualdade. Mas a ficha feminina não cai... Tudo giraria então, em torno do imperativo da reprodução? Penso que é momento certo para quebrar esse paradigma, instalado de forma arraigada na nossa psique. O cerne da questão está em nós mesmas e não no homem.

Sabemos de tudo isso e, no entanto, padecemos dos efeitos de um mercado que praticamente nos obriga a fazer jus a uma imagem idealizada de mulher. A moda, os implantes, o silicone, a atitude, e por aí vai. Por mais que a mulher tenha uma cabeça boa, na hora de transar com um homem mais novo que ela, sempre vai lembrar que não tem um corpo de uma garota mais jovem do que ele. Acabamos nos esforçando para corresponder àquilo que não somos. E isso começa acontecer cedo, sei de casos de implante de silicone em meninas que nem alcançaram sua maturidade física. Uma mulher não deve ser medida pelos seus atributos externos. E a Feminidade não está atrelada ao que o homem acha da mulher.

Toda mulher tem dentro de si uma Sereia, independente de corresponder ou não ao modelo vigente de beleza. Sedução e beleza não são sinônimas, apesar de serem palavras irmãs. Toda mulher pode ser sedutora, misteriosa, interrogativa. É só deixar que a sereia escorregue de dentro dela e venha à tona. Com consciência.

Ainda vivemos dentro de um sistema patriarcal e paternalista, gostemos ou não dessa conclusão. Que os tempos mudaram, já sabemos. Mas o arquétipo do homem provedor ainda viceja na nossa psique, assim como a necessidade de rivalizar. Quando a Sereia emerge e se depara com esse estado de coisas, costuma fazer uma aparição de difícil trato.

Sisterhood

Quando há anos atrás, entrei em listas de discussão sobre Wicca e Paganismo, já que vinha lendo e praticando há muito tempo sozinha, achei que iria encontrar mulheres com uma cabeça mais trabalhada em relação a essa questão, ou ao menos, mais abertas à discussão. Mulheres que teriam uma noção aproximada do conceito de irmandade, a tal Sisterhood. Parti do princípio que, ao ouvir O Chamado da Deusa, a amizade se estabeleceria de forma mais segura e questões como a competição ferrenha seriam tiradas de letra. Que poderia me sentir em casa, abrir meu coração e compartilhar idéias tranqüilamente. Afinal, estaria entre mulheres que acordaram para certos aspectos que outras, talvez, jamais se dessem conta.


As Secret Magic Place/Russ Horseman

Santa ingenuidade, Mulher-Gato! E ingenuidade, nesses casos, costuma causar efeitos desastrosos. Fiz boas amigas, é verdade, mas tenho meu muro de lamentações. Em pouco tempo observei demonstrações de rivalidade que me fizeram ficar de cabelo em pé. O que mais vi e ouvi foram proferimentos idealizados sobre irmandade feminina, mas que só existiam da boca pra fora.

Tempos depois, entrei para uma lista de Dança do Ventre e me surpreendi com afirmações de que a competição entre as dançarinas da Deusa é ainda maior do que em outras danças. Percebi isso in loco assim que comecei a freqüentar aulas – é bom lembrar que estamos falando de rivalidade e da decorrente deslealdade, porque o meu encanto com a arte da dança e o que aprendi com a DV não está em questão. As dançarinas costumam chamar o fenômeno de excesso de frivolidade de “lantejoulite”.


Merexmas

Ok, o fato de uma mulher ter sua filosofia de vida ligada aos Mistérios Femininos não tira sua matéria, sua humanidade, sua vaidade. Pessoas são pessoas, independente de credo, opção, religião. Trilhar o caminho do sagrado feminino não faz a menor diferença quando o bicho pega, quando “o seu território é invadido”.

Parece óbvio, mas para mim não era, já que sempre priorizei as amizades, em detrimento dos marmanjos. Namorados passam, amigas ficam. Cansei de ser chamada de “banana” ou “otária” pelo pessoal aqui em casa e por pessoas com quem tenho maior intimidade, porque diversas amigas “aprontavam” e eu continuava na mesma. No entanto, continuo achando que as mulheres deveriam ter uma certa ética, ou ao menos um maior esclarecimento no que tange a questão da irmandade feminina. O problema é que muitas não sabem nem por onde começar. Hoje, chego a pensar que as mulheres que optam pelo Paganismo se deparam mais rapidamente com esse arquétipo e talvez por isso mesmo, ele se torne exacerbado e indomável.

Pessoalmente, prefiro continuar a ser chamada de “banana” do que engrossar o caldo da falta de alteridade que grassa entre as mulheres. Já vesti a cauda de sereia sem saber que a estava usando. E já a vesti tendo a plena consciência do meu rabo-de-peixe (é bem melhor). E também já fui vítima da ação de algumas sereias.

Não sou diferente e nem melhor do que ninguém. Apenas aprendi cedo o verdadeiro significado da palavra COMPAIXÃO. E compaixão não é pena, não é sentir dó de alguém. Compaixão, é “sentir junto”. É só ir num dicionário etimológico conferir.

Compaixão é poder perceber que a mulher ao seu lado está inundada pela sua natureza instintiva, assim como você mesma já foi atingida por ela. Ou perceber que o que lhe causa inveja pode ser o que você está reprimindo dentro de si mesma. Ter compaixão de uma Mulher-Sereia é fazer o melhor por você - e por ela. Ter compaixão de uma mulher raivosa, por causa de uma Sereia, também é fazer o melhor pelas duas.

Sejamos claras: se o homem que lhe acompanha, desviou os olhos para uma outra, ou até teve um caso, sua questão é primeiro consigo mesma e em seguida, com ELE. Não com ELA. Ela está simplesmente personificando um aspecto da Lua Negra, a sua mesma natureza instintual.

Difícil, não? É, eu sei. Já senti vontade de pular no pescoço e também teci comentários maldosos, mesmo tendo como meta o exercício da compaixão. É um desafio compreender a Sereia no calor da ação, mas não impossível. Experimente tentar. Pode perecer estranho no começo. Reverta o jogo. Os resultados são os melhores possíveis, pode acreditar. Em vários sentidos.

Vale a pena fortificar os nossos laços com o feminino, porque os fortificando, principalmente em situações de confronto, damos vida e força a esses mesmos laços dentro de nós. E nos tornando fortes podemos direcionar nossa energia para objetivos mais interessantes e construtivos. A possibilidade de usar a força e o poder do instinto, a nossa Sereia Interior, para um trabalho mais centrado. A energia usada para “rivalizar” pode ser utilizada para “compartilhar”. A competição, trocada pela solidariedade. Não é disso que nos fala a Sisterhood? Não seria o momento do Retorno da Deusa, o tempo ideal para voltarmos a compartilhar a nossa natureza primitiva e instintual? Ou ao menos tempo de reconhecer quando uma irmã está sob os influxos da Lua Negra?

Procurem fazer um exercício de Compaixão da próxima fez em que a situação se apresentar. Quando a Natureza é reconhecida e integrada, as Sereias deixam de ser ameaça. Mude a perspectiva, nem que seja apenas uma vez.

E depois, vocês já perceberam como grande parte dos homens tira partido e até incentiva a rivalidade feminina? Claro, melhor para eles. Se sentem mais valorizados. E isso não acontece só com garotões, não. Já vi homens de 50 e tantos anos fazerem isso e um pouquinho pior.

Creio que a solução para esse entrave ainda passe muito longe de uma conclusão. Mas é importante parar e pensar. O momento não é apenas de busca de uma harmonia entre os sexos, mas entre os seres humanos. E muita gente não compreendeu que o Feminismo (atual) não é uma guerra, mas sim uma possibilidade para que essas questões sejam levantadas, pensadas, digeridas.

Amigas Sobre o Rochedo

É interessante notar que nas obras de arte que retratam Sereias, não é nada difícil encontrá-las em grupo. Tenho uma coleção de imagens com mais ou menos umas oitocentas Mermaids e nunca vi nenhuma figura que mostrassem sereias em confronto, ao contrário.

A Sereia é um ser gregário - Peter Pan e Wendy bem o sabem. As Selkies, Mulheres Focas da mitologia irlandesa, se despem juntas sob a luz da lua, experimentando seus corpos humanos. As Russalkas, Sereias eslavas, estraçalham o homem que por acaso faça mal a uma irmã; são Mênades aquáticas, mas não estão sob a égide de nenhum Dionísio. Não deixam passar em branco qualquer atitude agressiva masculina. Quando estão nos seus cardumes femininos, o que transparece é a paz que reina entre elas. Se o cenário é brusco, se ajudam em uma tempestade.



O que eu quero dizer no final das contas, é que é preciso (e possível) integrar a Sereia de forma consciente para que ela não irrompa de modo inconsciente. Reconheça a sua Sereia, seu canto sedutor e melódico e a integre à sua personalidade consciente. Sem que para isso, precise magoar a mulher que está ao seu lado e dentro de você.

Saiba que com certeza vai sair ganhando se ao menos conseguiu repensar sua Sereia. Olhe para uma imagem qualquer de uma Mulher-Peixe. Sinta aonde ela lhe toca e o que ela lhe diz.

Do momento em que você conseguir perceber a sua Sereia interior na Sereia de qualquer outra mulher, ela deixa de ser uma rival. E para captar isso, basta que, ao menos por alguns momentos, você feche os olhos e se imagine com suas irmãs sob a Lua Negra.

Ou então, no fundo do mar.

Em Cy,
Zoe de Camaris

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BIBLIOGRAFIA

HARDING, Esther. Os Mistérios da Mulher. São Paulo: Paulinas, 1985.
SANFORD, John. Os Parceiros Invisíveis. São Paulo: Paulinas, 1987.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

A Pequena Sereia


Tadpole / Russ Horseman


Muito longe da terra, onde o mar é muito azul, vivia o povo do mar. O rei desse povo tinha seis filhas, todas muito bonitas, e donas das vozes mais belas de todo o mar, porém a mais moça se destacava, com sua pele fina e delicada como uma pétala de rosa e os olhos azuis como o mar. Como as irmãs, não tinha pés mas sim uma cauda de peixe. Ela era uma sereia. Essa princesa era a mais interessada nas histórias sobre o mundo de cima, e desejava poder ir à superfície; queria saber tudo sobre os navios, as cidades, as pessoas e os animais.

— Quando você tiver 15 anos — dizia a avó — subirá à superfície e poderá se sentar nos rochedos para ver o luar, os navios, as cidades e as florestas.

Os anos se passaram... Quando a princesa completou 15 anos mal pôde acreditar. Subiu até a superfície e viu o céu, o sol, as nuvens... viu também um navio e ficou muito curiosa. Foi nadando até se aproximar da grande embarcação. Viu, através dos vidros das vigias, passageiros ricamente trajados. O mais belo de todos era um príncipe que estava fazendo aniversário, ele não deveria ter mais de 16 anos, e a pequena sereia se apaixonou por ele. A sereiazinha ficou horas admirando seu príncipe, e só despertou de seu devaneio quando o navio foi pego de surpresa por uma tempestade e começou a tombar. A menina viu o príncipe cair no mar e afundar, e se lembrou de que os homens não conseguem viver dentro da água. Mergulhou na sua direção e o pegou já desmaiado, levando-o para uma praia.
Ao amanhecer, o príncipe continuava desacordado. A sereia, vendo que um grupo de moças se aproximava, escondeu-se atrás das pedras, ocultando o rosto entre os flocos de espuma. As moças viram o náufrago deitado na areia e foram buscar ajuda. Quando finalmente acordou, o príncipe não sabia como havia chegado àquela praia, e tampouco fazia idéia de quem o havia salvado do naufrágio. A princesa voltou para o castelo muito triste e calada, e não respondia às perguntas de suas irmãs sobre sua primeira visita à superfície. A sereia voltou várias vezes à praia onde tinha deixado o príncipe, mas ele nunca aparecia por lá, o que a deixava ainda mais triste.
Suas irmãs estavam muito preocupadas, e fizeram tantas perguntas que ela acabou contando o que havia acontecido. Uma das amigas de uma das princesas conhecia o príncipe e sabia onde ele morava. A pequena sereia se encheu de alegria, e ia nadar todos os dias na praia em que ficava seu palácio. Observava seu amado de longe e cada vez mais gostava dos seres humanos, desejando ardentemente viver entre eles. A princesa, muito curiosa para conhecer melhor os humanos, perguntou a sua avó se eles também morriam.

— Sim, morrem como nós, e vivem menos. Nós podemos viver trezentos anos, e quando “desaparecemos” somos transformadas em espuma. Nossa alma não é imortal. Já os humanos têm uma alma que vive eternamente.

— Eu daria tudo para ter a alma imortal como os humanos! — suspirou a sereia.

— Se um homem vier a te amar profundamente, se ele concentrar em ti todos os seus pensamentos e todo o seu amor, e se deixar que um sacerdote ponha a sua mão direita na tua, prometendo-te ser fiel nesta vida e na eternidade, então a sua alma se transferirá para o teu corpo. Ele te dará uma alma, sem perder a dele... Mas isso jamais acontecerá! Tua cauda de peixe, que para nós é um símbolo de beleza, é considerada uma deformidade na terra.

A sereiazinha suspirou, olhando tristemente para a sua cauda de peixe e desejando ter um par de pernas em seu lugar. Mas a menina não esquecia a idéia de ter uma alma imortal e resolveu procurar a bruxa do mar, famosa por tornar sonhos de jovens sereias em realidade... desde que elas pagassem um preço por isso. O lugar onde a bruxa do mar morava era horrível, e a princesa precisou de muita coragem para chegar lá. A bruxa já a esperava, e foi logo dizendo:

— Já sei o que você quer. É uma loucura querer ter pernas, isso trará muita infelicidade a você! Mesmo assim vou preparar uma poção, mas essa transformação será dolorosa. Cada passo que você der será como se estivesse pisando em facas afiadas, e a dor a fará pensar que seus pés foram dilacerados. Você está disposta a suportar tamanho sofrimento?

— Sim, estou pronta! — disse a sereia, pensando no príncipe e na sua alma imortal.

— Pense bem, menina. Depois de tomar a poção você nunca mais poderá voltar à forma de sereia... E se o seu príncipe se casar com outra você não terá uma alma imortal e morrerá no dia seguinte ao casamento dele.

A sereiazinha assentiu com a cabeça e, sem dizer uma palavra, ficou observando a bruxa fazer a poção.

— Pronto, aqui está ela... Mas antes de entregá-la a você, aviso que meu preço por este trabalho é alto: quero a sua linda voz como pagamento. Você nunca mais poderá falar ou cantar...

A princesa quase desistiu, mas pensou no seu príncipe e pegou a poção que a bruxa lhe estendia. Não quis voltar para o palácio, pois não poderia falar com suas irmãs, sua avó e seu pai. Olhou de longe o palácio onde nasceu e cresceu, soltou um beijo na sua direção e nadou para a praia. Assim que bebeu a poção, sentiu como se uma espada lhe atravessasse o corpo e desmaiou. Acordou com o príncipe observando-a. Ele a tomou docemente pela mão e a conduziu ao seu palácio. Como a bruxa havia dito, a cada passo que a menina dava sentia como se estivesse pisando sobre lâminas afiadíssimas, mas suportava tudo com alegria pois finalmente estava ao lado de seu amado príncipe. A beleza da moça encantou o príncipe, e ela passou a acompanhá-lo em todos os lugares. À noite, dançava para ele, e seus olhos se enchiam de lágrimas, tamanha dor sentia nos pés.
Quem a visse dançando ficava hipnotizado com sua graça e leveza, e acreditava que suas lágrimas eram de emoção. O príncipe, no entanto, não pensava em se casar com ela, pois ainda tinha esperança de encontrar a linda moça que ele vira na praia, após o naufrágio, e por quem se apaixonara. Ele não se lembrava muito bem da moça, e nem imaginava que aquela menina muda era essa pessoa...
Todas as noites a princesinha ia refrescar os pés na água do mar. Nessas horas, suas irmãs se aproximavam da praia para matar a saudade da caçulinha. Sua avó e seu pai, o rei dos mares, também apareciam para vê-la, mesmo que de longe. A família do príncipe queria que ele se casasse com a filha do rei vizinho, e organizou uma viagem para apresentá-los. O príncipe, a sereiazinha e um numeroso séquito seguiram em viagem para o reino vizinho. Quando o príncipe viu a princesa, não se conteve e gritou:

— Foi você que me salvou! Foi você que eu vi na praia! Finalmente encontrei você, minha amada!

A princesa era realmente uma das moças que estava naquela praia, mas não havia salvado o rapaz. Para tristeza da sereia, a princesa também se apaixonara pelo príncipe e os dois marcaram o casamento para o dia seguinte. Seria o fim da sereiazinha. Todo o seu sacrifício havia sido em vão. Depois do casamento, os noivos e a comitiva voltaram para o palácio do príncipe de navio, e a sereia ficou observando o amanhecer, esperando o primeiro raio de sol que deveria matá-la. Viu então suas irmãs, pálidas e sem a longa cabeleira, nadando ao lado do navio. Em suas mãos brilhava um objeto.

— Nós entregamos nossos cabelos para a bruxa do mar em troca desta faca. Você deve enterrá-la no coração do príncipe. Só assim poderá voltar a ser uma sereia novamente e escapará da morte. Corra, você deve matá-lo antes do nascer do sol. A sereia pegou a faca e foi até o quarto do príncipe, mas ao vê-lo não teve coragem de matá-lo. Caminhou lentamente até a murada do navio, mergulhou no mar azul e, ao confundir-se com as ondas, sentiu que seu corpo ia se diluindo em espuma.


adaptado do conto de Hans Christian Andersen

sexta-feira, fevereiro 18, 2005


The Paradox / John Silver


Ontem, coloquei um post sobre a menina-sereia, Milagros Cerron. Mandei algumas mensagens para amigos e conhecidos e fiquei bastante feliz com o resultado. Muita gente me escreveu, outros acessaram o Palavra de Pantera. Minha idéia, já que a cirurgia é delicadíssima (só existe um caso de sucesso no EUA, como já disse) é acreditar firmemente que a força despendida em atenção possa realmente colaborar para o sucesso de uma operação.

Anos atrás, quando meu pai foi acometido por um grave problema cardíaco, recebi muito apoio de amigos virtuais. Na época, fazia parte de diversas listas de discussão e, junto com um ex-namorado, tive o prazer de viajar para inúmeras cidades do Brasil e conhecer pessoas que até então eram apenas nicks na minha caixa postal. Guardo boas lembranças desse tempo. Muita gente bacana, muita diversão, debates intensos. E aprendi a reconhecer que mesmo aqueles que não conheci pessoalmente, não eram apenas nomes esdrúxulos vagando pela Web.

Meu pai apresentava um quadro bastante desolador. Intervenção difícil que deixou toda a família com o coração na mão. E, no entanto, a perícia da equipe médica, as orações que fiz para minha avó, a inestimável força mágica de Rachel "Bruxursinha" e o apoio que recebi que todos que estavam ao meu lado e na internet, fizeram com que eu possa ter o prazer de descer 4 lances de escadas e ver meu velho pai - ator de primeira linha e atuante - sorrindo na mesa do almoço.

Sim, eu acredito em bruxas. Acredito no poder evocado e direcionado a uma causa. Nem sempre dá certo. Mas quando rola, quando os resultados são bons, é impossível não levar em conta que todos os esforços tiveram seu espaço em uma situação de cura.

É nessas horas que o meu lado cético cai por terra. E saibam leitores, por mais que eu trabalhe com as artes da imaginação, muitas vezes sou a primeira a fazer o teste de São Tomé. Excesso de planetas em Virgo. Deve ser isso.

Mas como estou aqui, tomada pela idéia do sucesso na intervenção cirúrgica de Milagros Cerron, o que acessou fortemente meu sol canceriano, peço atenção a um detalhe do meu post anterior, quando disse que "o coração das mães, de todas as mães, estará junto dela".

Creio que mesmo as mulheres que não pariram sabem muito bem o que é ser mãe. Discordo de Elizabeth Batinder quando afirma que a maternidade é um traço socialmente adquirido (independente de concordar com ela em diversas outras questões).

O sentimento materno, que aqui se traduz em cuidado e carinho, pode ser experimentado por qualquer um, homem ou mulher.

Sei de diversas histórias de homens que acolheram crianças abandonadas e que demonstram um carinho absoluto pela sua cria ou de outrem. Assim como mulheres que não pariram e que tem por seus filhos, sobrinhos e familiares uma amor além da conta.

Então, perdoem-me se feri alguma suscetibilidade quando me referi às mães, em especial. Não foi em detrimento de todos os outros. Não mesmo.

Todo ser humano é - e se não é, pode vir a ser - tomado pelo sentimento sublime que é o Amor.
Zoe de Camaris

quinta-feira, fevereiro 17, 2005


Sirenomelia



Babymer by Kurt Cagle


No dia 27 de abril de 2004, na cidade de Huancayo, Peru, nasceu uma bela menina chamada Milagros Cerron. Milagros apresenta uma rara anomalia chamada Sirenomelia - as pernas unidas até os calcanhares, sob uma apertada camada de pele, dando-lhe a aparência de uma sereia. Os pés fazem um "V", lembrando a cauda de um peixe. Uma Pequena Sereia. Até hoje, apenas 3 crianças sobreviveram ao nascer com a "Síndrome de Sereia", tão rara como o nascimento de gêmeos siameses.

Milagros é filha de uma jovem de 19 anos, Sara Arauco, e de Ricardo Cerron, com 24 anos, casal com baixa condição financeira.

Dia 9 de fevereiro começaram as cirurgias que devem separar as pernas de Milagros. Dia 24, depois de cinco horas, a delicada operação deve acabar. Espera-se um milagre. Mesmo que a maior parte dos órgãos da criança esteja em ótimas condições, ela possui problemas graves nos rins. A genitália e os intestinos terão de ser reconstruídos, o que demanda uma série de intervenções complicadíssimas, com uma equipe constituída por especialistas em traumatologia, cardivascular e plástica, mais neurologistas, obstetras e pediatras.

O único caso em que a cirurgia teve sucesso foi com a americana Tiffany Yorks, hoje com 16 anos. Suas pernas foram separadas enquanto ela ainda era um bebê.

Descobri essa notícia no feriado, navegando na Web. O título "Síndrome de Sereia" chamou minha atenção por ter o nome de um artigo que escrevi há dois anos. Fiquei emocionada com a situação toda e resolvi, então, dedicar meu blog até o dia da cirurgia, para Milagros Cerron. Que a Deusa a acompanhe no trajeto. Meu coração de mãe, o coração de todas as mães, estará junto dela.

Zoe de Camaris

terça-feira, fevereiro 15, 2005


Shelladonna By Phanie


Antiga charada inglesa


"Fui numa hora uma velha lívida,
Um homem claro, uma menina nova,
Flutuei sobre a espuma, voei com os pássaros,
Mergulhei na onda, morri entre os peixes,
E viva caminhei sobre a terra"

......................

"I was in one hour an ashen crone
A fair-faced man, a fresh girl,
Floated on foam, flew with birds,
Under the wave dived, dead among fish,
And walked upon land a living soul"

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Valentine's Day



Aproveitando a deixa, e já que estou muito apaixonada, um dos poetas preferidos do meu gato-namorado.

.......................

GARATUJA


Com um toco de carvão
Meu lápis vermelho e um giz roto
Desenhar teu nome
O nome de tua boca
O signo de tuas pernas
Na parede de ninguém
Na porta proibida
Gravar o nome de teu corpo
Até que a lâmina de minha navalha
Sangre
E a pedra grite
E o muro respire como um peito


Octavio Paz
tradução de Elson Fróes

domingo, fevereiro 13, 2005




A Man Young And Old: III. The Mermaid
William Butler Yeats

A mermaid found a swimming lad,
Picked him for her own,
Pressed her body to his body,
Laughed; and plunging

sexta-feira, fevereiro 11, 2005


{*.*}

Os Sentidos de Sedução, Os Sentidos da Sedução, A Sedução dos Sentidos.
O Sentido de Seduções, O Sentido das Seduções, As Seduções do Sentido.
As Seduções de Sentido, As Seduções do Sentido, O Sentido das Seduções.
A Sedução de Sentidos, A Sedução dos Sentidos, Os Sentidos da Sedução.

Os Sentidos de Seduções. Os Sentidos das Seduções. As Seduções dos Sentidos.
O Sentido de Sedução. O Sentido da Sedução. A Sedução do Sentido.


Zoe
2003

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

LINES ON THE
MERMAID TAVERN


by
John Keats




Souls of Poets dead and gone,
What Elysium have ye known,
Happy field or mossy cavern,
Choicer than the Mermaid Tavern?
Have ye tippled drink more fine
Than mine host's Canary wine?
Or are fruits of Paradise
Sweeter than those dainty pies
Of venison? O generous food !
Drest as though bold Robin Hood
Would, with his maid Marian,
Sup and bowse from horn and can.


I have heard that on a day
Mine host's sign-board flew away,
Nobody knew whither, till
An astrologer's old quill
To a sheepskin gave the story,
Said he saw you in your glory,
Underneath a new-old sign
Sipping beverage divine,
And pledging with contented smack
The Mermaid in the Zodiac.


Souls of Poets dead and gone,
What Elysium have ye known,
Happy field or mossy cavern,
Choicer than the Mermaid Tavern?


February 1818

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Maritmo


Galatea / Russ Horseman



as estruturas no fundo do mar têm mil
anos de verdade
ossos de deuses esquecidos e caracóis de coral
chicotes de pérolas
pupilas fosfóricas de feiticeiras negras
e muiraquitãs de pedra


as estruturas no fundo do mar têm dois mil
anos de cidade
esqueletos transparentes
ouro sobre azul
algas ondulantes
o murmúrio aterrador dos maremotos
e o fogo do centro da terra


as estruturas no fundo do mar têm três mil
anos de fragilidade
cacos de conchas verdes
navios esfacelados
tesouros, serpentes marinhas
enguias elétricas geladas

...

as águas se afastam
e me descobrem nua
no edifício marítimo :

traga-me mulher
um naco de pão cru de medusas e quimeras
e alimento o corpo livre do peso das águas

e busco o sal
e seco ao sol
e tempero

sentirei as ondas
batendo no meu peito
e o vento alegre

dê-me seu sangue, mulher,
e com ele incendiarei o fundo do mar


Zoe de Camaris

Sereia Serena


Muita praia, muito sol, muito beijo na boca.
Quase loira. Quase morena. Mais sol
e menos virtual. Completamente sereia.

A turma do contra pode praguejar, ulular,
rocambolear, arquitetar, sapatear, escamotear
- estejam à vontade. Descobri algo forte, profundo.
Inviolável.

Coisa do Sol na casa 12. Um raio de luz
no fundo do mar.

Zoe

quinta-feira, janeiro 20, 2005


Estátua de Loreley no Reno

LORELEI


Não é uma noite pra se afogar dentro:
Uma lua cheia, rio decaindo
Negro entre brando brilho-espelho,

Os vapores d´água azuis pingando
Fios após fios feito redes de pesca
Apesar dos pescadores estarem dormindo,

Os torreões maciços do castelo
Duplicando-se numa superfície
Toda mansidão. Mas flutuam estas

Formas até mim, perturbando a face
Da quietude. Do ponto mais baixo
Se erguem, seus membros graves

De riqueza, cabelo mais pesado
Que mármore esculpido. Cantam
Sobre um mundo mais cheio e claro

Que o possível. Irmãs, seu canto
Carrega uma carga densa em demasia
Pra audição do ouvido espiralado

Aqui, numa terra bem dirigida,
Sob um governante destro.
Transtornando pela harmonia

Muito além da ordem terrestre,
Suas vozes armam cerco. Hospedam-se
Nos recifes agudos do pesadelo,

Prometendo acolhida certa;
De dia, descantam dos limites
Da hebetude, das altas janelas

Também na beira. Pior ainda que
Seu enlouquecedor canto,
O seu silêncio. Na origem

Do seu apelo de coração gelado –
Bebedeira das grandes profundidades.
Oh rio, eu vejo derivando

No fundo do teu fluxo prateado,
Aquelas grandes deusas de paz.
Pedra, pedra, me leve lá pra baixo.


Sylvia Plath

Versão brasileira: Ivan Justen Santana

Sereia Brasileira


Infalível - provocar o Ivan postanto traduções que ele não gosta. O rapaz coça a cabeça, vê a pilha de trabalho da FCC na sua frente, manda tudo às favas, compra 4 latinhas e cai de boca no poema. Sempre funciona...e eu e meus leitores nos damos bem - arranco do poeta suas linhas mais raras. Viva eu !!!

Com vocês, saindo quentinho do forno, uma versão brasileira do Lorelei de Silvia Plath.

Incomparável.


Zoe

segunda-feira, janeiro 17, 2005

LORELEI





LORELEI


Não existe nenhuma noite para nos afogarmos:
lua cheia, um rio correndo
negro sob um suave reflexo de espelho,

névoas azuis da água gotejando
de malha para malha como redes de pesca
embora os pescadores durmam,

torres sólidas do castelo
multiplicando-se num espelho
todo ele silêncio. Mas estas formas flutuam

em minha direção, perturbando o rosto
da quietude. Do nadir
erguem os seus membros plenos

de opulência, cabelos mais pesados
que o mármore esculpido. Cantam
um mundo mais cheio e límpido

do que aquele que existe. Irmãs, a vossa canção
traz uma carga demasiado pesada
para ser escutada pelas espirais do ouvido,

aqui, num país onde um sensato
senhor governa equilibradamente.
Ao serem perturbadas pela harmonia

que existem além da ordem deste mundo,
as vossas vozes fazem um cerco. Estais alojadas
nos recifes em declive do pesadelo,

prometendo um abrigo certo;
de dia, estendem-se para além dos limites
da inércia, das saliências

que existem também nas altas janelas. Pior
ainda que esta canção de enlouquecer
é o vosso silêncio. Na origem

do apelo do vosso coração gelado
- a embriaguez das grandes profundezas.
Ó rio, como vejo serem arrastadas

lá no fundo do teu curso de prata,
aquelas grandes deusas da paz.
Pedra, pedra, leva-me lá para baixo.

Silvia Plath

(tradução de Maria de Lourdes Guimarães)


...

LORELEI


It is no night to drown in:
A full moon, river lapsing
Black beneath bland mirror-sheen,

The blue water-mists dropping
Scrim after scrim like fishnets
Though fishermen are sleeping,

The massive castle turrets
Doubling themselves in a glass
All stillness. Yet these shapes float

Up toward me, troubling the face
Of quiet. From the nadir
They rise, their limbs ponderous

With richness, hair heavier
Than sculptured marble. They sing
Of a world more full and clear

Than can be. Sisters, your song
Bears a burden too weighty
For the whorled ear's listening

Here, in a well-steered country,
Under a balanced ruler.
Deranging by harmony

Beyond the mundane order,
Your voices lay siege. You lodge
On the pitched reefs of nightmare,

Promising sure harborage;
By day, descant from borders
Of hebetude, from the ledge

Also of high windows. Worse
Even than your maddening
Song, your silence. At the source

Of your ice-hearted calling --
Drunkenness of the great depths.
O river, I see drifting

Deep in your flux of silver
Those great goddesses of peace.
Stone, stone, ferry me down there.

Silvia Plath


Espelho
Silvia Plath


Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo imediatamente
Do jeito que for, desembaçado de amor ou aversão.
Não sou cruel, apenas verdadeiro -
O olho de um pequeno deus, de quatro cantos.
Na maior parte do tempo medito sobre a parede em frente.
Ela é rosa, pontilhada. Já olhei para ela tanto tempo,
Eu acho que ela é parte do meu coração. Mas ela oscila.
Rostos e escuridão nos separam toda hora.

Agora sou um lago. Uma mulher se dobra sobre mim,
Buscando na minha superfície o que ela realmente é.
Então ela se vira para aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e as reflito fielmente.
Ela me recompensa com lágrimas e um agitar das mãos.
Sou importante para ela. Ela vem e vai.
A cada manhã é o seu rosto que substitui a escuridão.
Em mim ela afogou uma menina, e em mim uma velha
Se ergue em direção a ela dia após dia, como um peixe terrível.


translated by André Cardoso
(in 34 LETRAS, issue 5/6, Ed. 34 Literatura and Nova Fronteira, Brazil, 1989)

....

Mirror


I am silver and exact. I have no preconceptions.
Whatever I see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, only truthful --
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.

Silvia Plath

domingo, janeiro 16, 2005

O ESPELHO


The Woman in front of mirror / Jemal Kokhreidze


"O que seduz é não este ou aquele gesto feminino mas o que é para vós. Ele é sedutor por ser seduzido, por conseguinte o ser-seduzido é que é sedutor. Em outros termos, a pessoa sedutora é aquela na qual o ser seduzido reencontra-se. A pessoa seduzida encontra no outro o que o seduz, o único objeto de sua fascinação, a saber, seu próprio ser todo feito de encanto e sedução, a imagem amável de si mesmo... "

Vincent Descombes
O inconsciente apesar de si


quarta-feira, dezembro 29, 2004




o que será da sereia de água doce que mergulha no mar?
e quando a pedra vira areia?
e quando a tsunami marola e ela perde o espelho?

o que será da sereia?

Zoe
SEREIA DE PAPEL




A história está completa: wide sargasso sea, azul
azul
que não me espante, e canta como uma
sereia de papel.



NADA, ESTA ESPUMA

Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco
quero tanto os seios da sereia.


Ana Cristina Cesar
Aos Teus Pés



sábado, dezembro 25, 2004





L'isola delle sirene



Quando ai suoi ospiti che domandavano,

alla fine del loro giorno, dei

suoi viaggi sul mare e dei pericoli,

tranquillo raccontava, non sapeva



mai come spaventarli e quali forti

parole usare perchè come lui

nell'azzurro pacifico arcipelago

vedessero il dorato colore di quell'isole



la cui vista fa sì che muti volto

il pericolo, e non è più nel rombo,

non nel tumulto come sempre era;

ma senza suono assale i marinai



i quali sanno che là su quell'isole

dorate qualche volta s'ode un canto,

ed alla cieca premono sui remi,

come accerchiati



da quel silenzio che tutto lo spazio

immenso ha in sè e nelle orecchie spira

quasi fosse la faccia opposta del silenzio

il canto cui nessun uomo resiste.



Rainer Maria Rilke

quinta-feira, dezembro 23, 2004


Sereia / Picasso


CANTO A UNA SIRENA



¿Cuál es la lluvia

que debo crear

para tu cielo,

ahora que soy mucho más

que el aguardiente

de tu pelo?

Déjame llover entero

déjame

llover

entero

que las llaves de tu mar

han caído

desde el cielo.



Jorge Montesino

quarta-feira, dezembro 22, 2004


John Waterhouse - Ulisses e as Sereias

O SILÊNCIO DAS SEREIAS
Franz Kafka

Comprovação de que mesmo meios insuficientes, e até infantis, podem conduzir à salvação.

A fim de proteger-se das sereias, Ulisses entupiu os ouvidos de cera e mandou que o acorrentassem com firmeza ao mastro. É claro que, desde sempre, todos os outros viajantes teriam podido fazer o mesmo (a não ser aqueles aos quais as sereias atraíam já desde muito longe), mas o mundo todo sabia que de nada adiantava fazê-lo. O canto das sereias impregnava tudo - que dirá um punhado de cera -, e a paixão dos seduzidos teria arrebentado muito mais do que correntes e mastro. Nisso, porém, Ulisses nem pensava, embora talvez já tivesse ouvido falar a respeito; confiava plenamente no punhado de cera e no feixe de correntes, e, munido de inocente alegria com os meiozinhos de que dispunha, partiu ao encontro das sereias.

As sereias, porém, possuem uma arma ainda mais terrível do que seu canto: seu silêncio. É certo que nunca aconteceu, mas seria talvez concebível que alguém tivesse se salvado de seu canto; de seu silêncio, jamais. O sentimento de tê-las vencido com as próprias forças, a avassaladora arrogância daí resultante, nada neste mundo é capaz de conter.

E, de fato, essas poderosas cantoras não cantaram quando Ulisses chegou, seja porque acreditassem que só o silêncio poderia com tal opositor, seja porque a visão da bem-aventurança no rosto de Ulisses - que não pensava senão em cera e correntes - as tenha feito esquecer todo o canto.

Ulisses, contudo, e por assim dizer, não ouviu-lhes o silêncio; acreditou que estivessem cantando e que somente ele estivesse a salvo de ouvi-las; com um olhar fugaz, observou primeiro as curvas de seus pescoços, o respirar fundo, os olhos cheios de lágrimas, a boca semi-aberta; mas acreditou que tudo aquilo fizesse parte das árias soando inaudíveis ao seu redor. Logo, porém, tudo deslizou por seu olhar perdido na distância; as sereias literalmente desapareceram, e, justo quando estava mais próximo delas, ele já nem mais sabia de sua existência.

Elas, por sua vez, mais belas do que nunca, esticavam-se, giravam o corpo, deixavam os cabelos horripilantes soprar livres ao vento, soltando as garras na rocha; não queriam mais seduzir, mas somente apanhar ainda, pelo máximo de tempo possível, o reflexo dos grandes olhos de Ulisses.

Se as sereias tivessem consciência, teriam sido aniquiladas então; mas permaneceram: Ulisses, no entanto, escapou-lhes.

Dessa história, porém, transmitiu-se ainda um apêndice. Diz-se que Ulisses era tão astuto, uma tal raposa, que nem mesmo a deusa do destino logrou penetrar em seu íntimo; embora isto já não seja compreensível ao intelecto humano, talvez ele tenha de fato percebido que as sereias estavam mudas, tendo então, de certo modo, oferecido a elas e aos deuses toda a simulação acima tão-somente como um escudo.


23 de outubro de 1917
tradução de Modesto Carone

domingo, dezembro 19, 2004



Yara, Fascínio de Sereia


Meu valente apigáua!
Vem habitar comigo a mesma taba
Dormir na mesma tépida quiçáua!
Sou a mãi d'água te farei puranga
Tens nos meus olhos a melhor puçanga

Yara
Acrísio Mota – 1898


Metade mulher, metade monstro - sinônimo de sedução e perigo, de beleza sobrenatural. Da sedução que supera a sexualidade, se concordarmos com Jean Baudrillard.

Lendas que contam tragédias de amor, como o de Loreley do Reno; histórias de mulheres violadas que se voltam contra os que causaram sua dor e humilhação. Espíritos de moças afogadas que após a metamorfose tornam-se impiedosas devoradoras de carne humana.

No Canto XII da Odisséia, a feiticeira Circe avisa Ulisses que as Sereias moram em um prado, junto a um grande monte de ossos de homens em putrefação. Sereias são seres de cemitério, é bom lembrar. Ovídio irá caracterizá-as à imagem de pássaros de plumas avermelhadas com rosto de mulher. Segundo J. L. Borges, a música das sereias é uma arma letal e sua lei é morrer quando alguém não se deixa seduzir pelos seus encantos. Orfeu, o mítico poeta e músico grego, em busca do Velocino de Ouro com os Argonautas, cantou com maior doçura tangendo sua lira e elas, desesperadas, atiraram-se ao mar, transformando-se em rochas.

Franz Kafka no O Silêncio das Sereias diz que elas possuem uma arma maior do que o seu canto - o silêncio. A cera colocada no ouvido, como fizeram os companheiros de Ulisses, seria insuficiente para conter tal poder de sedução. Ulisses não teria ouvido o seu silêncio. Será?

Dizem que a sereia nunca é possuída a não ser que este seja o seu desejo - questão paradoxal depois da leitura de alguns mitos, como veremos adiante. As Rusalki (ou russalkas), sereias russas e eslavas, são terrivelmente vingativas. Se uma irmã é pega, o destino do caçador está traçado: morrerá dilacerado. Sereias são gregárias, amam a sua espécie.

São chamadas de Spunkies na Escócia, de Groachs na Bretanha, de Gwaragedd em Gales, de Ninguyo no Japão, de Zavas na Polônia, de Mouras Encantadas em Portugal, de Mães d'Água na África.

É Dagon e Partênope, Lígia e Leucósia, Teodora e Murgen.

E no Brasil, a sereia se chama Yara. Diz a lenda (1) :

"Yara, a jovem Tupi, era a mais formosa mulher das tribos que habitavam ao longo do rio Amazonas. Por sua doçura, todos os animais e as plantas a amavam. Mantinha-se, entretanto, indiferente aos muitos admiradores da tribo. Numa tarde de verão, mesmo após o Sol se pôr, Yara permanecia no banho, quando foi surpreendida por um grupo de homens estranhos. Sem condições de fugir, a jovem foi agarrada e amordaçada. Acabou por desmaiar, sendo, mesmo assim, violentada e atirada ao rio. O espírito das águas transformou o corpo de Yara num ser duplo. Continuaria humana da cintura para cima, tornando-se peixe no restante. Yara passou a ser uma sereia, cujo canto atrai os homens de maneira irresistível. Ao verem a linda criatura, eles se aproximam dela, que os abraça e os arrasta às profundezas, de onde nunca mais voltarão."

Essa história mostra uma face até então desconhecida da lenda, que sempre apresenta a Yara como um encantado aquático, pouco se falando, no Brasil, sobre uma possível origem humana e de seus sofrimentos. Normalmente, é retratada como uma mulher de cabelos muito longos, sobrenaturalmente verdes ou de um louro dourado, que usa um pente de ouro e carrega os homens para o fundo do rio.

A Sereia violentada comparece também em um poema-fábula de Pablo Neruda:


Fabula de la sirena y los borrachos


TODOS estos señores estaban dentro
cuando ella entró completamente desnuda
ellos habían bebido y comenzaron a escupirla
ella no entendía nada recién salía del río
era una sirena que se había extraviado
los insultos corrían sobre su carne lisa
la inmundicia cubrió sus pechos de oro
ella no sabía llorar por eso no lloraba
no sabía vestirse por eso no se vestía
la tatuaron con cigarrillos y con corchos quemados
y reían hasta caer al suelo de la taberna
ella no hablaba porque no sabía hablar
sus ojos eran color de amor distante
sus brazos construidos de topacios gemelos
sus labios se cortaron en la luz del coral
y de pronto salió por esa puerta
apenas entró al río quedó limpia
relució como una piedra blanca en la lluvia
y sin mirar atrás nadó de nuevo
nadó hacia nunca más hacia morir.

*

Arriscando uma interpretação, me parece que a sereia sempre traz no peito uma dor de amor - não raro é vítima de alguma injustiça. E pelo jeito, nem em terras tupiniquins escapou da tristeza e de uma inegável melancolia, raiz do seu instinto vingativo. A falta de uma contraparte masculina e a sua não-compleitude como mulher fazem parte da sua natureza de modo indistinto, causando devastação por onde quer que encante.

A lenda da Yara é um amálgama de mitos das mais diversas procedências, mitos estes que encontraram um fértil terreno no Brasil, terra de Cy’s’ aquáticas, de serpentes primevas, dos terríveis ipupyraras - seus parentes nativos.

Os ipupyaras são monstros da água, normalmente citados como seres masculinos. Pelo menos é o que encontramos em Osvaldo Orico, Câmara Cascudo, Teodoro Sampaio e outros medalhões do nosso folclore. Talvez o primeiro registro dos ipupyaras tenha sido feito por José de Anchieta: "Há também nos rios outros fantasmas, que chamam de Igputiara, isto é, que moram n'água, que matam do mesmo modo os índios".

Podemos encontrar outros subsídios sobre os ipupyaras no livro de Afonso de Escragnolle Taunay, "Zoologia Fantástica do Brasil". Nele temos um dos registros dos homens-aquáticos, citado pelo jesuíta Fernão Cardim (2).

"Estes homens marinhos se chamam na língua Igpupiara; têm-lhe os naturais tão grande medo que só de cuidarem nele morrem muitos, e nenhum que o vê escapa; alguns morreram já e perguntando-lhes a causa, diziam que tinham visto este monstro; parecem-se com homens propriamente de boa estatura, mas têm os olhos muito encovados. As fêmeas parecem mulheres, têm cabelos compridos, e são formosas; acham-se estes monstros nas barras dos rios doces. Em Jagoarigipe sete ou oito léguas da Bahia se têm achado muito; no ano de oitenta e dois indo um Índio pescar, foi perseguido de um, e acolhendo-se em sua jangada o contou ao senhor; o senhor para animar o Índio quer ir ver o monstro, e estando descuidado com uma mão fora da canoa, pegou dele, e o levou sem mais parecer, e no mesmo ano morreu outro Índio de Francisco Lourenço Caiero. Em Porto Seguro se vêem alguns, e já têm morto alguns Índios. O modo que têm para matar é: abraçam-se com a pessoa tão fortemente beijando-a e apertando-a consigo que a deixam feita toda em pedaços, ficando inteira, e como a sentem morta, dão alguns gemidos como de sentimento e, largando-a, fogem; e se levam alguns comem-lhe somente os olhos, narizes e a ponta dos dedos dos pés e das mãos, e as genitálias, e assim os acham de ordinário pelas praias com estas coisas menos."

É interessante que os jesuítas e viajantes dão notícias da existência dessas figuras rodeando-lhes de uma aura de 'verdade', ou seja, como se fosse um fato incontestável. E podemos notar também o registro, em 1583, que ressalta os ipupyaras femininos. Ou seja, depois de 1500, o que a crônica colonial traz de mais puramente indígena, no que concerne a monstros ou deidades da água, são os ipupyaras.

Taunay, ao sintetizar o 'crème de la crème' da Zoologia Fantástica na crônica colonial, relata que os ipupyaras eram bastante aproximados ao peixe-boi, ou ainda, a uma espécie de leão marinho. Existe a Cy (Mãe) do Peixe Boi, a Xundaráua, uma espécie de madrinha da pesca. Xundaráua faz com que os pescadores não voltem do rio sem trazer um daqueles cobiçados mamíferos. Exige, porém, que não se mate o primeiro que surja e nunca mais de um animal. Quem violar a regra nunca mais terá êxito nas suas empresas. Esse dado denota que existe algum tipo de culto ("culto" à maneira indígena, é bom frisar) ao Peixe Boi.

E o mito da Cobra Grande? É Rainha dos encantados no ciclo fluviônico (ictiológico ou aquático) indígena. As lendas aquáticas originaram-se do ctonismo silvícola e sua idéia fundamental repousa na idéia de um ser feminino (andrógino, talvez) corporificado na água. Um dos melhores exemplos é a Lenda do Nascimento da Noite. A melhor versão, e também a menos simplificada, é dada por Adaucto Fernandes, em que a Cobra Grande é relacionada a uma deidade feminina da água, Amana.

Vejamos o mito da Cobra Grande, original do Rio Branco:

"Uma das lendas da Boiúna, conta que uma linda cunhã, de grandes e vibrantes olhos negros, costumava andar na sua canoa pelo Rio Branco. Ela encantava a todos com a sua beleza e do seu corpo emanavam raios luminosos que se transformavam em música e atraiam os peixes. Por isso, acreditavam os pescadores que, quando ela singrava pelas águas, a pesca seria farta. Suspenso no seu colo estava sempre o Muirakitã, seu amuleto sagrado. Um dia, o Rio Branco, já tomado de amores pela jovem, também começou a emitir raios luminosos. E pelo efeito mágico do Muirakitã os raios de luz da cunhã e as emanações do rio cruzaram-se, o que transformou a moça em uma enorme cobra, a Boiúna. Nas noites de lua cheia a guardiã do Rio aparece e traz muitos peixes para que os habitantes ribeirinhos possam alimentar-se. Agora, se alguém aparece para depredar o rio a Boiúna vira as embarcações, matando seus barqueiros".

A imensa massa fluvial brasileira, país que acolhe o maior rio do mundo, não poderia deixar de ter suas Mães d'Água. É uma pena que nossos povos indígenas, ágrafos, não tenham registrado histórias de sereias a não ser nos relatos orais ou nas peças de cerâmica. Dependemos dos primeiros cronistas, sempre a registrar os mitos com filtro etnocêntrico. Felizmente, temos os registros arqueológicos que, embora pequem pela aridez, nos oferecem ao menos dados etnográficos confiáveis.

A Cobra Grande é a principal raiz dos mitos aquáticos. Temos, além do maior rio do mundo, uma das maiores cobras, a anaconda ou sucuriju, correlato real da Cobra Grande – maior que a sucuriju só mesmo a píton africana. Ganhamos do Egito no tamanho do rio.

Continuando com as cobras, um resumo do o mito de Tuluperê (3):

"Sendo o animal que mais se aproxima do simbolismo cíclico do vegetal, a cobra encontra uma relação com os produtos da tecedura e da fiação. No Brasil, a representante é Tuluperê, outra das faces da Cobra Grande. Tuluperê, segundo nos conta a Lenda da Cestaria, vivia nas profundezas do Rio Paru, um afluente do Amazonas. Suas cores eram o vermelho e o negro, sendo como um híbrido da sucuriju e da jibóia. A cobra virava os barcos e quando atracava alguma vítima, apartava-a até a morte e então, a devorava. Certo dia, o pajé da tribo dos Wayana, do tronco Karib, conseguiu matar a flechadas Tuluperê e guardaram na memória os desenhos que ornamentavam a sua pele. Daí por diante, passaram a reproduzir esses grafismos em suas cestas".

Tendo permanecido na arte da cestaria, o mito de Tuluperê é revivido: mito e ritual.

Temos também no nosso repertório as mulheres míticas, algumas delas transformadas em deidades da água ou ainda originárias do ambiente aquático como Amana (Karib); Maïsö (Paresi); Naoretá (Tupari); Katxuréu (Macurap) Iururaruaçú (Uaiás) e Hanekasá (Yanomami-Sanema).

Das deidades acima citadas, não é possível afirmar que persistam cultos e ritos. Mas existem uma, em especial, que faz parte de toda uma ritualística indígena: Tauvyma, personagem mítico feminino dos Asuriní do Xingu, um espírito das águas que um dia foi mulher. Sua presença nas águas é chamada de Tauva e faz parte de um extenso corpo de rituais.

Ainda dentro do aspecto ritualístico temos as divindades aquáticas invocadas pelos xamãs Kaapor, chamadas de Irïwär, que se acredita ajudarem os xamãs a predizer o futuro, a restaurar suprimentos de caça esgotados e a diagnosticar e curar doenças. O xamanismo envolve uma performance pública, assistida por habitantes da aldeia de todas as idades. Os xamãs Ka'apor afirmam ter sido chamados espiritualmente para esta ocupação quando arremessados em um córrego pela Mãe d´Água.

A nossa Yara, a sereia brasileira, é cria híbrida de muitas lendas assim como o nosso povo é fruto de várias etnias. Mas também é, sem dúvida alguma, uma sobrevivência do imaginário dos povos indígenas, das mais variadas tribos.

A imaginação se alimenta de sereias nas serenas madrugadas. E a história continua, mostrando toda a vitalidade de um dos mais persistentes mitos da humanidade.


Em Cy,
Zoe de Camaris



1- http://www.estadao.com.br/villasboas/yara.htm
LENDAS INDÍGENAS - Texto adaptado do livro Lendas e Mitos dos Índios Brasileiros
FTD Editora - Walde-Mar de Andrade e Silva

2 - TAUNAY, Afonso de Escragnolle. Zoologia Fantástica do Brasil. São Paulo: Edusp. p.102,103

3 - ver em VELTHEM, Lúcia Hussak van. A Pele de Tuluperê: uma etnografia dos
trançados Wayana. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, Coleção Eduardo
Galvão, 1998, 251p.

4 - MÜLLER, Regina Polo. Os Asuriní do Xingu: história e arte. Campinas: Editora
da Unicamp, 1990.



quinta-feira, dezembro 16, 2004


Julie Newmar - Catwoman


Sereias, seres híbridos. Sempre gostei. Centauros, Minotauros, Melusinas e Medusas. Meio gente, meio bicho. E quem não é? Quem não tem um arquétipo animal pulsando dentro de si? Metamorfoses, transformações ... ainda não encontrei um assunto que me fascine tanto. E agora, com vocês, as Sereias. Afinal, estamos quase no verão. Mesmo em Curitiba. Curitiba vai ter mar. Teimo em acreditar.

Tchau, uniforme de inverno.
Hora de mergulhar.

Zoe de Camaris

terça-feira, dezembro 14, 2004




Metade Pássaro


A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.

A mulher do fim do mundo
Chama a luz com um assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas ao rio,
Me puxa do sonho eterno
Para os seus braços que cantam.


Murilo Mendes
O Visionário (1941)


quinta-feira, dezembro 09, 2004


Venus and the Queen of Hearts by Keith Holmes

A Rainha de Copas cortou todas as cabeças. Engana-se quem pensa que é atributo único de Espadas. Cabeças são arrancadas antes de tudo por fortes emoções. A frieza é um apuro nos sentimentos, máscara da impassibilidade. Quero meus olhos brilhando. Os cinco quilos que perdi na dança, serão delicadamente recuperados. Meu coração reconhece enfim, a garra do seu desejo, a plenitude da graça. Agora, posso voltar pra casa. As sementes brotaram, as portas estão abertas e há uma chaleira cheia, repleta de água quente para o chá. Pêra e baunilha, cartas e morangos, fitas de todas as cores espalhadas pela sala. Tirei o pó das pedras, queimei os negrumes, organizei as gavetas e o cheiro do seu corpo sobre o lençol azul acalenta suave. É bom ser sua. É bom ser minha. Estava com saudade.

Zoe

Waiting for the rain



OPus 2



feito tímida pedra
aguardo
o toque das suas águas

diz-me o imperturbável céu:
chuvas, em setembro

tropeço na calçada seca
e me lanço

entretida
na noite


(a lua negra desce das nuvens)


e havia sol no olhar que não espero
o abismo e o inferno
o reduto dos amigos
e suas investidas

segredos horizontais
sobre lençóis de tergal barato


o corpo, a mancha, o movimento, o pacto


línguas de salamandras
espiam entre as chamas

e você via
a fagulha fugidia
e a alegria que assusta
dos meus olhos abertos

- envolvidos em tentáculos carnívoros
a pequena morte que nos assistia -


sozinha
nos labirintos de Vila Rica
leio, ao dobrarem os sinos,
pergaminhos petrificados
os símbolos e sinais
da sua partitura

maneios e negros anéis
da medusa barroca

seremos nós
de viés
nas calçadas

chove.


Zoe de Camaris
Ouro Preto, 1997

.....
p.s.: não encontrei o autor da imagem, por ora

terça-feira, dezembro 07, 2004



La muerte de Salomé

  莎樂美之死



I

La historia, a veces, no está en lo cierto. La leyenda, en ocasiones, es verdadera, y las hadas mismas con­fiesan, en sus intimidades con algunos poetas, que mu­cho hay falseado en todo lo que se refiere a Mab, a Brocelianda, a las sobrenaturales y avasalladoras bel­dades. En cuanto a las cosas y sucesos de antiguos tiempos, acontece que dos o más cronistas contemporáneos estén en contradicción. Digo esto porque quizá habrá quien juzgue falsa la corta narración que voy a escribir en seguida, la cual tradujo un sabio sacer­dote, mi amigo, de un pergamino hallado en Palestina, y en el que el caso estaba escrito en caracteres de la lengua de Caldea.



II

Salomé, la perla del palacio de Herodes, después de un paso lascivo en el festín famoso, donde bailó una danza al modo romano, con música de arpas y crótalos, llenó de entusiasmo, de regocijo, de locura, al gran rey y a la soberana concurrencia. Un mancebo principal deshojó a los pies de la serpentina y fasci­nadora mujer una guirnalda de rosas frescas. Gayo Manipo, magistrado obeso, borracho y glotón; alzó su copa dorada y cincelada, llena de vino, y la apuró de un solo sorbo. Era una explosión de alegría y de asom­bro. Entonces fue cuando el monarca, en premio de su triunfo y a su ruego, concedió la cabeza de Juan Bautista, y Jehová soltó un relámpago de su cólera divina. Una leyenda asegura que la muerte de Salomé acaeció en un lago helado, donde los hielos le cortaron el cuello.

No fue así; fue de esta manera.



III


Después que hubo pasado el festín, sintió cansancio la princesa encantadora y cruel. Dirigióse a su alcoba, donde estaba su lecho, un gran lecho de marfil, que sostenían sobre sus lomos cuatro leones de plata. Dos negras de Etiopía, jóvenes y risueños, le desciñeron su ropaje, y, toda desnuda, saltó Salomé al lugar del reposo, y quedó blanca y mágicamente esplendorosa, so­bre una tela de púrpura, que hacía resaltar la cándida y rosada armonía de sus formas.


Sonriente, mientras sentía un blando soplo de flabeles, contemplaba, no lejos de ella, la cabeza pálida de Juan, que en un plato áureo, estaba colocada sobre un trípode. De pronto, sufriendo extraño sofocación, ordenó que se le quitasen las ajorcas y brazaletes de tobillos y de los brazos. Fue obedecida. Llevaba al cuello, a guisa de collar, una serpiente de oro, símbolo del tiempo, y cuyos ojos eran dos rubíes sangrientos brillantes. Era su joya favorita; regalo de un pre­tor, que la había adquirido de un artífice romano.


Al querérsela arrancar, experimentó Salomé un sú­bito error: la víbora se agitaba como si estuviese viva, sobre su piel, y a cada instante apretaba más y más su fino anillo constrictor, de escamas de metal. Las esclavas, espantadas, inmóviles, semejaban estatuas de piedra. Repentinamente, lanzaron un grito; la cabeza trágica de Salomé, la regia danzarina, rodó del lecho hasta los pies del trípode, adonde estaba, triste y lívi­da, la del precursor de Jesús; y al lado del cuerpo desnudo, en el lecho de púrpura, quedó enroscada la serpiente de oro.



Rubén Dario
O Beijo



Cena do filme A Última Dança de Salomé - Ken Russel


Salomé – Não quis me deixar beijá-lo, Iokannan. Eu o beijarei agora. Morderei sua boca com meus dentes como uma fruta madura. Eu beijarei sua boca, Iokannan. Eu disse que o faria, não disse? Eu a beijarei agora. Por que não me olha agora? Por que seus olhos estão fechados? Abre teus olhos, Iokannan ! Levanta suas pálpebras, Iokannan ! Por que não me olha? Você tem tanto medo de mim, Iokannan, que não vai me olhar? Seus olhos que foram tão terríveis, tão cheios de ódio e desprezo estão fechados agora. Sua língua era como uma cobra vermelha expelindo veneno. Ela não se mexe mais, agora não diz nada. A víbora vermelha que vomitou em mim. Estranho, não? Porque a cobra vermelha ficou imóvel?.... Você não me quis, Iokannan. Rejeitou-me. Disse-me coisas infames. Tratou-me como cortesã, como prostituta. Eu, Salomé ! Filha de Herodíades, Princesa da Judéia ! Agora, Iokannan, eu ainda estou viva mas você está morto e sua cabeça me pertence. Posso fazer com ela o que quiser. Dá-la aos cachorros ou aos pássaros do ar. O que os cães deixarem, os pássaros comerão... Ah, Iokannan, Iokannan,você é o único homem que eu amei. Todos os outros me enojavam. Mas você ...você era lindo. Seu corpo era uma coluna de marfim num pedestal de prata. Era um jardim com pombas e lírios de prata. Era uma torre de prata com escudo de marfim. Nada no mundo era tão branco quanto seu corpo. Nada no mundo era tão negro como seu cabelo. Nada no mundo era tão rubro como sua boca. Sua voz era como um vaso pleno de perfumes estranhos. Quando olhei para você ... ouvi música estranha. Ah, Iokannan, porque não olhou para mim? Escondeu seu rosto atrás de suas mãos e suas blasfêmias. Colocou a venda nos olhos e quis ver seu Deus. Agora viu seu Deus, Iokannan, mas a mim, a mim você nunca viu. Como o amei. Ainda o amo. Amo apenas você... Tenho sede da sua beleza. Tenho fome do seu corpo. Nem vinho nem fruta saciará o meu desejo. Diga o que farei agora. Nem rios nem enchentes afogarão minha paixão. Eu era uma princesa e você me humilhou. Eu era virgem e você não tomou minha virgindade. Eu era casta e você encheu minhas veias com fogo. Por que não olhou para mim? Se tivesse olhado para mim teria me amado. Sei que teria me amado. O mistério do amor é maior que o mistério da morte.

(Salomé beija a boca de Iokannan)
texto de Oscar Wilde




Chega de Salomés !!! A Pantera, virada em Sereia, está apaixonada por um Saci e o bom humor voltou a reinar na jungle. Até Curitiba ficou mais engraçadinha - essa Velha Senhora da Luz dos Pinhais, sisuda Sibila. Seja lá como for, tenho que dar cabo do Batista e sua Dançarina. Então, são os últimos posts sobre o assunto, para a delícia de quem já estava enjoado - eu, inclusive.

Quem quiser conhecer o blog do Saci, é só visitar : www.curitibinha.blogspot.com

Zoe
p.s.: Em tempo - a palavra "Saci" vem do tupi-guarani "Çacy" que significa Mãe das Almas. Çacy-taperê é a 'Mãe das Almas que sai nos caminhos'. O Saci que conhecemos através do folclore, diabrete pernalta, é um junção dos mitos africanos e indígenas. Cabe dar uma pesquisada na lenda da Matinta Pereira, ave-bruxa - existem correlações.

sexta-feira, dezembro 03, 2004




SERPENTES DE ÁGUA
de Gustav Klimt


Também as cores
amanhecem, também elas
acordam com os galos
da madrugada e cantam
a explosão do sol. Algumas
são água pura. A outras
o pincel conferiu-lhes
o rubor que se esconde
na nervura
de certas folhas. Outras,
ainda, festejam
o nascimento
da alegria. Ou do amor,
tanto faz. Ou não fosse ele
uma festa. Podem
chamar-lhe Judith,
Salomé: apenas dizem
os outros nomes
da serpente.


Albano Martins
(1930)

(in «A Voz do Olhar»,
Edições Universidade
Fernando Pessoa, 1998)