quinta-feira, novembro 11, 2004


A Cabeça de Jochannan - Cronópio segurando o Sol



O CANTO DOS CRONÓPIOS
por Julio Cortázar


Quando os cronópios cantam suas canções preferidas, ficam de tal maneira entusiasmados que freqüentemente se deixam atropelar por caminhões e ciclistas, caem da janela e perdem o que tinham nos bolsos e até a conta dos dias.

Quando um cronópio canta, as esperanças e os famas acorrem a ouvi-lo embora não compreendam muito seu arrebatamento e em geral se mostram um tanto escandalizados. No meio da roda o cronópio suspende seus bracinhos como se segurasse o sol, como se o céu fosse uma bandeja e o sol a cabeça do Batista, de forma que a canção do cronópio é Salomé nua dançando para os famas e as esperanças que ali estão boquiabertos e perguntando-se se o senhor padre, se as conveniências. Mas como no fundo são bons (os famas são bons e as esperanças bobas) acabam aplaudindo o cronópio, que se recupera sobressaltado, olha em redor e começa também a aplaudir, coitadinho.

segunda-feira, novembro 08, 2004




Salome's Dancing-Lesson


She that begs a little boon
(Heel and toe! Heel and toe!)
Little gets- and nothing, soon.
(No, no, no! No, no, no!)
She that calls for costly things
Priceless finds her offerings-
What's impossible to kings?
(Heel and toe! Heel and toe!)

Kings are shaped as other men.
(Step and turn! Step and turn!)
Ask what none may ask again.
(Will you learn? Will you learn?)
Lovers whine, and kisses pall,
Jewels tarnish, kingdoms fall-
Death's the rarest prize of all!
(Step and turn! Step and turn!)

Veils are woven to be dropped.
(One, two, three! One, two, three!)
Aging eyes are slowest stopped.
(Quietly! Quietly!)
She whose body's young and cool
Has no need of dancing-school-
Scratch a king and find a fool!
(One, two, three! One, two, three!)

Dorothy Parker
Death and Taxes

Published/Written in 1931

domingo, novembro 07, 2004


Tielady



Salomé
Guillaume Apollinaire (1880 - 1918)


Pour que sourie encore une fois Jean-Baptiste
Sire je danserais mieux que les séraphins
Ma mère dites-moi pourquoi vous êtes triste
En robe de comtesse à côté du Dauphin

Mon cœur battait battait très fort à sa parole
Quand je dansais dans le fenouil en écoutant
Et je brodais des lys sur une banderole
Destinée à flotter au bout de son bâton

Et pour qui voulez-vous qu'à présent je la brode
Son bâton refleurit sur les bords du Jourdain
Et sous les lys quand vos soldats ô roi Hérode
L'emmenèrent se sont flétris dans mon jardin

Venez tous avec moi là-bas sous les quinconces
Ne pleure pas ô joli fou du roi
Prends cette tête au lieu de ta marotte et danse
N'y touchez pas son front ma mère est déjà froid

Sire marchez devant trabants marchez derrière
Nous creuserons un trou et l'y enterrerons
Nous planterons des fleurs et danserons en rond
Jusqu'à l'heure où j'aurai perdu ma jarretière
Le roi sa tabatière
L'infante son rosaire
Le curé son bréviaire


Salome admiring her work / Adrienne Simms



Salomé só
Carlos Careqa e Milton di Biasi

Chamem a polícia
Esta mulher
Disparou sem dó
Balas de malícia
Saia de pelúcia
Salomé, saló, só

Chamem o bombeiro
Que eu vi o fogo
Naqueles olhos afins

Fogos de artifício
É seu ofício
Detonar contra mim
E ela veio pra ficar
Deitar, rolar, saquear
Com seus olhos de arrastão
Mulher eu vou te pegar
Rasgar, arrebentar
Te enfiar na prisão

Imagem do Tarô de Greta Benítez

.............................


Dessa vez não vou pentelhar o Ivanzinho para que traduza os poemas do Apollinaire e da Dorothy Parker. Não é bom forçar amizade. E depois, não vejo a hora de mudar de assunto. Cansei da síndrome de Rainha de Copas, "Cortem-lhe a cabeça !" Bem, perdi meus óculos depois que fiz xixi na prensa gigante da Imprensa Oficial. Bem feito, quem mandou? Ah, não tô nem aí. Hoje fiz 334.897 pontos no BlasterBall mesmo assim enquanto lembrava e ria. Palavra de Pantera cega: - eu adoro meus amigos. Uma bela noite que terminou num dia de sol, numa caminhada absurda com o namorado de volta pra casa. Ele sem sapatos (roxos!!), eu sem enxergar - mas muito, muito feliz. Dois loucos na tangente do abismo. E eu o amo.

A vida nos dá presentes vindos do nada. E a gente, sem pensar duas vezes, aceita. Caminha.
E agradece enquanto ainda está sorrindo.

Zoe

domingo, outubro 31, 2004


Salome / foto de Mario Piazza


Antecedentes de Salomé: a Salomé de Oscar Wilde


A primeira aparição de Salomé no mundo literário foi no Evangelho de Mateus. Mateus conta que Herodes pediu que a filha de Herodias dançasse para ele no seu aniversário. Ao agradar o rei, ele ofereceu à garota qualquer recompensa que desejasse. Herodias incitou sua filha a pedir a cabeça de João Batista numa bandeja. A cabeça foi trazida num prato e dada à jovem, e ela a levou a sua mãe. Mateus nem preocupa-se em nos dar o nome de Salomé.

A figura de Salomé e seus sete véus fascina artistas e escritores há séculos — e nunca tanto quanto no século XIX. O Drama de Wilde, Salomé, no qual a ópera de Strauss está baseada, segue os passos de outros poemas, romances e pinturas importantes de Salomé. Wilde certamente conheceu o Atta Troll de Heinrich Heine; poema escrito em 1841 de grande popularidade na França. No poema, é Herodias quem se apaixona por Jochanaan e quem beija a cabeça decepada. Gustav Flaubert escreveu uma versão objetiva, em terceira pessoa, que Wilde muito admirava. O poema Herodiade do simbolista Stéphane Mallarmé, que explora o casamento de Herodes e Herodias, também influenciou Wilde, bem como A Rebours, de J.K. Huysmans.

Wilde possuía uma compreensão substancial sobre a representação de Salomé no mundo artístico ocidental, mas sempre tinha alguma ressalva negativa sobre a interpretação do tema por alguns artistas. Ele pensava que a Salomé de Rubens era uma ‘apoplética Maritornes’; a Salomé de Leonardo era extremamente impalpável e a célebre Salomé de Regnault, uma simples “cigana”. Somente a famosa exibição parisiense com pinturas da Salomé de Gustav Moreau satisfez o escritor.

A versão da história contada por Wilde tem suas origens em dezembro de 1891, quando Wilde e uma grupo de escritores franceses discutiam Salomé num café de Paris. Wilde começou a trabalhar imediatamente em Salomé ao regressar à casa. Poucas horas depois, ele havia terminado grande parte da peça. A lenda diz que Wilde, naquela mesma noite, se dirigiu a um bar na vizinhança e pediu à banda da casa para tocar uma música que evocasse “uma mulher descalça, dançando sobre o sangue de um homem a quem ela desejava e matou”.

A Salomé de Wilde é uma personagem extraordinariamente dual. Por um lado, Wilde acreditava que ela era a incorporação da sensualidade — ele contou que, enquanto escrevia Salomé, passava por joalherias nas ruas de Paris e contemplava como adornar sua personagem. Esse mesmo ser sensual era, para Wilde, agressivo e cruel, com uma libido insaciável. Ele imaginava Sarah Bernhardt no papel principal (no fim das contas, a atriz foi impedida pela censura francesa de interpretar o papel). Mas Wilde também vislumbrava uma Salomé divina e pura —imagem provavelmente inspirada por uma pintura de Bernardo Luini. Para Wilde, Salomé tornou-se a combinação de um ser sensual, infantil e divino somado à força destrutiva da natureza.

Wilde tinha forte afinidade com o movimento de arte simbolista, influencia explícita em Salomé. O poeta Mallarmé, um dos líderes do movimento simbolista, afirmava que a tarefa da poesia era revelar e cristalizar as formas essenciais que se escondem dentro da realidade. Simbolistas acreditavam que somente através dos símbolos o homem poderia alcançar as verdades incompreensíveis, chegando assim à transcendência.

Um dos símbolos mais famosos de Salomé é a lua e quase todas as personagens do drama fazem menção ao satélite. O confuso Narraboth vê a lua como uma princesa encantadora, a personificação de Salomé; o pajem de Herodias vê a lua como uma mulher morta. Para Salomé, a lua é uma deusa casta que nunca se rebaixou aos homens enquanto que para Herodes, é como “uma mulher louca, uma mulher louca que busca amantes por todas as partes”. E a banal Herodias desdenha: “a lua é como a lua e só.” Através da repetição e variação, o símbolo começa a repercutir e ganhar maior significância.

Wilde também estava afiliado com o movimento de arte decadista, o qual compartilhava seu conceito de arte pela arte. No prefácio do Retrato de Dorian Gray, Wilde faz a seguinte declaração sobre a procura do “belo” e da arte:


Aqueles que encontram o feio nas coisas belas estão corrompidos sem serem charmosos. Isso é um defeito.

Aqueles que encontram o belo nas coisas belas são os cultos. Para estes há esperança.

Estes são os escolhidos para quem as coisas belas significam somente Beleza.



Wilde fez um espetáculo para o mundo ver de sua crença de que toda a arte é inútil e de que tudo o que importa são as aparências. Em grande parte, o escritor sofreu por causa de suas idéias; seu desafio explícito aos ideais vitorianos de repreensão e decência o levou à censura e conseqüente aprisionamento.

O drama Salomé foi concluído em janeiro de 1892, depois que Wilde retornou à Inglaterra. Foi traduzido do seu original em francês para o inglês pelo Lorde Alfred Douglas. A peça já estava sendo ensaiada há duas semanas quando a comissão do Lorde Chamberlain censurou o trabalho (sob a desculpa de que a representação de cenas bíblicas não era permitida). George Bernard Shaw e William Archer defenderam a peça, mas ficou evidente que Salomé não tinha que ser estreada na Inglaterra. Wilde ameaçou imigrar para a França e adiantou seus planos para a publicação da peça em inglês. A peça foi finalmente estreada em Paris, em 1896; Wilde não estava presente. O escritor estava servindo uma sentença de trabalho forçado em Reading Goal. Em 1909, a peça tinha sido traduzida para quase todos os idiomas europeus. Atualmente é a mais famosa versão dramática da estória de Salomé.

(retirado do site "Metropolitan Opera Internacional Radio")

http://archive.operainfo.org/broadcast/operaBackground.cgi?id=92&language=4


Libreto /Salomé


SALOMÉ

Paulo Corrêa Lopes


Só, na cisterna, João Batista em prece
sonha. Estende-se a noite silenciosa,
e, na nudez da solidão piedosa,
o desespero que o tortura esquece.

Dorme o palácio. Salomé ansiosa,
como pantera atroz que se enraivece,
em contorções se agita, e se estremece,
debruçada num tálamo de rosa...

Quase nua se ergue, e altivamente,
nos estos da volúpia que a devora,
desprende as tranças sobre a espádua ardente.

Treme-lhe o lábio aparecendo um beijo,
clama pelo Profeta, e anseia, e chora,
nas algemas da carne e do desejo!

sábado, outubro 30, 2004


Salome / Pierre Bonnaud


Salomé

Mário de Sá Carneiro


Insônia roxa. A luz a virgular-se em medo,
luz morta de luar, mais alma do que lua...
Ela dança, ala range. A carne, álcool de lua,
alastra-se pra mim num espasmo de segredo...

Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio...Alabastro!...A minha alma parou...
E o seu corpo resvala a projetar estátuas...

Ela chama-me em íris. Nimba-se a perder-me,
golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto...
Timbres, elmos, punhais... A doida quer morrer-me:

mordoura-se a chorar – há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto e vou arder-me
na boca imperial que humanizou um santo...

quinta-feira, outubro 28, 2004


Salome dancing before Herod / Gustave Moreau, 1876


Nas minhas andanças pela selva virtual, encontrei o quadro de Gustave Moreau "Salome dancing before Herod" (1874-1876). Já tinha estudado outra pintura de Moreau mais detalhadamente numa disciplina de Intersemiótica - "Júpiter e Sêmele", indizivelmente fantástica. Mas nunca tinha me dado conta das panteras de Salomé.

O felino reaparece em quadros de outros artistas marcando presença em peles de tigre ou de onça. A bíblica sacerdotisa da Lua e sua Sombra. Símbolo da luxúria, a pantera? Alude aos maneios sensuais da dançarina dos sete véus?

Bem, eu não me satisfaço nunca com poucas informações, nunca - um inferno em vida, no qual quero sempre arder. Dei de cara com a vasta iconografia inspirada em Salomé; um site só sobre decapitações (www.sepulchritude.com/chapelperilous/decollete/decollete-salome.html); um poema de Mário de Sá Carneiro, a peça de Oscar Wilde, Mallarmé, Flaubert, Apollinaire e ... Dorothy Parker.

Continuo na selva.
Durante os próximos dias, vamos vistar Salomé.

Zoe

domingo, outubro 17, 2004


STRENGTH / The Blue Rose Tarot Deck by Paula Gibby

E existe algo mais poderoso do que a energia do Mago somada à Imperatriz?
A Pantera Azul está solta - a Caixa de Pandora aberta.

{* *}

O Tigre


William Blake


Tigre! Tigre! Brilho, brasa
Que a furna noturna abrasa,
Que olho ou mão armaria
Tua feroz simetria?

Em que céu se foi forjar
O fogo do teu olhar?
Em que asas veio a chama?
Que mão colheu esta flama?

Que força fez retorcer
Em nervos todos o teu ser?
E o som do teu coração
De aço, que cor, que ação?

Teu cérebro, quem o malha?
Que martelo? Que fornalha
O moldou? Que mão, que garra
Seu terror mortal amarra

Quando as lanças das estrelas
Cortaram os céus, ao vê-las,
Quem as fez sorriu talvez?
Quem fez a ovelha te fez?

Tigre! Tigre! Brilho, brasa
Que a furna noturna abrasa,
Que olho ou mão armaria
Tua feroz simetria?


(tradução de Augusto de Campos)

Posted by Hello

quinta-feira, outubro 14, 2004


Private Dancer/Jack Vettriano Posted by Hello

Está na hora da onça beber água


ela vai com sede ao pote
ela vai com alma, a pintada,
a mansa, com a calma
da fera que espreita, a bela.
ela vai com pele de onça, a ponta
da pata macia na terra, ela
alta, básica, séria, ela salta
vai além do bote, ela morde
ela sabe.


Janice Caiafa
de Neve Rubra/Sette Letras/96

sexta-feira, outubro 08, 2004


Uma lágrima  Posted by Hello

O mundo menos doce


Tem coisas que não dá pra entender. Postei a foto de minha irmã com o gatinho no dia 4. Entre centas fotos de mulheres & gatos, escolhi essa - um pouco ressabiada, confesso: - será que minha irmã não acharia ruim que eu colocasse a foto dela no blog? Depois pensei que não, de forma alguma. Maria Tereza é afável, menos quando dança flamenco. E depois, porque se chatearia com uma homenagem? Efetivamente, não se chateou.

Há poucos momentos bateu o telefone, bem quando eu estava para postar algo por aqui. E me deu a má notícia: o gatinho Mehl morreu. Um dos rottweillers (fssssssst, que me perdoem os cachorrófilos, eu não gosto, não gosto MESMO) deu uma patada no bichinho. E lá se foi o Mehl, curtir suas outras vidas em algum céu felino. Estou triste, bem triste. Não tão triste quanto minha irmã, que ligou chorando. Mas o suficiente para lamentar muito. Ele era lindo, amigável, doce.

Bye, gatinho Mehl.
Faz companhia para o meu Sombra aí no paraíso dos gatos.

Zoe
p.s.: leitores, poupem-me da observação de que os cachorros são inimigos naturais dos gatos. EU SEI.


segunda-feira, outubro 04, 2004


Mehl e Maria Tereza Posted by Hello

Mulher e Gata



Ela brincava com a gata
E era admirável ver as duas,
A branca mão e a branca pata,
Brincando à noite, na penumbra.

Ela escondia - a celerada ! -
Sob as mitenes de fio escuro
As assassinas unhas de ágata,
Claras, cortantes, como um gume.

Fingia-se a outra adoçada
E retraía a garra afiada,
Mas o diabo nada perdia...

E no toucador retinia
O som de aéreas gargalhadas
E quatro pontos fosforesciam.


Paul Verlaine (1844-1896)
p.s.: dedico esse belo poema de Verlaine para minha irmã, Maria Tereza e para minha amiga Adalgisa, a dona de Deus.

sexta-feira, outubro 01, 2004


O Descanso do Gato, de Vicky Dolabella Posted by Hello

O Olhar Abstrato dos Gatos


Nesse último domingo em Curitiba, curti O Olhar Abstrato dos Gatos - vernissage de Vicky Dolabella no Solar do Rosário. Os trabalhos são magníficos, literalmente babei. Como se não bastasse o dia ensolarado, meu bom humor e a companhia da Valentina, Vicky é gatíssima e dona de um astral nota 1000. Ficava amiga facinho. Deviam inventar mais mulheres assim. E para completar, conhece a minha super ultra comadre, BRUXURSINHA (cadê, cadê?) que, depois que começou a trabalhar num certo jornal paulista, me esqueceu completamente. Sniff.... No problem. Um dia ela volta. Só fico aqui pensando quem cuida dos 9 gatos quando ela está fora - que somando com as nove vidas de cada um deles mais a dona da casa ... bem, são 82 vidas no apartamento da Bru.

Aqui em casa somos mais econômicos - 21 vidas tá bom demais.


ZdC

p.s.: Vicky tem um site - http://www.vickydolabella.com.br/

Gatos Apaixonados, de Vicky Dolabella Posted by Hello

MISTER MISTÓFELIS


Precisas conhecer Mister Mistófelis!
Um misto de Felino e de Mefisto -
(Dúvida alguma sóbre sobre isto!)
Que zombem, mas não posso numa estrofe lhes
Dizer o que dele tenho visto.
Informa-se em alquímicos in-fólios,
Tem todas as patentes, monopólios
Para exercer performances e truques
Que herdou de condes, dráculas e duques.
Na prestidigitação
E nos passes que realiza
Ilude qualquer pesquisa
E cria nova ilusão.
Os mágicos do mundo inteiro estimam-no
Por ser de todos o maior prestímano.
Um, dois e três!
E era uma vez!
Vejam vocês!
Digo e estou certo:
Ninguém decerto
Chegou nem perto
Do Gato Mago-Mefisto-Félix!

Ele é pequeno e quieto, a cor é preta
Desde a ponta da orelha ao rabo esguio;
Esgueira-se na mais estreita greta
E se equilibra no mais frágil fio.
A carta que quiser, fácil afana
E é destro em dados, varas de adivinhos;
Ele sempre te engana que tem gana
De andar à caça apenas de "peixinhos".
Tira tudo do estofo da casaca,
Faz milagres com a caixa-de-surpresa;
Se um garfo lá se foi ou falta a faca,
E achas que te enganaste ao pôr a mesa -
O talher que inda há pouco evaporou-se
Surge num fosso como se osso fosse!
Vejam vocês!
Pois estou certo
Que ele é decerto
O mais desperto

O Gato Mago Mefisto-Félix!

Mostra um ar vagamente alienado
Quando a sua modéstia está em jogo...
Mas sua voz ouviu-se do telhado
Quando foi chamuscado pelo fogo.
E ouvimo-lo também ao pé do fogo
Quando ele faz das suas no telhado...
(Pelo menos na poltrona sabemos que só ronrona)
Eis aqui o atestado detalhado
De seu poder de mágico inconteste:
Certa vez a família em peso abala
A buscar no jardim inteiro o peste
Enquanto ele dormia em plena sala.
E fez agora aparecer, frajola,
Sete gatinhos dentro da cartola!
Vejam vocês!
Não há decerto
Um mais esperto

Que o Gato Mago Mefisto-Félix!


T. S. Eliot

Tradução de Ivo Barroso,
felinamente digitado por Ivan Justen Santana