sábado, julho 31, 2004

Dois Poemas de Greta Benitez


Meu Herói


Pinto as unhas
os olhos e o coração de preto
encho os pulmões de fumaça e ar
esperando o dia
em que o Batman vem me salvar



Comics


O sax me injeta ciúmes na veia
Barítono ambíguo
Homem-aranha, moça feia
Ela, sem notar, arquiteta a teia
E vira mulher-gato
olhe a foto
Homem-mosca, mulher-porcelana
Todos fazem parte da trama.
Eu, moça-vitral, fruta cristalizada
Será que sou amada?


Greta Benitez
http://www.geocities.com/gretabenitez/

Mulher das Feras Posted by Hello

Felinas Brasileiras



A Avó dos Jaguares Demoníacos - Mito Guarani Mbyá. Chamada de Senhora dos Ossos Inúteis, é quem deixa gêmeos míticos para secar ao Sol colocando-os sobre uma yrupe - pequena cesta dos Mbyá usada para a farinha do milho ou da mandioca. Alguns mitos dizem que a primeira mulher foi encontrada debaixo de uma vasilha de barro. Em outros episódios essa mesma mulher é escondida em uma peça similar pela Avó dos Jaguares Demoníacos no intuito de protegê-la da ferocidade de seus netos (ESCOBAR, 1993).

A Mulher-Onça – Tradição dos nativos Botocudos. Um casal está acampado na mata. A mulher pede ao homem que a deixe só, quer transformar-se. Pinta-se e, em seguida, converte-se em onça mas do ombro para cima continua sendo gente. Então chama o marido que fica bastante surpreso e lhe pergunta como viveria doravante na sua companhia. A mulher-onça pede ao marido que espere e corre mata adentro, onde mata dois porcos. Um, ela dá para o marido, o outro devora sozinha. A mulher sempre leva comida para o homem, mas não permite que ele se aproxime dela. Um dia a cabeça de mulher transforma-se em cabeça de onça e ela se torna uma onça perfeita. Em um mito Kamakã, uma mulher jovem morre e ressuscita como onça. Quando seu marido vai chorar sobre o túmulo, lá está ela, tampando a boca para que ele não lhe veja os dentes. Quando ele deita a cabeça no seu colo, ela o mata. Mas a mulher se deixa amarrar pelo irmão e este a solta no mato (NIMUENDAJÚ, 1986).

Mulher-Jaguar – Mãe de Yeba Kumu, que é seu filho com Sol primordial, Yeba Haku [Hugh-Jones 1976]. A Mulher Jaguar aparece novamente como irmã de Meni Kumu quando é chamada de Mãe dos Jaguares-Trovão, no mito de Méneri-Ya. Yeba significa "Jaguar" e também "Terra" (HUGH-JONES, 1979). Curiosa sinonímia.

Noitu – Mitologia Kamaiurá, Tupi-Guarani. Palavras-Chave: CAÇA E ANIMAIS SELVAGENS; SOL E DIA; LUA E NOITE, DEUSA JAGUAR. Mãe do Sol, Kuat; e da Lua, Yai, presente na região do Mato Grosso (ANN & MYERS IMEL, 1993).

sexta-feira, julho 30, 2004


Lodger Posted by Hello

Big Day

big day
-lodger-

it's watery coffee
at two o'clock
crawl from the hotel
an abandoned dog
nickel slots
and coke
lucky strikes
are my holy smokes

it's gonn a big day
biggest day of them all

day old soup
at Careful Kitty's
one straight drink
helps me feel less shitty
wet face in the mirror
and a hopeful wink
time to hit the tables
time to think

http://hkkk.fi/~laari/lodger/lodger.html
http://koti.mbnet.fi/reagan/lodger/ilove.html

Fumo Lucky Strike porque é tostado e não irrita a garganta Posted by Hello

Dai-me a serenidade necessária ...

Hoje acordei cedo, coloquei Lodger pra tocar, tomei meu primeiro baldinho de café preto sem açúcar e mal tinha acendido o primeiro Lucky Strike (vou parar, vou parar) quando a minha visita chegou. Uma amiga chamada Vilma Chiara, uma das mulheres mais admiráveis dentre as que já tive o prazer de conhecer. Do alto dos seus 70 anos e lá vai pedrada, Vilma é lépida, ágil, ultra lúcida e super pilhada. Seus olhinhos parecem duas bolas de gude acesas, soltando chispas inteligentes. A danada é uma das grandes autoridades em Antropologia do país, pós doutorada em Harvard e viúva de um dos nossos melhores etnólogos, Harald Schultz. E para minha extrema sorte, mora na rua de cima, além de ser muito solícita. Sentamo-nos as duas para resolver um pepino que me incomoda há alguns meses e que para mim parecem séculos. Uma maldita carta para uma certa istituição que por ora, prefiro não comentar, até que os resultados se façam valer. Sei que por causa da presença de Vilma, eu, que ando apartada dos estudos de mitologia indígena, fui obrigada a abrir uns arquivos aqui. E me deparei com algumas personagens do imaginário indígena que se mostraram assanhadas, quase pulando de dentro do livro, loucas para aparecer. Aí estão algumas felinas indígenas, então. Divirtam-se, enquanto eu, já cansada disso tudo, vou meditar seriamente em me preparar para ser, algum dia, uma mulher como essa tal de Vilma Chiara - buááá ... adeus Lodger, Lucky Strikes e os indefectíveis baldinhos de café.

Zoe
p.s.: há que se crescer um dia, superar os ritos de iniciação pubertária. Vilma tem uma palestra e um artigo publicado que especula as raízes antropológicas e as correlações simbólicas do "ato de fumar" com os antigos mitos do fogo e passagens bíblicas. Nem contra, nem a favor, muito pelo contrário. Eu é que ando tossindo demais.

quinta-feira, julho 29, 2004


Clarice Lispector Posted by Hello

Água Viva (um trecho)

Tenho que interromper para dizer que "X" é o que existe dentro de mim. "X" - eu me banho neste isto. É impronunciável. Tudo que não sei está em "X". A morte? a morte é "X". Mas muita vida também pois a vida é impronunciável. "X" que estremece em mim e tenho medo de seu diapasão: vibra como uma corda de violoncelo, corda tensa que quando é tangida emite eletricidade pura, sem melodia. O instante é impronunciável. Uma sensibilidade outra é que se apercebe de "X".

Espero que você viva "X" para experimentar a espécie de sono criador que se espreguiça através das veias. "X" não é bom nem ruim. Sempre independe. Mas só acontece para o que tem corpo. Embora imaterial, precisa do corpo nosso e do corpo da coisa. Há objetos que são esse mistério total do "X". Como o que vibra mudo. Os instantes são estilhaços de "x" espocando sem parar. O excesso de mim chega a doer.

E quando estou excessiva tenho que dar de mim. Como o leite que se não fluir rebenta o seio. Livro-me da pressão e volto ao tamanho natural. A elasticidade exata. Elasticidade de uma pantera macia.

Uma pantera negra enjaulada. Uma vez olhei bem nos olhos de uma pantera e ela me olhou bem nos meus olhos. Transmutamo-nos. Aquele medo. Saí de lá toda ofuscada por dentro, o "x" inquieto. Tudo se passara atrás do pensamento. Estou com saudade daquele terror que me deu trocar de olhar com a pantera negra. Sei fazer terror.

"X" é o sopro do it? é a sua irradiante respiração fria? "X" é palavra? A palavra apenas se refere a uma coisa e esta é sempre inalcançável por mim. Cada um de nós é um símbolo que lida com símbolos - tudo ponto de apenas referência ao real. Procuramos desesperadamente encontrar uma identidade própria e a identidade do real. E se nos entendemos através do símbolo é porque temos os mesmos símbolos e a mesma experiência da coisa em si: mas a realidade não tem sinônimos.


Clarice Lispector
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Foi curioso descobrir que a poeta Marly de Oliveira escreveu "A Suave Pantera" depois de um passeio ao zoológico com Clarice Lispector e seus filhos. Marly observava a pantera negra, brilhante como uma jóia. De repente uma criança atira uma pedra e a pantera mostra a fera em fúria. Conta a filha de Marly, Monica Moreira, que sua mãe foi para casa pensando na suavidade inicial da pantera, sua noção do presente sem consciência do passado e sem projetos futuros, presa atrás das grades. Marly percebeu que a pantera só queria ser livre. Grata à Monica Moreira por me brindar com o testemunho de Marly.

terça-feira, julho 27, 2004


Majik, leopardo negro de James Moore/Wildlife Survival Sanctuary Inc.- Flórida

 Posted by Hello

Perfume de Pantera - estratégias fatais de sedução



Preferir a pantera ao anjo,
Condensar o vago em preciso


João Cabral de Mello Neto




A Sedução é o "artifício do mundo", palavra de Jean Baudrillard. Na religião, a sedução é considerada uma estratégia do Diabo, que poderia encarnar-se em uma bruxa ou em um amante - um desvio de rota. A Lilith dos textos apócrifos, primeira mulher de Adão, é um protótipo da Sedução.

O poder da Sedução é mais forte do que a Realidade porque é inesperado. Para o pensador francês, Sedução é Aparência e por isso, pode mais do que a Verdade - questão polêmica, é claro.

A falta de sentido da Sedução derrubaria facilmente a projeção de sentido a que damos o nome de Realidade. Simplificando, na terminologia baudrillardiana, a Realidade equivaleria ao sentido de “produção”, ou seja, qualquer trabalho a ser realizado. Quando saímos dos limites do que chamamos de Realidade, e entramos no excesso - onde perdemos o sentido de Realidade - penetramos em uma esfera sobre a qual não temos nenhum controle.

Exemplos: uma mulher sai para trabalhar e é seduzida por um homem misterioso que cruza o seu caminho; um artista é atraído por um novo conceito em arte; uma publicidade nos seduz com um teaser. Em todos estes casos, experimentaríamos um enfraquecimento das nossas projeções usuais de sentido, deixando-nos prender pelo novo.

A Sedução, situação imprevista, é mais forte que a Produção - o trabalho a ser realizado. A Sedução desvia, desordena, se funde com nossas projeções e em casos mais graves, anula a Produção. A Sedução está ao lado do Caótico que, por definição, não se sujeita a nenhuma Produção.

Baudrillard dedica todo um livro ao tema. E nos oferece um dado importante, o seu caráter dialético - Toda Sedução é uma Não-Sedução ou vem de uma Não-Sedução. Como? Isso mesmo. A Sedução funciona melhor na ausência do que na presença.

Pessoas “verdadeiramente” sedutoras possuem uma aura de encantamento e mistério que foge à capacidade de qualquer explicação sensata. Seduzem por um artifício natural - porque são sedutoras e ponto. Emanam algo indefinível e altamente atrativo. Não podemos esquecer também daquelas que montam suas táticas como estratégias de guerra, entre minuciosos cálculos e maquinações. A Sedução sofisticada atua por mecanismos estéticos, sutis, como por exemplo ... bem, melhor não entrar em detalhes.

Deixemos de lado os estereótipos do sedutor - o D. Juan Grudento e a Sereia Derramada. Suas táticas são infantis e com um mínimo de know how por parte das “vítimas”, têm seus ardis facilmente desmantelados. A Sedução vulgar atua por insistência. E então, já não é sedução.

O Encanto atua na esfera do ocultamento, do que foge à compreensão imediata. É máscara, é maquiagem, é perfume. Para que seja efetiva, a Sedução mascara.

Dentro da proposição dialética de Baudrillard encontramos o terceiro termo: A Sedução, sendo uma Não-Sedução – signo vazio - é também uma Auto-Sedução. Antes de seduzir o Outro, sou vítima da Sedução. O sedutor é sempre um seduzido. Só se seduz o que já nos seduziu. E é nesse momento que a Pantera cai em sua própria armadilha.


O Perfume


Cheiro de jasmim, uma casa deserta - estanco o passo imediatamente: os primos, a casa de minha avó. Pequenos olhos rasgados de afeto, portrait tridimensional. Balas de canela na língua, o contato do seu braço; xale negro de lã grossa roçando a face rosada de criança. O grito de Serginho - onde estão os gibis velhos? Dentro do baú. As revistas estão dentro do baú.

Tudo isso em um átimo de segundo. Sensações múltiplas escorregando ao mesmo tempo: visão, tato, paladar, audição. Estou atrasada, tenho que entregar um texto na redação. Mas nada impede que o perfume do jasmim venha e me envolva. Sou presa do seu fascínio cheio de lembranças. Invade repentino, num arrebatamento silencioso. O perfume é momentâneo e fugaz mas age bruscamente, procurando com seus etéreos dedos, memórias no meu arquivo cerebral.

Vivemos a mercê do olfato, o mais primitivo dos sentidos. A memória olfativa, a mais duradoura das memórias, está ligada ao sistema límbico, área cerebral que é responsável pela produção das emoções e que por sua vez está vinculado ao hipotálamo, região do cérebro que coordena os hormônios causadores dos impulsos instintivos e sexuais.

O feromônio, um hormônio exalado por animais e também por pessoas em busca de um companheiro, é uma substância atrelada às reações inconscientes e instintuais. Hoje, sintetizado, encontra-se à venda para quem conta com essa estratégia para atrair parceiros sexuais, já que escondemos nosso cheiro habitual com perfumes sintéticos.

Será que funciona? Creio que é bem mais interessante deixar que o nosso próprio feromônio recenda, já que é inato. No entanto, cada caso é um caso, e cada qual sabe a quantas anda o seu poder de atração. E depois, um perfume usado com discrição cria uma outra química, somado ao nosso cheiro natural.

A indústria de perfumes soma bilhões de dólares por ano. As grandes griffes não sobrevivem apenas das coleções de alta costura. Perfume dá ibope, o que não é novidade nenhuma. Cartier, um joalheiro aficionado pela pantera, criou diversas jóias tendo o negro felino como inspiração. E em 1987 lançou Panthère, uma fragrância imortal.

Plínio comenta que na cidade de Tarso existia um perfume muito raro e cobiçado: o Panterico. Mas e além do perfume de Cartier e do Panterico, qual a relação entre os aromas, a sedução e a pantera?


A Pantera


É Aristóteles em Animalium historia que funda um momento crucial na história mítico-fisiológico da pantera ao referir-se ao seu hálito perfumado, tradição esta retomada por Teofrasto e Plínio. A pantera seria o único animal a possuir o poder de encantar através do perfume. E Aristóteles constrói, em Problemata inedita, o tripé básico que configura as funções do felino: a caça, a atração (o hálito perfumado) e o engano pela beleza - marcado pela variação de sua pele, símbolo da instabilidade psíquica, da inteligência, da astúcia e da eroticidade.

Antes de dar o bote, é bom lembrar que ao nos reportarmos à Pantera (negra por excesso de melanina), buscando como referência textos clássicos e medievais, falamos também do Leopardo. Aventa-se que os autores estejam mencionando mais especificamente o Guepardo, bastante freqüente na Pérsia, já que no mundo grego a pantera é um animal sobretudo oriental. A Potnia Théron cretense, Senhora dos Animais, que tem traços em comum com a deusa Cibele, da Ásia Menor, é freqüentemente nomeada “A Senhora da Pantera”.

São três as estratégias fatais de Sedução da pantera: saber fingir-se de morta, atrair pela beleza do pêlo e através do perfume.

Eliano, ao relatar os costumes da Mauritânia, conta que a pantera finge-se de morta para capturar símios. Cerra os olhos e deixa as patas lassas em torno do corpo. Os macacos, desconfiados, ficam em suas árvores, observando-a. O tempo passa. O macaco mais atrevido desce e verifica, cuidadosamente. Repara se seus olhos já não se mexem, se não respira. Os outros macacos, ao notarem que o colega não corre perigo, acreditam no seu desejo e, sentindo-se seguros, descem das árvores. Acham que o animal está "morto" e saltam e pulam sobre seu corpo, menosprezando sua força e coragem, fazendo micagens. Nesse momento a pantera, que já tem sobre si todos os macacos que deseja devorar, com a rapidez de um raio os despedaça com suas garras e dentes afiados como se estivesse vingando-se daqueles que depreciaram a sua esperteza, recuperando a realeza e a supremacia.

O mesmo autor nos conta sobre o fascínio que a pele sarapintada da pantera causa nas ovelhas, que se quedam enlevadas ao admirá-la. A paralisia pelo fascínio. O animal, sabendo disso, deixa que as ovelhas aproximem-se e esconde a grande cabeça para não assustá-las. Apenas seu corpo fica descoberto. O desenlace do episódio é trágico: o objeto de contemplação passa ser objeto ativo - recupera sua ferocidade oculta e devora, sem maiores delongas, o contemplador.

Já ouvi menções que o mesmo ocorreria com o ser humano que se depara com a fera. Matteo Meschiari sublinha o que ocorreu a Livingstone, o explorador, entre outros que tiveram sensações semelhantes, ao sobreviver ao ataque de um grande felino: "o contato físico com o predador acontece em condições similares a um sonho de olhos abertos, em estado de privação sensorial quase prazeroso. O homem não reage, o cérebro anestesia o corpo, se instaura uma cumplicidade entre presa e predador para que tudo acabe o mais rapidamente possível". Um entorpecimento dos sentidos, quase um prazer sensual, toma conta da vítima. Os dedos rendados da morte são desejados, a pantera hipnotiza. Humanos: "sensualmente perdedores, voluptuosamente dominados". Não é possível fugir – resta entregar-se.

Mas a arma mais poderosa e sutil da pantera é o perfume.

A Pantera servir-se-ia do seu hálito perfumado para caçar e atrair suas presas que, sentindo sua adocicada suavidade, aproximam-se, fascinadas. As cabras e outros animais amigos do perfume seriam suas vítimas preferidas. Escondida atrás de frondosas árvores, é só uma questão de tempo para que se lance sobre os outros animais.

Teofraso compartilha da opinião de Aristóteles acerca do perfume da fera: uma qualidade que não é dividida com nenhum outro animal. Aristóteles chega a afirmar que a pantera é o único animal perfumado. Ninguém passaria incólume ao seu perfume, ao contrário, atirar-se-ia em direção ao aroma.

No entanto, reafirmando a visão de Baudrillard, o sedutor é, antes de tudo, o seduzido que se inebria com suas próprias qualidades projetadas - a pantera também é atraída pelo perfume. Nada funciona em via de mão única.

Oppiano, no seu poema sobre a caça - Cynegetica, sustenta que um dos meios para capturar a pantera consiste em aspergir vinho nas proximidades do lugar onde ela bebe água. A Pantera não resiste ao vinho e se embriaga facilmente. Ébria, mênade, de fera predadora vira presa. A tradição remonta aos cultos dionisíacos - sabemos que a pantera é um animal dedicado a Dionísio, deus do vinho e das orgias.

Filostrato, na Vida de Apolônio de Tiana, narra que as panteras da Armênia procuravam a floresta da Panfília, rica em essências balsâmicas, sentindo-se atraídas por seu forte odor. A pantera tem uma curiosa preferência pela árvore de cânfora, tomando-a como morada. Não permite que ninguém se aproxime dela, o que nos mostra um lado sensível e cheio de zelos, do intrigante animal.

E detesta o cheiro de alho. A pantera, como uma mulher caprichosa, cultiva seus estranhos gostos. De fato, para Aristófanes a cortesã sedutora e perfumada (felina, portanto) é uma pantera. Na peça Lisistrata, o desejável corpo da mulher, enfeitada com belas vestes e perfumada, é um felino deste tipo. Marcel Detienne irá observar que a caça e o amor não são pólos antitéticos mas sim correlatos. Parece óbvio, mas a conhecida armadilha continua em pé - e saber da sua existência não contribui para que suas vítimas escapem.

O estratagema das panteras difere: seduz as cabras - animais indóceis – com seu perfume; as ovelhas, com a visão de sua pele, que as paralisa. Para as cabras existe um substrato impalpável e quimérico servindo como intermediário, à diferença das ovelhas, encantadas com a exibição do corpo fascinante. A cabra não deseja a pantera mas sim o que é anunciado pelo seu perfume, que ela talvez julgue como uma emanação da perfeição. As ovelhas são seres simples, e essa ingenuidade é persistente. As cabras são caprichosas, mas o capricho é uma qualidade fugaz. Por isso mesmo, a Pantera faz mais vítimas entre as ovelhas (DETIENNE).

Os macacos não são atraídos pela pantera por uma emboscada de caráter estético e perverso, como as ovelhas e as cabras, mas sim por um complexo sentimento que poderia definir-se como a alegria dos pequenos, das vítimas ante a morte do sedutor, do forte - também do assassino, do tirano (NIETZSCHE). Os símios, homenzinhos triviais e de pouco juízo, sempre em estado de ebulição e continuamente agitados pelo som da flauta pânica das aparências - celebram a morte do Fulgor, da mortal sedutora. É um regozijo cego e egoísta, abismal, pois acreditam que mataram quem é capaz de trucidá-los fingindo-se de morta. No seu tresloucado desassossego, não percebem também desta vez que o artifício é sempre o mesmo - estender-se, e que, no final, aquela que se dá arrancará a máscara e voltará a espalhar a destruição.

Corre a lenda que as panteras, apesar de ferozes com o resto dos animais, são entre si seres bastante sociáveis e cordiais. Defendem seus filhos e se comportam decentemente com seus amigos, seja na sorte ou no infortúnio. Eliano conta que um caçador tinha em sua casa uma pantera mansa e um cabrito que haviam se tornado bons amigos. O cabrito morreu e o caçador lançou-o como alimento para a pantera, mas esta, reconhecendo o amigo, recusou-se a comê-lo, mantendo a mesma atitude durante vários dias, no que pesasse a sua fome. Finalmente o caçador lhe apresentou outro cabrito, que ela devorou sem demora. As panteras são atrevidas e ferozes, mas não alardeiam sua força e violência, ao contrário: freqüentemente oferecem um aspecto exterior tranqüilo, apresentando-se suavemente, com discrição.

Todos estes dados nos levam a pensar: mas será verdade? A pantera realmente tem um odor perfumado? Zoólogos dizem que não - a pantera não apresenta nenhum perfume especial a não ser aquele que emana de todo e qualquer felino saudável e bem tratado, incluindo aí os gatos. Que o inebriante perfume das panteras não passa de lenda. Mas cá entre nós, isso importa? O que temos aí são metáforas. E metáforas são verdades do espírito. A Sedução representa o domínio do universo simbólico, diz Baudrillard.

Envolta em um halo perfumado, exibindo o luxo de sua pele sedosa e atraente, sedenta por vinho, zelosa para com sua árvore de cânfora, a pantera ondula em seu passo elástico por um universo de delícias e crueldades. Uma aristocrata do espírito e dos sentidos.

Bela. Feiticeira. Sedutora. E solitária.


Zoe de Camaris


BIBLIOGRAFIA

O artigo foi composto tendo como referências o livro Da Sedução, de Jean Baudrillard; uma apreciação crítica da mesma obra, feita por Cristóbal Holzapfel da Universidade do Chile; antigos bestiários, entre eles o de F. Cardini - Monstros, feras, animais no imaginário medieval; o estudo Arqueologia das Trevas de Matteo Meschiari, e um texto que encontrei na Internet. Não consegui entrar em contato com os responsáveis pelo site e o texto disponível na web não se encontra assinado e nem dá maiores pistas sobre o autor. Acredito ser uma tradução para o espanhol de algum dos livros de Marcel Detienne, se não me falha o faro e as vibrissas. Os últimos trechos do item "Pantera", em que se discorre sobre as relações similaridade
entre humano e animal, são resenhas do texto em questão.



A Pantera de Cartier Posted by Hello

Que não se perca o prumo

Ainda está longe o momento em que não terei mais panteras para postar. E depois, sei que elas irão aparecer, sei que panteras se multiplicam em algum lugar - devo estar causando algum benefício mito-poético ao mundo. E se um dia faltarem panteras no meu ninho, troco de habitat, mudo para Palavra de Sereia (sereia fala?) e terei mais uma tonelada de poemas, histórias e insights bonitinhos para deliciar meus fiéis leitores. Bem, esse trelelê todo é só para anunciar mais um dos artigos de minha rude e modesta lavra sobre a besta e suave fera. Perfume de Pantera. Enfim, num espacinho só meu. Meu santuário ecológico.

Zoe


segunda-feira, julho 26, 2004


Fever Posted by Hello

Temperatura Elevada

Há tempos não sentia febre, febre alta. É interessante como o mundo onírico se modifica e retornamos com a percepção aguçada. Comigo acontece. Sempre.

(...) G. olha pra mim ao pôr do sol. Diz que tenho olhos lilases de crepúsculo. Estende um manto vermelho sobre as ondas do mar e me mostra, ao vivo, um poema de amor.

.............

interdição
metafísica


a fenda descortina o abismo
você quer - não se defende
entre o desejo e objeto de desejo
toda e nenhuma distância
e de prazer se precipita
nos olhos do lince abissal

as pupilas caem lisas
escorrem nas pedras cruas
tão nuas quanto a água do poço
e mergulham solúveis na miragem

você sucumbe

estamos frente a frente
duplos,
em um espelho de obsidiana

Zoe,
ainda cintilando



sexta-feira, julho 23, 2004


Fúrias Posted by Hello

Mênades

o que fazem essas mênades-giras rondando as raízes dos cabelos e que arrancam de tristeza o meu corpo do chão? rainhas do excesso, rito desembestado, esgueirando-se columbrinas pelos dedos descolados, elegia sabática a uma deusa da ira? grito de vinho e fumaça que vem do fundo do ventre, precipício que se abre e me atiro - desvaneça-se por hora, para que eu possa vê-lo sem véus, tocar-lhe sem receio as faces e escute seu murmúrio quente entre as serpentes vivas.

Zoe de Camaris

BRINCANDO PERTO DA JAULA


O silêncio da pantera é denso,
é feito o silêncio do suspense,
o efeito dos filmes de tensão:
feito Sob o Domínio do Medo,
de Sam Peckinpah.

O silêncio da pantera é suave,
sim, quem há de negar a verdade:
desejamos ver a pantera,
tocar sua negra beleza,
quem sabe mesmo levá-la pra casa.

O silêncio da pantera seduz,
até que se rompe
num rosnado selvagem:
o pavor toma conta
e só nos resta desejar paz.

O silêncio da pantera é a paz.

Ivan Justen

A Paixão de Galatéa Posted by Hello

CANÇÃO DE AMOR DA JOVEM LOUCA

Silvia Plath


Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente)


traduzido por Maria Luíza Nogueira
in A REDOMA DE CRISTAL,1971.