terça-feira, junho 28, 2005

THE REAL PANTHER


Raquel


Um ano de Palavra. De Pantera. A palavra tá na boa, mas e a Pantera? Sempre gostei do bicho, lembranças de infância. Depois foi Cat People, o filme. David Bowie. A tragédia de Minas na primeira página. O texto da Colasanti. Toda mulher tem uma pantera, rugindo escondida - outras, nem tanto. Aí me perguntaram: - É seu animal de poder? Sei lá. Gosto do bicho e acredito que isso não determine minha condição xamânica. Talvez meu animal seja só um gatinho. Talvez um pássaro, como aventou Tuga Martins. Penso que é uma raposa vermelha e depois mudo de idéia. Tenho um "zoelógico" interno. Não sei se o que determina o "animal de poder" é a identificação primeira. Tenho achado que não. O medo pode ser determinante. E eu não tenho medo de panteras, nem de tigres, nem de nada que mie.

Palavra de Pantera é um blog que fala de Sedução. Tudo que é sedução não é amor. Amor não tem nada a ver com isso razão de cismas e sismas. Delatar as estratégias fatais. Saber reconhecê-las para descartá-las e ficar com que me interessa. Prefiro deixar aqui, bem claras, as pegadas - A Marca da Pantera. Depois que escrevo, saio voando.

Pantera mesmo é minha amiga Raquel que não gosta de felinos. Duplamente compreensível: e o Batman lá gostava de morcegos? Um dia, quem sabe, Raquel dê de cara com sua pantera. Tá na cara. No corpo. Nos gestos da minha melhor amiga. Até o Ivanzinho, filho dileto da Palavra, reconhece.

Hoje é aniversário da Raquel. Juro que não pensei nisso quando abri o blog dia 28 de junho apesar de ter reconhecido sua panterice meses antes, quando traduzíamos do italiano para o português um artigo de Matteo Meschiari, A Arqueologia das trevas - arquétipo do felino na pré-história. O gato Edgar Allan Poe insistia em pular no colo da fera e atrapalhar os diversos rascunhos. E olhe que o bicho é arisco.

Então, feliz aniversário para o Palavra de Pantera. E um super feliz aniversário para minha linda amiga.

Beijos de coração, Quelitcha.
Um arcano XI de presente pra você.


Zoe

quinta-feira, junho 23, 2005

ANIVERSÁRIO DA PALAVRA



Mulher Gato, Cruz e Souza, The Concretes, Bowie & Cat People, balacobaco, Borges, onirismos, Plath, Silvia Silvia, o surtado Ivan Santa Ana, Utopia com pilhas, de Oliveira Marly, Sla Radical Dance Disco Club, o argênteo Montesino, Chamizinho Mário El-califa, Maiakovski garotão, Galatéa, mênades roucas, febre elevada, estratégias fatais de sedução, Lispector com todo respeito, Lucky Strikes (sempre), avós de jaguares demoníacos, Marcos Prado I, Marcos Prado II, Marcos Prado III, a bela Greta Benitez, o cavaleiro das trevas, Rilke, Flor Espanca, Leminskis, Gilka Machado, meus deus Murilo Mendes, Kafka (ou Max Brod), lágrimas, rima Rimbaud, Pinduca, Puga, Eliot, Santa Hilda Hilst, Nicholas Cage (...), Vicky Dolabella, Verlaine e Maria Teca, Blake Blake Blake, Salomé, mil Salomés, a boca de João Batista, Apollinaire, i love Julio Cortazar, Klimt, Glenda Jackson, Alla Nazimova, Sereias & Mermaids, quando crescer quero ser a Julie Newmar, o poema Octavio Paz, Milagros Cerron, Monroe com cauda de peixe, café com pele e creme, Molly Bloom, An Piérle, Breton El Mago, Flor Azul e João Acuio, mon amour, na cabeça no sexo no coração – é o ANIVERSÁRIO DA PANTERA !

Dia 28 de junho de 2004 me dei de presente este blog. Grata a todos vcs pela leitura, comentários, críticas e apreciações. Tá valendo.

Zoe

terça-feira, junho 07, 2005


Man Ray / Les Amoureux

A UNIÃO LIVRE
André Breton

Minha mulher com a cabeleira de fogo de madeira
Com pensamentos de relâmpagos de calor
Com o talhe de ampulheta
Minha mulher com o talhe de lontra entre os dentes do tigre
Minha mulher com a boca de roseta e de buquê de estrelas de última grandeza
Com dentes de rastro de camundongo branco sobre a terra branca
Com a língua de âmbar e de vidro lixados
Minha mulher com a língua de hóstia apunhalada
Com língua de boneca que abre e fecha os olhos
Com a língua de pedra incrível
Minha mulher com cílios de lápis de escrita de criança
Com sobrancelhas de borda de ninho de andorinha
Minha mulher com têmporas de ardósia de teto de estufa
E com vapor nas vidraças
Minha mulher com ombros de champanhe
E de fonte com cabeças de delfins sob o gelo
Minha mulher com punhos de fósforos
Minha mulher com dedos de acaso e de às de copas
Com dedos de feno ceifado
Minha mulher com axilas de marta e de faia
Da noite de São João
De ligustro de ninho de acarás
Com braços de espuma de mar e de eclusa
E de mistura de trigo e de moinho
Minha mulher com pernas de foguete
Com movimentos de relojoaria e de desespero
Minha mulher com panturrilhas de fibra de sabugueiro
Minha mulher com pés de iniciais
Com pés de chaveiros com pés de pardais que bebem
Minha mulher com pescoço de cevada perolada
Minha mulher com a garganta de Vale d’ouro
De encontros no leito mesmo da torrente
Com seios de noite
Com seios de toupeira marinha
Minha mulher com seios de cadinho de rubi
Com seios de espectro de rosa sobre o orvalho
Minha mulher com o ventre de desdobra de leque dos dias
Com ventre de garra gigante
Minha mulher com dorso de ave que foge vertical
O dorso de mercúrio
O dorso de luz
A nuca de pedra rolada e de giz molhado
E de queda de um copo do qual se acaba de beber
Minha mulher com ancas de barquilha
Com ancas de candelabro e de penas de flechas
E de hastes de pluma de pavão branco
De balanço insensível
Minha mulher com nalgas de arenito e de amianto
Minha mulher com nalgas de dorso de cisne
Minha mulher com nalgas de primavera
Com sexo de gladíolo
Minha mulher com sexo de mina aurífera e de ornitorrinco
Minha mulher com sexo d’algas e de bombons antigos
Minha mulher com sexo de espelho
Minha mulher com olhos cheios de lágrimas
Com olhos de panóplia violeta e de agulha imantada
Minha mulher com olhos de savana
Minha mulher com olhos d’água para beber na prisão
Minha mulher com olhos de madeira sempre sob o machado
Com olhos de nível d’água de nível do ar da terra e de fogo


p.s.: a tradução apresentada é o resultado parcial (e portanto, sujeito a modificações) de um esforço conjunto - colaboraram a professora Suzel (CELIN-UFPR), Barbara Skolimowska, Raquel Frotta e Ivan Justen Santana.

terça-feira, maio 31, 2005

L'Union Libre
André Breton


Magritte / Les Profondeurs du Plaisir


Ma femme à la chevelure de feu de bois

Aux pensées d'éclairs de chaleur

A la taille de sablier

Ma femme à la taille de loutre entre les dents du tigre

Ma femme à la bouche de cocarde et de bouquet d'étoiles de

dernière grandeur

Aux dents d'empreintes de souris blanche sur la terre blanche

A la langue d'ambre et de verre frottés

Ma femme à la langue d'hostie poignardée

A la langue de poupée qui ouvre et ferme les yeux

A la langue de pierre incroyable

Ma femme aux cils de bâtons d'écriture d'enfant

Aux sourcils de bord de nid d'hirondelle

Ma femme aux tempes d'ardoise de toit de serre

Et de buée aux vitres

Ma femme aux épaules de champagne

Et de fontaine à têtes de dauphins sous la glace

Ma femme aux poignets d'allumettes

Ma femme aux doigts de hasard et d'as de coeur

Aux doigts de foin coupé

Ma femme aux aisselles de martre et de fênes

De nuit de la Saint-Jean

De troène et de nid de scalares

Aux bras d'écume de mer et d'écluse

Et de mélange du blé et du moulin

Ma femme aux jambes de fusée

Aux mouvements d'horlogerie et de désespoir

Ma femme aux mollets de moelle de sureau

Ma femme aux pieds d'initiales

Aux pieds de trousseaux de clés aux pieds de calfats qui boivent

Ma femme au cou d'orge imperlé

Ma femme à la gorge de Val d'or

De rendez-vous dans le lit même du torrent

Aux seins de nuit

Ma femme aux seins de taupinière marine

Ma femme aux seins de creuset du rubis

Aux seins de spectre de la rose sous la rosée

Ma femme au ventre de dépliement d'éventail des jours

Au ventre de griffe géante

Ma femme au dos d'oiseau qui fuit vertical

Au dos de vif-argent

Au dos de lumière

A la nuque de pierre roulée et de craie mouillée

Et de chute d'un verre dans lequel on vient de boire

Ma femme aux hanches de nacelle

Aux hanches de lustre et de pennes de flèche

Et de tiges de plumes de paon blanc

De balance insensible

Ma femme aux fesses de grès et d'amiante

Ma femme aux fesses de dos de cygne

Ma femme aux fesses de printemps

Au sexe de glaïeul

Ma femme au sexe de placer et d'ornithorynque

Ma femme au sexe d'algue et de bonbons anciens

Ma femme au sexe de miroir

Ma femme aux yeux pleins de larmes

Aux yeux de panoplie violette et d'aiguille aimantée

Ma femme aux yeux de savane

Ma femme aux yeux d'eau pour boire en prison

Ma femme aux yeux de bois toujours sous la hache

Aux yeux de niveau d'eau de niveau d'air de terre et de feu



Clair de terre, 1931
BOMBONS


Armonia/Alejandro Puga

Meu primeiro contato com o Surrealismo se deu pelo caminho mais óbvio: as telas de Salvador Dali, os relógios moles, o dorso nu de Gala e suas inúmeras malas. As Confissões Inconfessáveis. Luis Buñel na Cinemateca, Un Chien Andalou. Mais Buñel, sempre Buñuel. Em Ouro Preto, edição da Tipografia do Fundo, uma pequena coletânea de poemas traduzidos. Robert Desnos, o dorminhoco genial. Benjamim Peret e o Amor Sublime. E, claro, André Breton. Leituras desencontradas, pedaços de música pairando na pedra. O Tarot de Marselha no Surrealismo. Ué, poetas consagrados levam em conta sistemas divinatórios? A turma toda se reúne para bolar um Jogo de Tarot? Enquanto isso, na Universidade, os bambambans torcem o narizinho empinado quando uma aluna mais louquinha resolve estudar o barroco mineiro identificando símbolos e alegorias tarológicas nas igrejas. Na academia das letras (abecedê) nunca leram Italo Calvino. Bem, lá se vão os tempos em que estas coisas realmente me irritavam. Hoje, sorrio com descaso quando converso com alguns partidários do cientificismo besta. Outro exemplo de grassa ignorância, é quando gentilmente postava um ou outro poema numa lista destinada a discutir ocultismo e algum bruxo de esquina me vinha com a pertinente observação: - Ô Zoe de Camaris, isso aqui é lista de magia !! Das primeiras vezes, até respondia. Hoje, já nem posto. Pérolas aos poucos, já dizia Marcos Prado. Então, por essas e outras, aproveitando que meu blog depois de quase um ano conquistou alguns leitores, vamos ao que interessa. Os poemas.

Coloquei um arquivo sonoro com a voz de Breton recitando L'Union Libre, poema de 1930, em que a Deusa comparece mais bem vestida que nas visões de Apuleio. A tradução vem a seguir, assim que eu e uma boa turma de amigos dedicados (você está convidado) conseguirmos chegar a uma primeira solução.

Zoe

domingo, maio 29, 2005

PERSEU


Bernard Collet / Meduse


O Triunfo da Argúcia Sobre o Sofrimento
Sivia Plath


Apenas a cabeça mostra você no prodigioso ato
De digerir o que apenas séculos digerem:
O mamute, claudicante estatuária de tristeza,
Indissolúvel o bastante para enigmar as entranhas
De uma baleia com buracos e buracos, e sangrá-la branca
Nos mares salgados. Hércules não teve problemas,
Lavando aqueles estábulos: lágrimas de um bebê o fariam.
Mas quem voluntar-se-ia para engolir o Laocoonte,
O Cárcere Mortal e aquelas inumeráveis pietás
Ulcerando as paredes sombrias de capelas da Europa,
Museus e sepulcros?
Você.
Você
Que emprestou penas a seus pés, não chumbo,
Não pregos, e um espelho para manter a cabeça ofídia
Em perspectiva segura, podia encarar a careta-górgone
Da agonia humana: um olhar para amortecidos
Membros: não um piscar-basilisco, não um duplo nham,
Mas todos os acumulados últimos grunhidos, gemidos,
Gritos e dísticos heróicos concluindo as milhões
De tragédias encenadas nestes tablados sanguencharcados,
E cada aflição privada, uma serpente sibilante
Para petrificar seus olhos, e cada catástrofe
Municipal, uma extensão convulsa de cobra,
E o declínio de impérios a grossa casca de uma vasta
Anaconda.
Imagine: o mundo
Socado a uma cabeça de feto, barrancado, cosido
Com sofrimento desde a concepção para cima, e aqui
Está ele à mão. Saibro no olho ou um dedão
Machucado fazem qualquer um se encolher, mas o globo todo
Expressivo de pesar torna deuses, como reis, em rochas.
Aquelas rochas, rachadas e gastas, por si mesmas então vão
Se estremunhando e estendem o desespero na face
Escura da terra.
Assim o rigor mortis viria a endurecer
Toda criação, não fosse uma barriga maior
Ainda que engole a alegria.
Você entra agora,
Armado com penas tanto para cócegas quanto vôos,
E um espelho de parque de diversões que transforma a musa trágica
Na cabeça decapitada de uma boneca soturna, uma trança,
Uma serpente enlameada, pendurando-se débil como a absurda boca
Pendura-se em seu lúgubre amuo. Onde estão
Os clássicos membros da teimosa Antígone?
Os robes vermelhos reais de Fedra? As lagrimalumbradas
Tristezas da gentil duquesa de Malfi?
Idas
Na convulsão profunda segurando sua face, músculos
E tendões enfeixados, vitoriosos, como a cósmica
Risada acaba com as incosturáveis, pestilentas feridas
De um eterno sofredor.
Para você
Perseu, a palma, e possa você sopesar
E contrapesar até o tempo parar, a celestial balança
Que pesa nossa loucura com nossa sanidade.



Espelho português: Ivan (Perseu) Justen Santana

segunda-feira, maio 23, 2005

AZUL é a ROSA



blaue rose


"El Surrealismo es - rayo invisible- que algún día nos permitirá superar a nuestros adversarios. -Deja ya de temblar, cuerpo. - Este verano, las rosas son azules; el bosque de cristal. La tierra envuelta en el verdor me causa tan poca impresión como un fantasma. Vivir y dejar vivir son soluciones imaginarias. La existencia está en otra parte."

Andre Breton
Manifiesto del Surrealismo

quarta-feira, maio 11, 2005

Sobre Olhar Dentro Dos Olhos De Um Amante Demônio


farol para Cougar


Eis duas pupilas
cujas luas negras
aleijam quem arrisca
olhar pra elas:

cada bela dama
que as perscruta
assume a forma
de um sapo.

Dentro desses espelhos
o mundo se inverte:
dos admiradores
os dardos ardentes

voltam pra machucar
a mão arremessadora
e inflamar com perigo
a ferida escarlate.

Busquei minha imagem
no espelho cáustico,
que fogo faria estrago
numa face bruxesca?

Então encarei aquela fornalha
onde as belezas queimam
mas achei Vênus radiante
refletida lá dentro.


Sylvia Plath

Refletida por Ivan Justen Santana

.........

On Looking Into The Eyes Of A Demon Lover


Catty by Immuno


Here are two pupils
whose moons of black
transform to cripples
all who look:

each lovely lady
who peers inside
take on the body
of a toad.

Within these mirrors
the world inverts:
the fond admirer's
burning darts

turn back to injure
the thrusting hand
and inflame to danger
the scarlet wound.

I sought my image
in the scorching glass,
for what fire could damage
a witch's face?

So I stared in that furnace
where beauties char
but found radiant Venus
reflected there.


Sylvia Plath

quarta-feira, maio 04, 2005

Uma Xícara de Chá? Café Preto sem Açúcar?


fur covered breakfast / meret oppenheim



CANÇÃO DE AMOR DE J. ALFRED PRUFROCK
T.S. Eliot



S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66



Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão . . .
Oh, não perguntes: "Qual?"
Sigamos a cumprir nossa visita.

No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.

A fulva neblina que roça na vidraça suas espáduas,
A fumaça amarela que na vidraça seu focinho esfrega
E cuja língua resvala nas esquinas do crepúsculo,
Pousou sobre as poças aninhadas na sarjeta,
Deixou cair sobre seu dorso a fuligem das chaminés,
Deslizou furtiva no terraço, um repentino salto alçou,
E ao perceber que era uma tenra noite de outubro,
Enrodilhou-se ao redor da casa e adormeceu.

E na verdade tempo haverá
Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça,
Roçando suas espáduas na vidraça;
Tempo haverá, tempo haverá
Para moldar um rosto com que enfrentar
Os rostos que encontrares;
Tempo para matar e criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias em que mãos
Sobre teu prato erguem, mas depois deixam cair uma questão;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para uma centena de indecisões,
E uma centena de visões e revisões,
Antes do chá com torradas.

No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.
E na verdade tempo haverá
Para dar rédeas à imaginação. "Ousarei" E . . "Ousarei?"
Tempo para voltar e descer os degraus,
Com uma calva entreaberta em meus cabelos
(Dirão eles: "Como andam ralos seus cabelos!")
- Meu fraque, meu colarinho a empinar-me com firmeza o
queixo,
Minha soberba e modesta gravata, mas que um singelo alfinete
apruma
(Dirão eles: "Mas como estão finos seus braços e pernas! ")
- Ousarei
Perturbar o universo?
Em um minuto apenas há tempo
Para decisões e revisões que um minuto revoga.

Pois já conheci a todos, a todos conheci
- Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café;
Percebo vozes que fenecem com uma agonia de outono
Sob a música de um quarto longínquo.
Como então me atreveria?

E já conheci os olhos, a todos conheci
- Os olhos que te fixam na fórmula de uma frase;
Mas se a fórmulas me confino, gingando sobre um alfinete,
Ou se alfinetado me sinto a colear rente à parede,
Como então começaria eu a cuspir
Todo o bagaço de meus dias e caminhos?
E como iria atrever-me?

E já conheci também os braços, a todos conheci
- Alvos e desnudos braços ou de braceletes anelados
(Mas à luz de uma lâmpada, lânguidos se quedam
Com sua leve penugem castanha!)
Será o perfume de um vestido
Que me faz divagar tanto?
Braços que sobre a mesa repousam, ou num xale se enredam.
E ainda assim me atreveria?
E como o iniciaria?

.......

Diria eu que muito caminhei sob a penumbra das vielas
E vi a fumaça a desprender-se dos cachimbos
De homens solitários em mangas de camisa, à janela
debruçados?

Eu teria sido um par de espedaçadas garras
A esgueirar-me pelo fundo de silentes mares.

.......

E a tarde e o crepúsculo tão docemente adormecem!
Por longos dedos acariciados,
Entorpecidos . . . exangues . . . ou a fingir-se de enfermos,
Lá no fundo estirados, aqui, ao nosso lado.
Após o chá, os biscoitos, os sorvetes,
Teria eu forças para enervar o instante e induzi-lo à sua crise?
Embora já tenha chorado e jejuado, chorado e rezado,
Embora já tenha visto minha cabeça (a calva mais cavada)
servida numa travessa,
Não sou profeta - mas isso pouco importa;
Percebi quando titubeou minha grandeza,
E vi o eterno Lacaio a reprimir o riso, tendo nas mãos meu
sobretudo.
Enfim, tive medo.

E valeria a pena, afinal,
Após as chávenas, a geléia, o chá,
Entre porcelanas e algumas palavras que disseste,
Teria valido a pena
Cortar o assunto com um sorriso,
Comprimir todo o universo numa bola
E arremessá-la ao vértice de uma suprema indagação,
Dizer: "Sou Lázaro, venho de entre os mortos,
Retorno para tudo vos contar, tudo vos contarei."
- Se alguém, ao colocar sob a cabeça um travesseiro,
Dissesse: "Não é absolutamente isso o que quis dizer
Não é nada disso, em absoluto."

E valeria a pena, afinal,
Teria valido a pena,
Após os poentes, as ruas e os quintais polvilhados de rocio,
Após as novelas, as chávenas de chá, após
O arrastar das saias no assoalho
- Tudo isso, e tanto mais ainda? -
Impossível exprimir exatamente o que penso!
Mas se uma lanterna mágica projetasse
Na tela os nervos em retalhos . . .
Teria valido a pena,
Se alguém, ao colocar um travesseiro ou ao tirar seu xale às
pressas,
E ao voltar em direção à janela, dissesse:
"Não é absolutamente isso,
Não é isso o que quis dizer, em absoluto."

Não! Não sou o Príncipe Hamlet, nem pretendi sê-lo.
Sou um lorde assistente, o que tudo fará
Por ver surgir algum progresso, iniciar uma ou duas cenas,
Aconselhar o príncipe; enfim, um instrumento de fácil
manuseio,
Respeitoso, contente de ser útil,
Político, prudente e meticuloso;
Cheio de máximas e aforismos, mas algo obtuso;
As vezes, de fato, quase ridículo
Quase o Idiota, às vezes.

Envelheci . . . envelheci . . .
Andarei com os fundilhos das calças amarrotados.

Repartirei ao meio meus cabelos? Ousarei comer um
pêssego?
Vestirei brancas calças de flanela, e pelas praias andarei.
Ouvi cantar as sereias, umas para as outras.

Não creio que um dia elas cantem para mim.

Vi-as cavalgando rumo ao largo,
A pentear as brancas crinas das ondas que refluem
Quando o vento um claro-escuro abre nas águas.

Tardamos nas câmaras do mar
Junto às ondinas com sua grinalda de algas rubras e castanhas
Até sermos acordados por vozes humanas. E nos afogarmos.


tradução de Ivan Junqueira

terça-feira, maio 03, 2005


Oleg Zhivetin


Faz sol, faz frio. Curitiba está em casa. Perfeito para flores azuis. E elas nascem nos cantinhos - os miosótis selvagens da Morgye - brotando do cimento. Não há nada que encante tanto como a força bruta das raízes rompendo a pedra, o azul vibrante que quase cega contrapondo-se à delicadeza de uma flor mínima.

Cansei de sonhar com o impossível, tinha me casado com aquilo que não atingia. E um dia desses, vi a tal flor, magnética, olhando pra mim lá de cima. Resolvi colocar um ponto na sua frente. Um ponto final. E como se eu tivesse uma varinha mágica, ela veio até mim, em linha reta. Agora, tenho a flor azul nas mãos. De duas uma: ou se desfolha ou fica vermelha.

Até porque, depois que os japoneses inventaram a rosa azul, tudo é possível.

Zoe
p.s.: aproveitando o presente, Flowers for me.
Flowers for you.

little blue flower / von gunnar braun-2004




nada azul é comestível

vento entre pétalas hostis

a palavra e a diferença

liras intácteis, entretanto, azuis

minúscula flor erecta

brusca incólume pétala



zdc/2000


FORGET-ME-NOT



se é azul o céu claro

vive o miosótis

uma semana no jarro


zdc/98

terça-feira, abril 05, 2005




corpo, misturar o corpo

copo, mistura oca

conteúdo, substância

alma, separar a alma


dentro

o ovo vivo de vento



Zoe de Camaris
97

quinta-feira, março 31, 2005



o vento espalha paisagens no ventre

que sol firme
fere
a lua que mingua na língua macia ?

a seta de apolo me transpassa
e atinge um olho d’água
que explode do centro da terra

o ventre espelha paisagens ao vento



Zoe,
98

sábado, março 26, 2005

Medusa de Fogo




A simples bulha surda
Do meu coração batendo
Poderá te acordar.
Mesmo a penugem da lua
Que cai sobre o ombro nu
Das árvores, tão de leve,
Poderá te acordar.
A simples caída da bolha
D'água sobre a folha,
Por ser fria como a neve,
Poderá te acordar.
Só porque a rosa lembra
Um grito vermelho,
Retiro-a de diante do espelho
Porque - de tão rubra -
Poderá te acordar.

E se nasce a manhã
Calço-lhe logo pés de lã,
Porque ela, com seus pássaros,
Poderá te acordar.
Mesmo o meu maior silêncio,
O meu mudo pé-ante-pé,
De tão mudo que é,
Não irá te acordar?

Ó medusa de fogo,
Conserva-te dormida.
Com o teu fogo ruivo e meu,
Qual monstruosa ferida.
Como data esquecida.
Como aranha escondida
Num ângulo da parede.
Como rima água-marinha
Que morreu de sede.

E eu serei tão breve
Que, um dia, deixarei
Também, até de respirar,
Para não te acordar.
Ó medusa de fogo,
Dormida sob a neve!


Cassiano Ricardo

sexta-feira, março 25, 2005

Poema que Teamo


The Kiss / Rodin



Em todas as vezes que Te

Poema em mim

Pra Sempre

Poema Dia

Noite

Orvalho

Penumbra

Poema sol Menor em mim

Rosa escancarada no ato

Poema tanto enquanto

Poema só comigo

Poema pra sempre

Poema comigo

Me Poema

Enquanto

Consigo


.

Zoe de Camaris
madrugada
17 de setembro/2004

quinta-feira, março 24, 2005

So Strange


Partemed

Não se encara a Medusa. Não sem sem as estratégias de Hermes, sem a proteção de Atena, sem os apetrechos mágicos, sem o Elmo da Invisibilidade daquele que não se diz o nome. Nem assim. É melhor mudar de assunto.


MEDUSA


An Pierlé


Estranha, em águas agitadas
Me afogando feito uma pateta
Estranho, como minha percepção
É pincelada por uma neblina azul
Estranho, como vim mesmo parar aqui
Morta de vontade de ainda viver
Peixes mordiscam meu corpo
Feito um almoço grátis flutuante

Se você mergulhar sozinho
Vai se perder no mar
Perdeu o senso de direção?
Somente me siga
Estarei por perto
Se você mergulhar, mergulhar, mergulhar

Estranho, como debaixo d´água
O som são ondas acima no ar
Estranha, me escuto respirando
Vou me erguendo ao perder ar
Estranho, agora parece estúpido
Construída sobre incenso e espelhos
Peças quebradas no fundo eram só o que faltava
Se você mergulhar sozinho...
Se você mergulhar, mergulhar, mergulhar...


Versão curitibana: Ivan Santana

domingo, março 13, 2005

M E D U S A


La Méduse Amoureuse


Strange, in troubled water
I am drowning in a goofy way
Strange, how my perception
Is slightly coloured by a blue haze
Strange, how I even got here
I was dying to be still alive
Fished nibble at my body
As I’m a free meal floating by

If you dive on your own
You’ll get lost in the sea
Lost your sense of direction?
Just follow me
I’ll be near
If you dive, dive, dive

Strange, how under water
Sound is waves upon the air
strange, I hear myself breathing
I am rising as I lose air
Strange, it now feels stupid
Built on incense and mirrors
broken pieces on the bottom is the last thing we need
If you dive on your own…
If you dive dive dive…

An Piérle

quinta-feira, março 03, 2005

Fragmento final do monólogo de Molly Bloom,
de Ulysses, de James Joyce





o sol brilha para você ele me disse no dia em que estávamos deitados entre os rododendros no cabo de Howth com seu terno de tweed cinza e seu chapéu de palha no dia em que eu o levei a se declarar sim primeiro eu lhe dei um pedacinho de doce de amêndoa que tinha em minha boca e era ano bissexto como agora sim há 16 anos meu Deus depois daquele longo beijo quase perdi o fôlego sim ele disse que eu era uma flor da montanha sim certo somos flores todo o corpo da mulher sim foi a única coisa verdadeira que ele me disse em sua vida e o sol está brilhando para você hoje sim por isso ele me agradava vi que ele sabia ou sentia o que era uma mulher e tive a certeza de que poderia sempre fazer dele o que eu quisesse e dei-lhe todo prazer que pude para levá-lo a me pedir o sim e eu não quis responder logo só fiquei olhando para o mar e para o céu pensando em tantas coisas que ele não sabia em Mulvey e no Sr. Stanhope e Hester e papai e no velho capitão Groves e nos marinheiros que brincavam de boca-de-forno de cabra-cega de mão-na-mula como eles diziam no molhe e a sentinela defronte à casa do governador com a coisa em redor de seu capacete branco pobre diabo meio assado e as moças espanholas rindo com seus xales e seus pentes enormes e os pregões na manhã os gregos judeus árabes e não sei que diabo de gente ainda de todos os cantos da Europa e na rua Duke e o mercado de aves cheio de cacarejos em frente a casa de Lalaby Sharon e os pobres burricos tropicando meio adormecidos e os vagabundos encapotados dormindo na sombra das escadas e as enormes rodas dos carros de boi e o velho castelo velho de milênios sim e aqueles belos mouros todos de branco e de turbante como reis pedindo a você que se sente em suas minúsculas barracas e Ronda janelas velhas de pousadas olhos espiando por detrás de rótulas para que seu amante beije as grades de ferro e as tabernas semicerradas à noite e as castanholas e a noite que perdemos o barco em Algeciras o vigia rondando sereno com sua lanterna e Oh aquela terrível torrente profundofluente Oh e o mar carmim às vezes como fogo e os poentes gloriosos e as figueiras nos jardins da Alameda sim todas as estranhas vielas e casas rosa e azul e laranja e os rosais e os jasmins e os gerânios e os cáctus e Gibraltar quando eu era jovem uma Flor da montanha sim quando eu pus a rosa em meus cabelos como as moças andaluzas ou de certo uma vermelha sim e como ele me beijou sob o muro mourisco e eu pensei bem tanto faz ele como outro e então convidei-o com os olhos a perguntar-me de novo sim ele perguntou-me se eu queria sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro enlacei-o com meus braços sim e puxei-o para mim para que pudesse sentir meus seios só perfume sim e seu coração disparando como louco e sim eu disse sim eu quero Sim.


Transcriação: Haroldo de Campos
1971

Leitura do poema: Bete Coelho,
in Irish Dreams / Sonhos Irlandeses

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Havia uma lâmpada de cobre


Magic Mirror / Paul Klee


Havia uma lâmpada de cobre
Que ardia há muitos anos
Havia um espelho encantado
Onde se via o rosto
O rosto que íamos ter
No leito dourado da morte
Havia um livro de couro azul
Onde cabiam céu e terra
A água o fogo os treze mistérios
Uma ampulheta fiava o tempo
Com sua agulha de pó
Havia uma pesada fechadura
Que filava dura mordedura
Na porta de carvalho espesso
Fechando a torre para sempre
No quarto redondo a mesa
A abóbada de cal a janela
De vidro debruados a chumbo
E os ratos marinhavam pela hera
Em volta da torre de pedra
Onde o sol já não chegava

Era realmente horrivelmente romântico


BÓRIS VIAN
(Editora Assirio e Alvim, Coleção Rei Lagarto/Lisboa)