quarta-feira, julho 20, 2005

Sono no Deserto de Mojave
Sylvia Plath



Aqui fora não há pedras de lareira,
Grãos quentes, simplesmente. É seco, seco.
E o ar, perigoso. O meio-dia age bizarramente
Sobre o olho da mente erigindo uma linha
De choupos à meia distância, o único
Objeto além da estrada louca, reta
Ao lado da qual se pode recordar pessoas e casas.
Um vento frio deve habitar essas folhas
E um orvalho deve acumular nelas, mais precioso que dinheiro,
Na hora azul antes do sol se erguer.
Ainda assim elas recuam, intocáveis como o amanhã,
Ou aquelas ficções cintilantes de água espirrada
Que deslizam adiante dos muito sedentos.

Eu penso nos lagartos arejando suas línguas
Na fissura de uma sombra extremamente pequena
E o sapo resguardando a gotícula de seu coração.
O deserto é branco feito o olho de um cego,
Desconfortável feito sal. Cobra e pássaro
Cochilam por trás de velhas máscaras de fúria.
Nós suamos como cães de lareira no vento.
O sol põe fora sua escória. Onde nós deitamos
Os grilos calor-rachados se congregam
Em suas armaduras pretas e gritam.
A lua diurna se acende como uma mãe penalizada,
E os grilos vem se arrastando aos nossos cabelos
Para passar a noite curta à toa.


Versão brasileira: Ivan Justen Santana

..................

Sleep In The Mojave Desert
Silvia Plath


Out here there are no hearthstones,
Hot grains, simply. It is dry, dry.
And the air dangerous. Noonday acts queerly
On the mind's eye erecting a line
Of poplars in the middle distance, the only
Object beside the mad, straight road
One can remember men and houses by.
A cool wind should inhabit these leaves
And a dew collect on them, dearer than money,
In the blue hour before sunup.
Yet they recede, untouchable as tomorrow,
Or those glittery fictions of spilt water
That glide ahead of the very thirsty.

I think of the lizards airing their tongues
In the crevice of an extremely small shadow
And the toad guarding his heart's droplet.
The desert is white as a blind man's eye,
Comfortless as salt. Snake and bird
Doze behind the old maskss of fury.
We swelter like firedogs in the wind.
The sun puts its cinder out. Where we lie
The heat-cracked crickets congregate
In their black armorplate and cry.
The day-moon lights up like a sorry mother,
And the crickets come creeping into our hair
To fiddle the short night away.

sábado, julho 09, 2005

Uma Paixão no Deserto


Bouguereau / Bacchante sur une panthère


Quando os raios do sol penetraram na caverna da mente deserta, pôs-se a lamber, bonita e coquete, o sangue das patas e do focinho; ao bocejar exibia sua terrível máquina dental e uma língua estupenda, rosa e lixa macia. Em ondulações de intensidade variável, um perfume denso acompanhava os movimentos do seu corpo e o RR enciumados: ruu...rruu Como uma mulher formosa, passava as mãos pelos pêlos da fera, dos cabelos à cauda nervosa de músculos sensíveis; arranhava devagar a nuca e os flancos sedosos e quentes; ela recolhia as garras nos estojos das patas feitos de veludo vivo, num ronronar de prazer: rru...rru... Artimanhosamente, entremostrava, exibia os seus indefiníveis encantos. O deserto passou a ficar como que povoado, passou a revelar-lhe todas as suas belezas sublimes - e a solidão, todos os seus segredos.

Décio Pignatari
baseado no conto "Une Passion dans le désert",
de Balzac

sábado, julho 02, 2005

Une Passion dans le désert
Honoré de Balzac





I

HISTÓRIA NATURAL DE UMA HISTÓRIA SOBRENATURAL


- É assustador esse espetáculo! – exclamou ela, ao sair do circo de feras do Sr. Martin.
Acabava de ver aquele ousado especulador trabalhando com sua hiena, para falar em estilo de cartaz.
Por que meios – continuou – terá conseguido domesticar seus animais para estar tão seguro da afeição deles a ponto de ...?
Esse fato que lhe parece um problema - respondi, interrompendo-a – é no entanto uma coisa natural.
Oh! – exclamou, deixando errar nos lábios um sorriso de incredulidade.
Julga então os animais inteiramente desprovidos de paixões? – perguntei-lhe. – Pois fique sabendo que nós lhe podemos dar todos os vícios devidos ao nosso estado de civilização.
Ela olhou-me com ar atônito.
Mas ao ver o sr. Martin pela primeira vez – prossegui – confesso que me escapou, como a você, uma exclamação de surpresa. Encontrava-me então perto de um antigo militar com a perna direita amputada, que entrara junto comigo. Aquele rosto me impressionara. Era uma dessas fisionomias intrépidas, marcadas com o selo da guerra e nas quais estão escritas as batalhas de Napoleão. Aquele velho soldado tinha antes de mais nada um ar de franqueza e bom humor, coisa que sempre me predispõe favoravelmente. Era sem dúvida um desses veteranos a quem nada surpreende, que encontram assunto para rir na última careta de uma camarada, enterram-no ou saqueiam-no alegremente, interpelam as balas com arrogância, enfim, cujas deliberações são rápidas, e que bem seriam capazes de confraternizar com o diabo. Depois de olhar atentamente o proprietário do circo no momento em que saía da barraca, meu companheiro franziu os lábios de modo a expressar um zombeteiro desdém com essa espécie de significativo muxoxo que se permitem os homens superiores, a fim de distinguirem dos ingênuos. Assim, quando me espantei da coragem do Sr. Martin, ele sorriu e disse-me com ar de suficiência, abanando a cabeça:
Isso não é nada !
Como! Não é nada? – retruquei. Se quisesse explicar-me esse mistério, eu lhe ficaria muito agradecido.
Após alguns instantes, durante os quais travamos relações, fomos almoçar no primeiro restaurante que se nos antolhou. À sobremesa, uma garrafa de champanhe devolveu toda a nitidez às recordações daquele curioso soldado. Contou-me a sua história, e eu reconheci que ele tivera razão em exclamar: Isto não é nada !


II

CURIOSIDADE DE MULHER

Chegando em casa, tantos afagos e promessas me fez ela que eu consenti em redigir-lhe as confidências de um soldado. No dia seguinte, ela recebeu, pois, este episódio de uma epopéia que se poderia denominar Os Franceses no Egito.


III

O DESERTO

Quando da expedição efetuada no Alto Egito pelo General Desaix, tendo um soldado provençal caído em poder dos berberes, foi conduzido por esses árabes aos desertos situados além das cataratas do Nilo.
A fim de colocar um espaço suficiente para sua tranqüilidade entre eles e o exército francês, os berberes empreenderam uma marcha forçada, só fazendo alto à noite. Acamparam ao redor de um poço oculto por palmeiras, junto às quais haviam precedentemente enterrado algumas provisões. Não imaginando que pudesse ocorrer ao prisioneiro a idéia de fugir, contentaram-se em amarrar-lhe as mãos e adormeceram todos, depois de ter comido algumas tâmaras e dado cevada aos cavalos.
Quando viu que seus inimigos não se achavam em estado de vigília, o ousado provençal serviu-se dos dentes para apoderar-se de uma cimitarra; depois, valendo-se dos joelhos para segurar a lâmina, cortou as cordas que impediam os uso das mãos e viu-se livre. Apoderou-se em seguida de uma carabina e de um punhal, fez uma provisão de tâmaras secas, um saquinho de cevada, pólvora e balas, cingiu uma cimitarra, montou num cavalo e abalou em disparada na direção em que supunha achar-se o exército francês.
Impaciente por avistar um bivaque, apressou de tal modo o corcel, já fatigado, que o pobre animal expirou, rendido dos flancos, deixando o francês a pé no meio do deserto.
Depois de marchar algum tempo pelas areias com toda coragem de um forçado que se evade, o soldado viu-se obrigado a parar; o dia já findava. Apesar da beleza do céu pelas noites do Oriente, não se sentiu com forças para continuar o caminho. Felizmente pudera alcançar uma eminência de onde se elevavam algumas palmeiras, cuja folhagem, avistada de há muito, lhe despertara no coração as mais doces esperanças. Tão grande era o seu cansaço que se deitou sobre uma pedra de granito caprichosamente talhada em forma de catre, e ali adormeceu, sem tomar nenhuma precaução para a própria defesa durante o sono. Tinha renunciado a sua vida. O último pensamento que teve ao adormecer foi de pesar, pois já se arrependera de haver abandonado os berberes, cuja vida errante começava a sorrir-lhe depois que se via longe deles e sem recursos.
Foi despertado pelo sol, cujos implacáveis raios, tombando prumo sobre o granito, produziam um calor intolerável., Ora, a o provençal tivera a inabilidade de colocar-se em sentido inverso ao da sombra ....Contemplou aquelas árvores solitárias, e estremeceu: recordaram-lhe as fustes elegantes e coroadas de longas folhas que distinguem as colunas sarracenas da catedral de Arles. Mas, quando, depois de contemplar as palmeiras, lançou os olhos em redor de si, abateu-lhe sobre a alma o mais terrível desespero. Via um oceano sem limites. As areias escuras do deserto estendiam-se a perder de vista em todas direções, e fulguravam como uma lâmina de aço abatida por luz fortíssima. Não sabia se era um mar de gelo ou lagos unidos como um espelho. Transportado em vagas, turbilhonava acima daquela terra movediça um vapor de fogo.O céu tinha um brilho oriental de uma pureza desesperadora, pois que nada deixa desejar à imaginação. O céu e a terra estavam em fogo. O silêncio amedrontava com sua selvagem e terrível majestade. O infinito, a imensidade oprimiam a alma por todo a parte: nem uma nuvem no céu, nem um sopro no ar, nem um acidente no seio da areia agitada por miúdas vagas; enfim, o horizonte terminava, como no mar quando faz bom tempo, por uma linha de luz tão delgada quanto o fio de um sabre.
O provençal abraçou o tronco de uma palmeira, como se fosse o corpo de um amigo; depois, abrigado à sombra estreita e reta que a árvore desenhava sobre o granito, chorou, sentou-se e ali ficou, a contemplar com profunda tristeza o cenário implacável que se oferecia a seus olhos. Gritou como para tentar a solidão. Sua voz, perdida nas cavidades da colina, deu ao longe um triste som que não despertou eco; o eco estava em seu coração. O provençal tinha vinte e dois anos, armou a carabina.
“Nunca será tarde!”, pensou, pousando em terra a arma libertadora.

IV

O NOVO ROBINSON ENCONTRA UM SINGULAR SEXTA-FEIRA

Olhando alternadamente o espaço escuro e o espaço azul, o soldado sonhava com a França. Sentia com delícia as águas de Paris, recordava as cidades por onde havia passado, a fisionomia dos camaradas, as menores circunstâncias da sua vida. Enfim, sua imaginação meridional logo lhe fez entrever as pedras esquecidas da sua querida Provença nos jogos do calor que ondulava acima da toalha estendida no deserto. Temendo os perigos dessa cruel miragem, desceu à vertente oposta àquele por onde subira na véspera. Grande foi a sua alegria ao descobrir uma espécie de gruta naturalmente cavada nos imensos fragmentos de granito que formavam a base daquele montículo. Os farrapos de uma esteira denunciavam que aquele asilo fora antigamente habitado. Depois, a alguns passos dali, avistou tamareiras carregadas de frutos. Despertou-lhe então na alma o instinto que nos precede à vida. Teve esperança de viver o suficiente para aguardar a passagem de alguns berberes, ou talvez ouvisse em breve o ruído dos canhões, pois naquele momento Bonaparte percorria o Egito.
Reanimado por esse pensamento, abateu algumas pencas de frutos maduros a cujo peso as tamareiras pareciam vergar, e certificou-se, ao saborear aquele inesperado maná, que o habitante da gruta havia cultivado árvores: a polpa saborosa das tâmaras acusava com efeito os cuidados do seu predecessor. O provençal passou subitamente de um sombrio desespero a uma alegria quase louca. Tornou a subir o alto da colina e ocupou-se durante o resto do dia a cortar uma das palmeiras estéreis que na véspera haviam lhe servido de teto. Uma vaga lembrança o fez pensar nos animais do deserto e, prevendo que poderiam vir beber na fonte perdida nas areias que aparecia ao pé das rochas, resolveu proteger-se contra suas visitas, erguendo uma barreira à porta de sua ermida. Apesar do seu empenho, apesar das forças que lhe deu o medo de ser devorado durante o sono, foi-lhe impossível cortar a palmeira em vários pedaços naquele dia. Quando, pela tardinha, tombou aquela rainha do deserto, o ruído de sua queda ao longe, e houve uma espécie de gemido lançado pela solidão; o soldado estremeceu como se tivesse ouvido alguma voz predizer-lhe uma desgraça.
Mas, assim como um herdeiro que não lamenta por muito tempo a morte de um parente, ele despojou a bela árvore das suas largas e longas folhas verdes, que são seu poético ornamento, utilizando-as para reparar a esteira onde ia deitar-se.
Exausto de calor e de trabalho, adormeceu sob o forro vermelho da sua gruta úmida. Em meio à noite, foi seu sono perturbado por um ruído extraordinário. Sentou-se, e o silêncio profundo que reinava permitiu-lhe reconhecer o ritmo alternado de uma respiração cuja selvagem energia não podia permanecer a uma criatura humana. Um profundo medo, ainda aumentado pelas trevas, o silêncio e as fantasias do despertar, gelou-lhe o coração. Quase nem chegou a sentir a dolorosa contração de seu couro cabeludo quando, à força de dilatar as pupilas, avistou na sombra dois clarões fracos e amarelos. A princípio atribuiu aquelas luzes a algum reflexo de seus olhos; mas em breve, como a claridade da noite o ajudasse a distinguir gradativamente os objetos que se encontravam na gruta, percebeu um enorme animal deitado a dois passos de distância. Era um leão, um tigre, um crocodilo? O provençal não tinha instrução suficiente para saber em que subgênero estava classificado o seu inimigo; mas tanto maior foi o seu terror quando a ignorância lhe fazia imaginar todos os males ao mesmo tempo. Suportou o cruel suplício de escutar, de apreender os caprichos daquela respiração, sem recebe-la e sem ousar permitir-se o mínimo movimento. Um cheiro tão forte, como o cheiro exalado pelas raposas, todavia mais penetrante, mais grave, por assim dizer, enchia a gruta; e quando o degustou com as narinas, o terror do provençal chegou ao cúmulo, pois não podia mais por em dúvida a existência do terrível companheiro cujo antro real lhe servia de acampamento. Em breve os reflexos da lua, que se precipitava para o horizonte, alumiando a gruta, fizeram insensivelmente resplandecer a pele mosqueada de uma pantera.
Esse leão do Egito dormia, enrodilhado como um grande cão, calmo possuidor de um nicho suntuoso à porta de um palácio; seus olhos, abertos por um momento, se haviam fechado de novo. Tinha a face voltada para o francês.
Mil confusos pensamentos atravessaram a alma do prisioneiro da pantera.; primeiro pretendeu mata-la com um tiro de carabina, mas viu que não havia espaço suficiente entre ambos para visá-la, pois o cano teria ultrapassado o corpo do animal. E se ele despertasse?... Essa hipótese imobilizou-o . Ouvindo bater o próprio coração no meio do silêncio, amaldiçoava as pulsações demasiado fortes que a afluência do sangue produzia, temendo perturbar aquele sono que lhe permitia procurar um expediente salvador. Levou por duas vezes a mão à cimitarra, no intento de cortar a cabeça da inimiga; mas a dificuldade de cortar um pelo raso e duro obrigou-o a renunciar a esse ousado projeto.
“E se falhasse? Seria morte na certa”, pensou ele.
Preferiu os azares de um combate, e resolveu esperar o dia. E o dia não se fez desejar por muito tempo. O francês pôde então examinar a pantera; tinha o focinho tinto de sangue.
“Ela comeu bem!...”, pensou, sem indagar se o festim constara de carne humana. “Não vai ter fome quando despertar.”

V

TERÃO ALMA OS ANIMAIS?

Era uma fêmea. O pêlo do ventre e das coxas fulgurava de brancura. Várias pequenas manchas, semelhantes a veludo, formavam lindos braceletes em torno das patas. A cauda musculosa era igualmente branca, mas terminada por anéis negros. A parte de cima da pele, amarela como ouro fosco, mas bem lisa e suave, tinha essas mosqueaduras características, nuanças em forma de rosas, que servem para distinguir as panteras de outras espécies de felinos.
Aquela tranqüila e temível hóspede roncava numa atitude tão graciosa como a de uma gata deitada na almofada de uma otomana. Suas patas sangrentas, nervosas e bem armadas, estavam à frente de sua cabeça, que repousava em cima e da partiam essas barbas raras e retas, semelhantes a fios de prata. Se ela estivesse assim em uma jaula, o provençal, teria por certo admirado a graça daquele animal e os vigorosos contrastes das cores vivas que davam à sua samarra um fulgor imperial; mas, em tal momento, sentia a vista turbada ante aquele sinistro aspecto. A presença da pantera, embora adormecida, fazia-lhe experimentar o efeito que provocam no rouxinol, ao que dizem, aos olhos magnéticos das serpentes. A coragem do soldado acabou por desaparecer um instante à vista daquele perigo, ao passo que sem dúvida se teria exalçado ante a boca dos canhões ao vomitar metralha. No entanto, surgiu-lhe n’alma um pensamento intrépido, que secou em sua fronte o suor frio que lhe rorejava a testa. Agindo como os homens que, levados ao extremo pela desgraça, chegam a desafiar a morte e se oferecem a seus golpes, ele, sem o notar, encarou aquela aventura como uma tragédia, na qual resolveu desempenhar com honra o seu papel até a última cena.
“Anteontem, talvez os árabes me tivessem matado!...”, pensou.
Considerando-se como morto, esperou bravamente e com inquieta curiosidade o despertar da inimiga. Quando o sol apareceu, a pantera abriu subitamente os olhos; depois estendeu violentamente as patas, como que para desentorpecê-las e dissipar cãibras. Afinal bocejou, mostrando assim a temerosa aparelhagem de seus dentes e a língua fendida, dura como uma lima.
“É como uma mulherzinha!”..., pensou o francês, ao vê-la rolar-se e fazer os movimentos mais suaves e graciosos.
Ela lambeu o sangue que lhe tingia as patas e o focinho e coçou a cabeça com gestos repetidos, cheios de gentileza.
“Bem!...faze um pouquinho de toilette...”, disse consigo o francês, que, ao recobrar coragem, recuperara também seu bom-humor. “Vamos agora dar-nos bom dia.”
E segurou o punhal curto de que desembaraçara os berberes.
No mesmo instante, a pantera voltou a cabeça para o soldado e olhou-o fixamente, sem avançar. A fixidez de seus olhos metálicos e sua insuportável claridade fizeram estremecer o francês, sobretudo quando o animal se encaminhou para ele; mas o soldado contemplou-a com ar caricioso e, olhando-a como para magnetiza-la, deixou-a aproximar-se; em seguida, após um movimento tão suave, tão amoroso como se quisesse acariciar a mais linda mulher, passou-lhe a mão sobre todo o corpo, da cabeça à cauda, irritando com as unhas as flexíveis vértebras que dividiam o dorso amarelo da pantera.
O animal ergueu voluptuosamente a cauda, seus olhos se abrandaram; e quando, pela terceira vez, o francês executou aquele interesseiro gesto de afago, ela fez ouvir um desses ronrons com que os nossos gatos exprimem seu prazer; mas aquele murmúrio partia de uma garganta tão possante e profunda que reboou na gruta como os últimos acordes de um órgão numa igreja. O provençal, compreendendo a importância de seus carinhos, redobrou-os de modo a atordoar, a estupidificar aquela imperiosa cortesã. Quando se julgou seguro de haver extinguido a ferocidade da caprichosa companheira, cuja fome fora tão felizmente aplacada na véspera, ele se ergueu e quis sair da gruta; a pantera deixou-o partir, mas, depois que ele galgou a colina, saltou com a rapidez dos pardais pulando de um ramo a outro, e veio esfregar-se de encontro ás pernas do soldado, arqueando o dorso à maneira das gatas; depois, contemplando seu hóspede com um olhar cujo brilho se tornara menos inflexível, lançou esse grito selvagem que os naturalistas comparam ao ruído de uma serra.
- Ela é exigente! – exclamou o francês, sorrindo.
Tentou brincar com as suas orelhas, acariciar-lhe o ventre e coçar-lhe fortemente a cabeça com as unhas; e percebendo o seu êxito, fez-lhe cócegas no crânio com a ponta do punhal, espiando o momento de mata-la; mas a dureza dos seus ossos fez-lhe temer um insucesso.
A sultana do deserto aprovou as habilidades de seu escravo, erguendo a cabeça, alongando o pescoço, acusando a sua embriaguez pela tranqüilidade de sua atitude. O francês pensou de súbito que, para assassinar aquela bravia princesa, era preciso apunhala-la na garganta, e ia erguendo a lâmina, quando a pantera, já satisfeita por certo, se deitou graciosamente aos seus pés, lançando-lhe de tempos em tempos uns olhares em que, apesar do rigor nativo, se esboçava confusamente a benevolência. O pobre provençal comeu as suas tâmaras, apoiado a uma das palmeiras; mas lançava alternadamente um olhar investigador para o deserto, em busca de libertadores, e para sua companheira, a fim de espiar-lhe a incerta clemência. A pantera olhava para o lugar onde caíam os caroços de tâmara, de cada vez que ele jogava um, e seus olhos exprimiam então uma incrível desconfiança. Examinava o francês com uma prudência comercial; mas esse exame lhe foi favorável, porque, quando ele findou o seu magro repasto, ela começou a lamber-lhe os sapatos, e com uma língua rude e forte, retirou miraculosamente a poeira ali incrustada.
“Mas e quando ela tiver fome?...”, pensou o provençal.

(continua - ou não ...)
obs.: a gravação é do disco Temperamental. A voz é do poeta Décio Pignatari (com Livio Tragtemberg e Wilson Sukorski)

terça-feira, junho 28, 2005

THE REAL PANTHER


Raquel


Um ano de Palavra. De Pantera. A palavra tá na boa, mas e a Pantera? Sempre gostei do bicho, lembranças de infância. Depois foi Cat People, o filme. David Bowie. A tragédia de Minas na primeira página. O texto da Colasanti. Toda mulher tem uma pantera, rugindo escondida - outras, nem tanto. Aí me perguntaram: - É seu animal de poder? Sei lá. Gosto do bicho e acredito que isso não determine minha condição xamânica. Talvez meu animal seja só um gatinho. Talvez um pássaro, como aventou Tuga Martins. Penso que é uma raposa vermelha e depois mudo de idéia. Tenho um "zoelógico" interno. Não sei se o que determina o "animal de poder" é a identificação primeira. Tenho achado que não. O medo pode ser determinante. E eu não tenho medo de panteras, nem de tigres, nem de nada que mie.

Palavra de Pantera é um blog que fala de Sedução. Tudo que é sedução não é amor. Amor não tem nada a ver com isso razão de cismas e sismas. Delatar as estratégias fatais. Saber reconhecê-las para descartá-las e ficar com que me interessa. Prefiro deixar aqui, bem claras, as pegadas - A Marca da Pantera. Depois que escrevo, saio voando.

Pantera mesmo é minha amiga Raquel que não gosta de felinos. Duplamente compreensível: e o Batman lá gostava de morcegos? Um dia, quem sabe, Raquel dê de cara com sua pantera. Tá na cara. No corpo. Nos gestos da minha melhor amiga. Até o Ivanzinho, filho dileto da Palavra, reconhece.

Hoje é aniversário da Raquel. Juro que não pensei nisso quando abri o blog dia 28 de junho apesar de ter reconhecido sua panterice meses antes, quando traduzíamos do italiano para o português um artigo de Matteo Meschiari, A Arqueologia das trevas - arquétipo do felino na pré-história. O gato Edgar Allan Poe insistia em pular no colo da fera e atrapalhar os diversos rascunhos. E olhe que o bicho é arisco.

Então, feliz aniversário para o Palavra de Pantera. E um super feliz aniversário para minha linda amiga.

Beijos de coração, Quelitcha.
Um arcano XI de presente pra você.


Zoe

quinta-feira, junho 23, 2005

ANIVERSÁRIO DA PALAVRA



Mulher Gato, Cruz e Souza, The Concretes, Bowie & Cat People, balacobaco, Borges, onirismos, Plath, Silvia Silvia, o surtado Ivan Santa Ana, Utopia com pilhas, de Oliveira Marly, Sla Radical Dance Disco Club, o argênteo Montesino, Chamizinho Mário El-califa, Maiakovski garotão, Galatéa, mênades roucas, febre elevada, estratégias fatais de sedução, Lispector com todo respeito, Lucky Strikes (sempre), avós de jaguares demoníacos, Marcos Prado I, Marcos Prado II, Marcos Prado III, a bela Greta Benitez, o cavaleiro das trevas, Rilke, Flor Espanca, Leminskis, Gilka Machado, meus deus Murilo Mendes, Kafka (ou Max Brod), lágrimas, rima Rimbaud, Pinduca, Puga, Eliot, Santa Hilda Hilst, Nicholas Cage (...), Vicky Dolabella, Verlaine e Maria Teca, Blake Blake Blake, Salomé, mil Salomés, a boca de João Batista, Apollinaire, i love Julio Cortazar, Klimt, Glenda Jackson, Alla Nazimova, Sereias & Mermaids, quando crescer quero ser a Julie Newmar, o poema Octavio Paz, Milagros Cerron, Monroe com cauda de peixe, café com pele e creme, Molly Bloom, An Piérle, Breton El Mago, Flor Azul e João Acuio, mon amour, na cabeça no sexo no coração – é o ANIVERSÁRIO DA PANTERA !

Dia 28 de junho de 2004 me dei de presente este blog. Grata a todos vcs pela leitura, comentários, críticas e apreciações. Tá valendo.

Zoe

terça-feira, junho 07, 2005


Man Ray / Les Amoureux

A UNIÃO LIVRE
André Breton

Minha mulher com a cabeleira de fogo de madeira
Com pensamentos de relâmpagos de calor
Com o talhe de ampulheta
Minha mulher com o talhe de lontra entre os dentes do tigre
Minha mulher com a boca de roseta e de buquê de estrelas de última grandeza
Com dentes de rastro de camundongo branco sobre a terra branca
Com a língua de âmbar e de vidro lixados
Minha mulher com a língua de hóstia apunhalada
Com língua de boneca que abre e fecha os olhos
Com a língua de pedra incrível
Minha mulher com cílios de lápis de escrita de criança
Com sobrancelhas de borda de ninho de andorinha
Minha mulher com têmporas de ardósia de teto de estufa
E com vapor nas vidraças
Minha mulher com ombros de champanhe
E de fonte com cabeças de delfins sob o gelo
Minha mulher com punhos de fósforos
Minha mulher com dedos de acaso e de às de copas
Com dedos de feno ceifado
Minha mulher com axilas de marta e de faia
Da noite de São João
De ligustro de ninho de acarás
Com braços de espuma de mar e de eclusa
E de mistura de trigo e de moinho
Minha mulher com pernas de foguete
Com movimentos de relojoaria e de desespero
Minha mulher com panturrilhas de fibra de sabugueiro
Minha mulher com pés de iniciais
Com pés de chaveiros com pés de pardais que bebem
Minha mulher com pescoço de cevada perolada
Minha mulher com a garganta de Vale d’ouro
De encontros no leito mesmo da torrente
Com seios de noite
Com seios de toupeira marinha
Minha mulher com seios de cadinho de rubi
Com seios de espectro de rosa sobre o orvalho
Minha mulher com o ventre de desdobra de leque dos dias
Com ventre de garra gigante
Minha mulher com dorso de ave que foge vertical
O dorso de mercúrio
O dorso de luz
A nuca de pedra rolada e de giz molhado
E de queda de um copo do qual se acaba de beber
Minha mulher com ancas de barquilha
Com ancas de candelabro e de penas de flechas
E de hastes de pluma de pavão branco
De balanço insensível
Minha mulher com nalgas de arenito e de amianto
Minha mulher com nalgas de dorso de cisne
Minha mulher com nalgas de primavera
Com sexo de gladíolo
Minha mulher com sexo de mina aurífera e de ornitorrinco
Minha mulher com sexo d’algas e de bombons antigos
Minha mulher com sexo de espelho
Minha mulher com olhos cheios de lágrimas
Com olhos de panóplia violeta e de agulha imantada
Minha mulher com olhos de savana
Minha mulher com olhos d’água para beber na prisão
Minha mulher com olhos de madeira sempre sob o machado
Com olhos de nível d’água de nível do ar da terra e de fogo


p.s.: a tradução apresentada é o resultado parcial (e portanto, sujeito a modificações) de um esforço conjunto - colaboraram a professora Suzel (CELIN-UFPR), Barbara Skolimowska, Raquel Frotta e Ivan Justen Santana.

terça-feira, maio 31, 2005

L'Union Libre
André Breton


Magritte / Les Profondeurs du Plaisir


Ma femme à la chevelure de feu de bois

Aux pensées d'éclairs de chaleur

A la taille de sablier

Ma femme à la taille de loutre entre les dents du tigre

Ma femme à la bouche de cocarde et de bouquet d'étoiles de

dernière grandeur

Aux dents d'empreintes de souris blanche sur la terre blanche

A la langue d'ambre et de verre frottés

Ma femme à la langue d'hostie poignardée

A la langue de poupée qui ouvre et ferme les yeux

A la langue de pierre incroyable

Ma femme aux cils de bâtons d'écriture d'enfant

Aux sourcils de bord de nid d'hirondelle

Ma femme aux tempes d'ardoise de toit de serre

Et de buée aux vitres

Ma femme aux épaules de champagne

Et de fontaine à têtes de dauphins sous la glace

Ma femme aux poignets d'allumettes

Ma femme aux doigts de hasard et d'as de coeur

Aux doigts de foin coupé

Ma femme aux aisselles de martre et de fênes

De nuit de la Saint-Jean

De troène et de nid de scalares

Aux bras d'écume de mer et d'écluse

Et de mélange du blé et du moulin

Ma femme aux jambes de fusée

Aux mouvements d'horlogerie et de désespoir

Ma femme aux mollets de moelle de sureau

Ma femme aux pieds d'initiales

Aux pieds de trousseaux de clés aux pieds de calfats qui boivent

Ma femme au cou d'orge imperlé

Ma femme à la gorge de Val d'or

De rendez-vous dans le lit même du torrent

Aux seins de nuit

Ma femme aux seins de taupinière marine

Ma femme aux seins de creuset du rubis

Aux seins de spectre de la rose sous la rosée

Ma femme au ventre de dépliement d'éventail des jours

Au ventre de griffe géante

Ma femme au dos d'oiseau qui fuit vertical

Au dos de vif-argent

Au dos de lumière

A la nuque de pierre roulée et de craie mouillée

Et de chute d'un verre dans lequel on vient de boire

Ma femme aux hanches de nacelle

Aux hanches de lustre et de pennes de flèche

Et de tiges de plumes de paon blanc

De balance insensible

Ma femme aux fesses de grès et d'amiante

Ma femme aux fesses de dos de cygne

Ma femme aux fesses de printemps

Au sexe de glaïeul

Ma femme au sexe de placer et d'ornithorynque

Ma femme au sexe d'algue et de bonbons anciens

Ma femme au sexe de miroir

Ma femme aux yeux pleins de larmes

Aux yeux de panoplie violette et d'aiguille aimantée

Ma femme aux yeux de savane

Ma femme aux yeux d'eau pour boire en prison

Ma femme aux yeux de bois toujours sous la hache

Aux yeux de niveau d'eau de niveau d'air de terre et de feu



Clair de terre, 1931
BOMBONS


Armonia/Alejandro Puga

Meu primeiro contato com o Surrealismo se deu pelo caminho mais óbvio: as telas de Salvador Dali, os relógios moles, o dorso nu de Gala e suas inúmeras malas. As Confissões Inconfessáveis. Luis Buñel na Cinemateca, Un Chien Andalou. Mais Buñel, sempre Buñuel. Em Ouro Preto, edição da Tipografia do Fundo, uma pequena coletânea de poemas traduzidos. Robert Desnos, o dorminhoco genial. Benjamim Peret e o Amor Sublime. E, claro, André Breton. Leituras desencontradas, pedaços de música pairando na pedra. O Tarot de Marselha no Surrealismo. Ué, poetas consagrados levam em conta sistemas divinatórios? A turma toda se reúne para bolar um Jogo de Tarot? Enquanto isso, na Universidade, os bambambans torcem o narizinho empinado quando uma aluna mais louquinha resolve estudar o barroco mineiro identificando símbolos e alegorias tarológicas nas igrejas. Na academia das letras (abecedê) nunca leram Italo Calvino. Bem, lá se vão os tempos em que estas coisas realmente me irritavam. Hoje, sorrio com descaso quando converso com alguns partidários do cientificismo besta. Outro exemplo de grassa ignorância, é quando gentilmente postava um ou outro poema numa lista destinada a discutir ocultismo e algum bruxo de esquina me vinha com a pertinente observação: - Ô Zoe de Camaris, isso aqui é lista de magia !! Das primeiras vezes, até respondia. Hoje, já nem posto. Pérolas aos poucos, já dizia Marcos Prado. Então, por essas e outras, aproveitando que meu blog depois de quase um ano conquistou alguns leitores, vamos ao que interessa. Os poemas.

Coloquei um arquivo sonoro com a voz de Breton recitando L'Union Libre, poema de 1930, em que a Deusa comparece mais bem vestida que nas visões de Apuleio. A tradução vem a seguir, assim que eu e uma boa turma de amigos dedicados (você está convidado) conseguirmos chegar a uma primeira solução.

Zoe

domingo, maio 29, 2005

PERSEU


Bernard Collet / Meduse


O Triunfo da Argúcia Sobre o Sofrimento
Sivia Plath


Apenas a cabeça mostra você no prodigioso ato
De digerir o que apenas séculos digerem:
O mamute, claudicante estatuária de tristeza,
Indissolúvel o bastante para enigmar as entranhas
De uma baleia com buracos e buracos, e sangrá-la branca
Nos mares salgados. Hércules não teve problemas,
Lavando aqueles estábulos: lágrimas de um bebê o fariam.
Mas quem voluntar-se-ia para engolir o Laocoonte,
O Cárcere Mortal e aquelas inumeráveis pietás
Ulcerando as paredes sombrias de capelas da Europa,
Museus e sepulcros?
Você.
Você
Que emprestou penas a seus pés, não chumbo,
Não pregos, e um espelho para manter a cabeça ofídia
Em perspectiva segura, podia encarar a careta-górgone
Da agonia humana: um olhar para amortecidos
Membros: não um piscar-basilisco, não um duplo nham,
Mas todos os acumulados últimos grunhidos, gemidos,
Gritos e dísticos heróicos concluindo as milhões
De tragédias encenadas nestes tablados sanguencharcados,
E cada aflição privada, uma serpente sibilante
Para petrificar seus olhos, e cada catástrofe
Municipal, uma extensão convulsa de cobra,
E o declínio de impérios a grossa casca de uma vasta
Anaconda.
Imagine: o mundo
Socado a uma cabeça de feto, barrancado, cosido
Com sofrimento desde a concepção para cima, e aqui
Está ele à mão. Saibro no olho ou um dedão
Machucado fazem qualquer um se encolher, mas o globo todo
Expressivo de pesar torna deuses, como reis, em rochas.
Aquelas rochas, rachadas e gastas, por si mesmas então vão
Se estremunhando e estendem o desespero na face
Escura da terra.
Assim o rigor mortis viria a endurecer
Toda criação, não fosse uma barriga maior
Ainda que engole a alegria.
Você entra agora,
Armado com penas tanto para cócegas quanto vôos,
E um espelho de parque de diversões que transforma a musa trágica
Na cabeça decapitada de uma boneca soturna, uma trança,
Uma serpente enlameada, pendurando-se débil como a absurda boca
Pendura-se em seu lúgubre amuo. Onde estão
Os clássicos membros da teimosa Antígone?
Os robes vermelhos reais de Fedra? As lagrimalumbradas
Tristezas da gentil duquesa de Malfi?
Idas
Na convulsão profunda segurando sua face, músculos
E tendões enfeixados, vitoriosos, como a cósmica
Risada acaba com as incosturáveis, pestilentas feridas
De um eterno sofredor.
Para você
Perseu, a palma, e possa você sopesar
E contrapesar até o tempo parar, a celestial balança
Que pesa nossa loucura com nossa sanidade.



Espelho português: Ivan (Perseu) Justen Santana

segunda-feira, maio 23, 2005

AZUL é a ROSA



blaue rose


"El Surrealismo es - rayo invisible- que algún día nos permitirá superar a nuestros adversarios. -Deja ya de temblar, cuerpo. - Este verano, las rosas son azules; el bosque de cristal. La tierra envuelta en el verdor me causa tan poca impresión como un fantasma. Vivir y dejar vivir son soluciones imaginarias. La existencia está en otra parte."

Andre Breton
Manifiesto del Surrealismo

quarta-feira, maio 11, 2005

Sobre Olhar Dentro Dos Olhos De Um Amante Demônio


farol para Cougar


Eis duas pupilas
cujas luas negras
aleijam quem arrisca
olhar pra elas:

cada bela dama
que as perscruta
assume a forma
de um sapo.

Dentro desses espelhos
o mundo se inverte:
dos admiradores
os dardos ardentes

voltam pra machucar
a mão arremessadora
e inflamar com perigo
a ferida escarlate.

Busquei minha imagem
no espelho cáustico,
que fogo faria estrago
numa face bruxesca?

Então encarei aquela fornalha
onde as belezas queimam
mas achei Vênus radiante
refletida lá dentro.


Sylvia Plath

Refletida por Ivan Justen Santana

.........

On Looking Into The Eyes Of A Demon Lover


Catty by Immuno


Here are two pupils
whose moons of black
transform to cripples
all who look:

each lovely lady
who peers inside
take on the body
of a toad.

Within these mirrors
the world inverts:
the fond admirer's
burning darts

turn back to injure
the thrusting hand
and inflame to danger
the scarlet wound.

I sought my image
in the scorching glass,
for what fire could damage
a witch's face?

So I stared in that furnace
where beauties char
but found radiant Venus
reflected there.


Sylvia Plath

quarta-feira, maio 04, 2005

Uma Xícara de Chá? Café Preto sem Açúcar?


fur covered breakfast / meret oppenheim



CANÇÃO DE AMOR DE J. ALFRED PRUFROCK
T.S. Eliot



S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.

Dante Alighieri. La divina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66



Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão . . .
Oh, não perguntes: "Qual?"
Sigamos a cumprir nossa visita.

No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.

A fulva neblina que roça na vidraça suas espáduas,
A fumaça amarela que na vidraça seu focinho esfrega
E cuja língua resvala nas esquinas do crepúsculo,
Pousou sobre as poças aninhadas na sarjeta,
Deixou cair sobre seu dorso a fuligem das chaminés,
Deslizou furtiva no terraço, um repentino salto alçou,
E ao perceber que era uma tenra noite de outubro,
Enrodilhou-se ao redor da casa e adormeceu.

E na verdade tempo haverá
Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça,
Roçando suas espáduas na vidraça;
Tempo haverá, tempo haverá
Para moldar um rosto com que enfrentar
Os rostos que encontrares;
Tempo para matar e criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias em que mãos
Sobre teu prato erguem, mas depois deixam cair uma questão;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para uma centena de indecisões,
E uma centena de visões e revisões,
Antes do chá com torradas.

No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.
E na verdade tempo haverá
Para dar rédeas à imaginação. "Ousarei" E . . "Ousarei?"
Tempo para voltar e descer os degraus,
Com uma calva entreaberta em meus cabelos
(Dirão eles: "Como andam ralos seus cabelos!")
- Meu fraque, meu colarinho a empinar-me com firmeza o
queixo,
Minha soberba e modesta gravata, mas que um singelo alfinete
apruma
(Dirão eles: "Mas como estão finos seus braços e pernas! ")
- Ousarei
Perturbar o universo?
Em um minuto apenas há tempo
Para decisões e revisões que um minuto revoga.

Pois já conheci a todos, a todos conheci
- Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café;
Percebo vozes que fenecem com uma agonia de outono
Sob a música de um quarto longínquo.
Como então me atreveria?

E já conheci os olhos, a todos conheci
- Os olhos que te fixam na fórmula de uma frase;
Mas se a fórmulas me confino, gingando sobre um alfinete,
Ou se alfinetado me sinto a colear rente à parede,
Como então começaria eu a cuspir
Todo o bagaço de meus dias e caminhos?
E como iria atrever-me?

E já conheci também os braços, a todos conheci
- Alvos e desnudos braços ou de braceletes anelados
(Mas à luz de uma lâmpada, lânguidos se quedam
Com sua leve penugem castanha!)
Será o perfume de um vestido
Que me faz divagar tanto?
Braços que sobre a mesa repousam, ou num xale se enredam.
E ainda assim me atreveria?
E como o iniciaria?

.......

Diria eu que muito caminhei sob a penumbra das vielas
E vi a fumaça a desprender-se dos cachimbos
De homens solitários em mangas de camisa, à janela
debruçados?

Eu teria sido um par de espedaçadas garras
A esgueirar-me pelo fundo de silentes mares.

.......

E a tarde e o crepúsculo tão docemente adormecem!
Por longos dedos acariciados,
Entorpecidos . . . exangues . . . ou a fingir-se de enfermos,
Lá no fundo estirados, aqui, ao nosso lado.
Após o chá, os biscoitos, os sorvetes,
Teria eu forças para enervar o instante e induzi-lo à sua crise?
Embora já tenha chorado e jejuado, chorado e rezado,
Embora já tenha visto minha cabeça (a calva mais cavada)
servida numa travessa,
Não sou profeta - mas isso pouco importa;
Percebi quando titubeou minha grandeza,
E vi o eterno Lacaio a reprimir o riso, tendo nas mãos meu
sobretudo.
Enfim, tive medo.

E valeria a pena, afinal,
Após as chávenas, a geléia, o chá,
Entre porcelanas e algumas palavras que disseste,
Teria valido a pena
Cortar o assunto com um sorriso,
Comprimir todo o universo numa bola
E arremessá-la ao vértice de uma suprema indagação,
Dizer: "Sou Lázaro, venho de entre os mortos,
Retorno para tudo vos contar, tudo vos contarei."
- Se alguém, ao colocar sob a cabeça um travesseiro,
Dissesse: "Não é absolutamente isso o que quis dizer
Não é nada disso, em absoluto."

E valeria a pena, afinal,
Teria valido a pena,
Após os poentes, as ruas e os quintais polvilhados de rocio,
Após as novelas, as chávenas de chá, após
O arrastar das saias no assoalho
- Tudo isso, e tanto mais ainda? -
Impossível exprimir exatamente o que penso!
Mas se uma lanterna mágica projetasse
Na tela os nervos em retalhos . . .
Teria valido a pena,
Se alguém, ao colocar um travesseiro ou ao tirar seu xale às
pressas,
E ao voltar em direção à janela, dissesse:
"Não é absolutamente isso,
Não é isso o que quis dizer, em absoluto."

Não! Não sou o Príncipe Hamlet, nem pretendi sê-lo.
Sou um lorde assistente, o que tudo fará
Por ver surgir algum progresso, iniciar uma ou duas cenas,
Aconselhar o príncipe; enfim, um instrumento de fácil
manuseio,
Respeitoso, contente de ser útil,
Político, prudente e meticuloso;
Cheio de máximas e aforismos, mas algo obtuso;
As vezes, de fato, quase ridículo
Quase o Idiota, às vezes.

Envelheci . . . envelheci . . .
Andarei com os fundilhos das calças amarrotados.

Repartirei ao meio meus cabelos? Ousarei comer um
pêssego?
Vestirei brancas calças de flanela, e pelas praias andarei.
Ouvi cantar as sereias, umas para as outras.

Não creio que um dia elas cantem para mim.

Vi-as cavalgando rumo ao largo,
A pentear as brancas crinas das ondas que refluem
Quando o vento um claro-escuro abre nas águas.

Tardamos nas câmaras do mar
Junto às ondinas com sua grinalda de algas rubras e castanhas
Até sermos acordados por vozes humanas. E nos afogarmos.


tradução de Ivan Junqueira

terça-feira, maio 03, 2005


Oleg Zhivetin


Faz sol, faz frio. Curitiba está em casa. Perfeito para flores azuis. E elas nascem nos cantinhos - os miosótis selvagens da Morgye - brotando do cimento. Não há nada que encante tanto como a força bruta das raízes rompendo a pedra, o azul vibrante que quase cega contrapondo-se à delicadeza de uma flor mínima.

Cansei de sonhar com o impossível, tinha me casado com aquilo que não atingia. E um dia desses, vi a tal flor, magnética, olhando pra mim lá de cima. Resolvi colocar um ponto na sua frente. Um ponto final. E como se eu tivesse uma varinha mágica, ela veio até mim, em linha reta. Agora, tenho a flor azul nas mãos. De duas uma: ou se desfolha ou fica vermelha.

Até porque, depois que os japoneses inventaram a rosa azul, tudo é possível.

Zoe
p.s.: aproveitando o presente, Flowers for me.
Flowers for you.

little blue flower / von gunnar braun-2004




nada azul é comestível

vento entre pétalas hostis

a palavra e a diferença

liras intácteis, entretanto, azuis

minúscula flor erecta

brusca incólume pétala



zdc/2000


FORGET-ME-NOT



se é azul o céu claro

vive o miosótis

uma semana no jarro


zdc/98

terça-feira, abril 05, 2005




corpo, misturar o corpo

copo, mistura oca

conteúdo, substância

alma, separar a alma


dentro

o ovo vivo de vento



Zoe de Camaris
97

quinta-feira, março 31, 2005



o vento espalha paisagens no ventre

que sol firme
fere
a lua que mingua na língua macia ?

a seta de apolo me transpassa
e atinge um olho d’água
que explode do centro da terra

o ventre espelha paisagens ao vento



Zoe,
98

sábado, março 26, 2005

Medusa de Fogo




A simples bulha surda
Do meu coração batendo
Poderá te acordar.
Mesmo a penugem da lua
Que cai sobre o ombro nu
Das árvores, tão de leve,
Poderá te acordar.
A simples caída da bolha
D'água sobre a folha,
Por ser fria como a neve,
Poderá te acordar.
Só porque a rosa lembra
Um grito vermelho,
Retiro-a de diante do espelho
Porque - de tão rubra -
Poderá te acordar.

E se nasce a manhã
Calço-lhe logo pés de lã,
Porque ela, com seus pássaros,
Poderá te acordar.
Mesmo o meu maior silêncio,
O meu mudo pé-ante-pé,
De tão mudo que é,
Não irá te acordar?

Ó medusa de fogo,
Conserva-te dormida.
Com o teu fogo ruivo e meu,
Qual monstruosa ferida.
Como data esquecida.
Como aranha escondida
Num ângulo da parede.
Como rima água-marinha
Que morreu de sede.

E eu serei tão breve
Que, um dia, deixarei
Também, até de respirar,
Para não te acordar.
Ó medusa de fogo,
Dormida sob a neve!


Cassiano Ricardo

sexta-feira, março 25, 2005

Poema que Teamo


The Kiss / Rodin



Em todas as vezes que Te

Poema em mim

Pra Sempre

Poema Dia

Noite

Orvalho

Penumbra

Poema sol Menor em mim

Rosa escancarada no ato

Poema tanto enquanto

Poema só comigo

Poema pra sempre

Poema comigo

Me Poema

Enquanto

Consigo


.

Zoe de Camaris
madrugada
17 de setembro/2004

quinta-feira, março 24, 2005

So Strange


Partemed

Não se encara a Medusa. Não sem sem as estratégias de Hermes, sem a proteção de Atena, sem os apetrechos mágicos, sem o Elmo da Invisibilidade daquele que não se diz o nome. Nem assim. É melhor mudar de assunto.


MEDUSA


An Pierlé


Estranha, em águas agitadas
Me afogando feito uma pateta
Estranho, como minha percepção
É pincelada por uma neblina azul
Estranho, como vim mesmo parar aqui
Morta de vontade de ainda viver
Peixes mordiscam meu corpo
Feito um almoço grátis flutuante

Se você mergulhar sozinho
Vai se perder no mar
Perdeu o senso de direção?
Somente me siga
Estarei por perto
Se você mergulhar, mergulhar, mergulhar

Estranho, como debaixo d´água
O som são ondas acima no ar
Estranha, me escuto respirando
Vou me erguendo ao perder ar
Estranho, agora parece estúpido
Construída sobre incenso e espelhos
Peças quebradas no fundo eram só o que faltava
Se você mergulhar sozinho...
Se você mergulhar, mergulhar, mergulhar...


Versão curitibana: Ivan Santana