A Concha Verde de um Caranguejo
Não exatamente verde:
mais para o bronze
preservado em boa salmoura,
alguma coisa recobrada
de naufrágio greco-romano,
patinada e estranhamente
muscular. Não podemos
saber como suas fantásticas
pernas foram –
embora evidências
sugiram oito
complexas, dobráveis
e velozes obras
de armamento, coroadas
pelas garras dianteiras
em gesto de ameaça
e poder. Uma gaivota
devorou seu centro,
deixando esta cavidade
– tamanho de meia-taça –
aberta para revelar
surpreendente azul de Giotto.
Embora recenda
a algas e ruínas,
este pequeno escrínio navegante
vem com tal profuso forro!
Imagine-se respirar
rodeado pela
brilhante exaguadura
de firmamento no verão.
De que cor é
o avesso da pele?
Nada mal se ao morrer
pudéssemos ser abertos
até isto –
se as menores cavidades
de nós mesmos,
similarmente,
revelassem algum céu.
Mark Doty
Trad. de Heleno Godoy
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O CARANGUEJO
Ele diz não com a cabeça
mas diz sim com o coração.
Ele diz sim só ao que ama
mas diz não ao professor.
Está de pé e o interrrogam
mas são problemas demais.
Morre de rir - de repente -
e apaga tudo o mais:
os algarismos e os nomes
as datas e as palavras
e as frases de emboscada.
O professor o ameaça
sob a vaia dos meninos
( os geniozinhos da classe)
mas ele, ele trabalha:
com giz de todas as cores
no quadro-negro das dores
desenha o rosto da felicidade.
Jacques Prevért
Tradução de Maria do Carmo Ferreira
LE CANCRE
Il dit non avec la tête
mais il dit oui avec le coeur
il dit oui à ce qu’il aime
il dit non au professeur
il est debout
on le questionne
et tous les problèmes sont posés
soudain le fou rire le prend
et il efface tout
les chiffres et les mots
les dates et les noms
les phrases et les pièges
et malgré les menaces du maître
sous les huées des enfants prodiges
avec des craies de toutes les couleurs
sur le tableau noir du malheur
il dessine le visage du bonheur.
Jacques Prevért
p.s.: Le cancre, o caranguejo, em linguagem familiar,
designa também o menino preguiçoso ou vadio.
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