terça-feira, dezembro 07, 2004

O Beijo



Cena do filme A Última Dança de Salomé - Ken Russel


Salomé – Não quis me deixar beijá-lo, Iokannan. Eu o beijarei agora. Morderei sua boca com meus dentes como uma fruta madura. Eu beijarei sua boca, Iokannan. Eu disse que o faria, não disse? Eu a beijarei agora. Por que não me olha agora? Por que seus olhos estão fechados? Abre teus olhos, Iokannan ! Levanta suas pálpebras, Iokannan ! Por que não me olha? Você tem tanto medo de mim, Iokannan, que não vai me olhar? Seus olhos que foram tão terríveis, tão cheios de ódio e desprezo estão fechados agora. Sua língua era como uma cobra vermelha expelindo veneno. Ela não se mexe mais, agora não diz nada. A víbora vermelha que vomitou em mim. Estranho, não? Porque a cobra vermelha ficou imóvel?.... Você não me quis, Iokannan. Rejeitou-me. Disse-me coisas infames. Tratou-me como cortesã, como prostituta. Eu, Salomé ! Filha de Herodíades, Princesa da Judéia ! Agora, Iokannan, eu ainda estou viva mas você está morto e sua cabeça me pertence. Posso fazer com ela o que quiser. Dá-la aos cachorros ou aos pássaros do ar. O que os cães deixarem, os pássaros comerão... Ah, Iokannan, Iokannan,você é o único homem que eu amei. Todos os outros me enojavam. Mas você ...você era lindo. Seu corpo era uma coluna de marfim num pedestal de prata. Era um jardim com pombas e lírios de prata. Era uma torre de prata com escudo de marfim. Nada no mundo era tão branco quanto seu corpo. Nada no mundo era tão negro como seu cabelo. Nada no mundo era tão rubro como sua boca. Sua voz era como um vaso pleno de perfumes estranhos. Quando olhei para você ... ouvi música estranha. Ah, Iokannan, porque não olhou para mim? Escondeu seu rosto atrás de suas mãos e suas blasfêmias. Colocou a venda nos olhos e quis ver seu Deus. Agora viu seu Deus, Iokannan, mas a mim, a mim você nunca viu. Como o amei. Ainda o amo. Amo apenas você... Tenho sede da sua beleza. Tenho fome do seu corpo. Nem vinho nem fruta saciará o meu desejo. Diga o que farei agora. Nem rios nem enchentes afogarão minha paixão. Eu era uma princesa e você me humilhou. Eu era virgem e você não tomou minha virgindade. Eu era casta e você encheu minhas veias com fogo. Por que não olhou para mim? Se tivesse olhado para mim teria me amado. Sei que teria me amado. O mistério do amor é maior que o mistério da morte.

(Salomé beija a boca de Iokannan)
texto de Oscar Wilde




Chega de Salomés !!! A Pantera, virada em Sereia, está apaixonada por um Saci e o bom humor voltou a reinar na jungle. Até Curitiba ficou mais engraçadinha - essa Velha Senhora da Luz dos Pinhais, sisuda Sibila. Seja lá como for, tenho que dar cabo do Batista e sua Dançarina. Então, são os últimos posts sobre o assunto, para a delícia de quem já estava enjoado - eu, inclusive.

Quem quiser conhecer o blog do Saci, é só visitar : www.curitibinha.blogspot.com

Zoe
p.s.: Em tempo - a palavra "Saci" vem do tupi-guarani "Çacy" que significa Mãe das Almas. Çacy-taperê é a 'Mãe das Almas que sai nos caminhos'. O Saci que conhecemos através do folclore, diabrete pernalta, é um junção dos mitos africanos e indígenas. Cabe dar uma pesquisada na lenda da Matinta Pereira, ave-bruxa - existem correlações.

sexta-feira, dezembro 03, 2004




SERPENTES DE ÁGUA
de Gustav Klimt


Também as cores
amanhecem, também elas
acordam com os galos
da madrugada e cantam
a explosão do sol. Algumas
são água pura. A outras
o pincel conferiu-lhes
o rubor que se esconde
na nervura
de certas folhas. Outras,
ainda, festejam
o nascimento
da alegria. Ou do amor,
tanto faz. Ou não fosse ele
uma festa. Podem
chamar-lhe Judith,
Salomé: apenas dizem
os outros nomes
da serpente.


Albano Martins
(1930)

(in «A Voz do Olhar»,
Edições Universidade
Fernando Pessoa, 1998)

terça-feira, novembro 30, 2004


Alla Nazimova in Salomé


SALOMÉ


En el palacio hebreo, donde el suave
humo fragante por el sol deshecho,
sube a perderse en el calado techo
o se dilata en la anchurosa nave,

está el Tetrarca de mirada grave,
barba canosa y extenuado pecho,
sobre el trono, hierático y derecho,
como adormido por canciones de ave.

Delante de él, con veste de brocado
estrellada de ardiente pedrería,
al dulce son del bandolín sonoro,

Salomé baila y, en la diestra alzado,
muestra siempre, radiante de alegría,
un loto blanco de pistilos de oro.

Julián del Casal
Mi Museo ideal, 1892

(o poema foi composto para o quadro de Gustave Moreau)



Salomé / Glen Vause


Salomé


Son cual dos mariposas sus ligeros
pies, y arrojando el velo que la escuda,
aparece magnífica y desnuda
al fulgor de los rojos reverberos.
Sobre su oscura tez lucen regueros
de extrañas gemas, se abre su menuda
boca, y prodigan su fragancia cruda
frescas flores y raros pebeteros.
Todavía anhelante y sudorosa
de la danza sensual, la abierta rosa
de su virginidad brinda al tetrarca,
y contemplando el lívido trofeo
de yokanán, el núbil cuerpo enarca
sacudida de horror y de deseo.


Efrén Rebolledo
Caro Victrix, 1926

domingo, novembro 28, 2004


La Savia Derramada / ALEJANDRO PUGA - COLLAGE
sobre imagem de Leonardo da Vinci, São João Batista

www.alejandropuga.com.ar
www.zazie.at Special Editions
www.surrealcoconut.com Documents



Eu gostaria de beijar sua boca, João Batista
Eu quero beijar sua boca
Eu vou beijar sua boca, João Batista




sábado, novembro 27, 2004


imagem alemã


DIVERSAS LUAS


Pajem de Herodíade – Olhe a lua. Como está estranha, parece uma mulher saindo do túmulo. Parece uma mulher morta (...) procurando mortos.
.................................

Narraboth – Como a lua está estranha hoje ! Ela sorri através dos véus de nuvem como uma princesa, uma princesa de olhos de âmbar.

...................................

Salomé – Não é bom ver a lua? Ela é casta e fria, estou certa que é virgem. Ela é virgem. Jamais se maculou. Nunca se entregou a homens como outras deusas.

......................................

Herodes – A lua está estranha hoje. Não está? Parece uma louca procurando amantes. Está completamente nua. Nuvens tentam vesti-la mas ela não quer. Cambaleia pelas nuvens como uma vadia bêbada. Certamente procura amantes ... Parece uma louca, não?

Herodíades – Não. A lua se assemelha à lua e nada mais.

........................................

Herodes - Veja a lua. Está vermelha feito sangue, como disse o profeta. Ele previu que a lua ficaria vermelha como sangue.


(trechos do filme de Ken Russel)





LUA DIVERSA


Quando o olho a lua sem óculos, o astigmatismo a duplica. Minha lua “natural” é de outro planeta; minha Terra tem duas luas onde canta o pássaro do paraíso. A lua cheia está entrando em Gêmeos. Cheia. Duas lentes. Duas luas. Cada um vê aquilo que deseja - eis a perfeição do mundo sublunar.

O filme de Ken Russel começa com um cenário de teatro, fake, decadente. João Batista está em uma jaula – é o artista da fome. Ao seu redor, mulheres vestidas feito panteras sádicas imitam os trejeitos da fera e maltratam o profeta com seus chicotes sibilantes. A lua cheia é um rasgo no pano de fundo. Ainda branca.

Zoe

quinta-feira, novembro 25, 2004


Salomé / Flapper


SALOMÉ


Para que uma vez mais João Batista sorria,
Senhor, eu dançarei melhor que um serafim.
Mãe, por que estás imersa em tal melancolia,
Vestida de condessa e ao lado do delfim?

Meu coração, só de escutá-lo, quando eu vinha
Dançar junto ao funchal, batia angustiado.
Eu lhe bordara lírios numa bandeirinha
Destinada a flutuar no alto do seu cajado.

E agora, para quem farei lírios bordados?
Seu bordão refloresce às margens do Jordão.
Vieram prendê-lo, ó Rei Herodes, teus soldados,
E em meu jardim lírios murcharam desde então.

Vinde, todos comigo, além, sob os quincunces...
Não chores mais, lindo bufão de reis;
Em vez do guizo, empunha esta cabeça, e dança!
Mãe, sua fronte fria está. Não lhe toqueis.

Senhor, ide na frente e que a guarda nos siga.
Abriremos um fosso e nele o enterraremos
Entre flores e, em roda, em torno dançaremos,
Dançaremos até que eu perca a minha liga,
O rei a tabaqueira, a infanta o seu rosário
E o cura o seu breviário...


Apollinaire

Tradução de Onestaldo de Pennafort

gentilmente cedida por Ivan Justen Santana
www.ossurtado.blogspot.com

p.s.: Ivan, fiz algo que não se faz. Troquei a palavra quincôncios,
que é horrível, por quincunces, que é mais bonita e adequada.
Azar do Pennafort.

quarta-feira, novembro 24, 2004


A Última dança de Salomé
texto: Oscar Wilde
direção: Ken Russel


A SEDUÇÃO


SALOMÉ – Iokannan !

IOKANNAN – Quem fala?

SALOMÉ – Apaixonei-me pelo seu corpo, Iokannan ! É um corpo branco como lírio num campo intocado pela foice. É branco como a neve nas montanhas de Judá que desce até os vales. As rosas do jardim da Rainha da Arábia não são tão brancas quanto seu corpo. Nem as rosas do jardim da Rainha da Arábia, o jardim de perfumes da Rainha da Arábia, nem as pegadas da Aurora sobre as folhas, nem o seio da lua ao se pôr no colo do mar... nada no mundo é tão branco como seu corpo. Deixe que eu toque seu corpo.

IOKANNAN – Para trás, filha da Babilônia ! Foi pela mulher que o mal veio ao mundo. Não fale comigo. Não desejo ouvi-la. Ouço só a palavra de Deus.

SALOMÉ - Seu corpo é horrível. É como o corpo de um leproso. É como o caminho por onde passaram serpentes onde os escorpiões fizeram seu ninho. É horrendo. Seu corpo é horrendo. É seu cabelo que eu amo, Iokannan. Seu cabelo é como cachos de uvas, como cachos de uvas negras suspensos nas vinhas da Iduméia, no país dos idumeus. São como os cedros do Líbano, os grandes cedros do Líbano que dão sombra aos leões e ladrões que se escondem de dia. As longas noites negras, quando a lua se esconde e as estrelas sentem medo não é tão escuro como seu cabelo. Nada no mundo é tão negro quanto seu cabelo... Deixe que eu toque seu cabelo.

IOKANNAN – Para trás, filha de Sodoma. Não me toque ! Não viole o templo de Deus !

SALOMÉ – Seu cabelo é horrível ! Coberto de lama e pó. É como uma coroa de espinhos na sua testa. Um emaranhado de cobras enrolando-se no seu pescoço. Não estou apaixonada pelo seu cabelo...É a sua boca que eu amo, Iokannan. A sua boca é como uma faixa escarlate ao redor de uma torre de marfim. Uma romã cortada por uma faca de marfim. A flor da romã que nasce nos jardins de Tiro, mais vermelha que a rosa, não é mais vermelha que ela. Os gritos rubros da trombeta anunciando a vinda de reis que amedronta o inimigo não são tão vermelhos. Sua boca é mais vermelha do que os pés de quem amassa uvas nos caldeirões de vinho. É mais vermelha que os pés da pomba que vive nos templos alimentada por sacerdotes. É mais vermelha que os pés de quem vem da floresta após matar um leão e de quem já viu tigres dourados. Sua boca é como um galho de coral que o pescador achou na meia luz do mar e guardou para dar ao rei. É como o cinabre encontrado nas minas de Moab e que os reis confiscaram. É como o arco do rei da Pérsia pintado de vermelho com a tinta do coral. Nada no mundo é tão rubro quanto sua boca... Deixe que eu beije sua boca.

IOKANNAN – Nunca. Filha da Babilônia, filha de Sodoma, nunca !

SALOMÉ – Beijarei sua boca, Iokannan. Beijarei sua boca.

NARRABOTH, o Pajem da Síria – Princesa, princesa, a senhora que é um buquê de mirra, a pomba das pombas, não olhe para esse homem. Não diga essas coisas. Eu não suporto. Não diga essas coisas.

SALOMÉ – Beijarei sua boca, Iokannan.

(Narraboth se mata com uma punhalada no ventre e cai entre João Batista e Salomé)

GUARDA – Princesa, o jovem Capitão se matou.

IOKANNAN – Não tem medo, filha de Herodíades? Não avisei que ouvi as asas do anjo da morte? O anjo não veio?

SALOMÉ – Deixe que eu beije sua boca.

IOKANNAN – Filha de adúltera. Só um homem pode salvá-la. ( ...)

SALOMÉ – Deixe que eu beije sua boca.

IOKANNAN – Amaldiçoada seja, filha de mãe incestuosa. Maldita seja !

(João Batista cospe na boca de Salomé e ela lambe os lábios)

IOKANNAN – Não olharei para você. Está amaldiçoada, Salomé. Está amaldiçoada.

SALOMÉ – Beijarei sua boca, Iokannan. Beijarei sua boca.

..................................
(trecho do filme, copiado dos letreiros e comparado com a versão
em francês, por Zoe de Camaris)

domingo, novembro 21, 2004

A Última Dança de Salomé


ilustração de Audrey Beardsley para a tradução inglesa de Salomé, peça de de Oscar Wilde


Sensualidade. Uma faca, duplamente afiada? Tudo é duplo na mulher, triplo, cinco fases da lua. Quando falo da pantera, pensam que é apologia. Se desvelo as estratégias, seria eu a felina? Só na fase negra. Sou corça quando a lua é nova, pomba quando cresce, serpente quando está cheia, loba na minguante ... eu e todas. Todas em mim. Em qualquer uma. Qualquer mulher.

Salomé ama JOKANAAN. Salomé mata JOKANAAN. É lua virgem, é dançarina de Vênus, é menina mimada. São cortadas inúmeras vezes a cabeça do mesmo homem por diversas Salomés. Eles oferecem suas cabeças cantando vitória e uivam para lua tinta de vermelho, invisível para os seus olhos. São muitas as Salomés, a mesma cabeça diversamente cortada. Crê o homem que as possui, são apenas possuídos. Crê a mulher ser possuída porque esse é seu desejo. Enquanto isso, há lua lá fora e inúmeros sóis submersos. Tantos sóis quanto cabeças cortadas.

....................

Só hoje consegui pegar na locadora o filme A Última Dança de Salomé, de Wilde, dirigido por Ken Russel. Desisti do C. Saura, preferi cinematografar meu fim de semana com catálogos, já que ninguém me paga para ficar aqui pesquisando, digitando, escrevendo. Paixão dá nisso. O preço é alto e a gente encara sozinha, ninguém para dividir a conta. Mas não reclamo muito não. Adoro saber coisas sobre as quais, talvez, nunca ninguém me pergunte. Saber é excitante. E já estou aprendendo a ignorar outras. Porque ignorar faz parte do Saber. É a ignorância sabida.

....................

Salomé é muitas, como toda mulher. Se um homem tem três mulheres, multiplica seus problemas por cinco, no mínimo. Os índios conheciam o perigo que o homem moderno desconhece. O excesso enfraquece. Dilui, estraga, entorpece. As mulheres, cansadas de bater na mesma tecla, adotam idêntico comportamento. Ninguém é de ninguém, não é isso? E o sexo torna-se palco de mesmices. Momices. O teatro dos pobres, diria Wilde. Trepar - palavra perfeita, pois revela um ato mecânico - equivale a comer uma fruta doce (araticum?) no quintal de casa e jogar o caroço fora. Sendo o mistério do amor maior o que da morte, escolhemos a morte.

"Nesse dia, o sol ficará escuro como um saco de penas, a lua ficará como sangue, as estrelas cairão na terra como um figos verdes das árvores. Os reis da terra sentirão medo"


(fala de João, o Batista, em A Última dança de Salomé)

....................

O que Wilde explora na sua peça proibida por imoralidade é o arraigado temor masculino em ser tragado pela vagina da mulher. A vagina dentata. Atargátis, a deusa-sereia que exigia de seus discípulos a castração é ancestral de Salomé.

São diversas as patológicas decorrentes - homossexualismo, impotência, satiriáse, em diversos graus de intensidade.

A busca de diversas mulheres, por exemplo, de modo praticamente indistinto, é uma forma de controlar o medo de Atargatis. Contê-lo. Repetindo o eterno vai-e-vem, dentro e fora da mulher, alternando presença e ausência, o homem retoma um ilusório controle da mãe primeva. O medo de ser engolido pelo útero materno, de volta ao líquido amniótico, sem nenhum poder.

O medo não é apenas do sexo, o medo é do amor somado ao sexo, que pode soar incestuoso. E o incesto é mote na passagem bíblica que retrata Salomé, filha de Herodíades. Herodíades, a adúltera, aquela que deixa o marido morrer para casar-se com seu irmão. Os olhares pecaminosos de seu marido Herodes para sua filha adolescente. O incesto é o tabu dos tabus.

Temeria o homem o amor que abraça, como representação de engolimento fatal pelo útero materno? Isso explicaria o discutido imperativo biológico? Não seria o homem maduro aquele que enfrenta seu medo, livra-se da mãe primeva e a retoma em uma oitava maior?

O medo de morrer é confundido com o prazer de amar. Eis a pequena morte. Deve-se procura apenas o amor.

domingo, novembro 14, 2004


Andrea del Sarto / Head of St. John Baptist


III. CÂNTICO DE SÃO JOÃO


(imaginar a cabeça de São João servida numa bandeja, cantando)


O sol que um sobressalto
Apruma para o alto
Em breve redescende
Incandescente

Por um momento a treva
Das vértebras se eleva
Em uníssono passo
Por todo o espaço

Para que esta cabeça
Solitária apareça
No vôo singular
Da foice no ar

Em completa ruptura
Mais repele ou fratura
A desavença antiga
Que ao corpo a liga

Bêbada de jejum
Que persegue nalgum
Salto louco a vogar
Seu puro olhar

Lá no alto onde os cumes
Eternos têm ciúmes
De que possais vencê-los
Todos ó gelos

Mas levada ao abismo
Pelo mesmo batismo
Que elegeu minha sina
Grata se inclina.


Stéphane Mallarmé - 1913
Tradução de Augusto de Campos - 1987

Publicado originalmente no blog MORTE SÚBITA
http://ossurtado.blogspot.com/
dia 12 de novembro de 2004

sexta-feira, novembro 12, 2004


St. Johh Baptist /Caravaggio


Por quem morre o profeta ? João, o Batista, ama seu deus acima de qualquer coisa. Se entrega a um único amor. Sua língua é o chicote de Deus. Não volta os olhos para Salomé, aquela que manipula todos que a olham. No entanto, ele é o primeiro a usar a linguagem do sexo, ao falar sobre Herodíades, denunciando sua lascívia. E Salomé, "a perfeita" em hebraico, é casta e impúbere. Teria sido Salomé fisgada pela linguagem? As palavras do profeta excitam e incitam a libido da jovem, branca e virgem como a lua?

O discurso dúbio enlouquece qualquer mulher. Ora assim, ora assado. É estranho que o façamos o homem perder a cabeça?
Zoe

quinta-feira, novembro 11, 2004


Salomé / Gustave Klimt


Salomé


III


El sacro ritmo de la danza marca,
en la cintura, un junco que se quiebra;
en el torso, un gran lirio que se enarca,
y en los flancos, el anca de la cebra.


Ardiente el ojo inmóvil del Tetrarca,
en la armoniosa ondulación se enhebra
y enturbia el cristal, como la charca
cuyo fondo agitara una culebra.


En la fiebre divina que la impulsa,
Salomé es una ménade convulsa.
Danza con el furor de la bacante


que azota el dios en el antiguo coro,
hasta que por la sangre pululante
de Juan, resbalan sus talones de oro.



Rafael López
Obra poética


Salomé / autor desconhecido


La manzana amarga


II


Salamandra en cuyo juego
el misterio de la carne solloza su viejo drama.
Honda criatura hecha de sombra y de fuego,
fulminada en las cenizas que lloró la propia llama.


Sobre un prado de violetas,
episcopal y tranquilo,
traza aviesos monogramas
una serpiente del Nilo.


En la liturgia maléfica se gasta el perfume denso
de su carne, como el humo de la resina oriental.
Por la niebla sacrosanta del incienso
cruza su efluvio maligno de la llaga original.


Cual menguante en el desierto
tu perfil de camafeo
ambula desenterrado
tras un remoto hipogeo.


Hécate va por el bosque victoriosa. En su carrera,
chafa lirios taciturnos bajo la planta crüel.
Tiembla la luna en el salto de una elástica pantera
que luce ruedas de sangre sobre el oro de la piel.


Del árbol del paraíso,
con serpentino ademán,
la amarga manzana ofreces
al labio seco de Adán.


El suspiro que se heló en su boca inerte
junta en el tedeum del beso el réquiem del estertor.
Asoma los ojos turbios a la noche de la muerte,
mientras las manos se crispan en las rosas del amor.


Y del amor y la muerte
los duros pinceles toma
sin miedo, para teñirse
los rojos pies de paloma.


Loca sangre de suicidas fecundó por los caminos
las mandrágoras que bordan el tapiz de la inquietud,
por donde van resbalándose sus talones purpurinos
hasta que se pongan pálidos en la cal del ataúd.


Y se va por sus senderos,
peregrina y tornasol,
envuelta como las nubes
entre retazos de sol.


Rafael López
Obra poética

Salomé / P. Schmutzler


La danza

I


En un chorro de fuente, el agua sacra
de la danza respira. Surto en la luz de oro,
el tallo de cristal lento se quiebra.
Y Salomé claudica y se demarca
en su piel de culebra.


Heleniza el ritmo de sus huesos
musicales. Disuelven sus rodillas
las plásticas de los besos
y las curvas de las arcillas.
La figura exquisita y magra,
un hidromiel de dioses en una copa fina
hace beber. Y el gesto es de Tanagra
y la copa, murrina.


Las alas que desdoblan vuelos flojos,
para la emoción de aires tranquilos
son motivos melódicos y puros
bajo el sortilegio de los ojos
que columpian cocuyos en berilios
trémulos e inseguros.


El ojo y la sonrisa, maestros de elocuencia,
relatan con rítmica ciencia
el episodio de la melodía.
Como en estío, los rosales
de la sonrisa están en flor,
frescos de aromas perentorios.


Diseña la mirada en su inquieto verdor,
Venecias ilusorias
praderas irreales
y esmeraldas que la luz irisa.
Unánimes, el ojo y la sonrisa
llevan el compás en sol mayor.


El pie, cordero, apenas trisca
la mandrágora verde que vierte,
desde la sensual cadera morisca,
el olor del amor y de la muerte.
Contrito el rey lúbrico, serena
la zarpa de sus tigres carniceros
y se esfuma la cabeza ensangrentada
de Juan, en el humo de los pebeteros.
La diosa de la danza amena
exige el sacrificio de una rosa cortada
por la mano de Atena.


Y la noche locamente rueda
por la cortina escarlata,
una luna derrumbada y oficiosa
que remolca un relámpago de plata,
e improvisa un tapiz de seda
para el deshojamiento de la rosa.


Las viejas melancolías
se van tras las alegres geometrías
a que ajusta las leyes de su danza.
Y como golondrinas tornan las ilusiones
a los polvosos rincones
donde encarnece la esperanza.



Rafael López
Obra poética


Salomé / imagem de Rafael Olbinski para a Ópera de Strauss


Herodíades (trecho)
Flaubert


Ella bailó como las sacerdotisas de las Indias, como las nubias de las cataratas, como las bacantes de Lidia. Se inclinaba hacia todos los lados, semejante a una flor agitada por la tempestad. Los brillantes de las orejas saltaban, la tela de sus ropas tornasolaba; de sus brazos, de sus pies, de sus vestidos brotaban chispas invisibles que inflamaban a los hombres. (...) Sin doblar las rodillas, separando las piernas, ella se dobló tanto que su mentón rozaba el suelo; y los nómadas, acostumbrados a la abstinencia, los soldados de Roma, expertos en todos los excesos, los avaros publicanos, los viejos sacerdotes amargados por las discusiones, todos, dilatando los agujeros de la nariz, palpitaban de deseo [.....] Su nuca y sus vértebras formaban un ángulo recto. Los vestidos que le cubrían las piernas, al pasarle por encima del hombro, como un arco iris, acompañaban a su rostro, a un codo del suelo. Tenía los labios pintados, las cejas muy negras, unos ojos casi terribles, y unas gotas en su frente parecían un poco de vapor sobre mármol blanco.


A Cabeça de Jochannan - Cronópio segurando o Sol



O CANTO DOS CRONÓPIOS
por Julio Cortázar


Quando os cronópios cantam suas canções preferidas, ficam de tal maneira entusiasmados que freqüentemente se deixam atropelar por caminhões e ciclistas, caem da janela e perdem o que tinham nos bolsos e até a conta dos dias.

Quando um cronópio canta, as esperanças e os famas acorrem a ouvi-lo embora não compreendam muito seu arrebatamento e em geral se mostram um tanto escandalizados. No meio da roda o cronópio suspende seus bracinhos como se segurasse o sol, como se o céu fosse uma bandeja e o sol a cabeça do Batista, de forma que a canção do cronópio é Salomé nua dançando para os famas e as esperanças que ali estão boquiabertos e perguntando-se se o senhor padre, se as conveniências. Mas como no fundo são bons (os famas são bons e as esperanças bobas) acabam aplaudindo o cronópio, que se recupera sobressaltado, olha em redor e começa também a aplaudir, coitadinho.

segunda-feira, novembro 08, 2004




Salome's Dancing-Lesson


She that begs a little boon
(Heel and toe! Heel and toe!)
Little gets- and nothing, soon.
(No, no, no! No, no, no!)
She that calls for costly things
Priceless finds her offerings-
What's impossible to kings?
(Heel and toe! Heel and toe!)

Kings are shaped as other men.
(Step and turn! Step and turn!)
Ask what none may ask again.
(Will you learn? Will you learn?)
Lovers whine, and kisses pall,
Jewels tarnish, kingdoms fall-
Death's the rarest prize of all!
(Step and turn! Step and turn!)

Veils are woven to be dropped.
(One, two, three! One, two, three!)
Aging eyes are slowest stopped.
(Quietly! Quietly!)
She whose body's young and cool
Has no need of dancing-school-
Scratch a king and find a fool!
(One, two, three! One, two, three!)

Dorothy Parker
Death and Taxes

Published/Written in 1931

domingo, novembro 07, 2004


Tielady



Salomé
Guillaume Apollinaire (1880 - 1918)


Pour que sourie encore une fois Jean-Baptiste
Sire je danserais mieux que les séraphins
Ma mère dites-moi pourquoi vous êtes triste
En robe de comtesse à côté du Dauphin

Mon cœur battait battait très fort à sa parole
Quand je dansais dans le fenouil en écoutant
Et je brodais des lys sur une banderole
Destinée à flotter au bout de son bâton

Et pour qui voulez-vous qu'à présent je la brode
Son bâton refleurit sur les bords du Jourdain
Et sous les lys quand vos soldats ô roi Hérode
L'emmenèrent se sont flétris dans mon jardin

Venez tous avec moi là-bas sous les quinconces
Ne pleure pas ô joli fou du roi
Prends cette tête au lieu de ta marotte et danse
N'y touchez pas son front ma mère est déjà froid

Sire marchez devant trabants marchez derrière
Nous creuserons un trou et l'y enterrerons
Nous planterons des fleurs et danserons en rond
Jusqu'à l'heure où j'aurai perdu ma jarretière
Le roi sa tabatière
L'infante son rosaire
Le curé son bréviaire


Salome admiring her work / Adrienne Simms



Salomé só
Carlos Careqa e Milton di Biasi

Chamem a polícia
Esta mulher
Disparou sem dó
Balas de malícia
Saia de pelúcia
Salomé, saló, só

Chamem o bombeiro
Que eu vi o fogo
Naqueles olhos afins

Fogos de artifício
É seu ofício
Detonar contra mim
E ela veio pra ficar
Deitar, rolar, saquear
Com seus olhos de arrastão
Mulher eu vou te pegar
Rasgar, arrebentar
Te enfiar na prisão

Imagem do Tarô de Greta Benítez

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Dessa vez não vou pentelhar o Ivanzinho para que traduza os poemas do Apollinaire e da Dorothy Parker. Não é bom forçar amizade. E depois, não vejo a hora de mudar de assunto. Cansei da síndrome de Rainha de Copas, "Cortem-lhe a cabeça !" Bem, perdi meus óculos depois que fiz xixi na prensa gigante da Imprensa Oficial. Bem feito, quem mandou? Ah, não tô nem aí. Hoje fiz 334.897 pontos no BlasterBall mesmo assim enquanto lembrava e ria. Palavra de Pantera cega: - eu adoro meus amigos. Uma bela noite que terminou num dia de sol, numa caminhada absurda com o namorado de volta pra casa. Ele sem sapatos (roxos!!), eu sem enxergar - mas muito, muito feliz. Dois loucos na tangente do abismo. E eu o amo.

A vida nos dá presentes vindos do nada. E a gente, sem pensar duas vezes, aceita. Caminha.
E agradece enquanto ainda está sorrindo.

Zoe

domingo, outubro 31, 2004


Salome / foto de Mario Piazza


Antecedentes de Salomé: a Salomé de Oscar Wilde


A primeira aparição de Salomé no mundo literário foi no Evangelho de Mateus. Mateus conta que Herodes pediu que a filha de Herodias dançasse para ele no seu aniversário. Ao agradar o rei, ele ofereceu à garota qualquer recompensa que desejasse. Herodias incitou sua filha a pedir a cabeça de João Batista numa bandeja. A cabeça foi trazida num prato e dada à jovem, e ela a levou a sua mãe. Mateus nem preocupa-se em nos dar o nome de Salomé.

A figura de Salomé e seus sete véus fascina artistas e escritores há séculos — e nunca tanto quanto no século XIX. O Drama de Wilde, Salomé, no qual a ópera de Strauss está baseada, segue os passos de outros poemas, romances e pinturas importantes de Salomé. Wilde certamente conheceu o Atta Troll de Heinrich Heine; poema escrito em 1841 de grande popularidade na França. No poema, é Herodias quem se apaixona por Jochanaan e quem beija a cabeça decepada. Gustav Flaubert escreveu uma versão objetiva, em terceira pessoa, que Wilde muito admirava. O poema Herodiade do simbolista Stéphane Mallarmé, que explora o casamento de Herodes e Herodias, também influenciou Wilde, bem como A Rebours, de J.K. Huysmans.

Wilde possuía uma compreensão substancial sobre a representação de Salomé no mundo artístico ocidental, mas sempre tinha alguma ressalva negativa sobre a interpretação do tema por alguns artistas. Ele pensava que a Salomé de Rubens era uma ‘apoplética Maritornes’; a Salomé de Leonardo era extremamente impalpável e a célebre Salomé de Regnault, uma simples “cigana”. Somente a famosa exibição parisiense com pinturas da Salomé de Gustav Moreau satisfez o escritor.

A versão da história contada por Wilde tem suas origens em dezembro de 1891, quando Wilde e uma grupo de escritores franceses discutiam Salomé num café de Paris. Wilde começou a trabalhar imediatamente em Salomé ao regressar à casa. Poucas horas depois, ele havia terminado grande parte da peça. A lenda diz que Wilde, naquela mesma noite, se dirigiu a um bar na vizinhança e pediu à banda da casa para tocar uma música que evocasse “uma mulher descalça, dançando sobre o sangue de um homem a quem ela desejava e matou”.

A Salomé de Wilde é uma personagem extraordinariamente dual. Por um lado, Wilde acreditava que ela era a incorporação da sensualidade — ele contou que, enquanto escrevia Salomé, passava por joalherias nas ruas de Paris e contemplava como adornar sua personagem. Esse mesmo ser sensual era, para Wilde, agressivo e cruel, com uma libido insaciável. Ele imaginava Sarah Bernhardt no papel principal (no fim das contas, a atriz foi impedida pela censura francesa de interpretar o papel). Mas Wilde também vislumbrava uma Salomé divina e pura —imagem provavelmente inspirada por uma pintura de Bernardo Luini. Para Wilde, Salomé tornou-se a combinação de um ser sensual, infantil e divino somado à força destrutiva da natureza.

Wilde tinha forte afinidade com o movimento de arte simbolista, influencia explícita em Salomé. O poeta Mallarmé, um dos líderes do movimento simbolista, afirmava que a tarefa da poesia era revelar e cristalizar as formas essenciais que se escondem dentro da realidade. Simbolistas acreditavam que somente através dos símbolos o homem poderia alcançar as verdades incompreensíveis, chegando assim à transcendência.

Um dos símbolos mais famosos de Salomé é a lua e quase todas as personagens do drama fazem menção ao satélite. O confuso Narraboth vê a lua como uma princesa encantadora, a personificação de Salomé; o pajem de Herodias vê a lua como uma mulher morta. Para Salomé, a lua é uma deusa casta que nunca se rebaixou aos homens enquanto que para Herodes, é como “uma mulher louca, uma mulher louca que busca amantes por todas as partes”. E a banal Herodias desdenha: “a lua é como a lua e só.” Através da repetição e variação, o símbolo começa a repercutir e ganhar maior significância.

Wilde também estava afiliado com o movimento de arte decadista, o qual compartilhava seu conceito de arte pela arte. No prefácio do Retrato de Dorian Gray, Wilde faz a seguinte declaração sobre a procura do “belo” e da arte:


Aqueles que encontram o feio nas coisas belas estão corrompidos sem serem charmosos. Isso é um defeito.

Aqueles que encontram o belo nas coisas belas são os cultos. Para estes há esperança.

Estes são os escolhidos para quem as coisas belas significam somente Beleza.



Wilde fez um espetáculo para o mundo ver de sua crença de que toda a arte é inútil e de que tudo o que importa são as aparências. Em grande parte, o escritor sofreu por causa de suas idéias; seu desafio explícito aos ideais vitorianos de repreensão e decência o levou à censura e conseqüente aprisionamento.

O drama Salomé foi concluído em janeiro de 1892, depois que Wilde retornou à Inglaterra. Foi traduzido do seu original em francês para o inglês pelo Lorde Alfred Douglas. A peça já estava sendo ensaiada há duas semanas quando a comissão do Lorde Chamberlain censurou o trabalho (sob a desculpa de que a representação de cenas bíblicas não era permitida). George Bernard Shaw e William Archer defenderam a peça, mas ficou evidente que Salomé não tinha que ser estreada na Inglaterra. Wilde ameaçou imigrar para a França e adiantou seus planos para a publicação da peça em inglês. A peça foi finalmente estreada em Paris, em 1896; Wilde não estava presente. O escritor estava servindo uma sentença de trabalho forçado em Reading Goal. Em 1909, a peça tinha sido traduzida para quase todos os idiomas europeus. Atualmente é a mais famosa versão dramática da estória de Salomé.

(retirado do site "Metropolitan Opera Internacional Radio")

http://archive.operainfo.org/broadcast/operaBackground.cgi?id=92&language=4


Libreto /Salomé


SALOMÉ

Paulo Corrêa Lopes


Só, na cisterna, João Batista em prece
sonha. Estende-se a noite silenciosa,
e, na nudez da solidão piedosa,
o desespero que o tortura esquece.

Dorme o palácio. Salomé ansiosa,
como pantera atroz que se enraivece,
em contorções se agita, e se estremece,
debruçada num tálamo de rosa...

Quase nua se ergue, e altivamente,
nos estos da volúpia que a devora,
desprende as tranças sobre a espádua ardente.

Treme-lhe o lábio aparecendo um beijo,
clama pelo Profeta, e anseia, e chora,
nas algemas da carne e do desejo!

sábado, outubro 30, 2004


Salome / Pierre Bonnaud


Salomé

Mário de Sá Carneiro


Insônia roxa. A luz a virgular-se em medo,
luz morta de luar, mais alma do que lua...
Ela dança, ala range. A carne, álcool de lua,
alastra-se pra mim num espasmo de segredo...

Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio...Alabastro!...A minha alma parou...
E o seu corpo resvala a projetar estátuas...

Ela chama-me em íris. Nimba-se a perder-me,
golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto...
Timbres, elmos, punhais... A doida quer morrer-me:

mordoura-se a chorar – há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto e vou arder-me
na boca imperial que humanizou um santo...

quinta-feira, outubro 28, 2004


Salome dancing before Herod / Gustave Moreau, 1876


Nas minhas andanças pela selva virtual, encontrei o quadro de Gustave Moreau "Salome dancing before Herod" (1874-1876). Já tinha estudado outra pintura de Moreau mais detalhadamente numa disciplina de Intersemiótica - "Júpiter e Sêmele", indizivelmente fantástica. Mas nunca tinha me dado conta das panteras de Salomé.

O felino reaparece em quadros de outros artistas marcando presença em peles de tigre ou de onça. A bíblica sacerdotisa da Lua e sua Sombra. Símbolo da luxúria, a pantera? Alude aos maneios sensuais da dançarina dos sete véus?

Bem, eu não me satisfaço nunca com poucas informações, nunca - um inferno em vida, no qual quero sempre arder. Dei de cara com a vasta iconografia inspirada em Salomé; um site só sobre decapitações (www.sepulchritude.com/chapelperilous/decollete/decollete-salome.html); um poema de Mário de Sá Carneiro, a peça de Oscar Wilde, Mallarmé, Flaubert, Apollinaire e ... Dorothy Parker.

Continuo na selva.
Durante os próximos dias, vamos vistar Salomé.

Zoe

domingo, outubro 17, 2004


STRENGTH / The Blue Rose Tarot Deck by Paula Gibby

E existe algo mais poderoso do que a energia do Mago somada à Imperatriz?
A Pantera Azul está solta - a Caixa de Pandora aberta.

{* *}

O Tigre


William Blake


Tigre! Tigre! Brilho, brasa
Que a furna noturna abrasa,
Que olho ou mão armaria
Tua feroz simetria?

Em que céu se foi forjar
O fogo do teu olhar?
Em que asas veio a chama?
Que mão colheu esta flama?

Que força fez retorcer
Em nervos todos o teu ser?
E o som do teu coração
De aço, que cor, que ação?

Teu cérebro, quem o malha?
Que martelo? Que fornalha
O moldou? Que mão, que garra
Seu terror mortal amarra

Quando as lanças das estrelas
Cortaram os céus, ao vê-las,
Quem as fez sorriu talvez?
Quem fez a ovelha te fez?

Tigre! Tigre! Brilho, brasa
Que a furna noturna abrasa,
Que olho ou mão armaria
Tua feroz simetria?


(tradução de Augusto de Campos)

Posted by Hello

quinta-feira, outubro 14, 2004


Private Dancer/Jack Vettriano Posted by Hello

Está na hora da onça beber água


ela vai com sede ao pote
ela vai com alma, a pintada,
a mansa, com a calma
da fera que espreita, a bela.
ela vai com pele de onça, a ponta
da pata macia na terra, ela
alta, básica, séria, ela salta
vai além do bote, ela morde
ela sabe.


Janice Caiafa
de Neve Rubra/Sette Letras/96

sexta-feira, outubro 08, 2004


Uma lágrima  Posted by Hello

O mundo menos doce


Tem coisas que não dá pra entender. Postei a foto de minha irmã com o gatinho no dia 4. Entre centas fotos de mulheres & gatos, escolhi essa - um pouco ressabiada, confesso: - será que minha irmã não acharia ruim que eu colocasse a foto dela no blog? Depois pensei que não, de forma alguma. Maria Tereza é afável, menos quando dança flamenco. E depois, porque se chatearia com uma homenagem? Efetivamente, não se chateou.

Há poucos momentos bateu o telefone, bem quando eu estava para postar algo por aqui. E me deu a má notícia: o gatinho Mehl morreu. Um dos rottweillers (fssssssst, que me perdoem os cachorrófilos, eu não gosto, não gosto MESMO) deu uma patada no bichinho. E lá se foi o Mehl, curtir suas outras vidas em algum céu felino. Estou triste, bem triste. Não tão triste quanto minha irmã, que ligou chorando. Mas o suficiente para lamentar muito. Ele era lindo, amigável, doce.

Bye, gatinho Mehl.
Faz companhia para o meu Sombra aí no paraíso dos gatos.

Zoe
p.s.: leitores, poupem-me da observação de que os cachorros são inimigos naturais dos gatos. EU SEI.


segunda-feira, outubro 04, 2004


Mehl e Maria Tereza Posted by Hello

Mulher e Gata



Ela brincava com a gata
E era admirável ver as duas,
A branca mão e a branca pata,
Brincando à noite, na penumbra.

Ela escondia - a celerada ! -
Sob as mitenes de fio escuro
As assassinas unhas de ágata,
Claras, cortantes, como um gume.

Fingia-se a outra adoçada
E retraía a garra afiada,
Mas o diabo nada perdia...

E no toucador retinia
O som de aéreas gargalhadas
E quatro pontos fosforesciam.


Paul Verlaine (1844-1896)
p.s.: dedico esse belo poema de Verlaine para minha irmã, Maria Tereza e para minha amiga Adalgisa, a dona de Deus.

sexta-feira, outubro 01, 2004


O Descanso do Gato, de Vicky Dolabella Posted by Hello

O Olhar Abstrato dos Gatos


Nesse último domingo em Curitiba, curti O Olhar Abstrato dos Gatos - vernissage de Vicky Dolabella no Solar do Rosário. Os trabalhos são magníficos, literalmente babei. Como se não bastasse o dia ensolarado, meu bom humor e a companhia da Valentina, Vicky é gatíssima e dona de um astral nota 1000. Ficava amiga facinho. Deviam inventar mais mulheres assim. E para completar, conhece a minha super ultra comadre, BRUXURSINHA (cadê, cadê?) que, depois que começou a trabalhar num certo jornal paulista, me esqueceu completamente. Sniff.... No problem. Um dia ela volta. Só fico aqui pensando quem cuida dos 9 gatos quando ela está fora - que somando com as nove vidas de cada um deles mais a dona da casa ... bem, são 82 vidas no apartamento da Bru.

Aqui em casa somos mais econômicos - 21 vidas tá bom demais.


ZdC

p.s.: Vicky tem um site - http://www.vickydolabella.com.br/

Gatos Apaixonados, de Vicky Dolabella Posted by Hello

MISTER MISTÓFELIS


Precisas conhecer Mister Mistófelis!
Um misto de Felino e de Mefisto -
(Dúvida alguma sóbre sobre isto!)
Que zombem, mas não posso numa estrofe lhes
Dizer o que dele tenho visto.
Informa-se em alquímicos in-fólios,
Tem todas as patentes, monopólios
Para exercer performances e truques
Que herdou de condes, dráculas e duques.
Na prestidigitação
E nos passes que realiza
Ilude qualquer pesquisa
E cria nova ilusão.
Os mágicos do mundo inteiro estimam-no
Por ser de todos o maior prestímano.
Um, dois e três!
E era uma vez!
Vejam vocês!
Digo e estou certo:
Ninguém decerto
Chegou nem perto
Do Gato Mago-Mefisto-Félix!

Ele é pequeno e quieto, a cor é preta
Desde a ponta da orelha ao rabo esguio;
Esgueira-se na mais estreita greta
E se equilibra no mais frágil fio.
A carta que quiser, fácil afana
E é destro em dados, varas de adivinhos;
Ele sempre te engana que tem gana
De andar à caça apenas de "peixinhos".
Tira tudo do estofo da casaca,
Faz milagres com a caixa-de-surpresa;
Se um garfo lá se foi ou falta a faca,
E achas que te enganaste ao pôr a mesa -
O talher que inda há pouco evaporou-se
Surge num fosso como se osso fosse!
Vejam vocês!
Pois estou certo
Que ele é decerto
O mais desperto

O Gato Mago Mefisto-Félix!

Mostra um ar vagamente alienado
Quando a sua modéstia está em jogo...
Mas sua voz ouviu-se do telhado
Quando foi chamuscado pelo fogo.
E ouvimo-lo também ao pé do fogo
Quando ele faz das suas no telhado...
(Pelo menos na poltrona sabemos que só ronrona)
Eis aqui o atestado detalhado
De seu poder de mágico inconteste:
Certa vez a família em peso abala
A buscar no jardim inteiro o peste
Enquanto ele dormia em plena sala.
E fez agora aparecer, frajola,
Sete gatinhos dentro da cartola!
Vejam vocês!
Não há decerto
Um mais esperto

Que o Gato Mago Mefisto-Félix!


T. S. Eliot

Tradução de Ivo Barroso,
felinamente digitado por Ivan Justen Santana

segunda-feira, setembro 27, 2004


"Eu não sou um demônio. Sou um um lagarto, um tubarão, uma pantera à procura de calor. Eu quero ser Bob Denver tocando acordeon".

Nicholas Cage
Posted by Hello

terça-feira, setembro 21, 2004

ao meu grande, único e verdadeiro amor


que meu amor não seja pra ti pesado fardo
antes borboleta em seu ombro delicado
triste um dia parti e eis-me agora intacto
ficam espinhos enquanto caem flores de cacto

venha entregue a mim, meu jugo é suave
você lembra tudo que me faz sentir saudade
meu coração viu estrelas no céu da sua cidade
olhe-as na minha para ver como sou de verdade

pena que pra tanto amor tão pouca vida
é menos que o meu sentir tudo que eu diga
pudera fora como eras outrora, querida
pluma leve que o tempo leva sem ser ferida


Marcos Prado, Roberto Prado & Thadeu

Não me pergunte Posted by Hello

sábado, setembro 18, 2004

Poema XIV, "Do Amor"


Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida avidez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora

Há tanto tempo sua própria tessitura.

Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.


Hilda Hilst

terça-feira, setembro 14, 2004


Sei que você está de olho em mim Posted by Hello

Gotas de Ajenjo



Julio Flórez


Oye tus ojos tan profundas huellas
Dejaron para siempre en mis entrañas,
Que en las noches tranquilas
Suelo mirar absorto las estrellas
Sobre la cresta azul de las montañas,
Tan solo porque en ellas
Me parece que miro tus pupilas
Rodar tras de la red de tus pestañas.
Presa, entonces, de trágica agonía,
Pierdo toda mi calma,
Y hasta el fondo del alma
Torno azorado la mirada mía;
Y al contemplar de tus desdén los rastros,
Por no ver más tus ojos, bien quisiera,
Con ira de pantera,
Rasgar los cielos y extinguir los astros.


LXII de Gotas de Ajenjo

sábado, setembro 11, 2004


No Parapeito Posted by Hello

Antenas


Que receio é este
Que no meu coração profético
Incrustrado bate com maus agouros
Entoando, a seu gosto,
musica oracular e melancólica?


Shakespeare

segunda-feira, setembro 06, 2004


I love you, Bicho-Gatinho ... Posted by Hello

E este é o nome secreto do meu Gato.

Dar Nome Aos Gatos

Dar nome aos gatos é uma questão difícil,
Não é nenhum jogo de férias;
Podeis pensar que sou doido varrido
Quando vos digo que um gato deve ter TRÊS DIFERENTES
NOMES
Antes de mais nada, há o nome que a família emprega diariamente,
Tal como Peter, Augustus, Alonzo ou James,
Tal como Victor ou Jonhatan, George ou Bill Bailey -
Todos eles sensatos nomes de todos os dias
Há nomes de maior fantasia se achais que soam melhor,
Alguns para cavalheiros, alguns para as damas:
Tal com Plato, Admeteus, Electra, Demeter -
Mas todos eles sensatos nomes de todos os dias
Mas, digo-vos eu, um gato precisa de um nome que seja particular,
Um nome que seja peculiar, e mais dignificado,
Senão, como pode ele manter a cauda perpendicular,
Ou estender os bigodes, ou encarecer o orgulho?
De nomes como Muskustrap, Quaxo ou Coricopat,
Tais como Bombalurina, ou então Jellylorum -
Nomes que nunca pertencem a mais do que um gato
Mas, mais acima e mais além, falta ainda outro nome,
E esse é o nome que jamais adivinharéis;
O nome que nenhuma investigação humana pode descobrir -
Quando se vê um gato em profunda meditação,
A razão, digo-vos eu, é sempre a mesma:
O seu espírito está em ávida contemplação
Do pensamento, do pensamento, do pensamento do seu nome:
do seu inefável efável
Efaninefável
Profundo e incontável singular Nome.


T. S. Eliot
p.s.: alguém pode me confirmar se essa é a tradução do Marco Luchesi?

sexta-feira, setembro 03, 2004


Le Magicien/Clovis Trouille Posted by Hello

CANTO PARA CLOVIS TROUILLE

El nácar crepuscular de unas uñas leoninas

El antifaz concebido como brote de musgo de un rostro cautivo de sus propios desatinos

La pantera feroz en contraste perfecto con los erectos senos y con las axilas en flor

Las manos diamantinas que al rozar la oscuridad de una cabellera bermeja parecen sostener todo el peso del Universo

La imagen instantánea de tantos óleos magnetizados por la brisa de lo irracional

La orgía de las fuentes lumínicas enardecidas por las bellas muchachas rendidas

La orgía del negro incorruptible y la desazón perpetua del tirano en retirada detrás de las bambalinas del paraíso y del infierno del trazo impresionista

El desvío de los ojos de la pecadora que desea transformarse durante una tormenta de nieve en jeroglífico de carne espléndida

La barca que le sirve al soñador como instrumento musical

El maniquí recién maquillado arrojado a las fieras desveladas

El obelisco que apunta sus crepúsculos silenciosos hacia un decorado pleno de costuras delirantes

Las rosas que hipnotizan

Los cortes abruptos en la arquitectura del colibrí del vals de lo inesperado

El exhibicionismo durante un descarrilamiento o una penetración amorosa a la luz de una vela enervada a la luz de un glande que no acepta negativas

El humo indomable de una boquilla de nácar

Las telarañas adormecidas por la canícula y los cielos bajos que aquietan a los palmares

El gabinete para sosiego de prestidigitadores

Clovis el pintor de los sueños inconclusos de las medias negras de seda inalterable de las diademas de almendro de las serpientes para ornar el paseo

Clovis muestra el secreto del origen del mundo encerrado en una mirada siempre la misma siempre otra.


Alejandro Puga
El Libro Amoroso