sábado, dezembro 25, 2004





L'isola delle sirene



Quando ai suoi ospiti che domandavano,

alla fine del loro giorno, dei

suoi viaggi sul mare e dei pericoli,

tranquillo raccontava, non sapeva



mai come spaventarli e quali forti

parole usare perchè come lui

nell'azzurro pacifico arcipelago

vedessero il dorato colore di quell'isole



la cui vista fa sì che muti volto

il pericolo, e non è più nel rombo,

non nel tumulto come sempre era;

ma senza suono assale i marinai



i quali sanno che là su quell'isole

dorate qualche volta s'ode un canto,

ed alla cieca premono sui remi,

come accerchiati



da quel silenzio che tutto lo spazio

immenso ha in sè e nelle orecchie spira

quasi fosse la faccia opposta del silenzio

il canto cui nessun uomo resiste.



Rainer Maria Rilke

quinta-feira, dezembro 23, 2004


Sereia / Picasso


CANTO A UNA SIRENA



¿Cuál es la lluvia

que debo crear

para tu cielo,

ahora que soy mucho más

que el aguardiente

de tu pelo?

Déjame llover entero

déjame

llover

entero

que las llaves de tu mar

han caído

desde el cielo.



Jorge Montesino

quarta-feira, dezembro 22, 2004


John Waterhouse - Ulisses e as Sereias

O SILÊNCIO DAS SEREIAS
Franz Kafka

Comprovação de que mesmo meios insuficientes, e até infantis, podem conduzir à salvação.

A fim de proteger-se das sereias, Ulisses entupiu os ouvidos de cera e mandou que o acorrentassem com firmeza ao mastro. É claro que, desde sempre, todos os outros viajantes teriam podido fazer o mesmo (a não ser aqueles aos quais as sereias atraíam já desde muito longe), mas o mundo todo sabia que de nada adiantava fazê-lo. O canto das sereias impregnava tudo - que dirá um punhado de cera -, e a paixão dos seduzidos teria arrebentado muito mais do que correntes e mastro. Nisso, porém, Ulisses nem pensava, embora talvez já tivesse ouvido falar a respeito; confiava plenamente no punhado de cera e no feixe de correntes, e, munido de inocente alegria com os meiozinhos de que dispunha, partiu ao encontro das sereias.

As sereias, porém, possuem uma arma ainda mais terrível do que seu canto: seu silêncio. É certo que nunca aconteceu, mas seria talvez concebível que alguém tivesse se salvado de seu canto; de seu silêncio, jamais. O sentimento de tê-las vencido com as próprias forças, a avassaladora arrogância daí resultante, nada neste mundo é capaz de conter.

E, de fato, essas poderosas cantoras não cantaram quando Ulisses chegou, seja porque acreditassem que só o silêncio poderia com tal opositor, seja porque a visão da bem-aventurança no rosto de Ulisses - que não pensava senão em cera e correntes - as tenha feito esquecer todo o canto.

Ulisses, contudo, e por assim dizer, não ouviu-lhes o silêncio; acreditou que estivessem cantando e que somente ele estivesse a salvo de ouvi-las; com um olhar fugaz, observou primeiro as curvas de seus pescoços, o respirar fundo, os olhos cheios de lágrimas, a boca semi-aberta; mas acreditou que tudo aquilo fizesse parte das árias soando inaudíveis ao seu redor. Logo, porém, tudo deslizou por seu olhar perdido na distância; as sereias literalmente desapareceram, e, justo quando estava mais próximo delas, ele já nem mais sabia de sua existência.

Elas, por sua vez, mais belas do que nunca, esticavam-se, giravam o corpo, deixavam os cabelos horripilantes soprar livres ao vento, soltando as garras na rocha; não queriam mais seduzir, mas somente apanhar ainda, pelo máximo de tempo possível, o reflexo dos grandes olhos de Ulisses.

Se as sereias tivessem consciência, teriam sido aniquiladas então; mas permaneceram: Ulisses, no entanto, escapou-lhes.

Dessa história, porém, transmitiu-se ainda um apêndice. Diz-se que Ulisses era tão astuto, uma tal raposa, que nem mesmo a deusa do destino logrou penetrar em seu íntimo; embora isto já não seja compreensível ao intelecto humano, talvez ele tenha de fato percebido que as sereias estavam mudas, tendo então, de certo modo, oferecido a elas e aos deuses toda a simulação acima tão-somente como um escudo.


23 de outubro de 1917
tradução de Modesto Carone

domingo, dezembro 19, 2004



Yara, Fascínio de Sereia


Meu valente apigáua!
Vem habitar comigo a mesma taba
Dormir na mesma tépida quiçáua!
Sou a mãi d'água te farei puranga
Tens nos meus olhos a melhor puçanga

Yara
Acrísio Mota – 1898


Metade mulher, metade monstro - sinônimo de sedução e perigo, de beleza sobrenatural. Da sedução que supera a sexualidade, se concordarmos com Jean Baudrillard.

Lendas que contam tragédias de amor, como o de Loreley do Reno; histórias de mulheres violadas que se voltam contra os que causaram sua dor e humilhação. Espíritos de moças afogadas que após a metamorfose tornam-se impiedosas devoradoras de carne humana.

No Canto XII da Odisséia, a feiticeira Circe avisa Ulisses que as Sereias moram em um prado, junto a um grande monte de ossos de homens em putrefação. Sereias são seres de cemitério, é bom lembrar. Ovídio irá caracterizá-as à imagem de pássaros de plumas avermelhadas com rosto de mulher. Segundo J. L. Borges, a música das sereias é uma arma letal e sua lei é morrer quando alguém não se deixa seduzir pelos seus encantos. Orfeu, o mítico poeta e músico grego, em busca do Velocino de Ouro com os Argonautas, cantou com maior doçura tangendo sua lira e elas, desesperadas, atiraram-se ao mar, transformando-se em rochas.

Franz Kafka no O Silêncio das Sereias diz que elas possuem uma arma maior do que o seu canto - o silêncio. A cera colocada no ouvido, como fizeram os companheiros de Ulisses, seria insuficiente para conter tal poder de sedução. Ulisses não teria ouvido o seu silêncio. Será?

Dizem que a sereia nunca é possuída a não ser que este seja o seu desejo - questão paradoxal depois da leitura de alguns mitos, como veremos adiante. As Rusalki (ou russalkas), sereias russas e eslavas, são terrivelmente vingativas. Se uma irmã é pega, o destino do caçador está traçado: morrerá dilacerado. Sereias são gregárias, amam a sua espécie.

São chamadas de Spunkies na Escócia, de Groachs na Bretanha, de Gwaragedd em Gales, de Ninguyo no Japão, de Zavas na Polônia, de Mouras Encantadas em Portugal, de Mães d'Água na África.

É Dagon e Partênope, Lígia e Leucósia, Teodora e Murgen.

E no Brasil, a sereia se chama Yara. Diz a lenda (1) :

"Yara, a jovem Tupi, era a mais formosa mulher das tribos que habitavam ao longo do rio Amazonas. Por sua doçura, todos os animais e as plantas a amavam. Mantinha-se, entretanto, indiferente aos muitos admiradores da tribo. Numa tarde de verão, mesmo após o Sol se pôr, Yara permanecia no banho, quando foi surpreendida por um grupo de homens estranhos. Sem condições de fugir, a jovem foi agarrada e amordaçada. Acabou por desmaiar, sendo, mesmo assim, violentada e atirada ao rio. O espírito das águas transformou o corpo de Yara num ser duplo. Continuaria humana da cintura para cima, tornando-se peixe no restante. Yara passou a ser uma sereia, cujo canto atrai os homens de maneira irresistível. Ao verem a linda criatura, eles se aproximam dela, que os abraça e os arrasta às profundezas, de onde nunca mais voltarão."

Essa história mostra uma face até então desconhecida da lenda, que sempre apresenta a Yara como um encantado aquático, pouco se falando, no Brasil, sobre uma possível origem humana e de seus sofrimentos. Normalmente, é retratada como uma mulher de cabelos muito longos, sobrenaturalmente verdes ou de um louro dourado, que usa um pente de ouro e carrega os homens para o fundo do rio.

A Sereia violentada comparece também em um poema-fábula de Pablo Neruda:


Fabula de la sirena y los borrachos


TODOS estos señores estaban dentro
cuando ella entró completamente desnuda
ellos habían bebido y comenzaron a escupirla
ella no entendía nada recién salía del río
era una sirena que se había extraviado
los insultos corrían sobre su carne lisa
la inmundicia cubrió sus pechos de oro
ella no sabía llorar por eso no lloraba
no sabía vestirse por eso no se vestía
la tatuaron con cigarrillos y con corchos quemados
y reían hasta caer al suelo de la taberna
ella no hablaba porque no sabía hablar
sus ojos eran color de amor distante
sus brazos construidos de topacios gemelos
sus labios se cortaron en la luz del coral
y de pronto salió por esa puerta
apenas entró al río quedó limpia
relució como una piedra blanca en la lluvia
y sin mirar atrás nadó de nuevo
nadó hacia nunca más hacia morir.

*

Arriscando uma interpretação, me parece que a sereia sempre traz no peito uma dor de amor - não raro é vítima de alguma injustiça. E pelo jeito, nem em terras tupiniquins escapou da tristeza e de uma inegável melancolia, raiz do seu instinto vingativo. A falta de uma contraparte masculina e a sua não-compleitude como mulher fazem parte da sua natureza de modo indistinto, causando devastação por onde quer que encante.

A lenda da Yara é um amálgama de mitos das mais diversas procedências, mitos estes que encontraram um fértil terreno no Brasil, terra de Cy’s’ aquáticas, de serpentes primevas, dos terríveis ipupyraras - seus parentes nativos.

Os ipupyaras são monstros da água, normalmente citados como seres masculinos. Pelo menos é o que encontramos em Osvaldo Orico, Câmara Cascudo, Teodoro Sampaio e outros medalhões do nosso folclore. Talvez o primeiro registro dos ipupyaras tenha sido feito por José de Anchieta: "Há também nos rios outros fantasmas, que chamam de Igputiara, isto é, que moram n'água, que matam do mesmo modo os índios".

Podemos encontrar outros subsídios sobre os ipupyaras no livro de Afonso de Escragnolle Taunay, "Zoologia Fantástica do Brasil". Nele temos um dos registros dos homens-aquáticos, citado pelo jesuíta Fernão Cardim (2).

"Estes homens marinhos se chamam na língua Igpupiara; têm-lhe os naturais tão grande medo que só de cuidarem nele morrem muitos, e nenhum que o vê escapa; alguns morreram já e perguntando-lhes a causa, diziam que tinham visto este monstro; parecem-se com homens propriamente de boa estatura, mas têm os olhos muito encovados. As fêmeas parecem mulheres, têm cabelos compridos, e são formosas; acham-se estes monstros nas barras dos rios doces. Em Jagoarigipe sete ou oito léguas da Bahia se têm achado muito; no ano de oitenta e dois indo um Índio pescar, foi perseguido de um, e acolhendo-se em sua jangada o contou ao senhor; o senhor para animar o Índio quer ir ver o monstro, e estando descuidado com uma mão fora da canoa, pegou dele, e o levou sem mais parecer, e no mesmo ano morreu outro Índio de Francisco Lourenço Caiero. Em Porto Seguro se vêem alguns, e já têm morto alguns Índios. O modo que têm para matar é: abraçam-se com a pessoa tão fortemente beijando-a e apertando-a consigo que a deixam feita toda em pedaços, ficando inteira, e como a sentem morta, dão alguns gemidos como de sentimento e, largando-a, fogem; e se levam alguns comem-lhe somente os olhos, narizes e a ponta dos dedos dos pés e das mãos, e as genitálias, e assim os acham de ordinário pelas praias com estas coisas menos."

É interessante que os jesuítas e viajantes dão notícias da existência dessas figuras rodeando-lhes de uma aura de 'verdade', ou seja, como se fosse um fato incontestável. E podemos notar também o registro, em 1583, que ressalta os ipupyaras femininos. Ou seja, depois de 1500, o que a crônica colonial traz de mais puramente indígena, no que concerne a monstros ou deidades da água, são os ipupyaras.

Taunay, ao sintetizar o 'crème de la crème' da Zoologia Fantástica na crônica colonial, relata que os ipupyaras eram bastante aproximados ao peixe-boi, ou ainda, a uma espécie de leão marinho. Existe a Cy (Mãe) do Peixe Boi, a Xundaráua, uma espécie de madrinha da pesca. Xundaráua faz com que os pescadores não voltem do rio sem trazer um daqueles cobiçados mamíferos. Exige, porém, que não se mate o primeiro que surja e nunca mais de um animal. Quem violar a regra nunca mais terá êxito nas suas empresas. Esse dado denota que existe algum tipo de culto ("culto" à maneira indígena, é bom frisar) ao Peixe Boi.

E o mito da Cobra Grande? É Rainha dos encantados no ciclo fluviônico (ictiológico ou aquático) indígena. As lendas aquáticas originaram-se do ctonismo silvícola e sua idéia fundamental repousa na idéia de um ser feminino (andrógino, talvez) corporificado na água. Um dos melhores exemplos é a Lenda do Nascimento da Noite. A melhor versão, e também a menos simplificada, é dada por Adaucto Fernandes, em que a Cobra Grande é relacionada a uma deidade feminina da água, Amana.

Vejamos o mito da Cobra Grande, original do Rio Branco:

"Uma das lendas da Boiúna, conta que uma linda cunhã, de grandes e vibrantes olhos negros, costumava andar na sua canoa pelo Rio Branco. Ela encantava a todos com a sua beleza e do seu corpo emanavam raios luminosos que se transformavam em música e atraiam os peixes. Por isso, acreditavam os pescadores que, quando ela singrava pelas águas, a pesca seria farta. Suspenso no seu colo estava sempre o Muirakitã, seu amuleto sagrado. Um dia, o Rio Branco, já tomado de amores pela jovem, também começou a emitir raios luminosos. E pelo efeito mágico do Muirakitã os raios de luz da cunhã e as emanações do rio cruzaram-se, o que transformou a moça em uma enorme cobra, a Boiúna. Nas noites de lua cheia a guardiã do Rio aparece e traz muitos peixes para que os habitantes ribeirinhos possam alimentar-se. Agora, se alguém aparece para depredar o rio a Boiúna vira as embarcações, matando seus barqueiros".

A imensa massa fluvial brasileira, país que acolhe o maior rio do mundo, não poderia deixar de ter suas Mães d'Água. É uma pena que nossos povos indígenas, ágrafos, não tenham registrado histórias de sereias a não ser nos relatos orais ou nas peças de cerâmica. Dependemos dos primeiros cronistas, sempre a registrar os mitos com filtro etnocêntrico. Felizmente, temos os registros arqueológicos que, embora pequem pela aridez, nos oferecem ao menos dados etnográficos confiáveis.

A Cobra Grande é a principal raiz dos mitos aquáticos. Temos, além do maior rio do mundo, uma das maiores cobras, a anaconda ou sucuriju, correlato real da Cobra Grande – maior que a sucuriju só mesmo a píton africana. Ganhamos do Egito no tamanho do rio.

Continuando com as cobras, um resumo do o mito de Tuluperê (3):

"Sendo o animal que mais se aproxima do simbolismo cíclico do vegetal, a cobra encontra uma relação com os produtos da tecedura e da fiação. No Brasil, a representante é Tuluperê, outra das faces da Cobra Grande. Tuluperê, segundo nos conta a Lenda da Cestaria, vivia nas profundezas do Rio Paru, um afluente do Amazonas. Suas cores eram o vermelho e o negro, sendo como um híbrido da sucuriju e da jibóia. A cobra virava os barcos e quando atracava alguma vítima, apartava-a até a morte e então, a devorava. Certo dia, o pajé da tribo dos Wayana, do tronco Karib, conseguiu matar a flechadas Tuluperê e guardaram na memória os desenhos que ornamentavam a sua pele. Daí por diante, passaram a reproduzir esses grafismos em suas cestas".

Tendo permanecido na arte da cestaria, o mito de Tuluperê é revivido: mito e ritual.

Temos também no nosso repertório as mulheres míticas, algumas delas transformadas em deidades da água ou ainda originárias do ambiente aquático como Amana (Karib); Maïsö (Paresi); Naoretá (Tupari); Katxuréu (Macurap) Iururaruaçú (Uaiás) e Hanekasá (Yanomami-Sanema).

Das deidades acima citadas, não é possível afirmar que persistam cultos e ritos. Mas existem uma, em especial, que faz parte de toda uma ritualística indígena: Tauvyma, personagem mítico feminino dos Asuriní do Xingu, um espírito das águas que um dia foi mulher. Sua presença nas águas é chamada de Tauva e faz parte de um extenso corpo de rituais.

Ainda dentro do aspecto ritualístico temos as divindades aquáticas invocadas pelos xamãs Kaapor, chamadas de Irïwär, que se acredita ajudarem os xamãs a predizer o futuro, a restaurar suprimentos de caça esgotados e a diagnosticar e curar doenças. O xamanismo envolve uma performance pública, assistida por habitantes da aldeia de todas as idades. Os xamãs Ka'apor afirmam ter sido chamados espiritualmente para esta ocupação quando arremessados em um córrego pela Mãe d´Água.

A nossa Yara, a sereia brasileira, é cria híbrida de muitas lendas assim como o nosso povo é fruto de várias etnias. Mas também é, sem dúvida alguma, uma sobrevivência do imaginário dos povos indígenas, das mais variadas tribos.

A imaginação se alimenta de sereias nas serenas madrugadas. E a história continua, mostrando toda a vitalidade de um dos mais persistentes mitos da humanidade.


Em Cy,
Zoe de Camaris



1- http://www.estadao.com.br/villasboas/yara.htm
LENDAS INDÍGENAS - Texto adaptado do livro Lendas e Mitos dos Índios Brasileiros
FTD Editora - Walde-Mar de Andrade e Silva

2 - TAUNAY, Afonso de Escragnolle. Zoologia Fantástica do Brasil. São Paulo: Edusp. p.102,103

3 - ver em VELTHEM, Lúcia Hussak van. A Pele de Tuluperê: uma etnografia dos
trançados Wayana. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, Coleção Eduardo
Galvão, 1998, 251p.

4 - MÜLLER, Regina Polo. Os Asuriní do Xingu: história e arte. Campinas: Editora
da Unicamp, 1990.



quinta-feira, dezembro 16, 2004


Julie Newmar - Catwoman


Sereias, seres híbridos. Sempre gostei. Centauros, Minotauros, Melusinas e Medusas. Meio gente, meio bicho. E quem não é? Quem não tem um arquétipo animal pulsando dentro de si? Metamorfoses, transformações ... ainda não encontrei um assunto que me fascine tanto. E agora, com vocês, as Sereias. Afinal, estamos quase no verão. Mesmo em Curitiba. Curitiba vai ter mar. Teimo em acreditar.

Tchau, uniforme de inverno.
Hora de mergulhar.

Zoe de Camaris

terça-feira, dezembro 14, 2004




Metade Pássaro


A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.

A mulher do fim do mundo
Chama a luz com um assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas ao rio,
Me puxa do sonho eterno
Para os seus braços que cantam.


Murilo Mendes
O Visionário (1941)


quinta-feira, dezembro 09, 2004


Venus and the Queen of Hearts by Keith Holmes

A Rainha de Copas cortou todas as cabeças. Engana-se quem pensa que é atributo único de Espadas. Cabeças são arrancadas antes de tudo por fortes emoções. A frieza é um apuro nos sentimentos, máscara da impassibilidade. Quero meus olhos brilhando. Os cinco quilos que perdi na dança, serão delicadamente recuperados. Meu coração reconhece enfim, a garra do seu desejo, a plenitude da graça. Agora, posso voltar pra casa. As sementes brotaram, as portas estão abertas e há uma chaleira cheia, repleta de água quente para o chá. Pêra e baunilha, cartas e morangos, fitas de todas as cores espalhadas pela sala. Tirei o pó das pedras, queimei os negrumes, organizei as gavetas e o cheiro do seu corpo sobre o lençol azul acalenta suave. É bom ser sua. É bom ser minha. Estava com saudade.

Zoe

Waiting for the rain



OPus 2



feito tímida pedra
aguardo
o toque das suas águas

diz-me o imperturbável céu:
chuvas, em setembro

tropeço na calçada seca
e me lanço

entretida
na noite


(a lua negra desce das nuvens)


e havia sol no olhar que não espero
o abismo e o inferno
o reduto dos amigos
e suas investidas

segredos horizontais
sobre lençóis de tergal barato


o corpo, a mancha, o movimento, o pacto


línguas de salamandras
espiam entre as chamas

e você via
a fagulha fugidia
e a alegria que assusta
dos meus olhos abertos

- envolvidos em tentáculos carnívoros
a pequena morte que nos assistia -


sozinha
nos labirintos de Vila Rica
leio, ao dobrarem os sinos,
pergaminhos petrificados
os símbolos e sinais
da sua partitura

maneios e negros anéis
da medusa barroca

seremos nós
de viés
nas calçadas

chove.


Zoe de Camaris
Ouro Preto, 1997

.....
p.s.: não encontrei o autor da imagem, por ora

terça-feira, dezembro 07, 2004



La muerte de Salomé

  莎樂美之死



I

La historia, a veces, no está en lo cierto. La leyenda, en ocasiones, es verdadera, y las hadas mismas con­fiesan, en sus intimidades con algunos poetas, que mu­cho hay falseado en todo lo que se refiere a Mab, a Brocelianda, a las sobrenaturales y avasalladoras bel­dades. En cuanto a las cosas y sucesos de antiguos tiempos, acontece que dos o más cronistas contemporáneos estén en contradicción. Digo esto porque quizá habrá quien juzgue falsa la corta narración que voy a escribir en seguida, la cual tradujo un sabio sacer­dote, mi amigo, de un pergamino hallado en Palestina, y en el que el caso estaba escrito en caracteres de la lengua de Caldea.



II

Salomé, la perla del palacio de Herodes, después de un paso lascivo en el festín famoso, donde bailó una danza al modo romano, con música de arpas y crótalos, llenó de entusiasmo, de regocijo, de locura, al gran rey y a la soberana concurrencia. Un mancebo principal deshojó a los pies de la serpentina y fasci­nadora mujer una guirnalda de rosas frescas. Gayo Manipo, magistrado obeso, borracho y glotón; alzó su copa dorada y cincelada, llena de vino, y la apuró de un solo sorbo. Era una explosión de alegría y de asom­bro. Entonces fue cuando el monarca, en premio de su triunfo y a su ruego, concedió la cabeza de Juan Bautista, y Jehová soltó un relámpago de su cólera divina. Una leyenda asegura que la muerte de Salomé acaeció en un lago helado, donde los hielos le cortaron el cuello.

No fue así; fue de esta manera.



III


Después que hubo pasado el festín, sintió cansancio la princesa encantadora y cruel. Dirigióse a su alcoba, donde estaba su lecho, un gran lecho de marfil, que sostenían sobre sus lomos cuatro leones de plata. Dos negras de Etiopía, jóvenes y risueños, le desciñeron su ropaje, y, toda desnuda, saltó Salomé al lugar del reposo, y quedó blanca y mágicamente esplendorosa, so­bre una tela de púrpura, que hacía resaltar la cándida y rosada armonía de sus formas.


Sonriente, mientras sentía un blando soplo de flabeles, contemplaba, no lejos de ella, la cabeza pálida de Juan, que en un plato áureo, estaba colocada sobre un trípode. De pronto, sufriendo extraño sofocación, ordenó que se le quitasen las ajorcas y brazaletes de tobillos y de los brazos. Fue obedecida. Llevaba al cuello, a guisa de collar, una serpiente de oro, símbolo del tiempo, y cuyos ojos eran dos rubíes sangrientos brillantes. Era su joya favorita; regalo de un pre­tor, que la había adquirido de un artífice romano.


Al querérsela arrancar, experimentó Salomé un sú­bito error: la víbora se agitaba como si estuviese viva, sobre su piel, y a cada instante apretaba más y más su fino anillo constrictor, de escamas de metal. Las esclavas, espantadas, inmóviles, semejaban estatuas de piedra. Repentinamente, lanzaron un grito; la cabeza trágica de Salomé, la regia danzarina, rodó del lecho hasta los pies del trípode, adonde estaba, triste y lívi­da, la del precursor de Jesús; y al lado del cuerpo desnudo, en el lecho de púrpura, quedó enroscada la serpiente de oro.



Rubén Dario
O Beijo



Cena do filme A Última Dança de Salomé - Ken Russel


Salomé – Não quis me deixar beijá-lo, Iokannan. Eu o beijarei agora. Morderei sua boca com meus dentes como uma fruta madura. Eu beijarei sua boca, Iokannan. Eu disse que o faria, não disse? Eu a beijarei agora. Por que não me olha agora? Por que seus olhos estão fechados? Abre teus olhos, Iokannan ! Levanta suas pálpebras, Iokannan ! Por que não me olha? Você tem tanto medo de mim, Iokannan, que não vai me olhar? Seus olhos que foram tão terríveis, tão cheios de ódio e desprezo estão fechados agora. Sua língua era como uma cobra vermelha expelindo veneno. Ela não se mexe mais, agora não diz nada. A víbora vermelha que vomitou em mim. Estranho, não? Porque a cobra vermelha ficou imóvel?.... Você não me quis, Iokannan. Rejeitou-me. Disse-me coisas infames. Tratou-me como cortesã, como prostituta. Eu, Salomé ! Filha de Herodíades, Princesa da Judéia ! Agora, Iokannan, eu ainda estou viva mas você está morto e sua cabeça me pertence. Posso fazer com ela o que quiser. Dá-la aos cachorros ou aos pássaros do ar. O que os cães deixarem, os pássaros comerão... Ah, Iokannan, Iokannan,você é o único homem que eu amei. Todos os outros me enojavam. Mas você ...você era lindo. Seu corpo era uma coluna de marfim num pedestal de prata. Era um jardim com pombas e lírios de prata. Era uma torre de prata com escudo de marfim. Nada no mundo era tão branco quanto seu corpo. Nada no mundo era tão negro como seu cabelo. Nada no mundo era tão rubro como sua boca. Sua voz era como um vaso pleno de perfumes estranhos. Quando olhei para você ... ouvi música estranha. Ah, Iokannan, porque não olhou para mim? Escondeu seu rosto atrás de suas mãos e suas blasfêmias. Colocou a venda nos olhos e quis ver seu Deus. Agora viu seu Deus, Iokannan, mas a mim, a mim você nunca viu. Como o amei. Ainda o amo. Amo apenas você... Tenho sede da sua beleza. Tenho fome do seu corpo. Nem vinho nem fruta saciará o meu desejo. Diga o que farei agora. Nem rios nem enchentes afogarão minha paixão. Eu era uma princesa e você me humilhou. Eu era virgem e você não tomou minha virgindade. Eu era casta e você encheu minhas veias com fogo. Por que não olhou para mim? Se tivesse olhado para mim teria me amado. Sei que teria me amado. O mistério do amor é maior que o mistério da morte.

(Salomé beija a boca de Iokannan)
texto de Oscar Wilde




Chega de Salomés !!! A Pantera, virada em Sereia, está apaixonada por um Saci e o bom humor voltou a reinar na jungle. Até Curitiba ficou mais engraçadinha - essa Velha Senhora da Luz dos Pinhais, sisuda Sibila. Seja lá como for, tenho que dar cabo do Batista e sua Dançarina. Então, são os últimos posts sobre o assunto, para a delícia de quem já estava enjoado - eu, inclusive.

Quem quiser conhecer o blog do Saci, é só visitar : www.curitibinha.blogspot.com

Zoe
p.s.: Em tempo - a palavra "Saci" vem do tupi-guarani "Çacy" que significa Mãe das Almas. Çacy-taperê é a 'Mãe das Almas que sai nos caminhos'. O Saci que conhecemos através do folclore, diabrete pernalta, é um junção dos mitos africanos e indígenas. Cabe dar uma pesquisada na lenda da Matinta Pereira, ave-bruxa - existem correlações.

sexta-feira, dezembro 03, 2004




SERPENTES DE ÁGUA
de Gustav Klimt


Também as cores
amanhecem, também elas
acordam com os galos
da madrugada e cantam
a explosão do sol. Algumas
são água pura. A outras
o pincel conferiu-lhes
o rubor que se esconde
na nervura
de certas folhas. Outras,
ainda, festejam
o nascimento
da alegria. Ou do amor,
tanto faz. Ou não fosse ele
uma festa. Podem
chamar-lhe Judith,
Salomé: apenas dizem
os outros nomes
da serpente.


Albano Martins
(1930)

(in «A Voz do Olhar»,
Edições Universidade
Fernando Pessoa, 1998)

terça-feira, novembro 30, 2004


Alla Nazimova in Salomé


SALOMÉ


En el palacio hebreo, donde el suave
humo fragante por el sol deshecho,
sube a perderse en el calado techo
o se dilata en la anchurosa nave,

está el Tetrarca de mirada grave,
barba canosa y extenuado pecho,
sobre el trono, hierático y derecho,
como adormido por canciones de ave.

Delante de él, con veste de brocado
estrellada de ardiente pedrería,
al dulce son del bandolín sonoro,

Salomé baila y, en la diestra alzado,
muestra siempre, radiante de alegría,
un loto blanco de pistilos de oro.

Julián del Casal
Mi Museo ideal, 1892

(o poema foi composto para o quadro de Gustave Moreau)



Salomé / Glen Vause


Salomé


Son cual dos mariposas sus ligeros
pies, y arrojando el velo que la escuda,
aparece magnífica y desnuda
al fulgor de los rojos reverberos.
Sobre su oscura tez lucen regueros
de extrañas gemas, se abre su menuda
boca, y prodigan su fragancia cruda
frescas flores y raros pebeteros.
Todavía anhelante y sudorosa
de la danza sensual, la abierta rosa
de su virginidad brinda al tetrarca,
y contemplando el lívido trofeo
de yokanán, el núbil cuerpo enarca
sacudida de horror y de deseo.


Efrén Rebolledo
Caro Victrix, 1926

domingo, novembro 28, 2004


La Savia Derramada / ALEJANDRO PUGA - COLLAGE
sobre imagem de Leonardo da Vinci, São João Batista

www.alejandropuga.com.ar
www.zazie.at Special Editions
www.surrealcoconut.com Documents



Eu gostaria de beijar sua boca, João Batista
Eu quero beijar sua boca
Eu vou beijar sua boca, João Batista




sábado, novembro 27, 2004


imagem alemã


DIVERSAS LUAS


Pajem de Herodíade – Olhe a lua. Como está estranha, parece uma mulher saindo do túmulo. Parece uma mulher morta (...) procurando mortos.
.................................

Narraboth – Como a lua está estranha hoje ! Ela sorri através dos véus de nuvem como uma princesa, uma princesa de olhos de âmbar.

...................................

Salomé – Não é bom ver a lua? Ela é casta e fria, estou certa que é virgem. Ela é virgem. Jamais se maculou. Nunca se entregou a homens como outras deusas.

......................................

Herodes – A lua está estranha hoje. Não está? Parece uma louca procurando amantes. Está completamente nua. Nuvens tentam vesti-la mas ela não quer. Cambaleia pelas nuvens como uma vadia bêbada. Certamente procura amantes ... Parece uma louca, não?

Herodíades – Não. A lua se assemelha à lua e nada mais.

........................................

Herodes - Veja a lua. Está vermelha feito sangue, como disse o profeta. Ele previu que a lua ficaria vermelha como sangue.


(trechos do filme de Ken Russel)





LUA DIVERSA


Quando o olho a lua sem óculos, o astigmatismo a duplica. Minha lua “natural” é de outro planeta; minha Terra tem duas luas onde canta o pássaro do paraíso. A lua cheia está entrando em Gêmeos. Cheia. Duas lentes. Duas luas. Cada um vê aquilo que deseja - eis a perfeição do mundo sublunar.

O filme de Ken Russel começa com um cenário de teatro, fake, decadente. João Batista está em uma jaula – é o artista da fome. Ao seu redor, mulheres vestidas feito panteras sádicas imitam os trejeitos da fera e maltratam o profeta com seus chicotes sibilantes. A lua cheia é um rasgo no pano de fundo. Ainda branca.

Zoe

quinta-feira, novembro 25, 2004


Salomé / Flapper


SALOMÉ


Para que uma vez mais João Batista sorria,
Senhor, eu dançarei melhor que um serafim.
Mãe, por que estás imersa em tal melancolia,
Vestida de condessa e ao lado do delfim?

Meu coração, só de escutá-lo, quando eu vinha
Dançar junto ao funchal, batia angustiado.
Eu lhe bordara lírios numa bandeirinha
Destinada a flutuar no alto do seu cajado.

E agora, para quem farei lírios bordados?
Seu bordão refloresce às margens do Jordão.
Vieram prendê-lo, ó Rei Herodes, teus soldados,
E em meu jardim lírios murcharam desde então.

Vinde, todos comigo, além, sob os quincunces...
Não chores mais, lindo bufão de reis;
Em vez do guizo, empunha esta cabeça, e dança!
Mãe, sua fronte fria está. Não lhe toqueis.

Senhor, ide na frente e que a guarda nos siga.
Abriremos um fosso e nele o enterraremos
Entre flores e, em roda, em torno dançaremos,
Dançaremos até que eu perca a minha liga,
O rei a tabaqueira, a infanta o seu rosário
E o cura o seu breviário...


Apollinaire

Tradução de Onestaldo de Pennafort

gentilmente cedida por Ivan Justen Santana
www.ossurtado.blogspot.com

p.s.: Ivan, fiz algo que não se faz. Troquei a palavra quincôncios,
que é horrível, por quincunces, que é mais bonita e adequada.
Azar do Pennafort.

quarta-feira, novembro 24, 2004


A Última dança de Salomé
texto: Oscar Wilde
direção: Ken Russel


A SEDUÇÃO


SALOMÉ – Iokannan !

IOKANNAN – Quem fala?

SALOMÉ – Apaixonei-me pelo seu corpo, Iokannan ! É um corpo branco como lírio num campo intocado pela foice. É branco como a neve nas montanhas de Judá que desce até os vales. As rosas do jardim da Rainha da Arábia não são tão brancas quanto seu corpo. Nem as rosas do jardim da Rainha da Arábia, o jardim de perfumes da Rainha da Arábia, nem as pegadas da Aurora sobre as folhas, nem o seio da lua ao se pôr no colo do mar... nada no mundo é tão branco como seu corpo. Deixe que eu toque seu corpo.

IOKANNAN – Para trás, filha da Babilônia ! Foi pela mulher que o mal veio ao mundo. Não fale comigo. Não desejo ouvi-la. Ouço só a palavra de Deus.

SALOMÉ - Seu corpo é horrível. É como o corpo de um leproso. É como o caminho por onde passaram serpentes onde os escorpiões fizeram seu ninho. É horrendo. Seu corpo é horrendo. É seu cabelo que eu amo, Iokannan. Seu cabelo é como cachos de uvas, como cachos de uvas negras suspensos nas vinhas da Iduméia, no país dos idumeus. São como os cedros do Líbano, os grandes cedros do Líbano que dão sombra aos leões e ladrões que se escondem de dia. As longas noites negras, quando a lua se esconde e as estrelas sentem medo não é tão escuro como seu cabelo. Nada no mundo é tão negro quanto seu cabelo... Deixe que eu toque seu cabelo.

IOKANNAN – Para trás, filha de Sodoma. Não me toque ! Não viole o templo de Deus !

SALOMÉ – Seu cabelo é horrível ! Coberto de lama e pó. É como uma coroa de espinhos na sua testa. Um emaranhado de cobras enrolando-se no seu pescoço. Não estou apaixonada pelo seu cabelo...É a sua boca que eu amo, Iokannan. A sua boca é como uma faixa escarlate ao redor de uma torre de marfim. Uma romã cortada por uma faca de marfim. A flor da romã que nasce nos jardins de Tiro, mais vermelha que a rosa, não é mais vermelha que ela. Os gritos rubros da trombeta anunciando a vinda de reis que amedronta o inimigo não são tão vermelhos. Sua boca é mais vermelha do que os pés de quem amassa uvas nos caldeirões de vinho. É mais vermelha que os pés da pomba que vive nos templos alimentada por sacerdotes. É mais vermelha que os pés de quem vem da floresta após matar um leão e de quem já viu tigres dourados. Sua boca é como um galho de coral que o pescador achou na meia luz do mar e guardou para dar ao rei. É como o cinabre encontrado nas minas de Moab e que os reis confiscaram. É como o arco do rei da Pérsia pintado de vermelho com a tinta do coral. Nada no mundo é tão rubro quanto sua boca... Deixe que eu beije sua boca.

IOKANNAN – Nunca. Filha da Babilônia, filha de Sodoma, nunca !

SALOMÉ – Beijarei sua boca, Iokannan. Beijarei sua boca.

NARRABOTH, o Pajem da Síria – Princesa, princesa, a senhora que é um buquê de mirra, a pomba das pombas, não olhe para esse homem. Não diga essas coisas. Eu não suporto. Não diga essas coisas.

SALOMÉ – Beijarei sua boca, Iokannan.

(Narraboth se mata com uma punhalada no ventre e cai entre João Batista e Salomé)

GUARDA – Princesa, o jovem Capitão se matou.

IOKANNAN – Não tem medo, filha de Herodíades? Não avisei que ouvi as asas do anjo da morte? O anjo não veio?

SALOMÉ – Deixe que eu beije sua boca.

IOKANNAN – Filha de adúltera. Só um homem pode salvá-la. ( ...)

SALOMÉ – Deixe que eu beije sua boca.

IOKANNAN – Amaldiçoada seja, filha de mãe incestuosa. Maldita seja !

(João Batista cospe na boca de Salomé e ela lambe os lábios)

IOKANNAN – Não olharei para você. Está amaldiçoada, Salomé. Está amaldiçoada.

SALOMÉ – Beijarei sua boca, Iokannan. Beijarei sua boca.

..................................
(trecho do filme, copiado dos letreiros e comparado com a versão
em francês, por Zoe de Camaris)

domingo, novembro 21, 2004

A Última Dança de Salomé


ilustração de Audrey Beardsley para a tradução inglesa de Salomé, peça de de Oscar Wilde


Sensualidade. Uma faca, duplamente afiada? Tudo é duplo na mulher, triplo, cinco fases da lua. Quando falo da pantera, pensam que é apologia. Se desvelo as estratégias, seria eu a felina? Só na fase negra. Sou corça quando a lua é nova, pomba quando cresce, serpente quando está cheia, loba na minguante ... eu e todas. Todas em mim. Em qualquer uma. Qualquer mulher.

Salomé ama JOKANAAN. Salomé mata JOKANAAN. É lua virgem, é dançarina de Vênus, é menina mimada. São cortadas inúmeras vezes a cabeça do mesmo homem por diversas Salomés. Eles oferecem suas cabeças cantando vitória e uivam para lua tinta de vermelho, invisível para os seus olhos. São muitas as Salomés, a mesma cabeça diversamente cortada. Crê o homem que as possui, são apenas possuídos. Crê a mulher ser possuída porque esse é seu desejo. Enquanto isso, há lua lá fora e inúmeros sóis submersos. Tantos sóis quanto cabeças cortadas.

....................

Só hoje consegui pegar na locadora o filme A Última Dança de Salomé, de Wilde, dirigido por Ken Russel. Desisti do C. Saura, preferi cinematografar meu fim de semana com catálogos, já que ninguém me paga para ficar aqui pesquisando, digitando, escrevendo. Paixão dá nisso. O preço é alto e a gente encara sozinha, ninguém para dividir a conta. Mas não reclamo muito não. Adoro saber coisas sobre as quais, talvez, nunca ninguém me pergunte. Saber é excitante. E já estou aprendendo a ignorar outras. Porque ignorar faz parte do Saber. É a ignorância sabida.

....................

Salomé é muitas, como toda mulher. Se um homem tem três mulheres, multiplica seus problemas por cinco, no mínimo. Os índios conheciam o perigo que o homem moderno desconhece. O excesso enfraquece. Dilui, estraga, entorpece. As mulheres, cansadas de bater na mesma tecla, adotam idêntico comportamento. Ninguém é de ninguém, não é isso? E o sexo torna-se palco de mesmices. Momices. O teatro dos pobres, diria Wilde. Trepar - palavra perfeita, pois revela um ato mecânico - equivale a comer uma fruta doce (araticum?) no quintal de casa e jogar o caroço fora. Sendo o mistério do amor maior o que da morte, escolhemos a morte.

"Nesse dia, o sol ficará escuro como um saco de penas, a lua ficará como sangue, as estrelas cairão na terra como um figos verdes das árvores. Os reis da terra sentirão medo"


(fala de João, o Batista, em A Última dança de Salomé)

....................

O que Wilde explora na sua peça proibida por imoralidade é o arraigado temor masculino em ser tragado pela vagina da mulher. A vagina dentata. Atargátis, a deusa-sereia que exigia de seus discípulos a castração é ancestral de Salomé.

São diversas as patológicas decorrentes - homossexualismo, impotência, satiriáse, em diversos graus de intensidade.

A busca de diversas mulheres, por exemplo, de modo praticamente indistinto, é uma forma de controlar o medo de Atargatis. Contê-lo. Repetindo o eterno vai-e-vem, dentro e fora da mulher, alternando presença e ausência, o homem retoma um ilusório controle da mãe primeva. O medo de ser engolido pelo útero materno, de volta ao líquido amniótico, sem nenhum poder.

O medo não é apenas do sexo, o medo é do amor somado ao sexo, que pode soar incestuoso. E o incesto é mote na passagem bíblica que retrata Salomé, filha de Herodíades. Herodíades, a adúltera, aquela que deixa o marido morrer para casar-se com seu irmão. Os olhares pecaminosos de seu marido Herodes para sua filha adolescente. O incesto é o tabu dos tabus.

Temeria o homem o amor que abraça, como representação de engolimento fatal pelo útero materno? Isso explicaria o discutido imperativo biológico? Não seria o homem maduro aquele que enfrenta seu medo, livra-se da mãe primeva e a retoma em uma oitava maior?

O medo de morrer é confundido com o prazer de amar. Eis a pequena morte. Deve-se procura apenas o amor.

domingo, novembro 14, 2004


Andrea del Sarto / Head of St. John Baptist


III. CÂNTICO DE SÃO JOÃO


(imaginar a cabeça de São João servida numa bandeja, cantando)


O sol que um sobressalto
Apruma para o alto
Em breve redescende
Incandescente

Por um momento a treva
Das vértebras se eleva
Em uníssono passo
Por todo o espaço

Para que esta cabeça
Solitária apareça
No vôo singular
Da foice no ar

Em completa ruptura
Mais repele ou fratura
A desavença antiga
Que ao corpo a liga

Bêbada de jejum
Que persegue nalgum
Salto louco a vogar
Seu puro olhar

Lá no alto onde os cumes
Eternos têm ciúmes
De que possais vencê-los
Todos ó gelos

Mas levada ao abismo
Pelo mesmo batismo
Que elegeu minha sina
Grata se inclina.


Stéphane Mallarmé - 1913
Tradução de Augusto de Campos - 1987

Publicado originalmente no blog MORTE SÚBITA
http://ossurtado.blogspot.com/
dia 12 de novembro de 2004

sexta-feira, novembro 12, 2004


St. Johh Baptist /Caravaggio


Por quem morre o profeta ? João, o Batista, ama seu deus acima de qualquer coisa. Se entrega a um único amor. Sua língua é o chicote de Deus. Não volta os olhos para Salomé, aquela que manipula todos que a olham. No entanto, ele é o primeiro a usar a linguagem do sexo, ao falar sobre Herodíades, denunciando sua lascívia. E Salomé, "a perfeita" em hebraico, é casta e impúbere. Teria sido Salomé fisgada pela linguagem? As palavras do profeta excitam e incitam a libido da jovem, branca e virgem como a lua?

O discurso dúbio enlouquece qualquer mulher. Ora assim, ora assado. É estranho que o façamos o homem perder a cabeça?
Zoe

quinta-feira, novembro 11, 2004


Salomé / Gustave Klimt


Salomé


III


El sacro ritmo de la danza marca,
en la cintura, un junco que se quiebra;
en el torso, un gran lirio que se enarca,
y en los flancos, el anca de la cebra.


Ardiente el ojo inmóvil del Tetrarca,
en la armoniosa ondulación se enhebra
y enturbia el cristal, como la charca
cuyo fondo agitara una culebra.


En la fiebre divina que la impulsa,
Salomé es una ménade convulsa.
Danza con el furor de la bacante


que azota el dios en el antiguo coro,
hasta que por la sangre pululante
de Juan, resbalan sus talones de oro.



Rafael López
Obra poética


Salomé / autor desconhecido


La manzana amarga


II


Salamandra en cuyo juego
el misterio de la carne solloza su viejo drama.
Honda criatura hecha de sombra y de fuego,
fulminada en las cenizas que lloró la propia llama.


Sobre un prado de violetas,
episcopal y tranquilo,
traza aviesos monogramas
una serpiente del Nilo.


En la liturgia maléfica se gasta el perfume denso
de su carne, como el humo de la resina oriental.
Por la niebla sacrosanta del incienso
cruza su efluvio maligno de la llaga original.


Cual menguante en el desierto
tu perfil de camafeo
ambula desenterrado
tras un remoto hipogeo.


Hécate va por el bosque victoriosa. En su carrera,
chafa lirios taciturnos bajo la planta crüel.
Tiembla la luna en el salto de una elástica pantera
que luce ruedas de sangre sobre el oro de la piel.


Del árbol del paraíso,
con serpentino ademán,
la amarga manzana ofreces
al labio seco de Adán.


El suspiro que se heló en su boca inerte
junta en el tedeum del beso el réquiem del estertor.
Asoma los ojos turbios a la noche de la muerte,
mientras las manos se crispan en las rosas del amor.


Y del amor y la muerte
los duros pinceles toma
sin miedo, para teñirse
los rojos pies de paloma.


Loca sangre de suicidas fecundó por los caminos
las mandrágoras que bordan el tapiz de la inquietud,
por donde van resbalándose sus talones purpurinos
hasta que se pongan pálidos en la cal del ataúd.


Y se va por sus senderos,
peregrina y tornasol,
envuelta como las nubes
entre retazos de sol.


Rafael López
Obra poética

Salomé / P. Schmutzler


La danza

I


En un chorro de fuente, el agua sacra
de la danza respira. Surto en la luz de oro,
el tallo de cristal lento se quiebra.
Y Salomé claudica y se demarca
en su piel de culebra.


Heleniza el ritmo de sus huesos
musicales. Disuelven sus rodillas
las plásticas de los besos
y las curvas de las arcillas.
La figura exquisita y magra,
un hidromiel de dioses en una copa fina
hace beber. Y el gesto es de Tanagra
y la copa, murrina.


Las alas que desdoblan vuelos flojos,
para la emoción de aires tranquilos
son motivos melódicos y puros
bajo el sortilegio de los ojos
que columpian cocuyos en berilios
trémulos e inseguros.


El ojo y la sonrisa, maestros de elocuencia,
relatan con rítmica ciencia
el episodio de la melodía.
Como en estío, los rosales
de la sonrisa están en flor,
frescos de aromas perentorios.


Diseña la mirada en su inquieto verdor,
Venecias ilusorias
praderas irreales
y esmeraldas que la luz irisa.
Unánimes, el ojo y la sonrisa
llevan el compás en sol mayor.


El pie, cordero, apenas trisca
la mandrágora verde que vierte,
desde la sensual cadera morisca,
el olor del amor y de la muerte.
Contrito el rey lúbrico, serena
la zarpa de sus tigres carniceros
y se esfuma la cabeza ensangrentada
de Juan, en el humo de los pebeteros.
La diosa de la danza amena
exige el sacrificio de una rosa cortada
por la mano de Atena.


Y la noche locamente rueda
por la cortina escarlata,
una luna derrumbada y oficiosa
que remolca un relámpago de plata,
e improvisa un tapiz de seda
para el deshojamiento de la rosa.


Las viejas melancolías
se van tras las alegres geometrías
a que ajusta las leyes de su danza.
Y como golondrinas tornan las ilusiones
a los polvosos rincones
donde encarnece la esperanza.



Rafael López
Obra poética


Salomé / imagem de Rafael Olbinski para a Ópera de Strauss


Herodíades (trecho)
Flaubert


Ella bailó como las sacerdotisas de las Indias, como las nubias de las cataratas, como las bacantes de Lidia. Se inclinaba hacia todos los lados, semejante a una flor agitada por la tempestad. Los brillantes de las orejas saltaban, la tela de sus ropas tornasolaba; de sus brazos, de sus pies, de sus vestidos brotaban chispas invisibles que inflamaban a los hombres. (...) Sin doblar las rodillas, separando las piernas, ella se dobló tanto que su mentón rozaba el suelo; y los nómadas, acostumbrados a la abstinencia, los soldados de Roma, expertos en todos los excesos, los avaros publicanos, los viejos sacerdotes amargados por las discusiones, todos, dilatando los agujeros de la nariz, palpitaban de deseo [.....] Su nuca y sus vértebras formaban un ángulo recto. Los vestidos que le cubrían las piernas, al pasarle por encima del hombro, como un arco iris, acompañaban a su rostro, a un codo del suelo. Tenía los labios pintados, las cejas muy negras, unos ojos casi terribles, y unas gotas en su frente parecían un poco de vapor sobre mármol blanco.


A Cabeça de Jochannan - Cronópio segurando o Sol



O CANTO DOS CRONÓPIOS
por Julio Cortázar


Quando os cronópios cantam suas canções preferidas, ficam de tal maneira entusiasmados que freqüentemente se deixam atropelar por caminhões e ciclistas, caem da janela e perdem o que tinham nos bolsos e até a conta dos dias.

Quando um cronópio canta, as esperanças e os famas acorrem a ouvi-lo embora não compreendam muito seu arrebatamento e em geral se mostram um tanto escandalizados. No meio da roda o cronópio suspende seus bracinhos como se segurasse o sol, como se o céu fosse uma bandeja e o sol a cabeça do Batista, de forma que a canção do cronópio é Salomé nua dançando para os famas e as esperanças que ali estão boquiabertos e perguntando-se se o senhor padre, se as conveniências. Mas como no fundo são bons (os famas são bons e as esperanças bobas) acabam aplaudindo o cronópio, que se recupera sobressaltado, olha em redor e começa também a aplaudir, coitadinho.

segunda-feira, novembro 08, 2004




Salome's Dancing-Lesson


She that begs a little boon
(Heel and toe! Heel and toe!)
Little gets- and nothing, soon.
(No, no, no! No, no, no!)
She that calls for costly things
Priceless finds her offerings-
What's impossible to kings?
(Heel and toe! Heel and toe!)

Kings are shaped as other men.
(Step and turn! Step and turn!)
Ask what none may ask again.
(Will you learn? Will you learn?)
Lovers whine, and kisses pall,
Jewels tarnish, kingdoms fall-
Death's the rarest prize of all!
(Step and turn! Step and turn!)

Veils are woven to be dropped.
(One, two, three! One, two, three!)
Aging eyes are slowest stopped.
(Quietly! Quietly!)
She whose body's young and cool
Has no need of dancing-school-
Scratch a king and find a fool!
(One, two, three! One, two, three!)

Dorothy Parker
Death and Taxes

Published/Written in 1931

domingo, novembro 07, 2004


Tielady



Salomé
Guillaume Apollinaire (1880 - 1918)


Pour que sourie encore une fois Jean-Baptiste
Sire je danserais mieux que les séraphins
Ma mère dites-moi pourquoi vous êtes triste
En robe de comtesse à côté du Dauphin

Mon cœur battait battait très fort à sa parole
Quand je dansais dans le fenouil en écoutant
Et je brodais des lys sur une banderole
Destinée à flotter au bout de son bâton

Et pour qui voulez-vous qu'à présent je la brode
Son bâton refleurit sur les bords du Jourdain
Et sous les lys quand vos soldats ô roi Hérode
L'emmenèrent se sont flétris dans mon jardin

Venez tous avec moi là-bas sous les quinconces
Ne pleure pas ô joli fou du roi
Prends cette tête au lieu de ta marotte et danse
N'y touchez pas son front ma mère est déjà froid

Sire marchez devant trabants marchez derrière
Nous creuserons un trou et l'y enterrerons
Nous planterons des fleurs et danserons en rond
Jusqu'à l'heure où j'aurai perdu ma jarretière
Le roi sa tabatière
L'infante son rosaire
Le curé son bréviaire


Salome admiring her work / Adrienne Simms



Salomé só
Carlos Careqa e Milton di Biasi

Chamem a polícia
Esta mulher
Disparou sem dó
Balas de malícia
Saia de pelúcia
Salomé, saló, só

Chamem o bombeiro
Que eu vi o fogo
Naqueles olhos afins

Fogos de artifício
É seu ofício
Detonar contra mim
E ela veio pra ficar
Deitar, rolar, saquear
Com seus olhos de arrastão
Mulher eu vou te pegar
Rasgar, arrebentar
Te enfiar na prisão

Imagem do Tarô de Greta Benítez

.............................


Dessa vez não vou pentelhar o Ivanzinho para que traduza os poemas do Apollinaire e da Dorothy Parker. Não é bom forçar amizade. E depois, não vejo a hora de mudar de assunto. Cansei da síndrome de Rainha de Copas, "Cortem-lhe a cabeça !" Bem, perdi meus óculos depois que fiz xixi na prensa gigante da Imprensa Oficial. Bem feito, quem mandou? Ah, não tô nem aí. Hoje fiz 334.897 pontos no BlasterBall mesmo assim enquanto lembrava e ria. Palavra de Pantera cega: - eu adoro meus amigos. Uma bela noite que terminou num dia de sol, numa caminhada absurda com o namorado de volta pra casa. Ele sem sapatos (roxos!!), eu sem enxergar - mas muito, muito feliz. Dois loucos na tangente do abismo. E eu o amo.

A vida nos dá presentes vindos do nada. E a gente, sem pensar duas vezes, aceita. Caminha.
E agradece enquanto ainda está sorrindo.

Zoe

domingo, outubro 31, 2004


Salome / foto de Mario Piazza


Antecedentes de Salomé: a Salomé de Oscar Wilde


A primeira aparição de Salomé no mundo literário foi no Evangelho de Mateus. Mateus conta que Herodes pediu que a filha de Herodias dançasse para ele no seu aniversário. Ao agradar o rei, ele ofereceu à garota qualquer recompensa que desejasse. Herodias incitou sua filha a pedir a cabeça de João Batista numa bandeja. A cabeça foi trazida num prato e dada à jovem, e ela a levou a sua mãe. Mateus nem preocupa-se em nos dar o nome de Salomé.

A figura de Salomé e seus sete véus fascina artistas e escritores há séculos — e nunca tanto quanto no século XIX. O Drama de Wilde, Salomé, no qual a ópera de Strauss está baseada, segue os passos de outros poemas, romances e pinturas importantes de Salomé. Wilde certamente conheceu o Atta Troll de Heinrich Heine; poema escrito em 1841 de grande popularidade na França. No poema, é Herodias quem se apaixona por Jochanaan e quem beija a cabeça decepada. Gustav Flaubert escreveu uma versão objetiva, em terceira pessoa, que Wilde muito admirava. O poema Herodiade do simbolista Stéphane Mallarmé, que explora o casamento de Herodes e Herodias, também influenciou Wilde, bem como A Rebours, de J.K. Huysmans.

Wilde possuía uma compreensão substancial sobre a representação de Salomé no mundo artístico ocidental, mas sempre tinha alguma ressalva negativa sobre a interpretação do tema por alguns artistas. Ele pensava que a Salomé de Rubens era uma ‘apoplética Maritornes’; a Salomé de Leonardo era extremamente impalpável e a célebre Salomé de Regnault, uma simples “cigana”. Somente a famosa exibição parisiense com pinturas da Salomé de Gustav Moreau satisfez o escritor.

A versão da história contada por Wilde tem suas origens em dezembro de 1891, quando Wilde e uma grupo de escritores franceses discutiam Salomé num café de Paris. Wilde começou a trabalhar imediatamente em Salomé ao regressar à casa. Poucas horas depois, ele havia terminado grande parte da peça. A lenda diz que Wilde, naquela mesma noite, se dirigiu a um bar na vizinhança e pediu à banda da casa para tocar uma música que evocasse “uma mulher descalça, dançando sobre o sangue de um homem a quem ela desejava e matou”.

A Salomé de Wilde é uma personagem extraordinariamente dual. Por um lado, Wilde acreditava que ela era a incorporação da sensualidade — ele contou que, enquanto escrevia Salomé, passava por joalherias nas ruas de Paris e contemplava como adornar sua personagem. Esse mesmo ser sensual era, para Wilde, agressivo e cruel, com uma libido insaciável. Ele imaginava Sarah Bernhardt no papel principal (no fim das contas, a atriz foi impedida pela censura francesa de interpretar o papel). Mas Wilde também vislumbrava uma Salomé divina e pura —imagem provavelmente inspirada por uma pintura de Bernardo Luini. Para Wilde, Salomé tornou-se a combinação de um ser sensual, infantil e divino somado à força destrutiva da natureza.

Wilde tinha forte afinidade com o movimento de arte simbolista, influencia explícita em Salomé. O poeta Mallarmé, um dos líderes do movimento simbolista, afirmava que a tarefa da poesia era revelar e cristalizar as formas essenciais que se escondem dentro da realidade. Simbolistas acreditavam que somente através dos símbolos o homem poderia alcançar as verdades incompreensíveis, chegando assim à transcendência.

Um dos símbolos mais famosos de Salomé é a lua e quase todas as personagens do drama fazem menção ao satélite. O confuso Narraboth vê a lua como uma princesa encantadora, a personificação de Salomé; o pajem de Herodias vê a lua como uma mulher morta. Para Salomé, a lua é uma deusa casta que nunca se rebaixou aos homens enquanto que para Herodes, é como “uma mulher louca, uma mulher louca que busca amantes por todas as partes”. E a banal Herodias desdenha: “a lua é como a lua e só.” Através da repetição e variação, o símbolo começa a repercutir e ganhar maior significância.

Wilde também estava afiliado com o movimento de arte decadista, o qual compartilhava seu conceito de arte pela arte. No prefácio do Retrato de Dorian Gray, Wilde faz a seguinte declaração sobre a procura do “belo” e da arte:


Aqueles que encontram o feio nas coisas belas estão corrompidos sem serem charmosos. Isso é um defeito.

Aqueles que encontram o belo nas coisas belas são os cultos. Para estes há esperança.

Estes são os escolhidos para quem as coisas belas significam somente Beleza.



Wilde fez um espetáculo para o mundo ver de sua crença de que toda a arte é inútil e de que tudo o que importa são as aparências. Em grande parte, o escritor sofreu por causa de suas idéias; seu desafio explícito aos ideais vitorianos de repreensão e decência o levou à censura e conseqüente aprisionamento.

O drama Salomé foi concluído em janeiro de 1892, depois que Wilde retornou à Inglaterra. Foi traduzido do seu original em francês para o inglês pelo Lorde Alfred Douglas. A peça já estava sendo ensaiada há duas semanas quando a comissão do Lorde Chamberlain censurou o trabalho (sob a desculpa de que a representação de cenas bíblicas não era permitida). George Bernard Shaw e William Archer defenderam a peça, mas ficou evidente que Salomé não tinha que ser estreada na Inglaterra. Wilde ameaçou imigrar para a França e adiantou seus planos para a publicação da peça em inglês. A peça foi finalmente estreada em Paris, em 1896; Wilde não estava presente. O escritor estava servindo uma sentença de trabalho forçado em Reading Goal. Em 1909, a peça tinha sido traduzida para quase todos os idiomas europeus. Atualmente é a mais famosa versão dramática da estória de Salomé.

(retirado do site "Metropolitan Opera Internacional Radio")

http://archive.operainfo.org/broadcast/operaBackground.cgi?id=92&language=4


Libreto /Salomé


SALOMÉ

Paulo Corrêa Lopes


Só, na cisterna, João Batista em prece
sonha. Estende-se a noite silenciosa,
e, na nudez da solidão piedosa,
o desespero que o tortura esquece.

Dorme o palácio. Salomé ansiosa,
como pantera atroz que se enraivece,
em contorções se agita, e se estremece,
debruçada num tálamo de rosa...

Quase nua se ergue, e altivamente,
nos estos da volúpia que a devora,
desprende as tranças sobre a espádua ardente.

Treme-lhe o lábio aparecendo um beijo,
clama pelo Profeta, e anseia, e chora,
nas algemas da carne e do desejo!

sábado, outubro 30, 2004


Salome / Pierre Bonnaud


Salomé

Mário de Sá Carneiro


Insônia roxa. A luz a virgular-se em medo,
luz morta de luar, mais alma do que lua...
Ela dança, ala range. A carne, álcool de lua,
alastra-se pra mim num espasmo de segredo...

Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio...Alabastro!...A minha alma parou...
E o seu corpo resvala a projetar estátuas...

Ela chama-me em íris. Nimba-se a perder-me,
golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto...
Timbres, elmos, punhais... A doida quer morrer-me:

mordoura-se a chorar – há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto e vou arder-me
na boca imperial que humanizou um santo...

quinta-feira, outubro 28, 2004


Salome dancing before Herod / Gustave Moreau, 1876


Nas minhas andanças pela selva virtual, encontrei o quadro de Gustave Moreau "Salome dancing before Herod" (1874-1876). Já tinha estudado outra pintura de Moreau mais detalhadamente numa disciplina de Intersemiótica - "Júpiter e Sêmele", indizivelmente fantástica. Mas nunca tinha me dado conta das panteras de Salomé.

O felino reaparece em quadros de outros artistas marcando presença em peles de tigre ou de onça. A bíblica sacerdotisa da Lua e sua Sombra. Símbolo da luxúria, a pantera? Alude aos maneios sensuais da dançarina dos sete véus?

Bem, eu não me satisfaço nunca com poucas informações, nunca - um inferno em vida, no qual quero sempre arder. Dei de cara com a vasta iconografia inspirada em Salomé; um site só sobre decapitações (www.sepulchritude.com/chapelperilous/decollete/decollete-salome.html); um poema de Mário de Sá Carneiro, a peça de Oscar Wilde, Mallarmé, Flaubert, Apollinaire e ... Dorothy Parker.

Continuo na selva.
Durante os próximos dias, vamos vistar Salomé.

Zoe

domingo, outubro 17, 2004


STRENGTH / The Blue Rose Tarot Deck by Paula Gibby

E existe algo mais poderoso do que a energia do Mago somada à Imperatriz?
A Pantera Azul está solta - a Caixa de Pandora aberta.

{* *}

O Tigre


William Blake


Tigre! Tigre! Brilho, brasa
Que a furna noturna abrasa,
Que olho ou mão armaria
Tua feroz simetria?

Em que céu se foi forjar
O fogo do teu olhar?
Em que asas veio a chama?
Que mão colheu esta flama?

Que força fez retorcer
Em nervos todos o teu ser?
E o som do teu coração
De aço, que cor, que ação?

Teu cérebro, quem o malha?
Que martelo? Que fornalha
O moldou? Que mão, que garra
Seu terror mortal amarra

Quando as lanças das estrelas
Cortaram os céus, ao vê-las,
Quem as fez sorriu talvez?
Quem fez a ovelha te fez?

Tigre! Tigre! Brilho, brasa
Que a furna noturna abrasa,
Que olho ou mão armaria
Tua feroz simetria?


(tradução de Augusto de Campos)

Posted by Hello

quinta-feira, outubro 14, 2004


Private Dancer/Jack Vettriano Posted by Hello

Está na hora da onça beber água


ela vai com sede ao pote
ela vai com alma, a pintada,
a mansa, com a calma
da fera que espreita, a bela.
ela vai com pele de onça, a ponta
da pata macia na terra, ela
alta, básica, séria, ela salta
vai além do bote, ela morde
ela sabe.


Janice Caiafa
de Neve Rubra/Sette Letras/96

sexta-feira, outubro 08, 2004


Uma lágrima  Posted by Hello

O mundo menos doce


Tem coisas que não dá pra entender. Postei a foto de minha irmã com o gatinho no dia 4. Entre centas fotos de mulheres & gatos, escolhi essa - um pouco ressabiada, confesso: - será que minha irmã não acharia ruim que eu colocasse a foto dela no blog? Depois pensei que não, de forma alguma. Maria Tereza é afável, menos quando dança flamenco. E depois, porque se chatearia com uma homenagem? Efetivamente, não se chateou.

Há poucos momentos bateu o telefone, bem quando eu estava para postar algo por aqui. E me deu a má notícia: o gatinho Mehl morreu. Um dos rottweillers (fssssssst, que me perdoem os cachorrófilos, eu não gosto, não gosto MESMO) deu uma patada no bichinho. E lá se foi o Mehl, curtir suas outras vidas em algum céu felino. Estou triste, bem triste. Não tão triste quanto minha irmã, que ligou chorando. Mas o suficiente para lamentar muito. Ele era lindo, amigável, doce.

Bye, gatinho Mehl.
Faz companhia para o meu Sombra aí no paraíso dos gatos.

Zoe
p.s.: leitores, poupem-me da observação de que os cachorros são inimigos naturais dos gatos. EU SEI.


segunda-feira, outubro 04, 2004


Mehl e Maria Tereza Posted by Hello

Mulher e Gata



Ela brincava com a gata
E era admirável ver as duas,
A branca mão e a branca pata,
Brincando à noite, na penumbra.

Ela escondia - a celerada ! -
Sob as mitenes de fio escuro
As assassinas unhas de ágata,
Claras, cortantes, como um gume.

Fingia-se a outra adoçada
E retraía a garra afiada,
Mas o diabo nada perdia...

E no toucador retinia
O som de aéreas gargalhadas
E quatro pontos fosforesciam.


Paul Verlaine (1844-1896)
p.s.: dedico esse belo poema de Verlaine para minha irmã, Maria Tereza e para minha amiga Adalgisa, a dona de Deus.

sexta-feira, outubro 01, 2004


O Descanso do Gato, de Vicky Dolabella Posted by Hello

O Olhar Abstrato dos Gatos


Nesse último domingo em Curitiba, curti O Olhar Abstrato dos Gatos - vernissage de Vicky Dolabella no Solar do Rosário. Os trabalhos são magníficos, literalmente babei. Como se não bastasse o dia ensolarado, meu bom humor e a companhia da Valentina, Vicky é gatíssima e dona de um astral nota 1000. Ficava amiga facinho. Deviam inventar mais mulheres assim. E para completar, conhece a minha super ultra comadre, BRUXURSINHA (cadê, cadê?) que, depois que começou a trabalhar num certo jornal paulista, me esqueceu completamente. Sniff.... No problem. Um dia ela volta. Só fico aqui pensando quem cuida dos 9 gatos quando ela está fora - que somando com as nove vidas de cada um deles mais a dona da casa ... bem, são 82 vidas no apartamento da Bru.

Aqui em casa somos mais econômicos - 21 vidas tá bom demais.


ZdC

p.s.: Vicky tem um site - http://www.vickydolabella.com.br/

Gatos Apaixonados, de Vicky Dolabella Posted by Hello

MISTER MISTÓFELIS


Precisas conhecer Mister Mistófelis!
Um misto de Felino e de Mefisto -
(Dúvida alguma sóbre sobre isto!)
Que zombem, mas não posso numa estrofe lhes
Dizer o que dele tenho visto.
Informa-se em alquímicos in-fólios,
Tem todas as patentes, monopólios
Para exercer performances e truques
Que herdou de condes, dráculas e duques.
Na prestidigitação
E nos passes que realiza
Ilude qualquer pesquisa
E cria nova ilusão.
Os mágicos do mundo inteiro estimam-no
Por ser de todos o maior prestímano.
Um, dois e três!
E era uma vez!
Vejam vocês!
Digo e estou certo:
Ninguém decerto
Chegou nem perto
Do Gato Mago-Mefisto-Félix!

Ele é pequeno e quieto, a cor é preta
Desde a ponta da orelha ao rabo esguio;
Esgueira-se na mais estreita greta
E se equilibra no mais frágil fio.
A carta que quiser, fácil afana
E é destro em dados, varas de adivinhos;
Ele sempre te engana que tem gana
De andar à caça apenas de "peixinhos".
Tira tudo do estofo da casaca,
Faz milagres com a caixa-de-surpresa;
Se um garfo lá se foi ou falta a faca,
E achas que te enganaste ao pôr a mesa -
O talher que inda há pouco evaporou-se
Surge num fosso como se osso fosse!
Vejam vocês!
Pois estou certo
Que ele é decerto
O mais desperto

O Gato Mago Mefisto-Félix!

Mostra um ar vagamente alienado
Quando a sua modéstia está em jogo...
Mas sua voz ouviu-se do telhado
Quando foi chamuscado pelo fogo.
E ouvimo-lo também ao pé do fogo
Quando ele faz das suas no telhado...
(Pelo menos na poltrona sabemos que só ronrona)
Eis aqui o atestado detalhado
De seu poder de mágico inconteste:
Certa vez a família em peso abala
A buscar no jardim inteiro o peste
Enquanto ele dormia em plena sala.
E fez agora aparecer, frajola,
Sete gatinhos dentro da cartola!
Vejam vocês!
Não há decerto
Um mais esperto

Que o Gato Mago Mefisto-Félix!


T. S. Eliot

Tradução de Ivo Barroso,
felinamente digitado por Ivan Justen Santana