domingo, dezembro 31, 2006



Lavanda




Desabrocham hidrolases
Lavam as vís vendas
que agora soltas

Alegres são lágrimas
Nenúfares de fumaça
Lassos sobre a vitória-régia

Só um sonho a menos
Só um dia há mais



Monica
31/12/2006

sexta-feira, dezembro 29, 2006



Soneto 52


Como o homem de fortuna, tenho à mão
A chave que os tesouros deixa ver
Mas que não usa sempre: para não
Gastar a fina ponta do prazer.
Assim brilhantes, as festas formosas
São no ano inteiro escassa maravilha:
Em fino engaste as pedras mais preciosas,
Ou a jóia maior na gargantilha.
Pois o tempo é meu cofre e te separa
- Guarda-roupa que as roupas traz fechado -
E só raro instante exibe a rara
Visão de seu tesouro enclausurado.
__Bem te haja o céu, que teu valor não cessa:
__Presente és triunfo, ausente és promessa.


William Shakespeare
tradução de Jorge Wanderley

segunda-feira, dezembro 25, 2006






A Esperança




Injeta sangue
no meu coração,
enche-me até o bordo das veias!
Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre,
sobre a terra
não vivi o meu bocado de amor.
Eu era gigante de porte,
mas para que este tamanho?
Para tal trabalho basta uma polegada.
Com um toco de pena, eu rabiscava papel,
num canto do quarto, encolhido,
como um par de óculos dobrado dentro do estojo.
Mas tudo que quiserdes eu farei de graça:
esfregar,
lavar,
escovar,
flanar,
montar guarda.
Posso, se vos agradar,
servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastante porteiros?
Eu era um tipo alegre,
mas que fazer da alegria,
quando a dor é um rio sem vau?
Em nossos dias,
se os dentes vos mostrarem
não é senão para vos morder
ou dilacerar.
O que quer que aconteça,
nas aflições,
pesar...
Chamai-me!
Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles
e alegorias,
malabares dar-vos-ei
em versos.
Eu amei...
mas é melhor não mexer nisso.
Te sentes mal?
Tanto pior...
Gosta-se, afinal, da própria dor.
Vejamos... Amo também os bichos -
vós os criais,
em vossos parques?
Pois, tomai-me para guarda dos bichos.
Gosto deles.
Basta-me ver um desses cães vadios,
como aquele de junto à padaria,
um verdadeiro vira-lata!
e no entanto,
por ele,
arrancaria meu próprio fígado:
"Toma, querido, sem cerimônia, come!"


Vladimir Vladímirovitch Maiacoviski

sábado, dezembro 23, 2006



Declamando Penúltima, com Thadeu Wojciechowski
de anjo direito, na noite do aniversário do poeta
Marcos Prado.


PENÚLTIMA


como posso agora estar alegre?
era de se esperar que eu desesperasse
talvez mais tarde eu desintegre
entre o penúltimo e o último gole do último porre
e leve ao meu lado os que me seguem

sim
perdi a razão do que eu achava e do que eu acho
mas aprendi que o céu é mais embaixo
ainda não sei o quanto dei
e tantas quantas amei
ainda não sei ao certo se eu errei


Marcos Prado


sexta-feira, dezembro 22, 2006

SUBLIME I


mais puro que o vôo da corda
mais corda que a vida do vento
mais vento que a asa da lira
mais lírica que a prosa da pétala

mais pétala que a pluma dos dias
mais dias que o desejo do tempo
mais tempo que o acorde de sol
mais sol que a vontade de chuva

mais chuva que a sede de água
mais água que o verde da uva
mais uva que o veludo da veia
mais veia que a calda da lava

mais lava que a terra do fogo
mais fogo que a língua na boca
mais boca que a fome no corpo
mais corpo que a dança do sangue

mais sangue que o ouro da pedra
mais pedra que estátua de seda
mais seda que sonho de mel
mais nuvem que rosas no céu

mais céu que o fundo do azul
mais azul que os olhos de deus


Monica Berger
_____________________________
p.s.: é isso aí


A apresentação no Wonka me surpreendeu. Abriram a porta para o ensaio às 20h30. Eu, Ivan, Jones, Maria Teca, Francisco e Marcelo com tudo para a última hora, como manda a tradição. E nem daria tempo mesmo de maiores delongas porque a semana do Marcos pegou fundo. No ensaio, deu tudo errado. Fui trocar de roupa cansada, respirei fundo e tomei minha tequila, servida com o mesmo esmero de sempre pela Flavinha. E seja o que os deuses quiserem.

Magicamente, quando a projeção começou e o Ivan entrou em cena com Pursuit (Perseguição, de Silvia Plath) alguma coisa aconteceu. E o espetáculo rolou redondo redondinho até o bloco final.

Tudo sincronizado. Perfeito. O problema é sempre antes de entrar no palco, pelo menos comigo. Dou uma sorte daquelas.

A idéia da apresentação foi emoldurar meus poemas com poemas clássicos sobre a pantera. Lancei mão do filme Cat People, versões de 42 e 82. Ivan traduziu a música do Bowie que depois de declamada em duas línguas estourou bem no final, com a mão boa do Diego no som.

Agradeço a todos que compareceram e que auxiliaram.
Valeu, moçada. O resultado foi melhor do que esperado.

Uma árvore cheia de panteras para todos vocês.


Monica

terça-feira, dezembro 19, 2006





P_A_ L_ A_ V_ R_ A__ D_ E__ P_A_ N_ T_ E_ R_ A
poemas de Monica Berger (Zoe de Camaris)
rolando hoje à noite, 19 de dezembro,
no Porão Loquax, às 22h30



W_O_ N_ K_ A__ B_ A_ R
Rua Trajano Reis, 326
Curitiba

domingo, dezembro 17, 2006





Manhã



Me ilumino
do imenso






Giuseppe Ungaretti

BLUSA FÁTUA


Costurarei calças pretas
com o veludo da minha garganta
e uma blusa amarela com três metros de poente.
pela Niévski do mundo, como criança grande,
andarei, donjuan, com ar de dândi.

Que a terra gema em sua mole indolência:
"Não viole o verde das minhas primaveras!"
Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:
"No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!"

Não sei se é porque o céu é azul celeste
e a terra, amante, me estende as mãos ardentes
que eu faço versos alegres como marionetes
e afiados e precisos como palitar dentes!

Fêmeas, gamadas em minha carne, e esta
garota que me olha com amor de gêmea,
cubram-me de sorrisos, que eu, poeta,
com flores os bordarei na blusa cor de gema!


Vladimir Maiakovski
Tradução de Augusto de Campos

sexta-feira, dezembro 15, 2006

begônias silvestres




o sumiço de sua silhueta amiga
fez meu perfil baixar a cabeça
as cores da tarde, cinzas cinzas
as luzes da noite, negras negras

desaparecer não é para qualquer um
só você, misto de mistério e dúvida
pode estar em lugar nenhum
e ainda me tocar, por música


Marcos Prado

Viralobos é o Cara




minha braçada
dos pés à cabeça
é peso-pesada

minha manchete
cortadas de graça
saca meu chapa

minha saída
é ganhar a partida
pole-position invicta

se não gostou
não insista
dê a volta

e faça a pista

Sérgio Viralobos (plutão-aquário), o melhor parceiro-letrista de Marcos Prado (urano-arqueiro) mais Walmor (netuno-scorpio) na música-guitarra Chateau 666 e Hélèn Jeanne Lévi-Benseft, the place. Música-mote-norte pra mim em 80 e poucos. Contrabanda cai bem nos tempos em que se anuncia o fim do Beijo AA Força. O que será no futuro? Por hecatombe quem se esqueceria de Sérgio e o paletó branco cantando de costas para o público e tchau pra todo sempre lá no Guairão?



quinta-feira, dezembro 14, 2006

terça-feira, dezembro 12, 2006


rogério dias



passarinhos
piem na minha janela
façam uma serenata para mim esta noite
eu preparo as pipocas
e a mesa com frutas
vocês cantam e comem
eu bebo e danço

se a canção for triste
choramos todos juntos
se for alegre, barulho!
os vizinhos que se fodam

caso eles dindon
eu abro a porta: "entrem"
se não quiserem
cagamos na cabeça deles
e recomeçamos
na mesma nota

quando amanhecer, eu sei,
vocês têm trabalho
podem ir, mas já estão convidados
para a noite que vem
e podem trazer o resto da turma


Marcos Prado
Livro de Poemas

sábado, dezembro 09, 2006


Como pintar um pássaro


Rogério Dias


Pinte primeiro uma gaiola
com a porta aberta.
Em seguida pinte
alguma coisa graciosa,
alguma coisa simples,
alguma coisa bonita,
alguma coisa útil...
ao pássaro.
Depois, coloque a tela contra uma árvore
no jardim,
no bosque
ou na floresta
e esconda-se
atrás da árvore
sem dizer nada, sem se mexer.
Às vezes o pássaro chega logo,
mas pode levar muitos, muitos anos
até se resolver.
Não desanime,
espere.
Espere, se preciso, durante anos.
A velocidade ou a lentidão da chegada
do pássaro, não tem a menor relação
com a qualidade da pintura.
Quando ele chegar
(se chegar)
mantenha o mais profundo silêncio,
espere que ele entre na gaiola.
Depois que entrar,
feche lentamente a porta com o pincel.
Aí então
apague uma por uma todas as varetas.
(Cuidado para não esbarrar em nenhuma pena
do pássaro.)
Finalmente pinte a árvore,
reservando o mais belo de seus ramos
ao pássaro.
Pinte também a verde folhagem e a doçura do
vento,
a poeira do sol,
o rumorejo dos bichinhos da relva no calor da
estação.
Depois aguarde que o pássaro se decida a
cantar.
Se ele não cantar,
mau sinal:
sinal de que o quadro não presta.
Mas bom sinal, se ele canta:
sinal de que você pode assinar o quadro.
Então retire suavemente
uma pena do pássaro
e escreva o seu nome a um canto do quadro.



Jacques Prévert
Tradução de Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, dezembro 06, 2006

ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah

ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah

ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah

ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah


Marcos Prado




Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!

Provo dessa maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressão da dor estética
Consiste essencialmente na alegria.


Augusto dos Anjos
p.s.: alegria compartilhada com o poeta polaco.

terça-feira, dezembro 05, 2006

quando se adia o coração



Ódio Platônico


A tua dor que me desculpe
O que você sente nem tem mais sentido
Amor então que me preocupe
Mas o teu ódio não será correspondido

Para odiar te falta destreza
Neste olhar mais mágoa que tristeza
Se ainda não tiver percebido
Tua aspereza não me deixa comovido

Nem se disser que o que sente
Para nós dois é suficiente
Terá possibilidade

Um dia você vai entender obsessão
E não ódio de verdade
O que se odeia quando
se adia o coração



Fernando Koproski & Renato
(Beijo AA Força no player)

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Se dissesse tudo que tenho a dizer
Não diria nada
Chuva que cai sobre água molhada


Se atravessasse o muro
E tomasse a estrada errada
Ainda assim não diria mudo
De tudo tanto quanto nada
Nessa métrica macabra

Se algum ritmo absurdo
De verso pro ar
Tocasse o absoluto
Eternizaria um segundo
Sinal em meio a hora marcada

E se me encontrasse em apuro
Daria adeus em silêncio e no escuro
Seguro do que me agrada

Mas entretanto contudo
Pálido diamante puro
Permaneceria calado
Feito grafite duro
Como quem não quer nada

Rescrevendo nulo
Sobre linha mal traçadas





Rio, 18.8.99
Monica & Makely

domingo, dezembro 03, 2006

único amor




fugi pra onde te conheci
você percebeu que eu te percebi
disse “oi”“na chegada e
“vem cá” na saída”
único amor da minha vida embriagada

passei por cima do seu cadáver
e vi que você ressuscitou
subiu aos céus da minha vida
daqui não sai, daqui ninguém te tira
único amor da minha vida embriagada




(antonio thadeu wojciechowski, marcos prado e walmor góes)

sexta-feira, dezembro 01, 2006




Diz Thadeu, o poeta, quase flutuando:


"Mais da metade da poesia do Brasil é gay.
Porque não tem força suficiente no pau
para enfrentar uma buceta
de igual para igual".



Declarado no dia 4 de outubro de 2006, Bar do Torto. Reclamações e adendos aqui, nos comentários. De quebra, obtive a arrumação planetária da turma com aquiescência de Justen Santana e de Aranha:


Sol: Thadeu
Lua: Edilson
Mercúrio: Aranha de Vulcanis
Vênus: Beco
Marte: Magoo
Júpiter: Rodrigão
Urano: Marcos Prado
Saturno: Bira / Ferreira (empate técnico)
Netuno: Walmor Góes
Plutão: Sérgio Viralobos
Quíron: Ivan Justen Santana


Houve discordâncias quanto à classificação. Não sei se o Bira é tão soturno quanto Saturno. Eu pensei no Ferry Lover. Nem se o Ivan Quíron cura todo mundo - embora entenda de máculas e feridas. Mercuria quando Gralha. Pra mim ele é como il matto nei Tarochi. O Thadeu acha que o Rodrigo não é Júpiter e avacalha querendo incluir também o Foguinho. Eu acho que é Júpiter sim e meto a colher. Beco, não sendo Baco, é Vênus. Embeleza tudo que toca. Frank, Netuno, é o viajandão. Faz sonhos, cria nevoeiros (suspiros). Aranha, é bruxo-exu. Mercúrio. O gatilho mais rápido no mundo de Malrboro. Magoo é Marte disparado, concordadíssimo. Marcos, um tranco uraniano. O Viralobos é a melhor escolha - puro Plutão. Primo Edilson é de Lua. Diz Aranha que é "the dark side of".

A conversa caiu nos planetas porque comentei com Thadeu o poder solar que o puto tem em aglutinar a turma. E é vero. Far-se-á poesia em Curitiba, sem o Thadeu na área?

A Terra acabou restando para esta que vos escreve mas só porque eu tava lá com a caneta na mão. Ou porque a idéia é minha. Ou talvez porque transite próxima há eras. E depois, pensando na declaração anterior, pegava mal não incluir uma mulher na lista (tsc tsc tsc). Em todo caso, estendo meu outorgado e pretensioso "título" a nós, garotas, que estamos ao lado desses malucos há tantos anos - amigas, amantes, pôsas, ex-pôsas e àquelas de quem esqueci por causa do maldito palimpsesto.

Não, não sou mais feminista.


té té,
Monica
p.s.: aos tristóides, os planetóides e os asteróides.

Poemeto


Em segredo eu te vi, ontem de noite
Estavas em tua alcova, pensativa
Os teus olhos voltados à janela,
inquietos reclamavam por alguém

O prêmio para a tua juventude
buscavas, minha amada. E tu não viste
que como a pomba tímida, minha alma
esvoaçava junto à janela


Haim Nachman Bialik

quinta-feira, novembro 30, 2006

ASTRÁLIA

Acabei de montar com Araiê o "Astrália", um blog em comemoração aos 45 anos do poeta Marcos Prado. Marcos faleceu aos 34 anos no dia 31 de dezembro de 1996. E nasceu no dia 15 de dezembro de 1961. Araiê é nossa filha. Para quem não sabe, meu nome é Monica Berger (Zoe é um nom de plume).

A comemoração é uma iniciativa da Fundação Cultural com participação da Biblioteca Pública do Paraná. Centos eventos: leituras de poemas em bares, mesas-redondas, shows e as tais performances. Depois eu coloco direitinho aqui e
.

Quando namorávamos ele havia acabado de mimeografar seu primeiro livro De leve não vale a pena apesar. Essa frase vinha de Astrália, onde o livro foi escrito e confeccionado. Brincavámos que era lá que a gente ia morar um dia, nosso paraíso particular.

Quem sabe? Ele foi antes pra dar uma geral.



Monica

domingo, novembro 26, 2006

MANTRA

TOTEM
DROGMA
TEM


DROPS
MAGNA
ZEN


TAPA
GAMA
LÓGICA



MIM
CHAMAN
MERLIN


PUFT
GLUPT
TRÓTICA



PARLA
PIRLIM
PIMPIM




Marcos Prado e Edilson del Grossi

Invisível





é verdade que sonhei? não.
e sei que você também não sonhou

a nuvem de tempestade
inacreditável, a realidade.

adianta agora, escrever com sumo de limão?





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quarta-feira, novembro 22, 2006




antes de acontecer
tudo pode ser diferente
depois de acontecer
tem um depois de




trecho de uma letra de Marcos Prado e Thadeu W.

A ERA



Minha era, minha fera, quem ousa,
Olhando nos teus olhos, com sangue,
Colar a coluna de tuas vértebras?
Com cimento de sangue – dois séculos –
Que jorra da garganta das coisas?
Treme o parasita, espinha langue,
Filipenso ao umbral das horas novas.


Todo ser enquanto a vida avança
Deve suportar esta cadeia
Oculta de vértebras. Em tôrno
Jubila uma onda. E a vida como
Frágil cartilagem infantil
Parte seu ápex: morte da ovelha,
A idade da terra em sua infância.


Junta as partes nodosas dos dias:
Soa a flauta, e o mundo está liberto,
Soa a flauta e o mundo se recria.
Angústia! A onda do tempo oscila
Batida pelo vento do século.
E a víbora na relva respira
O ouro da idade, áurea medida


Vergôntea de nova primavera!
Mas a espinha partiu-se da fera,
Bela era lastimável. Era,
Ex-pantera flexível, que volve
Para trás, riso absurdo, e descobre
Dura e dócil, na meada dos rastros,
As pegadas de seus próprios passos.



Ossip Mandelschtam

domingo, novembro 19, 2006




estava no mafalda quando uma menininha bem linda entrou e ofereceu uns adesivos. olhei, tinha da betty boop e da sininho. dois reais. a cleu ganhou uma rosa de papel e eu também. a garota fez as flores com perícia, eu mesma gosto de brincar. não olhou para mim nem por um segundo. o mundo estava em primeiro plano. eu era uma amiguinha invisível.
em casa lembrei - ele há de se lembrar - de uma outra menina pequena, muito pequenininha ainda, que chegou perto da gente um dia.

ela estava bem suja e tinha os cabelos raspados. piolhos. a camisola era digna da garota dos fósforos ou de uma retirante mirim de um hospital psiquiátrico.

bem diferente da outra que entrou bonita, impassível, criança lá no mafalda a essa hora da noite. grampos de brilhinhos assim como brilhavam a betty boop e a sininho.

ensinei como fazer para que um canudinho de refrigirafas virasse uma espécie de torcido que talvez imitesse a vez de um caule ou de um tecido. aquela pobrinha, de antes, que não tinha fósforos mas sim canudinhos.

ela não aprendeu. e nem nós que insistíamos no mesmo bar no meio da tarde como se no mundo nada houvesse a fazer. tardes densas como quaisquer outras tardes.

ela reapareceu e aprendeu o torcido. fizemos vários, como um segundo treino. vimos a menina só mais uma vez - se não me engano - dentro de um carrinho de coisas recicláveis, perto do mercadorama.

Zoe

sexta-feira, novembro 17, 2006

nenhum homem é uma ilha


takeshi kaneshiro


poema pra quê?

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segunda-feira, novembro 13, 2006

Psiu


o que então me era mais caro
é só leda sinapse, bioquímica,
abandono já na garganta
todo engodo de veia lírica

memória sem voz e sem rosto
mania que atropela a trilha
aquele beijo no pescoço
paranóia ou adrenalina?

estava tudo impresso no verso
máquina-de-lavar cerebral
era uma enzima pé-ante-périplo
rondando a célula infinitesimal

um arroubo, uma bomba de hidras,
um carro à gás, um oásis sem ilhas,
um lero-lero de enzimas
quilhas & milhas do centro do coração.


Monica Berger
(do dia de hoje que já vai longe)




Dois amores - de paz e desespero -
Eu tenho que me inspiram noite e dia:
Meu anjo bom é um homem puro e vero;
O mau, uma mulher de tez sombria.

Para levar a tentação a cabo,
O feminino atrai meu anjo e vive
A querer transformá-lo num diabo,
Tentando-lhe a pureza com a lascívia.

Se há de meu anjo corromper-se em demo
Suspeito apenas, sem que dizer que seja;
Mas sendo ambos tão meus, e amigos, temo
Que o anjo no fogo já do outro esteja.

Nunca sabê-lo, embora desconfie,
Até que o meu anjo contagie.


Soneto 144
William Shakespeare


deve haver algo de bom em mim
ou não teria tanta má idéia
o meu demônio tem pacto com o querubim
é uma ovelha o líder da alcatéia

fui o juiz do jogo yin versus yang
apitei faltas pras melhores frases
atirei na tela do meu big-bang
vi estrelas e quase quasares

se há algo de bom em mim, seja dita
a maldade que fez minha alma ambígua


Marcos Prado

terça-feira, outubro 31, 2006



Ícaro

Com que então pertenço aos céus?
Não fosse assim, por que é que os céus
Me olhariam assim com seu eterno olhar azul,
Me chamando, e à minha mente, mais alto,
Sempre mais alto, sempre mais acima,
Me chamando sempre para o máximo,
Para alturas que homem algum imagina?
Por que, estudado o equilíbrio
E o vôo planejado até a última minúcia,
Até não haver margem para o infortúnio,
Por que, até aí, deve a ânsia de subir
Ser associada à insânia?
Nada nesta terra vai me ver satisfeito;
Novidades do mundo, logo monótonas;
Algo me chama lá em cima, para cima,
Cada vez mais perto da faísca do sol.


trecho de Ícaro, por Yukio Mishima
tradução de Paulo Leminski
Sol & Aço/85

sábado, outubro 28, 2006



Versos de Amor



A um poeta erótico
Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a ... ilusão treda!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda a boca que o não prova engana.

Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!

Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte
Amas, oposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo.

Oposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta
Modo de ver, consoante o qual, o observas.

Porque o amor, tal como eu o estou amando,
E Espírito, é éter, é substância fluida,
É assim como o ar que a gente pega e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!

É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima, e impalpável,
Que anda acima da carne miserável
Como anda a garça acima dos açudes!

Para reproduzir tal sentimento
Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Marsias — o inventor da flauta —
Vou inventar também outro instrumento!

Mas de tal arte e espécie tal faze-lo
Ambiciono, que o idioma em que te eu falo
Possam todas as línguas decliná-lo
Possam todos os homens compreendê-lo!

Para que, enfim, chegando à última calma
Meu podre coração roto não role,
Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro d'alma!



Augusto dos Anjos
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quinta-feira, outubro 26, 2006

DA PRÓXIMA VEZ, BATA À CAMPAINHA




AS JANELAS SE ABRIAM


as janelas se abriam sobre uma erva de sonho
confundidas entre os cursos da água
no calor dos tijolos selvagens
encharcavam no vinho
os espessos triunfos de poentes partidos
em breve a dor já não estará viva
e o último luar ceifará e sua emoção
e a dura amizade que uma mola em tensão
ligava à sua sombra – eu era apenas sua sombra -


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LES FÊNETRES SE OUVRAIENT


les fênetres s’ouvraient sur une herbe de rêve
enchevêtrées parmi les courses de l’eau
au feu des briques sauvages
trempaient dans le vin
les épais triomphes des couchants morcelés
bientôt la douleur ne sera plus vivante
et la dérnière lueur fauchera et son trouble
et la dure amitié qu’un ressort tendu
liait à son ombre – je n´était que son ombre -


Tristan Tzara

domingo, outubro 22, 2006



A Rosa Secreta
W. B. Yeats


Longínqua, tão secreta, inviolada Rosa,
Envolve-me na minha hora das horas; onde aqueles
Que te buscaram no Santo Sepulcro,
Ou no tonel de vinho, moram mais além dos tumultuosos e
Vencidos sonhos; e profundamente
Entre macilentas pálpebras, pesadas de tanto sono
Os homens nomearam a beleza. Tuas grandes folhas ocultas
As antigas barbas, os elmos de ouro e rubi
Dos coroados Reis Magos; e o rei cujos olhos
Viram as Mãos Crucificadas e a Cruz de sabugueiro elevar-se
Em druídicos vapores, extinguindo as tochas;
Até que o inútil clamor despertou e ele morreu; e aquele
Que encontrou Fand caminhando entre flamejante orvalho
Junto à sombria costa onde nunca soprava o vento,
E perdeu mundo e Emer por um beijo;
E aquele que os deuses levou para fora dos seus domínios
E durante cem rubras alvoradas se entregou ao festim e chorou
Os túmulos dos seus mortos;
E o rei sonhador e altivo que mágoa e coroa arremessou,
Convocando bobo e bardo,
Em profundos bosques habitava com os errantes filhos do vinho;
E aquele que vendeu campos, casa e bens,
E durante inumeráveis anos por terra e mar procurou,
Encontrou enfim, entre riso e lágrimas,
Essa mulher tão radiosa em sua beleza
Que à meia-noite os homens trabalhavam o cereal
Por um sorriso, um brevíssimo sorriso roubado. Eu também aguardo
Essa hora, a hora das tempestades do teu ódio, do teu amor.
Quando se soltarão do céu as estrelas
Como chispas de uma forja, quando morrerão?
É chegada a tua hora, teus grandes ventos acordam
Longínqua, secretíssima, inviolada Rosa?


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THE SECRET ROSE


Far-off, most secret, and inviolate Rose,
Enfold me in my hour of hours; where those
Who sought thee in the Holy Sepulchre,
Or in the wine-vat, dwell beyond the stir
And tumult of defeated dreams; and deep
Among pale eyelids, heavy with the sleep
Men have named beauty. Thy great leaves enfold
The ancient beards, the helms of ruby and gold
Of the crowned Magi; and the king whose eyes
Saw the pierced Hands and Rood of elder rise
In Druid vapour and make the torches dim;
Till vain frenzy awoke and he died; and him
Who met Fand walking among flaming dew
By a grey shore where the wind never blew,
And lost the world and Emer for a kiss;
And him who drove the gods out of their liss,
And till a hundred moms had flowered red
Feasted, and wept the barrows of his dead;
And the proud dreaming king who flung the crown
And sorrow away, and calling bard and clown
Dwelt among wine-stained wanderers in deep woods:
And him who sold tillage, and house, and goods,
And sought through lands and islands numberless years,
Until he found, with laughter and with tears,
A woman of so shining loveliness
That men threshed corn at midnight by a tress,
A little stolen tress. I, too, await
The hour of thy great wind of love and hate.
When shall the stars be blown about the sky,
Like the sparks blown out of a smithy, and die?
Surely thine hour has come, thy great wind blows,
Far-off, most secret, and inviolate Rose?

William B. Yeats

quarta-feira, outubro 18, 2006


Little Queen Of Spades
by Robert Johnson


She is a little queen of spades
And the men will not let her be.
Said she is a little queen of spades
And the men will not let her be.
Everytime she make a spread,
Oh fair brown, cold chills run all over me.


Gonna get me a gambling woman
If it's the last thing that I do.
Gonna get me a gambling woman
If it's the last thing that I do.
A man don't need a woman,
Oh fair brown, that he got to give all of his money to.


Everybody said you got a mojo,
'Cause baby, you've been using that stuff.
Everybody said you got a mojo
Baby, you've been using that stuff.
Got a way trimming down,
Oh fair brown, and I mean it's most too tough.


Little girl, since I am the king,
Baby, and you is the queen,
Little girl, since I am the king,
Baby, and you is the queen,
Let us put our heads together,
Oh fair brown, and we can make our money green.


p.s.: a música é magnificamente interpretada por Eric Clapton em "Me and Mr. Johnson". E a letra serve de mote ao meu último post sobre a Rainha de Espadas em Zoe Tarot.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Ele oferece uns versos à sua amada



Prende os teus cabelos num alfinete de ouro,
E prende cada trança vagabunda;
Pedi ao meu coração para fazer estes pobres versos;
Neles trabalhou, dia após dia,
Edificando de antigas batalhas
Uma dolente formusura.

Basta levantares a tua mão nacarada
E prenderes os teus cabelos longos e suspirares,
para que o coração dos homens arda e palpite;
E a espuma como uma vela sobre a areia opaca,
E as estrelas que trepam do céu de orvalho,
Só vivam para iluminar os teus pés que passam.


W. B. Yeats

__________________________________________


Ele oferece a sua Amada alguns Versos


Com um alfinete de ouro prende teu cabelo,
E amarra juntas tuas tranças soltas;
Instei meu coração a erigir uns pobres versos:
Dia após dia, neles trabalhou com desvelo,
Erigindo com sofrida graça suas voltas
Inspirado nas batalhas de idos sucessos.

Basta que estendas pálida a nacarada mão,
E suspires e longo amarres o cabelo teu;
E o coração dos homens irá abrasar e bater à vez;
E candelabros de espuma na areia do chão,
E estrelas ascendendo no orvalhante céu,
Vivem só p’ra iluminar a passagem de teus pés.


tradução de José M., da cidade do Porto

domingo, outubro 15, 2006

JUÍZO FINAL

Bye, Malocas, Bye




Testamento de um recém-nascido


o livro já está acabando
e acabo de fazer o primeiro verso
ainda não me acostumei
a escrever pelo avesso

nem mais me lembro quando
comecei a brincar com o texto
só sei que sempre sonhei
que ele tivesse este jeito

de imagem, música, cinema
todos ponteiros ajustados
e levantando a bola pra poesia
brindar à vida no bar dos bardos

dedico este blog-livro aos que saíram de cena
antes da concretização dos fatos
mas não posso disfarçar a alegria
de estar bem vivo para rir dos ultimatos


Sérgio Viralobos

quinta-feira, outubro 12, 2006





"Descobri que precisava travar uma batalha com um determinado fantasma. E o fantasma era uma mulher, e quando cheguei a conhecê-la melhor, passei a chamá-la pelo nome da heroína de um famoso poema, "o anjo na casa" ... Ela era intensamente simpática. Maravilhosamente encantadora. Totalmente abnegada. Ela se distinguia nas difíceis tarefas da vida em família. Se havia galinha, ela ficava com o pé, se havia uma corrente de ar, sentava-se bem ali. Em suma, sua constituição era tal, que ela nunca tinha um pensamento ou desejos próprios, preferindo antes apoiar os pensamentos e desejos dos outros. Acima de tudo, ela era, é desnecessário dizer, pura... E quando me punha a escrever, deparava-me com ela logo nas minhas primeiras palavras. A sombra de suas asas espalhava-se sobre a minha página; eu ouvia o farfalhar da sua saia no quarto ... Ela se aproximava furtivamente pelas minhas costas e sussurrava ... Seja simpática; seja delicada; faça elogios; engane; lance mão de todas as artes e ardis do seu sexo. Nunca permita que alguém pense que você tem um pensamento próprio. Sobretudo, seja pura. E agia como se estivesse guiando a minha caneta. Relato agora a única ação que me levou ter um apreço por mim mesma ... Voltei-me para ela e a agarrei pela garganta. Apertei com toda minha força, até matá-la. Minha defesa, caso fosse levada a um tribunal, seria a de que agi em defesa própria. Se eu não a matasse, ela me mataria.”

Virgínia Woolf

quarta-feira, outubro 04, 2006


DOBRADA À MODA DO PORTO


Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes.
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.


Álvaro de Campos

terça-feira, outubro 03, 2006


AFASTADO


longe muito longe
além da névoa de Júpiter
foi o olhar mais demorado
que tivemos do amor

parecia que você estava lá
e eu na terra
não conseguia ouvi-lo
chorando de dor

então como um fantasma
você veio sob o sol poente
em casa outra vez
na minha porta

e estendeu a mão
do gelo onde esteve
no meu pulso enquanto fingia
entrar

mas o que entrou
foi um sopro de demônios
que gelou o amor
e esvaziou a casa

sentamos como cadeiras
em um ar que não perdoa
o que será dito ou não dito
de como ou onde



Edwin George Morgan
Tradução de Virna Teixeira

domingo, outubro 01, 2006




AMANTES



uma flor
_______não longe da noite
_______meu corpo mudo
___se abre
à delicada urgência do orvalho



Alejandra Pizarnik
Tradução de Virna Teixeira



Labirinto, a vida, labirinto, a morte
Labirinto sem fim, diz o Mestre de Ho.

Tudo afunda, nada libera
O suicida renasce para um novo sofrimento.

A prisão termina em uma prisão
O corredor termina em outro corredor:

Aquele que crê desenrolar o rolo de sua vida
Não desenrola nada em absoluto.

Nada desemboca em nenhuma parte
Os séculos vivem também sob a terra, diz o Mestre de Ho.


Henri Michaux
Tradução de Daniela Osvald Ramos

______________________________________


Labyrinthe, la vie, labyrinthe, la mort
Labyrinthe sans fin, dit le Maître de Ho.
Tout enfonce, rien ne libère.
Le suicide renaît à une nouvelle souffrance.

La prison ouvre sur une prison
Le couloir ouvre un autre couloir:

Celui qui croit dérouler le rouleau de sa vie
No déroule rien du tout.

Rien ne débouche nulle part
Les siècles aussi vivent sous terre, dit le Maître de Ho.


Henri Michaux

sexta-feira, setembro 29, 2006



SUMÁRIO ASTRAL

- fragmento inicial -


Em forma humana
e habitada pela linguagem
lanço os dados
e abro os livros.
Ninguém dança persuadido.
Os braços se erguem unicamente
para bater com as mãos,
não para traçar algum signo.
Observo os detalhes do fogo
pintado para parecer uma cara.
Todo mundo se pisa.
Descansam os frutos e não os comem.
As bandeiras são da cor do caos,
e a serpente é a senhora dos viventes.
O sal não evita que o mar apodreça,
nem as letras correspondem ao trabalho.
A prova é que o poder atua como único centro
e no mundo se produzem artifícios
que compactuam com todas as conclusões
(e gêneros de especulação)
que seria conveniente abandonarmos.
A força das rochas não pensa.
Escrevo signos e letras
em um couro de boi.
Traslado ao pensamento
a terra, o céu e a água
e lanço areia sobre um espelho
para observar desenhos imprevisíveis
ou para traçar uma letra.
Ano após ano,
esgaravato a terra com as unhas
para poder cortar a sombra
que me ultrapassa e penetra as raízes.


Joan Brossa
Tradução de Ronald Polito

( roubado do Pele de Lontra)

quinta-feira, setembro 21, 2006

COMO POSSO SER UMA BOA MENINA
COM AMIGUINHOS DESTE TIPO?





(clique no banner)


tirando o copo fora

já devia ter ido embora
mas em parte estou errado
porém, por outro lado
não vou agora
o sol nasce lindo nessa hora
mas é a lua que comemora

das duas, uma três por quatro
poesia é um parto
meu sono pesado me entrega
no meu sonho acordei numa adega


(Chico Cardoso, Edilson Del Grossi e Plínio Gonzaga)

terça-feira, setembro 19, 2006



A propósito de estrelas


Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas


Adília Lopes

segunda-feira, setembro 18, 2006




FIGOS (trecho)


A maneira correcta de comer um figo, em sociedade,
É parti-lo em quatro, segurando-o pelo pé,
E abri-lo, de modo a ficar uma flor de quatro pétalas, pétalas
pesadas, resplandecentes, rosadas, húmidas e cobertas de mel.

A seguir deitas fora a pele
Que fica mesmo como um cálice de quatro sépalas
Após teres tirado a flor com os lábios.

Mas a maneira mais comum
É metê-lo na boca pela fenda e comer a polpa de uma só
vez.
Todos os frutos têm o seu segredo.



D. H. Lawrence
Os animais evangélicos / Relógio d'água


p.s.: encontrei diversas versões deste poema. uma das traduções é de Herberto Helder, as outras não indicam o tradutor. Aí vai o trecho original, em inglês.


___________________

FIGS



The proper way to eat a fig, in society,
Is to split it in four, holding it by the stump,
And open it, so that it is a glittering, rosy, moist, honied, heavy-petalled four-petalled
_________________________ flower.


Then you throw away the skin
Which is just like a four-sepalled calyx,
After you have taken off the blossom, with your lips.


But the vulgar way
Is just to put your mouth to the crack, and take out the flesh in one bite.


Every fruit has its secret.


D.H. Lawrence

sexta-feira, setembro 15, 2006


Se os poetas fossem menos patetas


Se os poetas fossem menos patetas
E se fossem menos preguiçosos
Faziam toda gente feliz
Para poderem tratar em paz
Dos seus sofrimentos literários
Construíam casas amarelas
Com grandes jardins à frente
E árvores cheias de zaves
De mirliflautas e lizores
De melharufos e toutiverdes
De plumuchos e picapães
E pequenos corvos vermelhos
Que soubessem ler a sina
Havia grandes repuxos
Com luzes por dentro
Havia duzentos peixes
Desde o crusco ao ramussão
Da libela ao papamula
Da orfia ao rara curul
E da alvela ao canissão
Havia um ar novo
Perfumado do odor das folhas
Comia-se quando se quisesse
E trabalhava-se sem pressa
A construir escadarias
De formas antes nunca vistas
Com madeiras raiadas de lilás
Lisas como elas sob os dedos

Mas os poetas são uns patetas
Escrevem para começar
Em vez de se porem a trabalhar
E isso traz-lhes um remorso
Que conservam até à morte
Encantados de ter sofrido tanto
Dedicam-lhes grandes discursos
E são esquecidos num dia
Mas se trabalhassem mais
Só seriam esquecidos em dois



BÓRIS VIAN
Canções e Poemas
Ed. Assírio e Alvim
Lisboa/ Coleção Rei Lagarto

terça-feira, setembro 12, 2006



VIA



qual é este caminho que nos separa
através do qual eu retenho a mão do pensamento
uma flor está escrita ao final de cada dedo
e o final do caminho é uma flor que caminha contigo



tristan tzara
Tradução de Virna Teixeira

quarta-feira, setembro 06, 2006



VODU


Me espete aqui:

o poro da folha não é meu, mas eu sinto.

A reta da tinta não desalinha
o itinerário na palma da mão

(onde me perco, mais que na vida)

nem o rosto desse esforço
com olhos de contas e boca de feltro
é máscara rebelada do que fui ou fujo

de ser. Está livre de mim, o poema.
Eu, não, dele, de mim, do seu chumaço
e arame, do seu engenho e arte.

Me espeto aqui, se espete.



o ar das cidades
sérgio alcides

sexta-feira, setembro 01, 2006



ATLÂNTIDA


Tendo se decidido a ir
Para Atlântida
Você descobrira é claro
Que somente a Nau dos Insensatos
fará nesse ano a viagem,
Pois vendavais anormais
São previstos, e você
Deve portanto estar pronto
A comportar-se de maneira suficientemente absurda
A passar-se por Um dos Rapazes,
Parecendo pelo menos gostar
De aguardente, vaquejada e barulho.

Tendo tempestades, o que pode muito bem acontecer,
Feito você ancorar uma semana
Em algum velho porto
Da Jônia, então converse
Com os seus espirituosos eruditos, homens
Que provaram não ser possível
Existir lugar como Atlântida:
Aprenda a lógica, mas repare
Como a sutileza deles trai
A sua enormemente simples amargura;
E eles devem ensinar a você a maneira
De duvidar que você possa acreditar.

Se, mais tarde, faltar-lhe chão
Nos promontórios da Trácia
Onde com tochas pela noite inteira
Uma nua raça bárbara
Volteia alucinada ao som
De búzios e dissonantes surdos;
Nessa selvagem praia de pedra
Dispa-se e dance, pois
A não ser que você seja capaz
De se esquecer completamente
Da Atlântida, você
Jamais terminará a sua jornada.

E, alcançando chegar à alegre
Cartago ou Corinto, caia
Em sua infinita gandaia;
E se num bar uma putinha

Enquanto acaricia o seu cabelo, dissesse
“Isto é Atlântida, queridinho”
Ouça com atenção
A história da vida dela: A não ser que
Você agora já saiba de
Todos os refúgios que tentam
Falsificar Atlântida, como
Você poderá saber o que é verdadeiro?

Imaginando que você aproasse, finalmente
Perto da Atlântida, e começasse
A adentrar a sua terrível trilha
Através do mato esquálido e de geladas
Tundras onde logo se perdesse;
Se ao abandono então quedasse
Banido de todo lugar,
Pedra e neve, silêncio e ar,
Ó lembre-se do grande morto
E honre o destino que é você
Viajante e atormentado
Dialético e bizarro.

Cambaleie para trás em júbilo;
E mesmo então se, talvez
Ante a última passagem, você tombasse
Com toda a Atlântida
Brilhando, aos seus pés
Ainda assim você não poderia
Descer, você poderia no entanto orgulhar-se
Ao ter-lhe sido, pelo menos, permitido
Uma rápida espiada da Atlântida
Em uma visão poética:
Agradeça e quede-se em paz,
Tendo visto a sua salvação.

Todos os deusinhos domésticos
Põem-se em pranto, mas diga
Adeus então, e vá ao mar.
Adeus, queridos, adeus: possa
Hermes, padroeiro das estradas,
E os quatro anões Kabiri,
Proteger e servir a você sempre:
E possa o Ancião dos Dias
Prover para tudo o que você deva fazer
Sua mão invisível,
Fazendo pairar, querido, sobre você
A luz de Sua face.


W. H. Auden
Tradução de Carlos Figueiredo