quinta-feira, janeiro 05, 2006




um tigre
quando se entigra
não é flor
que se cheire
não é tigre
que se queira

ser tigre
dura a vida inteira


P. Leminski
O TIGRE




Há um tigre em casa
que dilacera por dentro aquele que o olha.
E somente tem garras para aquele que o espia,
e somente pode ferir por dentro,
e é enorme:
maior e mais pesado
que outros gatos gordos
e carniceiros pestíferos
de sua espécie,
e perde a cabeça com facilidade,
fareja o sangue mesmo através do vidro,
percebe o medo até da cozinha
e apesar das portas mais robustas.

Costuma crescer de noite:
coloca sua cabeça de tiranossauro
em uma cama
e o focinho fica pendurado
para lá das colchas.
Seu dorso, então, se aperta no corredor
de uma parede à outra,
e somente alcanço o banheiro rastejando, contra o teto,
como que através de um túnel
de lodo e mel.

Não olho nunca a colméia solar,
os negros favos do crime
de seus olhos,
os crisóis da saliva envenenada
de suas presas.

Nem sequer o cheiro,
para que não me mate.

Mas sei claramente
que há um imenso tigre encerrado
em tudo isso.


Eduardo Lizalde
Tradução: Plinio Junqueira Smith
A MARCA DE UMA MORDIDA em lugar algum.





Também a ela
tens de combater,
a partir daqui.



Paul Celan
in Sóis em Fios
Trad Claudia Cavalcanti

sábado, dezembro 31, 2005

L'excessive




Je n'ai pas d'excuse,
C'est inexplicable,
Même inexorable,
C'est pas pour l'extase,
c'est que l'existence,
Sans un peu d'extrême,
est inacceptable.

Je suis excessive,
J'aime quand ça désaxe,
Quand tout accélère,
Moi je reste relaxe.

Je suis excessive,
Quand tout explose,
Quand la vie s'exhibe,
C'est une transe exquise.

Y'en a que ça excède, d'autres que ça vexe,
Y'en a qui exigent que je revienne dans l'axe,
Y'en a qui s'exclament que c'est un complexe,
Y'en a qui s'excitent avec tous ces "X" dans le texte

Je suis excessive,
J'aime quand ça désaxe,
Quand tout accélère,
Moi je reste relaxe
Je suis excessive,
Quand tout explose,
Quand la vie s'exhibe,
C'est une transe exquise, (ouais).

Je suis excessive,
J'aime quand ça désaxe,
Quand tout exagère,
Moi je reste relaxe
Je suis excessive,
Excessivement gaie,excessivement triste,
C'est là que j'existe.
Pas d'excuse ! Pas d'excuse!


Parole et chanson
CARLA BRUNI

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Vale dar uma sacada em Los excessivos http://losexcessivos.blogspot.com/ blog de Virna Teixeira e Jair Cortés

terça-feira, dezembro 20, 2005

ESFARELA SIM




coração de pedra
não esfarela
atire a primeira pedra
essa e aquela
e aquarela e lagosta nela

água mole em pedra dupla
tanto bate até que duas

canhão e manteiga
legião estrangeira
chuva de areia


Marcos Prado e Sérgio Viralobos
- o blues é meu.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Goodbye Yellow Brick Road




Nesta rua, nesta rua, tem um bosque
Que se chama, que se chama Solidão
Dentro dele, dentro dele mora um anjo
Que roubou, que roubou meu coração

Se eu roubei, se eu roubei teu coração
É porque tu roubaste o meu também
Se eu roubei, se eu roubei teu coração
É porque eu te quero tanto bem

Se esta rua, se esta rua fosse minha
Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante
Para o meu, para o meu amor passar


* sem créditos

sexta-feira, dezembro 09, 2005

TUDO PODE SER DITO SE FOR BENDITO


Maiakowski (1925)


Lílitchka
(em lugar de uma carta)


Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto -
um capítulo do inferno de Krutchônikh.
Recorda -
atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração - aço.
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez, com zanga.
No teu "hall" escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
lançarei meu corpo à rua.
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consintas,
meu amor,
meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
o meu amor
- duro fardo por certo -
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
para mim
não há sol,
e eu não sei onde estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele
trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos - rodopiante carnaval -
dispersarão as folhas dos meus livros...
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa ?

Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.


Vladmir Maiakowski
(1893-1930)

terça-feira, dezembro 06, 2005

PRA MIM QUE, SEGUNDO AS MAIS RECENTES PESQUISAS, TERIA UMA IDÉIA EQUIVOCADA SOBRE O AMOR OU AINDA PIOR, NÃO SABERIA AMAR DIREITO - COISA COM QUE ESTOU PRESTES A CONCORDAR POIS, AFINAL DE CONTAS, UM DIA, O PULSO PÁRA



O DONO DA FARRA


meu coração é só uma bomba de sangue
mas como todo motor,
um dia entra em pane.

mesmo a paixão um dia se recusa
e como todo em todo amor,
um dia o sangue suja.

meu coração não funciona direito
mas como todo bom ator,
ventriloquo que fala de amor,
dubla a batida do peito.

estúpida máquina falsária !
pode ser a dona da farra,
mas seja como for,
um dia o pulso pára.


letra de marcos prado e sérgio viralobos
música do ferreira executada pelo
BEIJO AA FORÇA




O PRAZER DO DIFÍCIL


O prazer do difícil tem secado
A seiva em minhas veias. A alegria
Espontânea se foi. O fogo esfria
No coração. Algo mantém cerceado
Meu potro, como se o divino passo
Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço,
Sob o chicote, trêmulo, prostrado,
E carregasse pedras. Diabos levem
As peças de teatro que se escrevem
Com cinqüenta montagens e cenários,
O mundo de patifes e de otários,
E a guerra cotidiana com seu gado,
Afazer de teatro, afã de gente,
Juro que antes que a aurora se apresente
Eu descubro a cancela e abro o cadeado.

William Butler Yeats
Tradução: Augusto de Campos


THE FASCINATION OF WHAT'S DIFFICULT


The fascination of what's difficult
Has dried the sap out of my veins, and rent
Spontaneous joy and natural content
Out of my heart. There's something ails our colt
That must, as if it had not holy blood
Nor on Olympus leaped from cloud to cloud,
Shiver under the lash, strain, sweat and jolt
As though it dragged road-metal. My curse on
[ plays
That have to be set up in fifty ways,
On the day's war with every knave and dolt,
Theatre business, management of men.
I swear before the dawn comes round again
I'll find the stable and pull out the bolt.

1910



Poema do falso amor


O falso amor imita o verdadeiro
Com tanta perfeição que a diferença
Existente entre o falso e o verdadeiro

É nula. O falso amor é verdadeiro
E o verdadeiro falso. A diferença
Onde está? Qual dos dois é o verdadeiro?

Se o verdadeiro amor pode ser falso
E o falso ser o verdadeiro amor,
Isto faz crer que todo amor é falso

Ou crer que é verdadeiro todo amor.
Ó verdadeiro Amor, pensam que és falso!
Pensam que és verdadeiro, ó falso Amor!


Dante Milano

segunda-feira, novembro 28, 2005




síndrome de don juan



ele te olha de lado

você o olha da esquina

no seu olhar uma cisma

no dele muito pouco caso



de repente se aproxima

com o freio-de-mão puxado

e vai apertando o passo

enquanto sobe adrenalina



você vai se sentir mais bonita

ele vai perceber no ato

é quando don juan já não despista

parte para o contato imediato



mas se no dia seguinte você liga

ouve uma voz do outro lado

ele saiu com uma cara esquisita

e não deixou nenhum recado



Marcos Prado
1961-1996

terça-feira, novembro 22, 2005

870


Primeiro Ato é achar,
Perder é o segundo Ato,
Terceiro, a Viagem em busca
Do “Velocino Dourado”

Quarto, não há Descoberta —
Quinto, nem Tripulação —
Por fim, não há Velocino —
Falso — também — Jasão.

Emily Dickinson
Tradução de Paulo Henriques Britto

segunda-feira, novembro 14, 2005


9 poemas






chega de rosas e azul. todos pistilos de uma só vez - os que estavam guardados na pasta de buquês.

mônicas cromáticas para alice ruiz, marcos prado, greta benitez, paul celan, thadeu wojciechowski, cláudio daniel, virna teixeira e para zoe que me camaris.
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a natureza do eterno

que flor é esta?
finge que morre
e quando menos se espera
é flor indo, flor vindo, floresta em festa

que flor é esta
que sempre resta?


Alice Ruiz




Exata

Rosa náutica
Rosa dos ventos
Rosa crítica
Seria a flor totalmente estática?
Seria a vida extremamente prática?
Onde ficaria a política?
Se o mistério da ótica fosse a temática
Pra que serviria a matemática?
Se a crise enfática sobrevivesse ao fato
Se a música poética não tocasse o tato
Qual seria a finalidade da flor?

Greta Benitez




entrix

a mulher
sim a flor
na ante sala

a mulher
sim o amor
no após sala

a mulher
sim a música
olhares jimi hendricolados

a mulher
na protuberância de suas pétalas
o que te diz?

entrix
nós e a flor
o infinito lá fora

thadeu wojciechowski




BOBAGENS DE VERÃO


ei, benzinho, encara comigo um frio de rachar
num vagãozinho flor-de-rosa?
OK, eu empresto a almofada e meus sonhos
azuis pro teu sono
suaves ninhos de beijos no seu rosto gelado,
só de brincadeirinha

vê se dorme de uma vez, fecha o canto dos olhos
esse filme é ruim de rachar
franksteins de farda
vampiros caolhos
e outros demônios
negros, adoráveis lobos

e aí, só de sacanagem, escorro meus dedos na sua cara
meu caro
um beijo molhado no pescoço,
uma aranha tresloucada

e você, tolinho, morto de susto, dirá:
socorro!

e perderemos nosso tempo
a procurar coisa alguma
porra, como esse
trem viaja depressa


Zoe de Camaris
p.s.: uma tradução infiel e bem mau-humorada para Rêve pour l'hiver, de Monsieur Rimbaud, rascunhada no verão de 98 na Ilha do Mehl.




minha flor
já matei muita
roseira no peito
já nadei muito
mar de rosa
atrás do seu cheiro
cio e ácido
navalha maravilhosa
sangue plácido

Marcos Prado


FLORBELA ESPANCA

bata na flor que te ama
dedo na pétala aveludada
toca o todo morde tudo
demoro muda e amada

bata, bata,

bata na flor aliada
na rima consagrada
seiva que se quis sílaba
bata na flor abstrata

bata, bata,

bata na flor que te ata
vermelha, puta, feiticeira
a flor que incendeia
carnívora cilada

bata, bata,

bela e bélica
ama e mata
bata, bata, bata.


Zoe de Camaris
1999




CALÇADA


pequeno, o
frágil
corpo
soluça

vermelha,
a flor
entre os
dedos


virna teixeira



Até cinzas


Talvez
pétala, bailado
mudo, ardência:
aqui
é onde a seda
inflama o azul
em amarelo
(fosse tingida
em volátil púrpura,
cicatriz esculpida
em outra voz).
Algo de felina,
ruidosa volúpia
em seu desejo,
que se consome
até cinzas.


Cláudio Daniel





ESTOU SÓ, arrumo a flor de cinzas
no vaso cheio de maduro negrume. Boca-irmã,
falas uma palavra que sobrevive diante das janelas,
e escala muda o que sonhei, em mim.

Eis-me na flor da hora murcha
e poupo uma resina para um pássaro tardio:
ele traz o floco de neve na pluma vermelho-vida;
o grãozinho de gelo no bico, e atravessa o verão.

Paul Celan


segunda-feira, novembro 07, 2005



A FLOR DO DIABO
Cruz e Sousa

Branca e floral como um jasmim-do-Cabo
Maravilhosa ressurgiu um dia
A fatal Criação do fuIvo Diabo,
Eleita do pecado e da Harmonia.

Mais do que tudo tinha um ar funesto,
Embora tão radiante e fabulosa.
Havia sutilezas no seu gesto
De recordar uma serpente airosa.

Branca, surgindo das vermelhas chamas
Do Inferno inquisitor, corrupto e langue,
Ela lembrava, Flor de excelsas famas,
A Via-Láctea sobre um mar de sangue.

Foi num momento de saudade e tédio,
De grande tédio e singular Saudade,
Que o Diabo, já das culpas sem remédio,
Para formar a egrégia majestade,

Gerou, da poeira quente das areias
Das praias infinitas do Desejo,
Essa langue sereia das sereias,
Desencantada com o calor de um beijo.

Sobre galpões de sonho os seus palácios
Tinham bizarros e galhardos luxos.
Mais grave de eloqüência que os Horácios,
Vivia a vida dos perfeitos bruxos.

Sono e preguiça, mais preguiça e sono,
Luxúrias de nababo e mais luxúrias,
Moles coxins de lânguido abandono
Por entre estranhas florações purpúreas.

Às vezes, sob o luar, nos rios mortos,
Na vaga ondulação dos lagos frios,
Boiavam diabos de chavelhos tortos,
E de vultos macabros, fugidios.

A lua dava sensações inquietas
As paisagens avérnicas em torno
E alguns demônios com perfis de ascetas
Dormiam no luar um sono morno...

Foi por horas de Cisma, horas etéreas
De magia secreta e triste, quando
Nas lagoas letíficas, sidéreas,
O cadáver da lua vai boiando...

Foi numa dessas noites taciturnas
Que o velho Diabo, sábio dentre os sábios,
Desencantado o seu poder das furnas,
Com o riso augusto a flamejar nos lábios,

Formou a flor de encantos esquisitos
E de essências esdrúxulas e finas,
Pondo nela oscilantes infinitos
De vaidades e graças femininas.

E deu-lhe a quint'essência dos aromas,
Sonoras harpas de alma, extravagancias,
Pureza hostial e púbere de pomas,
Toda a melancolia das distancias...

Para haver mais requinte e haver mais viva,
Doce beleza e original carícia,
Deu-lhe uns toques ligeiros de ave esquiva
E uma auréola secreta de malícia.

Mas hoje o Diabo já senil, já fóssil,
Da sua Criação desiludido,
Perdida a antiga ingenuidade dócil,
Chora um pranto noturno de Vencido.

Como do fundo de vitrais, de frescos
De góticas capelas isoladas,
Chora e sonha com mundos pitorescos,
Na nostalgia das Regiões Sonhadas.


Stephen Funk / Devil in the Rose Garden

quinta-feira, outubro 27, 2005



FLOR


A pedra.
A pedra no ar, que segui.
Teu olho, tão cego como a pedra.

Éramos
mãos,
esvaziamos a escuridão, encontramos
a palavra, que ascendia do verão:
flor.
Flor - uma palavra de cegos.
Teu olho e meu olho:
procuram
água.

Crescimento.
O coração: de parede a parede
se forma.

Uma palavra ainda, como esta, e os martelos
vibram ao ar livre.



Paul Celan
De Limiar a Limiar (1955)
trad. Cláudia Cavalcanti

segunda-feira, outubro 24, 2005





MORANGOS


Nunca houve morangos
Como os que tivemos
Naquela tarde tórrida
Sentados nos degraus
Da porta-janela aberta
de frente um para o outro
seus joelhos encostados nos meus
os pratos azuis em nossos colos
os morangos brilhando
na luz quente do sol
nós os mergulhamos em acúçar
olhando um para o outro
sem apressar a festa
para outra por vir
os pratos vazios
deitados sobre a pedra juntos
com os dois garfos cruzados
e me aproximei de você
dócil naquele ar
nos meus braços
abandonado como uma criança
da sua boca ávida
o gosto de morangos
na minha memória
inclina-se de volta
deixe-me amá-lo

deixe o sol bater
sobre o nosso esquecimento
uma hora de tudo
o calor intenso
e o relampâgo de verão
nas colinas de Kilpatrick

deixe a tempestade lavar os pratos


Edwin George Morgan
Tradução de Virna Teixeira

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STRAWBERRIES


There were never strawberries
like the ones we had
that sultry afternoon
sitting on the step
of the open french window
facing each other
your knees held in mine
the blue plates in our laps
the strawberries glistening
in the hot sunlight
we dipped them in sugar
looking at each other
not hurrying the feast
for one to come
the empty plates
laid on the stone together
with the two forks crossed
and I bent towards you
sweet in that air
in my arms
abandoned like a child
from your eager mouth
the taste of strawberries
in my memory
lean back again
let me love you

let the sun beat
on our forgetfulness
one hour of all
the heat intense
and summer lightning
on the Kilpatrick hills

let the storm wash the plates



Edwin George Morgan




quarta-feira, outubro 19, 2005


Família de Beija-Folhas by Acuio


Piscada


Bandos de papagaios atravessam minha cabeça
Quando te vejo de perfil
E o céu de banha estria-se de relâmpagos azuis
Que traçam teu nome em todos os sentidos
Rosa penteada de tribo negra perdida numa escada
Onde os seios agudos das mulheres olham pelos olhos dos homens
Hoje eu olho pelos teus cabelos
Rosa de opala da manhã
E desperto pelos teus olhos
Rosa de armadura
E penso pelos teus seios de explosão
Rosa de lagoa esverdeada pelas rãs
E durmo no teu umbigo de mar Cáspio
Rosa de rosa do mato durante a greve geral
E me perco entre teus ombros de via lactea fecundada por cometas
Rosa de jasmim na noite da lavagem dos linhos
Rosa de casa assombrada
Rosa de floresta negra inundada de selos azuis e verdes
Rosa de papagaio-de-papel sobre um terreno baldio onde brigam crianças
Rosa de fumaça de charuto
Rosa de espuma de mar feita cristal
Rosa


Benjamin Péret
Amor Sublime
tradução de Sérgio Lima e Pierre Clemens

quarta-feira, outubro 12, 2005





Quem arranca do peito seu coração para a noite deseja a rosa.

São seus a folha e o espinho,
para ele ela põe a luz no prato,
pare ele ela enche os copos com sopro,
pare ele murmuram as sombras do amor.

Quem arranca do peito seu coração para a noite e o atira alto:

Não erra o alvo
apedreja a pedra,
e ele bate o sangue do relógio,
para ele sua hora soa o tempo na mão:
ele pode brincar com bolas mais bonitas
e falar de ti e de mim.


Paul Celan
Ópio e Memória
tradução de Cláudia Cavalcanti


p.s.: não consegui manter a formatação original do poema -
se alguém souber como se faz, será uma gentileza.

sábado, outubro 08, 2005

CANÇÃO DE UMA DAMA NA SOMBRA


Henry Sides / Tulip Woman


Quando vem a taciturna e poda as tulipas:
Quem sai ganhando?
Quem perde?
Quem aparece na janela?
Quem diz primeiro o nome dela?

É alguém que carrega meus cabelos.
Carrega-os como quem carrega mortos nos braços.
Carrega-os como o céu carregou meus cabelos no ano que amei.

Carrega-os assim por vaidade.

E ganha.
E não perde.
E não aparece na janela.
E não diz o nome dela.

É alguém que tem meus olhos.
Tem-nos desde quando portas se fecham.
Carrega-os no dedo, como anéis.
Carrega-os como cacos de desejo e safira:
era já meu irmão no outono;
conta já os dias e as noites.

E ganha.
E não perde.
E não aparece na janela.

E diz por último o nome dela.
É alguém que tem o que eu disse.
carrega-o debaixo do braço como um embrulho.
Carrega-o como o relógio a sua pior hora.
Carrega-o de limiar a limiar, não o joga fora.

E não ganha
E perde.
E aparece na janela.
E diz primeiro o nome dela.

E é podado com as tulipas.



Paul Celan
Ópio e Memória (1952)
Tradução de Cláudia Cavalcanti



nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua intensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas


Poema de e. e. cummings, traduzido por Augusto de Campos,
musicado por Zeca Baleiro.

terça-feira, outubro 04, 2005




C R I S T A L



Não procura nos meus lábios tua boca,
não diante da porta o forasteiro,
não no olho a lágrima.

Sete noites acima caminha o vermelho ao vermelho,
sete corações abaixo bate a mão à porta,
sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.



Paul Celan
tradução de Cláudia Cavalcanti




Magritte 1950 / Les Moyens d'Existence - Rose et Poire


A Família da Rosa

A rosa é uma rosa,
E sempre foi uma rosa.
Mas a teoria agora reza
Que a maçã é uma rosa,
E a pêra também, mesmo caso
Da ameixa, já é quase certeza.
Sabe-se lá mais qual coisa
Receberá o status de rosa.
Vocês, certamente, são uma rosa –
Mas sempre foram uma rosa.

Versão Brasileira: Ivan Justen Santana
__________________

The Rose Family
Robert Frost


The rose is a rose,
And was always a rose.
But the theory now goes
That the apple's a rose,
And the pear is, and so's
The plum, I suppose.
The dear only know
What will next prove a rose.
You, of course, are a rose -
But were always a rose.

sexta-feira, setembro 30, 2005

Uma rosa perfeita




Dele só ganhei até hoje uma flor
E tão terna, com um coração à espreita
Pura, púrpura, tendo do orvalho o odor
Uma rosa perfeita.

Já conheço a linguagem do buquê
"Nestas frágeis folhas, meu coração se estreita"
E imagino perfeitamente em quê:
Numa rosa perfeita.

Por que é que nunca me dão
uma limusine perfeita, acaso você suspeita?
Ah, não, o meu destino é ganhar sempre
Uma rosa perfeita.


Dorothy Parker

quarta-feira, setembro 28, 2005

A Rose is A Rose


Perfect Rose / Priscilla Bistoen


Jezebel from Israel who never read a book
Charmed the literati and a smile was all it took
I was laughing with Picasso when she first entered the room
But Gershwin, Tristan Tzara and Man Ray saw her too
There was never any doubt all would try to take her home
But she refused their every move, preferred to be alone
And a rose...A rose is a rose
Zelda had a breakdown, Fitzgerald hit the bar
His hand was broken, words were spoken, didn't get too far
Hemmingway was sweeter, more debonnaire and fun
But he would say her repartee was meaner than a gun
And a rose...
A rose is a rose is a rose is a rose said my good friend Gertrude Stein
But she knows that I go to the old Deux Magots and I drink Pernod through the night
Jezebel from Israel who never read a book
She charmed the literati, and a smile was all it took
Before her Joyce will babble and Pound has gone insane
Eliot is paralized by thoughts of April rain
When she refused Lenon, he vowed to start a war
Stravinski beat the Rite of Spring right there on the floor
And a rose...
A rose is a rose is a rose is a rose said my good friend Gertrude Stein
But she knows that I go to the old Deaux Magots and I drink Pernod through the night
Jezebel from Israel who never read a book
She charmed the literati and a smile was all it took
And then one night she's missing, a riot soon began
No one could stand the thought of Jezzie with another man
I raced down winding streets, I broke into her house
You'll never guess who Jezebel was kissin on the couch
And a rose...Is a rose
Hi Jezzie, Hi there Gertrude
Am I interupting something?
A rose is a rose is a rose is a rose...


A Rose is A Rose
(Lyrics: Mark Danielewski — Music: Poe - 1997)

domingo, setembro 25, 2005

CEM ANOS ATRÁS


eclipse anular do sol


bate o meu coração acolá
e o seu sangue azula
seu coração bomba lá
e o meu sangue circula

às vezes olho pro céu
onde o sol não flutua
e até as nuvens, ó céus,
compõem sua figura

outras, olho pro mar
com o olho da rua
quero amor e amar
cansei de amargura

nesta manhã lunar
(o seu olhar me inaugura)
porque não aterrissar
neste que é seu, sua lua?



Marcos Prado
A u r o r a


Daphne & Apolo


Eu abracei a aurora de verão.

Nada ainda se mexia na fachada dos palácios. A água estava
morta. Acampamentos de sombras não deixavam a trilha do
bosque. Eu marchava, despertando hálitos vivos e cálidos, e as
pedrarias espiavam, e as alas se levantavam sem um som.
A primeira missão foi, num atalho já cheio de centelhas frescas
e pálidas, uma flor que me disse seu nome.
Sorri para a loira wasserfall que se descabelava através dos
pinheiros; reconheci a deusa no cimo de prata.

Então, um a um, levantei os véus. Nas alamedas, agitando os
braços. Pela planície, onde a denunciei ao galo. Na cidade grande
ela fugia entre cúpulas e campanários, e correndo como um
mendigo entre docas de mármore, eu a caçava.
No alto da trilha, perto de um bosque de louros, eu a envolvi
com seu monte de véus e senti um pouco seu corpo imenso. A
aurora e a criança caíram na beira do bosque.
Ao acordar, meio-dia.


Arthur Rimbaud in Iluminuras

domingo, setembro 18, 2005

PANTHERA DOS OLHOS DORMENTES



Anayde Beiriz


“(...) O amor que não se sente capaz de um sacrifício não é amor; será, quando muito, desejo grosseiro, expressão bestial dos instintos, incontinência desvairada dos sentidos, que morre com o objetivar-te, sem lograr atingir aquela altura onde a vida se torna um enlevo, um doce arrebatamento, a transfiguração estética da realidade... E eu não quero amar, não quero ser amada assim... Porque quando tudo estivesse findo, quando o desejo morresse, em nós só ficaria o tédio; nem a saudade faria reviver em nossos corações a lembrança dos dias findos, dos dias de volúpia de gozo efêmero, que na nossa febre de amor sensual tínhamos sonhado eternos.

Mas não me julgues por isto diferente das outras mulheres; há, em todas nós, o mesmo instinto, a mesma animalidade primitiva, desenfreada, numas, pela grosseria e desregramento dos apetites; contida, nobremente, em outras, pelas forças vitoriosas da inteligência, da vontade, superiormente dirigida pela delicadeza inata dos sentimento ou pelo poder selético e dignificador da cultura.

Não amamos num homem apenas a plástica ou o espírito: amamos o todo. Sim, meu Hery, nós, as mulheres, não temos meio termo no amor; não amamos as linhas, as formas, o espírito ou essa alguma coisa de indefinível que arrasta vocês, homens, para um ente cuja posse é para vocês um sonho ou raia às lides do impossível. Não, meu Hery, não é assim que as mulheres amam. Amam na plenitude do ser e nesse sentimento concentram, por vezes, todas as forças da sua individualidade física ou moral.

É pois assim que eu te amo, querido; e porque te amo, sinto-me capaz de esperar e de pedir-te que sejas paciente. O tempo passa lento, mas passa...

...E porque ele passa, e porque a noite já vai alta, é-me preciso terminar.

Adeus. Beija-te longamente, Anayde”

(trecho de uma carta de 4 de julho de 1926 de Anayde Beiriz a Heriberto Paiva)





Lendo Anayde Beiriz
________________

O Amor está ligado à Beleza. Quando observei Eros e Psique de Rodin no Museu de Arte Moderna tudo se tornou uno e volátil ao mesmo tempo - ele e ela que eram um só. E belos, por serem dois. O corpo traduziu o que acometia à alma - pequenas borboletas elétricas brotando na pele. Era pedra, mas era pele. Não senti frio, mas era mármore. Era liso, mas vagueva contornos. Era água. E fundo, muito fundo. Não era azul nem era vermelho. Era lágrima mas não era triste. Não mais uma tradução da Beleza mas a face viva do Amor. Ver seu rosto. Puro. Quente. Ao meu lado.

De verdade.

Sim, é possível ver o Amor além de senti-lo. Psiquê foi punida não por observá-lo em seu sonho dourado mas por ter infringido uma lei até então desconhecida e sem a qual a Beleza não vive.

A Ética.

Há que existir Ética no Amor.

Se há Estética, há de existir Ética. Pois sem ela, Eros voa. Desprende. Escapa. E a beleza fica só. E o amor se enfeia.

Só há um caminho para o Amor. E as pedrinhas brancas que ladeiam essa estrada são feitas de delicadeza. Deve-se pisar leve. Mas são pedras e não cascas de ovos. É possível pairar sobre elas e depois soltar todo o peso que não se quebrarão. Você será sustentado para ganhar impulso. Acolherão seus pés com sandálias douradas. E será possível brincar. E olhar para as flores. E sentir calor. E conversar com o Bicho Papão. Desabar em carreira, serenar o ritmo. Deitar-se na estrada, dormir. Acordar. Percorrê-la.

Não dá pra amar de qualquer jeito.
Não basta o Amor substantivo sem o verbo que lhe dá Ânimo.
É preciso aprender a conjugar – que se enverede pelos caminhos do Érebo mas que, depois, se faça a luz.

O amor que eu vi, existe. E é Belo. E é Bom.




Zoe
05.10.05


terça-feira, setembro 13, 2005

Trovas de muito amor para um amado senhor




Nave

Ave

Moinho

E tudo mais serei

Para que seja leve

Meu passo

Em vosso caminho.

(I)


* * *

Dizeis que tenho vaidades.

E que no vosso entender

Mulheres de pouca idade

Que não se queiram perder



É preciso que não tenham

Tantas e tais veleidades.



Senhor, se a mim me acrescento

Flores e renda, cetins,

Se solto o cabelo ao vento

É bem por vós, não por mim.



Tenho dois olhos contentes

E a boca fresca e rosada.

E a vaidade só consente

Vaidades, se desejada.



E além de vós

Não desejo nada.

(XIII)


Hilda Hilst
Poesia: 1959-1979

segunda-feira, setembro 12, 2005




Dois (II) de Taças



É DURO TER CORAÇÃO MOLE


por favor
não me aperte tanto assim
tenha cuidado, pega leve
olha onde pisa
isso é meu coração
meu ganha-pão
instrumento de trabalho,
meio de vida, profissão
meu arroz com feijão
meu passaporte
para qualquer parte
para qualquer arte
não machuque esse meu coração
preciso dele
para me levar a Marte
sem sair do chão
não me aperte
não machuque
tome cuidado
eu vivo disso
poesia, sonhos
e outras canções
sem emoção
morro de fome
sinto muito
mas não há nada
que eu possa fazer
sem coração


Alice Ruiz
Música: Itamar Assumpção
In Poesia ra tocar no rádio, Blocos, 1999, RJ

sábado, setembro 10, 2005





É o Super-Homem dando voltas
contrárias ao redor da Terra
para retroceder o tempo

São os ponteiros dos relógios
refazendo horas nas paredes dos escritórios

São as oito longas arestas
que ressurgem das ruínas, uma a uma
entre os pavimentos, até atingir o céu
É Mandrake com a cartola nas mãos,
olhos e dentes cerrados, encadeando as
sílabas mágicas numa cabala doída

É e. e. cummings construindo sobre o
tablado duas sílabas, o Homem-Borracha
esticando para alcançar as letras que caem

É o mantra-gerúndio. Que o passado ressurja
Agora: dominós se ergam, cartas de baralho
e lajes de concreto retornem ao lugar

São Withman, Thoreau e Ginsberg
escrevendo a palavra: V I D A

soprando-a em uníssono das colinas,
sobre as pradarias
do topo das sequóias
à ponte do Brooklyn

O vulto veloz de Kal-El rasga o céu da ilha,
o planeta gira ao contrário,
centenas, milhares, milhões de vezes

até os aviões pousarem de ré, prata silente
nos aeroportos de origem, sua fuselagem
sob os primeiros raios do sol,

e os passageiros, um a um,
aos fartos breakfast, aos beijos de bom dia
às suas camas,
aos seus sonhos
do dia anterior


Joca Reiners Terron

domingo, setembro 04, 2005

Idéias Rosas




Minhas idéias abstratas,
De tanto as tocar, tornaram-se concretas:
São rosas familiares
Que o tempo traz ao alcance da mão,
Rosas que assistem à inauguração de eras novas
No meu pensamento do mundo em mim e nos outros;
De eras novas, mas ainda assim
Que o tempo conheceu, conhece e conhecerá.
Rosas! Rosas!
Quem me dera que houvesse
Rosas abstratas para mim.



Murilo Mendes

sexta-feira, setembro 02, 2005




A estrela chorou rosa ao coração das tuas orelhas,
O infinito rolou branco da tua nuca aos teus quadris,
O mar perolou ruivo nas tuas mamas vermelhas
E o Homem sangrou negro nos teus flancos senhoris.



opções tradutórias de Zoe de Camaris e Ivan Justen Santana para
Arthur Rimbaud

terça-feira, agosto 30, 2005

O Êxtase
John Donne



Onde, qual almofada sôbre o leito,
A areia grávida inchou para apoiar
A inclinada cabeça da violeta,
Nós nos sentamos, olhar contra olhar.

Nossas mãos duramente cimentadas
No firme bálsamo que delas vem,
Nossas vistas trançadas e tecendo
Os olhos em um duplo filamento;

Enxertar mão em mão é até agora
Nossa única forma de atadura
E modelar nos olhos as figuras
A nossa única propagação.

Como entre dois exércitos iguais,
Na incerteza, o Acaso se suspende,
Nossas almas (dos corpos apartadas
Por antecipação) entre ambos pendem.

E enquanto alma com alma negocia,
Estátuas sepulcrais ali quedamos
Todo o dia na mesma posição,
Sem mínima palavra, todo o dia.

Se alguém - pelo amor tão refinado
Que entendesse das almas a linguagem,
E por virtude desse amor tornado
Só pensamento - a elas se chegasse,

Pudera (sem saber que alma falava
Pois ambas eram uma só palavras),
Nova sublimação tomar do instante
E retornar mais puro do que antes.

Nosso Êxtase - dizemos - nos dá nexo
E nos mostra do amor o objetivo,
Vemos agora que não foi o sexo,
Vemos que não soubemos o motivo.

Mas que assim como as almas são misturas
Ignoradas, o amor reamalgama
A misturada alma de quem ama,
Compondo duas numa e uma em duas.

Transplanta a violeta solitária:
A força, a cor, a forma, tudo o que era
Até aqui degenerado e raro
Ora se multiplica e regenera.

Pois quando o amor assim uma na outra
Interanimou duas almas,
A alma melhor que dessas duas brota
A magra solidão derrota,

E nós que somos essa alma jovem,
Nossa composição já conhecemos
Por isto: os átomos de que nascemos
São almas que não mais se movem.

Mas que distância e distração as nossas!
Aos corpos não convém fazermos guerra:
Não sendo nós, não convém fazermos guerra:
Inteligências, eles as esferas.

Ao contrário, devemos ser-lhes gratas
Por nos (a nós) haverem atraído,
Emprestando-nos forças e sentidos.
Escória, não, mas liga que nos ata.

A influência dos céus em nós atua
Só depois de se ter impresso no ar.
Também é lei de amor que alma não flua
Em alma sem os corpos transpassar.

Como o sangue trabalha para dar
Espíritos, que às almas são conformes,
Pois tais dedos carecem de apertar
Esse invisível nó que nos faz homens,

Assim as almas dos amantes devem
Descer às afeições e às faculdades
Que os sentidos atingem e percebem,
Senão um Príncipe jaz aprisionado.

Aos corpos, finalmente, retornemos,
Descortinando o amor a toda a gente;
Os mistérios do amor, a alma os sente,
Porém o corpo é as páginas que lemos.

Se alguém - amante como nós - tiver
Esse diálogo a um ouvido a ambos,
Que observe ainda e não verá qualquer
Mudança quando aos corpos nos mudamos.


Tradução de Augusto de Campos

segunda-feira, agosto 29, 2005

Meditaçao de Agrigento

















Quem nos domara a força vã,
quem nos sufocara o instinto
Para permanecermos
Em conformidade à linha do céu,
A estas colunas perenes,
Ao oculto mar lá embaixo.
Quem nos transformara em folha
Ou no súbito lagarto
Que se esgueira sob tuas pedras,
Templo F, sereno templo F,
Arquitetura de reserva e paz.

Transformar-se ou não, eis o problema.
Durar na zona limite da memória,
Nos limbos da vontade,
Ou submeter a pedra, cumprir o ofício rude,
Aprender do lavrador e do soldado.

Qual a forma do poeta? Qual seu rito?
Qual sua arquitetura?

Mudo, entre capitéis e cactos
Subsiste o oráculo.
A manhã doura a pedra e vagos nomes,
Agrigento me contempla, e vou-me.


Murilo Mendes
Siciliana (1959)

quinta-feira, agosto 25, 2005




Check-In


Não me importa entrar pela porta arabescada
Do desespero
Descer
Inferno
Destempero
Desequilíbrio
Certas cordas sem rede de proteção
Fogo
Carvão
Súcubos
Exus
Sereias amaldiçoadas, super-heróis do avesso
Nada disso me assusta
Se tiver certeza de que na saída
Eu estarei do lado de fora esperando por mim.


Greta Benitez

sábado, agosto 20, 2005




Repouso


Basta o profundo ser
em que a rosa descansa.

Inúteis o perfume
e a cor: apenas signos
de uma presença oculta
inútil mesmo a forma
claro espelho da essência

inútil mesmo a rosa.

Basta o ser. O escuro
mistério vivo, poço
em que a lâmpada é pura
e humilde o esplendor
das mais cálidas flores.

Na rosa basta o ser:
nele tudo descansa.



Orides Fontela

quarta-feira, agosto 17, 2005

não há palavra


que cante
imagem que explique
lágrima que traduza

viola que chore
filósofo que entenda

não há flor que aflore
droga que expanda

perfume que seduza
beijo que amorne

não há sono que repare
água que permeie
sopro que perdure

seu sonho
meu medo

seu desejo
meu destino

seu amor
meu silêncio




ZdC/05

terça-feira, agosto 16, 2005


O poema de Plath é inspirado nesta pintura de Henri Rousseau
La Charmeuse de Serpents


ENCANTADORA DE SERPENTES


Como os deuses começaram um mundo, e o homem outro,
Assim a encantadora de serpentes começa uma esfera serpiforme
Com lua-olho, boca-flauta. Ela flauteia. Flauteia verde. Flauteia água.

Flauteia água verde até verdes águas tremularem
Com juncosas extensões e istmos e ondulações.
E ao se entrelaçarem verdes suas notas, o rio verde

Modela as próprias imagens em volta de suas canções.
Ela flauteia um lugar pra ficar de pé, mas sem pedras,
Sem piso: uma onda de tremeluzentes línguas de relva

Sustenta seu pé. Ela flauteia um mundo de serpentes,
De gingados e coleios, a partir do fundo serpienraizado
De sua mente. E agora nada a não ser serpentes

Está visível. As serpiescamas se tornaram
Folha, tornada pálpebra; serpicorpos, galho, busto
De árvore e humano. E de dentro dessa serpentidade

Ela comanda as contorções que fazem manifesta
Sua serpenteza e seu poder com melodias flexíveis
Saídas de sua flauta esguia. Deste ninho verde afora,

Como do umbigo do Éden afora, retorcem-se as filas
De gerações serpiformes: que haja serpentes!
E serpentes houve, há, haverá – até que bocejos

Consumam essa flautista e ela se canse da música
E flauteie o mundo de volta ao tecido simples
Da serpiurdidura, serpitrama. E flauteie o pano de serpentes

Até uma fusão de águas verdes, até que nenhuma serpente
Mostre a cabeça, e aquelas águas verdes de volta pra
Água, pro verde, pra nada semelhante a uma serpente.
E acondicione sua flauta, e empalpebre seu enluarado olhar.


Sylvia Plath

Versão brasileira: Ivan Justen Santana

segunda-feira, agosto 15, 2005

Tomorrow


Amanhã acordo tarde
Colho beija-folhas pela casa
Varro os coquinhos do inferno
Tomo meia garrafa de café

Não vou almoçar
Nem fazer a cama
Talvez passeie pelo outono
Que não passa do inverno

Abro as janelas
Fecho as portas
Escrevo um poema
Que não vou publicar

Procuro meus pedaços
Entre os vãos do terraço
Ou algo assim
Um pouco do mesmo jeito

Apago o quadro negro
Rezo pelo perpétuo
Socorro que ele vem
Edito uma mensagem

Lavo as xícaras as xícaras
Batendo umas nas outras
Feito os dentes à noite
Ora afiados, ora de gelo


Amanhã

Silêncio repetido
Que música é mantra



ZdC/05

terça-feira, agosto 02, 2005


Akira Komoto


PEDREIRA
paul auster



Nada mais que a canção disto. Como se
só o canto tivesse
nos trazido até este lugar.

Temos estado aqui, e nunca estivemos aqui.
Estivemos a caminho até o lugar onde começamos,
e estivemos perdidos.

Não há fronteiras
na luz. E a terra
não nos deixa palavra alguma
pra cantar. Pois o desmoronar da terra
sob os pés

é música em si, e caminhar entre estas pedras
é ouvir a gente mesmo
apenas.

Canto, logo, nada,

como se isso fosse o lugar
para onde não volto -

e se voltasse, descontava a minha vida
nessas pedras: esquecer
que um dia estive aqui. O mundo
me caminha

além do meu alcance.



Tradução de Rodrigo Garcia Lopes
........................


QUARRY


No more than the song of it. As if
the singing alone
had led us back to this place.

We have been here, and we have never been here.
We have been on the way to where we began,
and we have been lost.

There are no boundaries
in the light. And the earth
leaves no word for us
to sing. For the crumbling of the earth
underfoot

is a music in itself, and to walk among these stones
is to hear nothing
but ourselves.

I sing, therefore, of nothing,

as if it were the place
I do not return to -

and if I should return, then count out my life
in these stones: forget
I was ever here. The world
that walks inside me

is a world beyond reach.

Paul Auster
De Fragments from the Cold (1976-1977)