sexta-feira, maio 26, 2006




Tua casinha branca, teu tranqüilo jardim abandonarei.

Minha vida passará a ser solitária e radiosa.

Mas a ti, a ti eu celebrarei em meus versos,

como mulher alguma jamais fez.

Tu, querido, relembrarás a tua amada

no paraíso que criaste para os olhos dela.

Enquanto isso, eu comercio esses tesouros:

teu amor, tua ternura, vou vendê-los.



Anna Akhmatova
1913

segunda-feira, maio 22, 2006


Idéia de chuva


Segunda-feira, vinte e dois de maio,
Curitiba amanheceu de cara azeda.
Frio, é hoje que de casa eu não saio,
E, pra esse frio com chuva, a receita

É fazer o que me der na veneta.
Está bom pra escrever, não dá trabalho,
É só sentar a bunda na banqueta
E algo acontece quando me distraio!

Um bom poema cai do céu como um raio,
Dá pra ver quando o poeta tem estrela.
A idéia, por incrível que pareça,

Surge do nada, vem, bate de estalo,
Se ajusta à palavra que a esclareça
E pronto, está feito o estrago!


Antonio Thadeu Wojciechowski
o polaco da barreirinha
e beijo AA força, aqui e lá, pra esquentar

sexta-feira, maio 19, 2006


anna akhmátova posando para modigliani



Falou que não há outra igual. Que sou

Mulher de alguma espécie nunca vista

No duro inverno, a terna luz do sol,

Canção selvagem que a mãe-terra incita.

Mas eu morrer não vai cair em pranto

Nem desvairado, gritar:"Ressuscita!"

De súbito vai ver que não há vida

Para o corpo sem sol, a alma sem canto.

...E aí, como fica?



Anna Akmátova

tradução de Augusto de Campos
e André Vallias.

quarta-feira, maio 17, 2006



KLIMT / The Expectation

SONETO DE OUTONO


O teu olhar me diz, claro como cristal:
“Bizarro amante, o que há em mim que mais te excita?”
- Sê bela e cala! O meu coração, que se irrita,
Por tudo, exceto a antiga candura animal,

Não te quer revelar seu segredo infernal,
Embalo cuja mão a um longo sono incita,
Nem a sua negra lenda a ferro e fogo escrita.
Abomino a paixão e a alma me faz mal!

Amemo-nos em paz. Amor, numa guarida,
Tenebroso, emboscado, entesa o arco fatal.
Conheço-lhe os engenhos do velho arsenal:

Crime, horror e loucura! - Ó branca margarida!
Não serás tu, como eu, triste sol outonal,
Ó minha branca, ó minha branca Margarida?


Charles Baudelaire
tradução de Ivan Junqueira

terça-feira, maio 09, 2006




Poema do diário de Frida Kahlo


Diego. princípio
Diego. construtor
Diego. meu bebê
Diego. meu noivo
Diego. pintor
Diego. meu amante
Diego. meu marido
Diego. meu amigo
Diego. meu pai
Diego. minha mãe
Diego. meu filho
Diego. eu
Diego. universo
Diversidade na unidade.

Porque é que lhe chamo Meu Diego?
Ele nunca foi e nem será meu.
Ele pertence a si próprio.

1944
p.s.: em ZOE TAROT , mais sobre Frida Kahlo.

quarta-feira, maio 03, 2006


A PALAVRA SEDA


A atmosfera que te envolve
atinge tais atmosferas
que transforma muitas coisas
que te concernem, ou cercam.

E como as coisas, palavras
impossíveis de poema:
exemplo, a palavra ouro,
e até este poema, seda.

É certo que tua pessoa
não faz dormir, mas desperta;
nem é sedante, palavra
derivada da de seda.

E é certo que a superfície
de tua pessoa externa,
de tua pele e de tudo
isso que em ti se tateia,

nada tem da superfície
luxuosa, falsa, acadêmica,
de uma superfície quando
se diz que ela é “como seda”.

Mas em ti, em algum ponto,
talvez fora de ti mesma,
talvez mesmo no ambiente
que retesas quando chegas,

há algo de muscular,
de animal, carnal, pantera,
de felino, da substância
felina, ou sua maneira,

de animal, de animalmente,
de cru, de cruel, de crueza, que sob a palavra gasta
persiste na coisa seda.


João Cabral de Melo Neto
Quaderna, 1956-1959

quinta-feira, abril 27, 2006





imóvel
pousada na relva comodamente assentada
com forma irregular________arredondada
características graníticas

- o tom terroso a distingue -

silenciosa
cercada de verde por todos os lados
respira o dia anil
indiferente ao sol que a assola.

- caberia na concha das mãos -

nunca será um peso sobre o papel
nem produzirá círculos concêntricos
em algum lago real
não quebrará vidraças
nem derrubará latas e garrafas
servindo ao exercício de pontaria de alguém

mas ninguém subestima
a pedra feita de letras.


Alexandre Brito

psiu: o gaúcho Alexandre Brito , além de poeta e um dos editores da AMEOPOEMA, integra a banda Os poETs. É um tal de poema poeta pedra e pilha pra tudo quanto tudo quanto é lado.

domingo, abril 23, 2006


poema objeto de Marcelo Sahea
do livro Leve


Amor


leve como leve pluma
muito leve leve pousa
na simples e suave coisa
suave coisa nenhuma

sombra silêncio ou espuma
nuvem azul que arrefece

simples e suave coisa
suave coisa nenhuma
que em mim amadurece


Secos e Molhados
Composição: João Ricardo/João Apolinário

segunda-feira, abril 17, 2006



A NAMORADA


Ela está de pé nas minhas pálpebras
com os dedos nos meus entrelaçados.
Ela cabe toda em minhas mãos,
ela tem a cor dos meus olhos
e desaparece na minha sombra
como uma pedra sobre o céu.

Tem sempre os olhos abertos
e não me deixa dormir.
Os sonhos dela à luz do dia
fazem os sóis evaporar-se,
fazem-me rir, chorar e rir,
falar sem ter nada a dizer.


Paul Eluard


segunda-feira, abril 10, 2006




Hermitage / Miró



Amor de tarde


É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso 10 minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer “e aí?” e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.


Mario Benedetti
Tradução de Julio Luís Gehlen

sábado, abril 01, 2006


Hino à Afrodite


Afrodite imortal de faiscante trono
Filha de Zeus tecelã de enganos, peço-te:
A mim nem mágoa nem náusea domine,
senhora do ânimo.

Mas aqui vem-se já uma vez
A minha voz ouvindo-a de longe
Escutaste e do pai deixando a casa áurea vieste
Atrelado o carro. Belos te levavam
Ágeis pássaros acima da terra negra
Contínuas asas vibrando vindos do céu
através do ar.

E logo chegaram. Tu ó venturosa
Sorrindo no rosto imortal indagas
O que de novo sofri, a que de novo te evoco,
O que mais desejo de ânimo louco
que aconteça. Quem de novo convencerei
“a acolher” teu amor? Quem Safo
te faz sofrer?

“Se bem agora fuja, logo te perseguirá,
“se bem teus dons recuse, virá te dar,
“se bem não ame, logo amará – ainda que
“ela não queira”

Vem junto a mim ainda agora, desfaz
O áspero pensar, perfaz quanto meu ânimo
Anseia ver perfeito. E tu mesma – sê
minha aliada.


Safo
p.s.: o original em grego e diversas traduções para o inglês podem ser vistas clicando aqui. Se alguém conhecer alguma outra versão para o português, ou ainda, a autoria da tradução acima, agradeço incontinenti o envio.

terça-feira, março 28, 2006




AINDA NÃO TERMINEI O TÍTULO


amar-te, amor, causou-me ahs e susto
algo deixou-me presto a isto
isso de querer deu em dano e risco
medo de morrer pobre, fraco e puto

vem, amiga, seja uma boa inimiga
daquilo que só te deixa sozinha
não venha dizer que sim, que não, que é minha
no mais tardar agora, amor, me siga

antes que a má sorte lhe sorria
deixa que o azar de perder-me se afaste
e a mágoa transforme a palavra em magia

tenho medo, pavor, que a coragem desgaste
e aquela noite que sei que teremos um dia
seja um dia qualquer, como este que nasce.


Marcos Prado

sexta-feira, março 24, 2006


DRAWING DOWN THE MOON

De tanto te pensar, me veio a ilusão.
A mesma ilusão
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, tenho nada,
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cismos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
De muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua n'água.

Hilda Hilst

sábado, março 18, 2006

GÊNESIS




Há em você um silêncio que escuto
Um céu que vejo enquanto juntos,

há um amor que se parece com tudo, menos susto,
há uma mente & um corpo no vazio dessa paisagem
(quanto teu rosto, viagem, ressurge nos tremores da miragem)
ou quando a toco, ou quando em pensamento

a toco, como um sopro,
você mesma, que amo, enigmagem.

E há uma chuva que cai só uma vez por ano.
Há o sibilo misterioso da serpente.

E há seu beijo
que há de me fazer humano.




Rodrigo Garcia Lopes
Tempe, Arizona, outubro de 1999

quarta-feira, março 08, 2006

Milágrimas


caligrama de apollinaire


Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre

Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre


Alice Ruiz

segunda-feira, março 06, 2006

primeiro poema para alice

sábado passado, no aniversário de estrela leminski, revi minha amiga alice. fiquei feliz - estava com saudade da comadre. alice não mora mais aqui, está em são paulo, cidade em que as coisas acontecem (em curitiba, tudo gira em torno de um único e invísível eixo). lá pelas tantas, voltei do banheiro ostentando um batom vermelho e alice comentou: - o que é este batom vermelho súbito de sua parte? - o que fez a minha estranha memória arriscar de cor um poema do leminski publicado no sangra cio, coletânea de poetas paranaenses, de 1980. depois de declamado, alice contou que este foi o primeiro poema que paulo fez para ela. resolvi blogar em homenagem a um amor que nunca acabou.
afinal: amor, então, também acaba? parece que nesse caso a vida transformou em rima.



minha cabeça cortada
joguei na tua janela
noite de lua
janela aberta

bate na parede
perdendo dentes
cai na cama
pesada de pensamentos

talvez te assustes
talvez a contemples
contra a lua
buscando a cor de meus olhos

talvez a uses
como despertador
sobre o criado mudo

não quero assustar-te
peço apenas um tratamento condigno
para essa cabeça súbita
de minha parte


p.leminski
sangra cio 1980

sábado, março 04, 2006




o amor é uma aposta estranha
o vencedor pelo vencido
cada um com o seu drama
contudo, não é nada
e o mundo inteiro reclama
quantos cavalos errados
para o único que ganha

Zoe

quarta-feira, março 01, 2006



quebra-cabeça do amor


liga a motoserra, amor
cerra meus olhos
esmerilha dentes e gengivas
capa as orelhas
esmigalha o nariz
centrifuga o cérebro
kaputa o pescoço
destronca a clavícula
destrinça as costelas
parta o coração
afoga os pulmões
amputa o abdômen
esvazia o estômago
farofeia os miúdos
estripa as tripas
pica os culhões
desprega o cu
desmunheca as mãos
desliga os rádios
subtraia os úmeros
bamboleia os quadris
libera os fêmures
desrotula os joelhos
castiga as tíbias
opera os perônios
desande os pés
agora monta como quiser, amor


Marcos Prado & Aranha

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

rolling stairs




Na peça Fita Crepe (eu e Marcos Prado no Teatro de Bolso, recitando Paulo Leminski e Thadeu Wojciechowski sob a direção de Aníbal Marques logo ali no século passado), Marcos fechava assim o último ato:



que tudo passe

passe a noite
passe a peste
passe o verão
passe o inverno
passe a guerra
e passe a paz

passe o que nasce
passe o que nem
passe o que faz
passe o que faz-se

que tudo passe
e passe muito bem


p. leminski

decididamente, tudo tem seu fim - foi o que senti ontem descendo pela escada rolante.
{~*~}
interessante que hoje, dia 18 de maio, me deparei com a seguinte gregueria do poeta Ramón Gómes de la Serna: "As escadas rolantes me inquietam, / porque revelam como sempre somos / conduzidos pela fatalidade, mesmo / quando pensamos que estamos imóveis."
a tradução é de Sérgio Alcides.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

não sei parar de te olhar


zoe de camaris by joão luiz marcondes



M'amour, m'amour
..................que amo eu e
.............................onde estás?
Que perdi meu centro
...............lutando contra o mundo
Os sonhos chocam-se
.................... e despedaçam-se
e eu que tentei criar um paradiso
....................................................terrestre


ezra pound
trecho das notas para o Canto LXVIII e seguintes

terça-feira, fevereiro 14, 2006



Para fazer uma campina
basta um só trevo e uma abelha.
Trevo, abelha e fantasia.
Ou apenas fantasia
Faltando a abelha.


Emily Dickinson
tradução de Idelma Ribeiro Faria

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

antes dos três pratos de trigo para três tigres tristes um pote de água com açúcar. não se agitem caros leitores ávidos de garras e da terrível máquina dental. já passa. a idéia é essa.



REFINARIA


________________________ (rascunho)





Desacentuar as sobrancelhas
Apagar o contorno dos lábios
O rictus__________________/miolo de pão/


Dissolver o negro dos fios
O vermelho da face
O branco_________________ /esponja/


Dissipar a pele
Rasurar os olhos
Solucionar a língua__________ /corretivo/


Diluir a saliva
O suor do sono
O sal do sonho _____________/sôpro/


Desmantelar as articulações
Triturar os ossos
Amansar a alma___________/água/


Depois de tudo feito
Misturar a milésima
Primeira lágrima

Entregar a Eros
E abrir a porta



Zoe
Rio, 17 de jan de 06


domingo, janeiro 29, 2006


PARTITURA


Retrato de Sonia Klamery (1913)
Hermenegildo Anglada Camarasa


Perplexidade, raios de um sol
que redesenha seu centro;
essa matéria tão delicada,
ferozes epitélios da flor;
deslizando das pupilas,
revoluta, para outro mar,
após tingir o flanco da noite.
Fosse apenas o perambular
em outra relva, seria tema
de chanson; dissociada de mim,
reclinada em lua minguante,
seria musa de retrato fauvista,
excedendo o rubro tigrino.
De todo modo, um dia vou
felinizá-la em partitura.


Claudio Daniel

quarta-feira, janeiro 11, 2006

SIM


leon/ xul solar


Chove, faz sol

sopro as unhas
esperando o vento

tece a aranha
mais um fio
os papéis amassados

dentro, são tênues
os reflexos

a seiva lilás do tronco
escorre granada ao meio dia

nada mais acontece

o menino da vizinha
solta um grito gelado
o alfaiate reclama

ah, se diferente fosse

a aranha tece o invisível
o vento amanhece


amanhã
amanhã não direi
basta para os vinte dois estertores

nem arrancarei a pele
na melodia do tempo


Zoe

domingo, janeiro 08, 2006



se deuses não existem
pã está morto
e o mesmo o grande deus agoniza,

alguém, por amor à ciência
- e em sã consciência - pode me explicar
o que apolo veio fazer aqui
depois que honrei sua irmã?


Zoe

quinta-feira, janeiro 05, 2006




um tigre
quando se entigra
não é flor
que se cheire
não é tigre
que se queira

ser tigre
dura a vida inteira


P. Leminski
O TIGRE




Há um tigre em casa
que dilacera por dentro aquele que o olha.
E somente tem garras para aquele que o espia,
e somente pode ferir por dentro,
e é enorme:
maior e mais pesado
que outros gatos gordos
e carniceiros pestíferos
de sua espécie,
e perde a cabeça com facilidade,
fareja o sangue mesmo através do vidro,
percebe o medo até da cozinha
e apesar das portas mais robustas.

Costuma crescer de noite:
coloca sua cabeça de tiranossauro
em uma cama
e o focinho fica pendurado
para lá das colchas.
Seu dorso, então, se aperta no corredor
de uma parede à outra,
e somente alcanço o banheiro rastejando, contra o teto,
como que através de um túnel
de lodo e mel.

Não olho nunca a colméia solar,
os negros favos do crime
de seus olhos,
os crisóis da saliva envenenada
de suas presas.

Nem sequer o cheiro,
para que não me mate.

Mas sei claramente
que há um imenso tigre encerrado
em tudo isso.


Eduardo Lizalde
Tradução: Plinio Junqueira Smith
A MARCA DE UMA MORDIDA em lugar algum.





Também a ela
tens de combater,
a partir daqui.



Paul Celan
in Sóis em Fios
Trad Claudia Cavalcanti

sábado, dezembro 31, 2005

L'excessive




Je n'ai pas d'excuse,
C'est inexplicable,
Même inexorable,
C'est pas pour l'extase,
c'est que l'existence,
Sans un peu d'extrême,
est inacceptable.

Je suis excessive,
J'aime quand ça désaxe,
Quand tout accélère,
Moi je reste relaxe.

Je suis excessive,
Quand tout explose,
Quand la vie s'exhibe,
C'est une transe exquise.

Y'en a que ça excède, d'autres que ça vexe,
Y'en a qui exigent que je revienne dans l'axe,
Y'en a qui s'exclament que c'est un complexe,
Y'en a qui s'excitent avec tous ces "X" dans le texte

Je suis excessive,
J'aime quand ça désaxe,
Quand tout accélère,
Moi je reste relaxe
Je suis excessive,
Quand tout explose,
Quand la vie s'exhibe,
C'est une transe exquise, (ouais).

Je suis excessive,
J'aime quand ça désaxe,
Quand tout exagère,
Moi je reste relaxe
Je suis excessive,
Excessivement gaie,excessivement triste,
C'est là que j'existe.
Pas d'excuse ! Pas d'excuse!


Parole et chanson
CARLA BRUNI

_______________

Vale dar uma sacada em Los excessivos http://losexcessivos.blogspot.com/ blog de Virna Teixeira e Jair Cortés

terça-feira, dezembro 20, 2005

ESFARELA SIM




coração de pedra
não esfarela
atire a primeira pedra
essa e aquela
e aquarela e lagosta nela

água mole em pedra dupla
tanto bate até que duas

canhão e manteiga
legião estrangeira
chuva de areia


Marcos Prado e Sérgio Viralobos
- o blues é meu.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Goodbye Yellow Brick Road




Nesta rua, nesta rua, tem um bosque
Que se chama, que se chama Solidão
Dentro dele, dentro dele mora um anjo
Que roubou, que roubou meu coração

Se eu roubei, se eu roubei teu coração
É porque tu roubaste o meu também
Se eu roubei, se eu roubei teu coração
É porque eu te quero tanto bem

Se esta rua, se esta rua fosse minha
Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante
Para o meu, para o meu amor passar


* sem créditos

sexta-feira, dezembro 09, 2005

TUDO PODE SER DITO SE FOR BENDITO


Maiakowski (1925)


Lílitchka
(em lugar de uma carta)


Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto -
um capítulo do inferno de Krutchônikh.
Recorda -
atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração - aço.
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez, com zanga.
No teu "hall" escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
lançarei meu corpo à rua.
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consintas,
meu amor,
meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
o meu amor
- duro fardo por certo -
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
para mim
não há sol,
e eu não sei onde estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele
trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos - rodopiante carnaval -
dispersarão as folhas dos meus livros...
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa ?

Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.


Vladmir Maiakowski
(1893-1930)

terça-feira, dezembro 06, 2005

PRA MIM QUE, SEGUNDO AS MAIS RECENTES PESQUISAS, TERIA UMA IDÉIA EQUIVOCADA SOBRE O AMOR OU AINDA PIOR, NÃO SABERIA AMAR DIREITO - COISA COM QUE ESTOU PRESTES A CONCORDAR POIS, AFINAL DE CONTAS, UM DIA, O PULSO PÁRA



O DONO DA FARRA


meu coração é só uma bomba de sangue
mas como todo motor,
um dia entra em pane.

mesmo a paixão um dia se recusa
e como todo em todo amor,
um dia o sangue suja.

meu coração não funciona direito
mas como todo bom ator,
ventriloquo que fala de amor,
dubla a batida do peito.

estúpida máquina falsária !
pode ser a dona da farra,
mas seja como for,
um dia o pulso pára.


letra de marcos prado e sérgio viralobos
música do ferreira executada pelo
BEIJO AA FORÇA




O PRAZER DO DIFÍCIL


O prazer do difícil tem secado
A seiva em minhas veias. A alegria
Espontânea se foi. O fogo esfria
No coração. Algo mantém cerceado
Meu potro, como se o divino passo
Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço,
Sob o chicote, trêmulo, prostrado,
E carregasse pedras. Diabos levem
As peças de teatro que se escrevem
Com cinqüenta montagens e cenários,
O mundo de patifes e de otários,
E a guerra cotidiana com seu gado,
Afazer de teatro, afã de gente,
Juro que antes que a aurora se apresente
Eu descubro a cancela e abro o cadeado.

William Butler Yeats
Tradução: Augusto de Campos


THE FASCINATION OF WHAT'S DIFFICULT


The fascination of what's difficult
Has dried the sap out of my veins, and rent
Spontaneous joy and natural content
Out of my heart. There's something ails our colt
That must, as if it had not holy blood
Nor on Olympus leaped from cloud to cloud,
Shiver under the lash, strain, sweat and jolt
As though it dragged road-metal. My curse on
[ plays
That have to be set up in fifty ways,
On the day's war with every knave and dolt,
Theatre business, management of men.
I swear before the dawn comes round again
I'll find the stable and pull out the bolt.

1910



Poema do falso amor


O falso amor imita o verdadeiro
Com tanta perfeição que a diferença
Existente entre o falso e o verdadeiro

É nula. O falso amor é verdadeiro
E o verdadeiro falso. A diferença
Onde está? Qual dos dois é o verdadeiro?

Se o verdadeiro amor pode ser falso
E o falso ser o verdadeiro amor,
Isto faz crer que todo amor é falso

Ou crer que é verdadeiro todo amor.
Ó verdadeiro Amor, pensam que és falso!
Pensam que és verdadeiro, ó falso Amor!


Dante Milano

segunda-feira, novembro 28, 2005




síndrome de don juan



ele te olha de lado

você o olha da esquina

no seu olhar uma cisma

no dele muito pouco caso



de repente se aproxima

com o freio-de-mão puxado

e vai apertando o passo

enquanto sobe adrenalina



você vai se sentir mais bonita

ele vai perceber no ato

é quando don juan já não despista

parte para o contato imediato



mas se no dia seguinte você liga

ouve uma voz do outro lado

ele saiu com uma cara esquisita

e não deixou nenhum recado



Marcos Prado
1961-1996

terça-feira, novembro 22, 2005

870


Primeiro Ato é achar,
Perder é o segundo Ato,
Terceiro, a Viagem em busca
Do “Velocino Dourado”

Quarto, não há Descoberta —
Quinto, nem Tripulação —
Por fim, não há Velocino —
Falso — também — Jasão.

Emily Dickinson
Tradução de Paulo Henriques Britto

segunda-feira, novembro 14, 2005


9 poemas






chega de rosas e azul. todos pistilos de uma só vez - os que estavam guardados na pasta de buquês.

mônicas cromáticas para alice ruiz, marcos prado, greta benitez, paul celan, thadeu wojciechowski, cláudio daniel, virna teixeira e para zoe que me camaris.
_________________________________________


a natureza do eterno

que flor é esta?
finge que morre
e quando menos se espera
é flor indo, flor vindo, floresta em festa

que flor é esta
que sempre resta?


Alice Ruiz




Exata

Rosa náutica
Rosa dos ventos
Rosa crítica
Seria a flor totalmente estática?
Seria a vida extremamente prática?
Onde ficaria a política?
Se o mistério da ótica fosse a temática
Pra que serviria a matemática?
Se a crise enfática sobrevivesse ao fato
Se a música poética não tocasse o tato
Qual seria a finalidade da flor?

Greta Benitez




entrix

a mulher
sim a flor
na ante sala

a mulher
sim o amor
no após sala

a mulher
sim a música
olhares jimi hendricolados

a mulher
na protuberância de suas pétalas
o que te diz?

entrix
nós e a flor
o infinito lá fora

thadeu wojciechowski




BOBAGENS DE VERÃO


ei, benzinho, encara comigo um frio de rachar
num vagãozinho flor-de-rosa?
OK, eu empresto a almofada e meus sonhos
azuis pro teu sono
suaves ninhos de beijos no seu rosto gelado,
só de brincadeirinha

vê se dorme de uma vez, fecha o canto dos olhos
esse filme é ruim de rachar
franksteins de farda
vampiros caolhos
e outros demônios
negros, adoráveis lobos

e aí, só de sacanagem, escorro meus dedos na sua cara
meu caro
um beijo molhado no pescoço,
uma aranha tresloucada

e você, tolinho, morto de susto, dirá:
socorro!

e perderemos nosso tempo
a procurar coisa alguma
porra, como esse
trem viaja depressa


Zoe de Camaris
p.s.: uma tradução infiel e bem mau-humorada para Rêve pour l'hiver, de Monsieur Rimbaud, rascunhada no verão de 98 na Ilha do Mehl.




minha flor
já matei muita
roseira no peito
já nadei muito
mar de rosa
atrás do seu cheiro
cio e ácido
navalha maravilhosa
sangue plácido

Marcos Prado


FLORBELA ESPANCA

bata na flor que te ama
dedo na pétala aveludada
toca o todo morde tudo
demoro muda e amada

bata, bata,

bata na flor aliada
na rima consagrada
seiva que se quis sílaba
bata na flor abstrata

bata, bata,

bata na flor que te ata
vermelha, puta, feiticeira
a flor que incendeia
carnívora cilada

bata, bata,

bela e bélica
ama e mata
bata, bata, bata.


Zoe de Camaris
1999




CALÇADA


pequeno, o
frágil
corpo
soluça

vermelha,
a flor
entre os
dedos


virna teixeira



Até cinzas


Talvez
pétala, bailado
mudo, ardência:
aqui
é onde a seda
inflama o azul
em amarelo
(fosse tingida
em volátil púrpura,
cicatriz esculpida
em outra voz).
Algo de felina,
ruidosa volúpia
em seu desejo,
que se consome
até cinzas.


Cláudio Daniel





ESTOU SÓ, arrumo a flor de cinzas
no vaso cheio de maduro negrume. Boca-irmã,
falas uma palavra que sobrevive diante das janelas,
e escala muda o que sonhei, em mim.

Eis-me na flor da hora murcha
e poupo uma resina para um pássaro tardio:
ele traz o floco de neve na pluma vermelho-vida;
o grãozinho de gelo no bico, e atravessa o verão.

Paul Celan


segunda-feira, novembro 07, 2005



A FLOR DO DIABO
Cruz e Sousa

Branca e floral como um jasmim-do-Cabo
Maravilhosa ressurgiu um dia
A fatal Criação do fuIvo Diabo,
Eleita do pecado e da Harmonia.

Mais do que tudo tinha um ar funesto,
Embora tão radiante e fabulosa.
Havia sutilezas no seu gesto
De recordar uma serpente airosa.

Branca, surgindo das vermelhas chamas
Do Inferno inquisitor, corrupto e langue,
Ela lembrava, Flor de excelsas famas,
A Via-Láctea sobre um mar de sangue.

Foi num momento de saudade e tédio,
De grande tédio e singular Saudade,
Que o Diabo, já das culpas sem remédio,
Para formar a egrégia majestade,

Gerou, da poeira quente das areias
Das praias infinitas do Desejo,
Essa langue sereia das sereias,
Desencantada com o calor de um beijo.

Sobre galpões de sonho os seus palácios
Tinham bizarros e galhardos luxos.
Mais grave de eloqüência que os Horácios,
Vivia a vida dos perfeitos bruxos.

Sono e preguiça, mais preguiça e sono,
Luxúrias de nababo e mais luxúrias,
Moles coxins de lânguido abandono
Por entre estranhas florações purpúreas.

Às vezes, sob o luar, nos rios mortos,
Na vaga ondulação dos lagos frios,
Boiavam diabos de chavelhos tortos,
E de vultos macabros, fugidios.

A lua dava sensações inquietas
As paisagens avérnicas em torno
E alguns demônios com perfis de ascetas
Dormiam no luar um sono morno...

Foi por horas de Cisma, horas etéreas
De magia secreta e triste, quando
Nas lagoas letíficas, sidéreas,
O cadáver da lua vai boiando...

Foi numa dessas noites taciturnas
Que o velho Diabo, sábio dentre os sábios,
Desencantado o seu poder das furnas,
Com o riso augusto a flamejar nos lábios,

Formou a flor de encantos esquisitos
E de essências esdrúxulas e finas,
Pondo nela oscilantes infinitos
De vaidades e graças femininas.

E deu-lhe a quint'essência dos aromas,
Sonoras harpas de alma, extravagancias,
Pureza hostial e púbere de pomas,
Toda a melancolia das distancias...

Para haver mais requinte e haver mais viva,
Doce beleza e original carícia,
Deu-lhe uns toques ligeiros de ave esquiva
E uma auréola secreta de malícia.

Mas hoje o Diabo já senil, já fóssil,
Da sua Criação desiludido,
Perdida a antiga ingenuidade dócil,
Chora um pranto noturno de Vencido.

Como do fundo de vitrais, de frescos
De góticas capelas isoladas,
Chora e sonha com mundos pitorescos,
Na nostalgia das Regiões Sonhadas.


Stephen Funk / Devil in the Rose Garden