terça-feira, abril 03, 2007


bonnie & clyde


Balada do amor através das idades


Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar meu irmão.
Matei, brigamos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catatumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria do meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal da cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.

Carlos Drummond de Andrade

flash gordon & dale arden

domingo, abril 01, 2007




Pegue um jornal.
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.


Tristan Tzara

quarta-feira, março 28, 2007


CANÇÃO



beleza é uma concha
do mar
onde ela reina triunfante
até o que o amor a encontre

vieiras e
patas de leão
esculturas para o
tom de recuadas ondas

acentos eternos
repetidos até
que o ouvido e o olho deitem
juntos na mesma cama


William Carlos Williams
Tradução: Virna Teixeira

domingo, março 25, 2007


Você vai me seguir
Chico Buarque e Ruy Guerra


D G6/7/9 F#m7 Fm6/5+
Você vai me seguir aonde quer que eu vá
Em C6/9 G6/B A#º
Você vai me servir, você vai se curvar
D G6/7/9 F#m7 Fm6/5+
Você vai resistir, mas vai se acostumar
Em C6/9 G6/B A#º
Você vai me agredir, você vai me adorar
Am4/7 D7 G7+ Gm7 C7/9
Você vai me sorrir, você vai se enfeitar
F7+ F#m7
E vem me seduzir
B7 E A7
Me possuir, me infernizar
D Eº F#m7 Fm6/5+
Você vai me trair, você vem me beijar
Em C6/9 G3b C#7/G# C#7
Você vai me cegar e eu vou consentir
F#m7 B7 Em Gm7 C7/9
Você vai conseguir enfim me apunhalar
F#m7 B7/9- E7 A7
Você vai me velar, chorar, vai me cobrir
D9 D9/B D9/C D9/Bb D9/A
E me ninar

sábado, março 24, 2007

Se alguém conhece algum conto melhor do que Continuidade dos Parques, por gentileza, me avise. Eu nunca li nada tão genial assim.


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CONTINUIDADE DOS PARQUES
Julio Cortázar


Começara a ler a novela uns dias antes. Abandonou-a por negócios urgentes, voltou a abri-la quando regressava de trem à herdade; deixava-se interessar lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta a seu procurador e discutir com o mordomo uma questão de sociedades, voltou ao livro na tranqüilidade do estúdio que olhava em direção ao parque de carvalhos. Refestelado em sua poltrona favorita, de costas para a porta que o houvera incomodado com uma irritante possibilidade de intrusões, deixou que sua mão esquerda acariciasse uma vez ou outra o veludo verde e pôs-se a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a ilusão novelesca venceu-o quase em seguida. Gozava do prazer quase perverso de ir-se desgalhando linha a linha do que o rodeava, e sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto respaldo, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que para além das grandes janelas dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra a palavra, absorvido pela sórdida disjuntiva dos heróis, deixando-se ir até as imagens que se concertavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do monte. Primeiro entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, a cara lanhada pela chicotada de um ramo. Admiravelmente estancava ela o sangue com seus beijos, mas ele rechaçava as carícias, não viera para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um monte de folhas secas e sendas furtivas. O punhal entibiava-se contra seu peito, e debaixo latejava a liberdade agarrada. Um diálogo anelante corria pelas páginas como um arroio de serpentes, e sentia-se que tudo estava decidido desde sempre. Até essas carícias, que enredavam o corpo do amante como querendo retê-lo ou dissuadi-lo, desenhavam abominavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada havia sido esquecido: alibis, acasos, possíveis erros. A partir dessa hora cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O duplo repasse desapiedado interrompia-se apenas para que uma mão acariciasse uma face. Começava a anoitecer.

Sem se olharem já, atados rigidamente à tarefa que os esperava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia seguir pela senda que ia ao norte. Desde a senda oposta ele se voltou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu por sua vez, entrincheirando-se nas árvores e sebes, até distinguir na bruma malva do crepúsculo a alameda que levava à casa. Os cães não deviam ladrar, e não ladraram. O mordomo não estaria a essa hora, e não estava. Subiu os três degraus do alpendre e entrou. Desde o sangue galopando em seus ouvidos lhe chegavam as palavras da mulher: primeiro, uma sala azul, depois uma galeria, uma escadaria alfombrada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro cômodo, ninguém no segundo. A porta do salão, e então o punhal na mão, a luz das vastas janelas, o encosto alto de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo uma novela.




Tradução de Ramon Quintela Torreira

terça-feira, março 20, 2007

IMPERDÍVEL !!!




E inacreditável. O fim do Beijo AA Força? Que saco. Não achei graça nenhuma. Minha saga começou com a Contrabanda. Sempre pleiteei o posto de fã número 1. Mesmo numa fase em que quero distância dos agitos, impossível não ir. E um passo à frente, moçada.

Monica


quinta-feira, março 15, 2007

segunda-feira, março 12, 2007



Agora ou nunca



dia de doer os olhos de tão bonito
só o mais que perfeito, meu amigo
a beleza hoje não corre perigo
vamos aproveitar bem o infinito
esse instante é o que temos no momento
vida não tem replay nem edição
já que agora está tudo cem por cento
que tal ser feliz de uma vez então?


Thadeu Wojciechowski

sábado, março 10, 2007


COISA TUA


assim que vi você
logo vi que ia dar coisa
coisa feita pra durar,
batendo duro no peito
até eu acabar virando
alguma coisa
parecida com você
parecia ter saído
de alguma lembrança antiga
que eu nunca tinha vivido,
mas ia viver um dia
alguma coisa perdida
que eu nunca tinha tido
alguma voz amiga
esquecida no meu ouvido
agora não tem mais jeito,
carrego você no peito
poema na camiseta
com a tua assinatura
já nem sei se é você mesmo
ou se sou eu que virei alguma coisa tua



letra de Alice Ruiz e música de Waltel Branco

sexta-feira, março 09, 2007


Paul di Filippo


SINTOMAS DE AMOR


O amor é uma universal cefaléia,
Brilhante mácula que a visão enleia
Obscurecendo a razão.

Sintomas de amor verdadeiro
São a magreza, o ciúme,
Lânguidas alvoradas;

São presságios e pesadelos –
À escuta de um toque,
Aguardando um sinal:

Um roçar dos dedos dela
Num quarto às escuras,
Um olhar penetrante.

Tem coragem, amante!
Aguentarias tal aflição
A outras mãos que não as dela?


Robert Graves
tradução de José Manuel, do Porto

quarta-feira, março 07, 2007




Muriel

Muriel está cansada

Muriel está casada

Muriel quer sumir.

Muriel está arrasada

Muriel está arrastada

Muriel quer sair.

Muriel está atacada

Muriel está assustada

Muriel quer partir.

Muriel tem um amante

que fala romeno

Muriel tem veneno

Muriel vai sorrir.



Greta Benitez
poema inédito

segunda-feira, março 05, 2007

FUNERAL BLUES


casal eterno- esqueletos de 5 mil anos
são achados abraçados


Que parem os relógios
cale o telefone.
Jogue-se ao cão
um osso e que
não ladre mais,
que emudeça o piano e
que o tambor sancione
a vinda do caixão com
seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo
acima e em alvoroço,
escrevam contra o céu
o anúncio: ele morreu
Que as pombas guardem
luto - um laço
no pescoço.
E os guardas usem finas
luvas cor-de-breu.

Era meu Norte, Sul
meu Leste, Oeste,
enquanto viveu,
meus dias úteis, meu
fim-de-semana
meu meio-dia,
meia-noite, fala e canto:
quem julgue o amor
eterno, como eu fiz,
se engana.

É hora de apagar
estrelas - são molestas,
guardar a lua,
desmontar o sol
brilhante,
de despejar o mar,
jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar
certo doravante.


W.H. Auden
tradução de Nelson Ascher

quinta-feira, março 01, 2007

O DIVISOR




Continuo pensando em você – o que é ridículo.
Estes anos entre nós como um mar.
E a dignidade que veio com o tempo
impediria meu lápis sobre o papel.
O som estava ligado; você pediu pelos Stones;
conseguiu, conseguiu café fresco, conversa.
As cortinas cerradas guardam uma noite selvagem.
Continuo pensando nos seus olhos, suas mãos.
Não há razão para isto, nenhuma.
Você diria que não posso ser o que não sou,
mesmo que não possa estar onde estou.
Onde isso nos leva? O que podemos fazer?
O silêncio após Jagger foi como uma capa
que joguei sobre você – havia apenas
o vento, e o relógio batia enquanto você bebia,
agarrando a caneca verde entre as mãos.
Não olhe para cima assim de repente!
Como é duro não olhar você.
Chegamos ao ponto de não falar
e não se preocupar, e aquilo
foi quase feliz. Então, mais tarde,
quando você deitou sobre o cotovelo no carpete
não senti nada além de uma punhalada
de dor me dizendo o que era,
e não posso dizer para você, nem uma palavra.


Edwin Morgan
Tradução de Virna Teixeira

terça-feira, fevereiro 27, 2007

SANGUE PARA A SUAVE PANTERA


A poeta Marly de Oliveira encontra-se em estado grave no hospital Samaritano do Rio de Janeiro, precisando de doações de sangue. Recebi um comunicado de sua filha, Mônica Moreira, com os endereços para a doação:

Hospital São Lucas
de segunda a sexta das 8 às 13h
Travessa Frederico Pamplona, 32 / Copacabana
tel: 2547.0494/2545.4000 r:4128

Clínica São Vicente
de segunda a sex das 08 às 12 hs
Rua João Borges, 204/ Gávea
tel: 2259.1399

Basta dizer que é para a paciente
MARLY DE OLIVEIRA CABRAL DE MELO,
que está no CTI do HOSPITAL SAMARITANO.
Não deixar de levar o RG.




Epigrama



Bom é ser árvore, vento:

sua grandeza inconsciente.

E não pensar, não temer.

Ser, apenas. Altamente.



Permanecer uno e sempre

só e alheio à própria sorte.

Com o mesmo rosto tranqüilo

diante da vida ou da morte.


Marly de Oliveira

quinta-feira, fevereiro 15, 2007



Ivan Justen, Rodrigo G. Lopes, José do Porto - quem se habilita?



ENNUI


Tea leaves thwart those who court catastrophe,
designing futures where nothing will occur:
cross the gypsy’s palm and yawning she
will still predict no perils left to conquer.
Jeopardy is jejune now: naïve knight
finds ogres out-of-date and dragons unheard
of, while blasé princesses indict
tilts at terror as downright absurd.

The beast in Jamesian grove will never jump,
compelling hero’s dull career to crisis;
and when insouciant angels play God’s trump,
while bored arena crowds for once look eager,
hoping toward havoc, neither pleas nor prizes
shall coax from doom’s blank door lady or tiger.


Soneto inédito de Sylvia Plath de 1955
(a tradução de Nelson Ascher está aqui)

quarta-feira, fevereiro 14, 2007


apolo e dafne/ lorenzo bernini


DÉLFICA

Conheces tu, Dafné, este cantar de outrora
que junto do sicômoro ou sob os loureiros,
ou mirtos, oliveiras, trémulos salgueiros,
este cantar de amor... que volta sempre e agora?

Reconheces o Templo - peristilo imenso -
e os ácidos limões que teus dentes mordiam,
é a gruta onde imprudentes ébrios se perdiam
e do dragão vencido dorme o sémen denso?

Hão-de voltar os deuses que saudosa choras!
O tempo há-de trazer da antiguidade as horas;
a terra estremeceu de um ar de profecia...

Todavia a sibila de rosto latino
adormecida à sombra está de Constantino
e nada perturbou a severa arcaria.


Gerárd de Nerval
tradução/ Jorge de Sena

quinta-feira, fevereiro 08, 2007


O Gato



I
Por meu cérebro vai passeando,
Tal como em seu apartamento,
Um gato de todo encantamento,
e de inaudito miado brando,
Tanto o seu timbre é o mais discreto;
Mas, se é a voz calma ou iracunda,
Ela sempre é rica e profunda:
Este é o seu encanto secreto.
E a sua voz em mim infiltro,
No meu fundo mais tenebroso,
Doce qual verso numeroso
Consoladora como um filtro,
Abranda o mal que na alma lavra,
Contendo os êxtases e as pazes;
Para dizer as longas frases
Nunca precisou da palavra.
Certo não há arco que fira
Meu coração, este excelente
Órgão e o faça nobremente
Cantar só como canta a lira,
Como esta voz, ó misterioso,
Gato seráfico e esquisito
Em que tudo é, como num rito,
Tanto sutil quanto harmonioso!

II
Destas lãs louras e morenas
Sai um olor doce de pelos,
Que me perfumei só por tê-los
Afagados uma vez apenas.
É como os manes da morada;
Preside no seu magistério
Todas as coisas deste império:
Seria talvez Deus ou fada?
Quando o olhar para este gato a esmo,
Como por um ímã atraído,
Se dirige, e tão sucumbido,
E que eu olho para mim mesmo,
Eu vejo com olhar demente
A luz destas pupilas ralas,
Claras fanais, vivas opalas,
Que me contemplam fixamente.


Charles Baudelaire
tradução de Jamil Almansur Haddad

domingo, fevereiro 04, 2007


Perfume
a Jean-Baptiste Grenouille



Ao olfato cabe o específico
detectar do aroma exato.
Na memória, um objeto explícito
ganha cor, gosto, som e tato.

Se na mente o odor não está contido
é natural que gere uma química fascinante
e o organismo vibre em busca do sentido
que, fluido, foge à razão volatizante.

Mais do que esse poema, o perfumista diz:
"Do profundo abismo ao inacessível penhasco,
colhi o que está bem embaixo do seu nariz:
a natureza, corpo e alma, neste frasco."


marcos prado & thadeu
do livro "eu, aliás, nós"
1994

terça-feira, janeiro 30, 2007






BLUE MOON
Richard Rodgers / Lorenz Hart



Blue moon,
you saw me standing alone
without a dream in my heart
without a love on my own.

Blue moon,
you knew just what I was there for
you heard me saying a prayer for
somebody I realy could care for.

And then there suddenly appeared before me,
the only one my arms will ever hold
I heard somebody whisper, "Please adore me."
and when I looked,
the moon had turned to gold.

Blue moon,
now I'm lo longer alone
without a dream in my heart
without a love of my own.



p.s.: eu gosto com a Billie Holiday cantando. há quem prefira Rod Stewart & Eric Clapton ou ainda Ella Fitzgerald ou Bob Dylan. lua azul mesmo só em junho, em capricórnio. achei que era hoje, mas não faz mal. fica sendo. esse post de hoje, e o último, lá em baixo, marcam uma segunda lua, uma fase feérica, um entre que só eu sei.

domingo, janeiro 28, 2007


Soneto


Eu preciso de música que flua
nas pontas finas, frágeis dos meus dedos,
nos meus lábios amargos de segredos,
com melodia líquida e nua.

Ah, a antiga ginga sã e crua
de uma canção que aos mortos dê guarida,
água que me cai sobre a testa erguida,
o corpo febril, um brilho de Lua!

A melodia pode enfeitiçar:
magia calma, respiração pura,
um coração que afunda no abandono
da mansa, escura imensidão do mar

e flutua pra sempre na verdura,
amparado no ritmo e no sono.


Elizabeth Bishop
tradução de Jorge Pontual

terça-feira, janeiro 23, 2007

Embriague-se





É preciso estar sempre embriagado. Isso é tudo: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que lhe quebra os ombros e o curva para o chão, é preciso embriagar-se sem perdão.
Mas de que? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser. Mas embriague-se.

E se às vezes, nos degraus de um palácio, na grama verde de um fosso, na solidão triste do seu quarto, você acorda, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunte que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio lhe responderão: "É hora de embriagar-se! Para não ser o escravo mártir do Tempo, embriague-se; embriague-se sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser".


Baudelaire
tradução de Jorge Pontual

terça-feira, janeiro 16, 2007




O Perfume



Leitor, terás um dia respirado
Com embriaguez, lento degustar,
O grão de incenso que domina o altar
Ou de um sachê o almíscar apurado?

Com magia, profundo delirar,
Do presente que revive o passado,
Assim o amante no corpo adorado
Colhe na memória uma flor sem par.

Da solta e densa cabeleira dela,
Incenso da alcova, vivo sachê,
Vinha um aroma, felino buquê,

E as roupas de veludo ou de flanela,
Impregnadas do seu frescor tão bom,
Soltavam um perfume de vison.


Charles Baudelaire
Tradução de
Jorge Pontual

________________________________


Le parfum


Lecteur, as-tu quelquefois respiré
Avec ivresse et lente gourmandise
Ce grain d'encens qui remplit une église,
Ou d'un sachet le musc invétéré ?

Charme profond, magique, dont nous grise
Dans le présent le passé restauré !
Ainsi l'amant sur un corps adoré
Du souvenir cueille la fleur exquise.

De ses cheveux élastiques et lourds,
Vivant sachet, encensoir de l'alcôve,
Une senteur montait, sauvage et fauve,

Et des habits, mousseline ou velours,
Tout imprégnés de sa jeunesse pure,
Se dégageait un parfum de fourrure.


Baudelaire
Les Fleurs du Mal

sábado, janeiro 13, 2007

EDITADA À REVELIA





O mimo dos mimos chegou pelo correio, ainda em 2006. Por sorte, pra começar o ano bem, só coloquei as mãos nele nos primeiros dias de janeiro - Edições Quem mandou? - sacada genial do poeta carioca, residente em São Paulo, Sérgio Alcides.

Conheci Sérgio quando éramos professores na Universidade Federal de Ouro Preto em 97, ele ministrando História e eu Lingüística. Nunca mais nos vimos, até o encontro por arte do acaso ano passado na rodoviária de São Paulo - eu amarrava o tênis tomada de malas e breguetes quando dou de cara com o amigo.

O acaso faz sentido, todo o sentido.

Sérgio capturou de um poema meu o título (BIBLIOTECA TODINHA), editou e costurou o pitéu na sua oficina infoartesanal da Rua Bocaina. Agora sou uma escritora, já tenho livro. E pra fazer jus a minha alma punk, editada à revelia.

Grata Sérgio, pelo afeto e reconhecimento. E por bolar uma pegada que faz falta nos dias tão desromantizados e secos da tal da era de Aquário. O gesto é todinho lírico e D.Poesia vence, mais uma vez.



Monica
p.s.: não consegui escanear e manter as cores, uma pena.

terça-feira, janeiro 09, 2007


: DESEJO



Só o teu coração quente
e nada mais.

Meu paraíso um campo
sem rouxinol nem liras,
com um rio discreto
e uma fontezinha.

Sem a espora do vento
por sobre a copa,
nem a estrela que quer
ser folha.

Uma enorme luz
que fosse
vagalume
de outra,
em um campo de
olhares partidos.

Um repouso claro
e ali nossos beijos,
lunares sonoros
do eco,
se abririam mui longe.

E teu coração quente,
nada mais.



Federico Garcia Lorca
(1920)

quinta-feira, janeiro 04, 2007

VIRGINIANAS



Adoro escrever cartas que não vou mandar, poemas que não vou publicar, artigos que não vou levar adiante por amor à liberdade. A liberdade única que nos faz decidir o que é mas não deve estar. A opção pelo erro. Se algum dia, entretanto...e isso se chama poder. Posso usar outdoors. Já que palavras não são passarinhos, nenhuma culpa. Pedras preciosas adoram cofres, o escuro do mundo. Lá brilham em paz e angústia para seu só e avarento dono que imagina, esfregando as mãozinhas, o que poderia fazer com elas.

Um dia porém, acumuladas, começam a sair pelas frestas. Não são passarinhos mas feitas de água e podem arrebentar depois de tanta moleza em pedra intrépida. Furar a pedra. Invadir os ossos. Derramarem-se todas e aí não se é mais nada. Perderem-se por excesso. E a arrebentação impõe seu traço. Impossível voltar - a não ser ir e voltar. Escravo da liberdade. Onda para sempre.

E levam tudo o que vem pela frente - impurezas, intimidades de nitroglicerina pura, saltos de sapatos velhos, garrafas com o mapa do tesouro. E tudo começa a ir como quer, sem controle. Todo mundo vai ver o topázio imperial. Mas vai ver a merda também, merda que pra alguns é rubi. Os mesmos rubis que se julgavam preciosos mas eram coágulos de sangue. Então, não tem jeito.

O tiro vai mesmo sair pela culatra, o feitiço irá voltar-se contra o feiticeiro. E o que não tem soluctio e nem soluços, solucionado está.


Sol e Chuva, 4.1.07

domingo, dezembro 31, 2006



Lavanda




Desabrocham hidrolases
Lavam as vís vendas
que agora soltas

Alegres são lágrimas
Nenúfares de fumaça
Lassos sobre a vitória-régia

Só um sonho a menos
Só um dia há mais



Monica
31/12/2006

sexta-feira, dezembro 29, 2006



Soneto 52


Como o homem de fortuna, tenho à mão
A chave que os tesouros deixa ver
Mas que não usa sempre: para não
Gastar a fina ponta do prazer.
Assim brilhantes, as festas formosas
São no ano inteiro escassa maravilha:
Em fino engaste as pedras mais preciosas,
Ou a jóia maior na gargantilha.
Pois o tempo é meu cofre e te separa
- Guarda-roupa que as roupas traz fechado -
E só raro instante exibe a rara
Visão de seu tesouro enclausurado.
__Bem te haja o céu, que teu valor não cessa:
__Presente és triunfo, ausente és promessa.


William Shakespeare
tradução de Jorge Wanderley

segunda-feira, dezembro 25, 2006






A Esperança




Injeta sangue
no meu coração,
enche-me até o bordo das veias!
Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre,
sobre a terra
não vivi o meu bocado de amor.
Eu era gigante de porte,
mas para que este tamanho?
Para tal trabalho basta uma polegada.
Com um toco de pena, eu rabiscava papel,
num canto do quarto, encolhido,
como um par de óculos dobrado dentro do estojo.
Mas tudo que quiserdes eu farei de graça:
esfregar,
lavar,
escovar,
flanar,
montar guarda.
Posso, se vos agradar,
servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastante porteiros?
Eu era um tipo alegre,
mas que fazer da alegria,
quando a dor é um rio sem vau?
Em nossos dias,
se os dentes vos mostrarem
não é senão para vos morder
ou dilacerar.
O que quer que aconteça,
nas aflições,
pesar...
Chamai-me!
Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles
e alegorias,
malabares dar-vos-ei
em versos.
Eu amei...
mas é melhor não mexer nisso.
Te sentes mal?
Tanto pior...
Gosta-se, afinal, da própria dor.
Vejamos... Amo também os bichos -
vós os criais,
em vossos parques?
Pois, tomai-me para guarda dos bichos.
Gosto deles.
Basta-me ver um desses cães vadios,
como aquele de junto à padaria,
um verdadeiro vira-lata!
e no entanto,
por ele,
arrancaria meu próprio fígado:
"Toma, querido, sem cerimônia, come!"


Vladimir Vladímirovitch Maiacoviski

sábado, dezembro 23, 2006



Declamando Penúltima, com Thadeu Wojciechowski
de anjo direito, na noite do aniversário do poeta
Marcos Prado.


PENÚLTIMA


como posso agora estar alegre?
era de se esperar que eu desesperasse
talvez mais tarde eu desintegre
entre o penúltimo e o último gole do último porre
e leve ao meu lado os que me seguem

sim
perdi a razão do que eu achava e do que eu acho
mas aprendi que o céu é mais embaixo
ainda não sei o quanto dei
e tantas quantas amei
ainda não sei ao certo se eu errei


Marcos Prado


sexta-feira, dezembro 22, 2006

SUBLIME I


mais puro que o vôo da corda
mais corda que a vida do vento
mais vento que a asa da lira
mais lírica que a prosa da pétala

mais pétala que a pluma dos dias
mais dias que o desejo do tempo
mais tempo que o acorde de sol
mais sol que a vontade de chuva

mais chuva que a sede de água
mais água que o verde da uva
mais uva que o veludo da veia
mais veia que a calda da lava

mais lava que a terra do fogo
mais fogo que a língua na boca
mais boca que a fome no corpo
mais corpo que a dança do sangue

mais sangue que o ouro da pedra
mais pedra que estátua de seda
mais seda que sonho de mel
mais nuvem que rosas no céu

mais céu que o fundo do azul
mais azul que os olhos de deus


Monica Berger
_____________________________
p.s.: é isso aí


A apresentação no Wonka me surpreendeu. Abriram a porta para o ensaio às 20h30. Eu, Ivan, Jones, Maria Teca, Francisco e Marcelo com tudo para a última hora, como manda a tradição. E nem daria tempo mesmo de maiores delongas porque a semana do Marcos pegou fundo. No ensaio, deu tudo errado. Fui trocar de roupa cansada, respirei fundo e tomei minha tequila, servida com o mesmo esmero de sempre pela Flavinha. E seja o que os deuses quiserem.

Magicamente, quando a projeção começou e o Ivan entrou em cena com Pursuit (Perseguição, de Silvia Plath) alguma coisa aconteceu. E o espetáculo rolou redondo redondinho até o bloco final.

Tudo sincronizado. Perfeito. O problema é sempre antes de entrar no palco, pelo menos comigo. Dou uma sorte daquelas.

A idéia da apresentação foi emoldurar meus poemas com poemas clássicos sobre a pantera. Lancei mão do filme Cat People, versões de 42 e 82. Ivan traduziu a música do Bowie que depois de declamada em duas línguas estourou bem no final, com a mão boa do Diego no som.

Agradeço a todos que compareceram e que auxiliaram.
Valeu, moçada. O resultado foi melhor do que esperado.

Uma árvore cheia de panteras para todos vocês.


Monica

terça-feira, dezembro 19, 2006





P_A_ L_ A_ V_ R_ A__ D_ E__ P_A_ N_ T_ E_ R_ A
poemas de Monica Berger (Zoe de Camaris)
rolando hoje à noite, 19 de dezembro,
no Porão Loquax, às 22h30



W_O_ N_ K_ A__ B_ A_ R
Rua Trajano Reis, 326
Curitiba

domingo, dezembro 17, 2006





Manhã



Me ilumino
do imenso






Giuseppe Ungaretti

BLUSA FÁTUA


Costurarei calças pretas
com o veludo da minha garganta
e uma blusa amarela com três metros de poente.
pela Niévski do mundo, como criança grande,
andarei, donjuan, com ar de dândi.

Que a terra gema em sua mole indolência:
"Não viole o verde das minhas primaveras!"
Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:
"No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!"

Não sei se é porque o céu é azul celeste
e a terra, amante, me estende as mãos ardentes
que eu faço versos alegres como marionetes
e afiados e precisos como palitar dentes!

Fêmeas, gamadas em minha carne, e esta
garota que me olha com amor de gêmea,
cubram-me de sorrisos, que eu, poeta,
com flores os bordarei na blusa cor de gema!


Vladimir Maiakovski
Tradução de Augusto de Campos

sexta-feira, dezembro 15, 2006

begônias silvestres




o sumiço de sua silhueta amiga
fez meu perfil baixar a cabeça
as cores da tarde, cinzas cinzas
as luzes da noite, negras negras

desaparecer não é para qualquer um
só você, misto de mistério e dúvida
pode estar em lugar nenhum
e ainda me tocar, por música


Marcos Prado

Viralobos é o Cara




minha braçada
dos pés à cabeça
é peso-pesada

minha manchete
cortadas de graça
saca meu chapa

minha saída
é ganhar a partida
pole-position invicta

se não gostou
não insista
dê a volta

e faça a pista

Sérgio Viralobos (plutão-aquário), o melhor parceiro-letrista de Marcos Prado (urano-arqueiro) mais Walmor (netuno-scorpio) na música-guitarra Chateau 666 e Hélèn Jeanne Lévi-Benseft, the place. Música-mote-norte pra mim em 80 e poucos. Contrabanda cai bem nos tempos em que se anuncia o fim do Beijo AA Força. O que será no futuro? Por hecatombe quem se esqueceria de Sérgio e o paletó branco cantando de costas para o público e tchau pra todo sempre lá no Guairão?



quinta-feira, dezembro 14, 2006

terça-feira, dezembro 12, 2006


rogério dias



passarinhos
piem na minha janela
façam uma serenata para mim esta noite
eu preparo as pipocas
e a mesa com frutas
vocês cantam e comem
eu bebo e danço

se a canção for triste
choramos todos juntos
se for alegre, barulho!
os vizinhos que se fodam

caso eles dindon
eu abro a porta: "entrem"
se não quiserem
cagamos na cabeça deles
e recomeçamos
na mesma nota

quando amanhecer, eu sei,
vocês têm trabalho
podem ir, mas já estão convidados
para a noite que vem
e podem trazer o resto da turma


Marcos Prado
Livro de Poemas

sábado, dezembro 09, 2006


Como pintar um pássaro


Rogério Dias


Pinte primeiro uma gaiola
com a porta aberta.
Em seguida pinte
alguma coisa graciosa,
alguma coisa simples,
alguma coisa bonita,
alguma coisa útil...
ao pássaro.
Depois, coloque a tela contra uma árvore
no jardim,
no bosque
ou na floresta
e esconda-se
atrás da árvore
sem dizer nada, sem se mexer.
Às vezes o pássaro chega logo,
mas pode levar muitos, muitos anos
até se resolver.
Não desanime,
espere.
Espere, se preciso, durante anos.
A velocidade ou a lentidão da chegada
do pássaro, não tem a menor relação
com a qualidade da pintura.
Quando ele chegar
(se chegar)
mantenha o mais profundo silêncio,
espere que ele entre na gaiola.
Depois que entrar,
feche lentamente a porta com o pincel.
Aí então
apague uma por uma todas as varetas.
(Cuidado para não esbarrar em nenhuma pena
do pássaro.)
Finalmente pinte a árvore,
reservando o mais belo de seus ramos
ao pássaro.
Pinte também a verde folhagem e a doçura do
vento,
a poeira do sol,
o rumorejo dos bichinhos da relva no calor da
estação.
Depois aguarde que o pássaro se decida a
cantar.
Se ele não cantar,
mau sinal:
sinal de que o quadro não presta.
Mas bom sinal, se ele canta:
sinal de que você pode assinar o quadro.
Então retire suavemente
uma pena do pássaro
e escreva o seu nome a um canto do quadro.



Jacques Prévert
Tradução de Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, dezembro 06, 2006

ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah

ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah

ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah

ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah
ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah


Marcos Prado




Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!

Provo dessa maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressão da dor estética
Consiste essencialmente na alegria.


Augusto dos Anjos
p.s.: alegria compartilhada com o poeta polaco.

terça-feira, dezembro 05, 2006

quando se adia o coração



Ódio Platônico


A tua dor que me desculpe
O que você sente nem tem mais sentido
Amor então que me preocupe
Mas o teu ódio não será correspondido

Para odiar te falta destreza
Neste olhar mais mágoa que tristeza
Se ainda não tiver percebido
Tua aspereza não me deixa comovido

Nem se disser que o que sente
Para nós dois é suficiente
Terá possibilidade

Um dia você vai entender obsessão
E não ódio de verdade
O que se odeia quando
se adia o coração



Fernando Koproski & Renato
(Beijo AA Força no player)

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Se dissesse tudo que tenho a dizer
Não diria nada
Chuva que cai sobre água molhada


Se atravessasse o muro
E tomasse a estrada errada
Ainda assim não diria mudo
De tudo tanto quanto nada
Nessa métrica macabra

Se algum ritmo absurdo
De verso pro ar
Tocasse o absoluto
Eternizaria um segundo
Sinal em meio a hora marcada

E se me encontrasse em apuro
Daria adeus em silêncio e no escuro
Seguro do que me agrada

Mas entretanto contudo
Pálido diamante puro
Permaneceria calado
Feito grafite duro
Como quem não quer nada

Rescrevendo nulo
Sobre linha mal traçadas





Rio, 18.8.99
Monica & Makely

domingo, dezembro 03, 2006

único amor




fugi pra onde te conheci
você percebeu que eu te percebi
disse “oi”“na chegada e
“vem cá” na saída”
único amor da minha vida embriagada

passei por cima do seu cadáver
e vi que você ressuscitou
subiu aos céus da minha vida
daqui não sai, daqui ninguém te tira
único amor da minha vida embriagada




(antonio thadeu wojciechowski, marcos prado e walmor góes)

sexta-feira, dezembro 01, 2006




Diz Thadeu, o poeta, quase flutuando:


"Mais da metade da poesia do Brasil é gay.
Porque não tem força suficiente no pau
para enfrentar uma buceta
de igual para igual".



Declarado no dia 4 de outubro de 2006, Bar do Torto. Reclamações e adendos aqui, nos comentários. De quebra, obtive a arrumação planetária da turma com aquiescência de Justen Santana e de Aranha:


Sol: Thadeu
Lua: Edilson
Mercúrio: Aranha de Vulcanis
Vênus: Beco
Marte: Magoo
Júpiter: Rodrigão
Urano: Marcos Prado
Saturno: Bira / Ferreira (empate técnico)
Netuno: Walmor Góes
Plutão: Sérgio Viralobos
Quíron: Ivan Justen Santana


Houve discordâncias quanto à classificação. Não sei se o Bira é tão soturno quanto Saturno. Eu pensei no Ferry Lover. Nem se o Ivan Quíron cura todo mundo - embora entenda de máculas e feridas. Mercuria quando Gralha. Pra mim ele é como il matto nei Tarochi. O Thadeu acha que o Rodrigo não é Júpiter e avacalha querendo incluir também o Foguinho. Eu acho que é Júpiter sim e meto a colher. Beco, não sendo Baco, é Vênus. Embeleza tudo que toca. Frank, Netuno, é o viajandão. Faz sonhos, cria nevoeiros (suspiros). Aranha, é bruxo-exu. Mercúrio. O gatilho mais rápido no mundo de Malrboro. Magoo é Marte disparado, concordadíssimo. Marcos, um tranco uraniano. O Viralobos é a melhor escolha - puro Plutão. Primo Edilson é de Lua. Diz Aranha que é "the dark side of".

A conversa caiu nos planetas porque comentei com Thadeu o poder solar que o puto tem em aglutinar a turma. E é vero. Far-se-á poesia em Curitiba, sem o Thadeu na área?

A Terra acabou restando para esta que vos escreve mas só porque eu tava lá com a caneta na mão. Ou porque a idéia é minha. Ou talvez porque transite próxima há eras. E depois, pensando na declaração anterior, pegava mal não incluir uma mulher na lista (tsc tsc tsc). Em todo caso, estendo meu outorgado e pretensioso "título" a nós, garotas, que estamos ao lado desses malucos há tantos anos - amigas, amantes, pôsas, ex-pôsas e àquelas de quem esqueci por causa do maldito palimpsesto.

Não, não sou mais feminista.


té té,
Monica
p.s.: aos tristóides, os planetóides e os asteróides.

Poemeto


Em segredo eu te vi, ontem de noite
Estavas em tua alcova, pensativa
Os teus olhos voltados à janela,
inquietos reclamavam por alguém

O prêmio para a tua juventude
buscavas, minha amada. E tu não viste
que como a pomba tímida, minha alma
esvoaçava junto à janela


Haim Nachman Bialik

quinta-feira, novembro 30, 2006

ASTRÁLIA

Acabei de montar com Araiê o "Astrália", um blog em comemoração aos 45 anos do poeta Marcos Prado. Marcos faleceu aos 34 anos no dia 31 de dezembro de 1996. E nasceu no dia 15 de dezembro de 1961. Araiê é nossa filha. Para quem não sabe, meu nome é Monica Berger (Zoe é um nom de plume).

A comemoração é uma iniciativa da Fundação Cultural com participação da Biblioteca Pública do Paraná. Centos eventos: leituras de poemas em bares, mesas-redondas, shows e as tais performances. Depois eu coloco direitinho aqui e
.

Quando namorávamos ele havia acabado de mimeografar seu primeiro livro De leve não vale a pena apesar. Essa frase vinha de Astrália, onde o livro foi escrito e confeccionado. Brincavámos que era lá que a gente ia morar um dia, nosso paraíso particular.

Quem sabe? Ele foi antes pra dar uma geral.



Monica

domingo, novembro 26, 2006

MANTRA

TOTEM
DROGMA
TEM


DROPS
MAGNA
ZEN


TAPA
GAMA
LÓGICA



MIM
CHAMAN
MERLIN


PUFT
GLUPT
TRÓTICA



PARLA
PIRLIM
PIMPIM




Marcos Prado e Edilson del Grossi

Invisível





é verdade que sonhei? não.
e sei que você também não sonhou

a nuvem de tempestade
inacreditável, a realidade.

adianta agora, escrever com sumo de limão?





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quarta-feira, novembro 22, 2006




antes de acontecer
tudo pode ser diferente
depois de acontecer
tem um depois de




trecho de uma letra de Marcos Prado e Thadeu W.

A ERA



Minha era, minha fera, quem ousa,
Olhando nos teus olhos, com sangue,
Colar a coluna de tuas vértebras?
Com cimento de sangue – dois séculos –
Que jorra da garganta das coisas?
Treme o parasita, espinha langue,
Filipenso ao umbral das horas novas.


Todo ser enquanto a vida avança
Deve suportar esta cadeia
Oculta de vértebras. Em tôrno
Jubila uma onda. E a vida como
Frágil cartilagem infantil
Parte seu ápex: morte da ovelha,
A idade da terra em sua infância.


Junta as partes nodosas dos dias:
Soa a flauta, e o mundo está liberto,
Soa a flauta e o mundo se recria.
Angústia! A onda do tempo oscila
Batida pelo vento do século.
E a víbora na relva respira
O ouro da idade, áurea medida


Vergôntea de nova primavera!
Mas a espinha partiu-se da fera,
Bela era lastimável. Era,
Ex-pantera flexível, que volve
Para trás, riso absurdo, e descobre
Dura e dócil, na meada dos rastros,
As pegadas de seus próprios passos.



Ossip Mandelschtam