domingo, outubro 22, 2006



A Rosa Secreta
W. B. Yeats


Longínqua, tão secreta, inviolada Rosa,
Envolve-me na minha hora das horas; onde aqueles
Que te buscaram no Santo Sepulcro,
Ou no tonel de vinho, moram mais além dos tumultuosos e
Vencidos sonhos; e profundamente
Entre macilentas pálpebras, pesadas de tanto sono
Os homens nomearam a beleza. Tuas grandes folhas ocultas
As antigas barbas, os elmos de ouro e rubi
Dos coroados Reis Magos; e o rei cujos olhos
Viram as Mãos Crucificadas e a Cruz de sabugueiro elevar-se
Em druídicos vapores, extinguindo as tochas;
Até que o inútil clamor despertou e ele morreu; e aquele
Que encontrou Fand caminhando entre flamejante orvalho
Junto à sombria costa onde nunca soprava o vento,
E perdeu mundo e Emer por um beijo;
E aquele que os deuses levou para fora dos seus domínios
E durante cem rubras alvoradas se entregou ao festim e chorou
Os túmulos dos seus mortos;
E o rei sonhador e altivo que mágoa e coroa arremessou,
Convocando bobo e bardo,
Em profundos bosques habitava com os errantes filhos do vinho;
E aquele que vendeu campos, casa e bens,
E durante inumeráveis anos por terra e mar procurou,
Encontrou enfim, entre riso e lágrimas,
Essa mulher tão radiosa em sua beleza
Que à meia-noite os homens trabalhavam o cereal
Por um sorriso, um brevíssimo sorriso roubado. Eu também aguardo
Essa hora, a hora das tempestades do teu ódio, do teu amor.
Quando se soltarão do céu as estrelas
Como chispas de uma forja, quando morrerão?
É chegada a tua hora, teus grandes ventos acordam
Longínqua, secretíssima, inviolada Rosa?


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THE SECRET ROSE


Far-off, most secret, and inviolate Rose,
Enfold me in my hour of hours; where those
Who sought thee in the Holy Sepulchre,
Or in the wine-vat, dwell beyond the stir
And tumult of defeated dreams; and deep
Among pale eyelids, heavy with the sleep
Men have named beauty. Thy great leaves enfold
The ancient beards, the helms of ruby and gold
Of the crowned Magi; and the king whose eyes
Saw the pierced Hands and Rood of elder rise
In Druid vapour and make the torches dim;
Till vain frenzy awoke and he died; and him
Who met Fand walking among flaming dew
By a grey shore where the wind never blew,
And lost the world and Emer for a kiss;
And him who drove the gods out of their liss,
And till a hundred moms had flowered red
Feasted, and wept the barrows of his dead;
And the proud dreaming king who flung the crown
And sorrow away, and calling bard and clown
Dwelt among wine-stained wanderers in deep woods:
And him who sold tillage, and house, and goods,
And sought through lands and islands numberless years,
Until he found, with laughter and with tears,
A woman of so shining loveliness
That men threshed corn at midnight by a tress,
A little stolen tress. I, too, await
The hour of thy great wind of love and hate.
When shall the stars be blown about the sky,
Like the sparks blown out of a smithy, and die?
Surely thine hour has come, thy great wind blows,
Far-off, most secret, and inviolate Rose?

William B. Yeats

quarta-feira, outubro 18, 2006


Little Queen Of Spades
by Robert Johnson


She is a little queen of spades
And the men will not let her be.
Said she is a little queen of spades
And the men will not let her be.
Everytime she make a spread,
Oh fair brown, cold chills run all over me.


Gonna get me a gambling woman
If it's the last thing that I do.
Gonna get me a gambling woman
If it's the last thing that I do.
A man don't need a woman,
Oh fair brown, that he got to give all of his money to.


Everybody said you got a mojo,
'Cause baby, you've been using that stuff.
Everybody said you got a mojo
Baby, you've been using that stuff.
Got a way trimming down,
Oh fair brown, and I mean it's most too tough.


Little girl, since I am the king,
Baby, and you is the queen,
Little girl, since I am the king,
Baby, and you is the queen,
Let us put our heads together,
Oh fair brown, and we can make our money green.


p.s.: a música é magnificamente interpretada por Eric Clapton em "Me and Mr. Johnson". E a letra serve de mote ao meu último post sobre a Rainha de Espadas em Zoe Tarot.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Ele oferece uns versos à sua amada



Prende os teus cabelos num alfinete de ouro,
E prende cada trança vagabunda;
Pedi ao meu coração para fazer estes pobres versos;
Neles trabalhou, dia após dia,
Edificando de antigas batalhas
Uma dolente formusura.

Basta levantares a tua mão nacarada
E prenderes os teus cabelos longos e suspirares,
para que o coração dos homens arda e palpite;
E a espuma como uma vela sobre a areia opaca,
E as estrelas que trepam do céu de orvalho,
Só vivam para iluminar os teus pés que passam.


W. B. Yeats

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Ele oferece a sua Amada alguns Versos


Com um alfinete de ouro prende teu cabelo,
E amarra juntas tuas tranças soltas;
Instei meu coração a erigir uns pobres versos:
Dia após dia, neles trabalhou com desvelo,
Erigindo com sofrida graça suas voltas
Inspirado nas batalhas de idos sucessos.

Basta que estendas pálida a nacarada mão,
E suspires e longo amarres o cabelo teu;
E o coração dos homens irá abrasar e bater à vez;
E candelabros de espuma na areia do chão,
E estrelas ascendendo no orvalhante céu,
Vivem só p’ra iluminar a passagem de teus pés.


tradução de José M., da cidade do Porto

domingo, outubro 15, 2006

JUÍZO FINAL

Bye, Malocas, Bye




Testamento de um recém-nascido


o livro já está acabando
e acabo de fazer o primeiro verso
ainda não me acostumei
a escrever pelo avesso

nem mais me lembro quando
comecei a brincar com o texto
só sei que sempre sonhei
que ele tivesse este jeito

de imagem, música, cinema
todos ponteiros ajustados
e levantando a bola pra poesia
brindar à vida no bar dos bardos

dedico este blog-livro aos que saíram de cena
antes da concretização dos fatos
mas não posso disfarçar a alegria
de estar bem vivo para rir dos ultimatos


Sérgio Viralobos

quinta-feira, outubro 12, 2006





"Descobri que precisava travar uma batalha com um determinado fantasma. E o fantasma era uma mulher, e quando cheguei a conhecê-la melhor, passei a chamá-la pelo nome da heroína de um famoso poema, "o anjo na casa" ... Ela era intensamente simpática. Maravilhosamente encantadora. Totalmente abnegada. Ela se distinguia nas difíceis tarefas da vida em família. Se havia galinha, ela ficava com o pé, se havia uma corrente de ar, sentava-se bem ali. Em suma, sua constituição era tal, que ela nunca tinha um pensamento ou desejos próprios, preferindo antes apoiar os pensamentos e desejos dos outros. Acima de tudo, ela era, é desnecessário dizer, pura... E quando me punha a escrever, deparava-me com ela logo nas minhas primeiras palavras. A sombra de suas asas espalhava-se sobre a minha página; eu ouvia o farfalhar da sua saia no quarto ... Ela se aproximava furtivamente pelas minhas costas e sussurrava ... Seja simpática; seja delicada; faça elogios; engane; lance mão de todas as artes e ardis do seu sexo. Nunca permita que alguém pense que você tem um pensamento próprio. Sobretudo, seja pura. E agia como se estivesse guiando a minha caneta. Relato agora a única ação que me levou ter um apreço por mim mesma ... Voltei-me para ela e a agarrei pela garganta. Apertei com toda minha força, até matá-la. Minha defesa, caso fosse levada a um tribunal, seria a de que agi em defesa própria. Se eu não a matasse, ela me mataria.”

Virgínia Woolf

quarta-feira, outubro 04, 2006


DOBRADA À MODA DO PORTO


Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes.
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.


Álvaro de Campos

terça-feira, outubro 03, 2006


AFASTADO


longe muito longe
além da névoa de Júpiter
foi o olhar mais demorado
que tivemos do amor

parecia que você estava lá
e eu na terra
não conseguia ouvi-lo
chorando de dor

então como um fantasma
você veio sob o sol poente
em casa outra vez
na minha porta

e estendeu a mão
do gelo onde esteve
no meu pulso enquanto fingia
entrar

mas o que entrou
foi um sopro de demônios
que gelou o amor
e esvaziou a casa

sentamos como cadeiras
em um ar que não perdoa
o que será dito ou não dito
de como ou onde



Edwin George Morgan
Tradução de Virna Teixeira

domingo, outubro 01, 2006




AMANTES



uma flor
_______não longe da noite
_______meu corpo mudo
___se abre
à delicada urgência do orvalho



Alejandra Pizarnik
Tradução de Virna Teixeira



Labirinto, a vida, labirinto, a morte
Labirinto sem fim, diz o Mestre de Ho.

Tudo afunda, nada libera
O suicida renasce para um novo sofrimento.

A prisão termina em uma prisão
O corredor termina em outro corredor:

Aquele que crê desenrolar o rolo de sua vida
Não desenrola nada em absoluto.

Nada desemboca em nenhuma parte
Os séculos vivem também sob a terra, diz o Mestre de Ho.


Henri Michaux
Tradução de Daniela Osvald Ramos

______________________________________


Labyrinthe, la vie, labyrinthe, la mort
Labyrinthe sans fin, dit le Maître de Ho.
Tout enfonce, rien ne libère.
Le suicide renaît à une nouvelle souffrance.

La prison ouvre sur une prison
Le couloir ouvre un autre couloir:

Celui qui croit dérouler le rouleau de sa vie
No déroule rien du tout.

Rien ne débouche nulle part
Les siècles aussi vivent sous terre, dit le Maître de Ho.


Henri Michaux

sexta-feira, setembro 29, 2006



SUMÁRIO ASTRAL

- fragmento inicial -


Em forma humana
e habitada pela linguagem
lanço os dados
e abro os livros.
Ninguém dança persuadido.
Os braços se erguem unicamente
para bater com as mãos,
não para traçar algum signo.
Observo os detalhes do fogo
pintado para parecer uma cara.
Todo mundo se pisa.
Descansam os frutos e não os comem.
As bandeiras são da cor do caos,
e a serpente é a senhora dos viventes.
O sal não evita que o mar apodreça,
nem as letras correspondem ao trabalho.
A prova é que o poder atua como único centro
e no mundo se produzem artifícios
que compactuam com todas as conclusões
(e gêneros de especulação)
que seria conveniente abandonarmos.
A força das rochas não pensa.
Escrevo signos e letras
em um couro de boi.
Traslado ao pensamento
a terra, o céu e a água
e lanço areia sobre um espelho
para observar desenhos imprevisíveis
ou para traçar uma letra.
Ano após ano,
esgaravato a terra com as unhas
para poder cortar a sombra
que me ultrapassa e penetra as raízes.


Joan Brossa
Tradução de Ronald Polito

( roubado do Pele de Lontra)

quinta-feira, setembro 21, 2006

COMO POSSO SER UMA BOA MENINA
COM AMIGUINHOS DESTE TIPO?





(clique no banner)


tirando o copo fora

já devia ter ido embora
mas em parte estou errado
porém, por outro lado
não vou agora
o sol nasce lindo nessa hora
mas é a lua que comemora

das duas, uma três por quatro
poesia é um parto
meu sono pesado me entrega
no meu sonho acordei numa adega


(Chico Cardoso, Edilson Del Grossi e Plínio Gonzaga)

terça-feira, setembro 19, 2006



A propósito de estrelas


Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas


Adília Lopes

segunda-feira, setembro 18, 2006




FIGOS (trecho)


A maneira correcta de comer um figo, em sociedade,
É parti-lo em quatro, segurando-o pelo pé,
E abri-lo, de modo a ficar uma flor de quatro pétalas, pétalas
pesadas, resplandecentes, rosadas, húmidas e cobertas de mel.

A seguir deitas fora a pele
Que fica mesmo como um cálice de quatro sépalas
Após teres tirado a flor com os lábios.

Mas a maneira mais comum
É metê-lo na boca pela fenda e comer a polpa de uma só
vez.
Todos os frutos têm o seu segredo.



D. H. Lawrence
Os animais evangélicos / Relógio d'água


p.s.: encontrei diversas versões deste poema. uma das traduções é de Herberto Helder, as outras não indicam o tradutor. Aí vai o trecho original, em inglês.


___________________

FIGS



The proper way to eat a fig, in society,
Is to split it in four, holding it by the stump,
And open it, so that it is a glittering, rosy, moist, honied, heavy-petalled four-petalled
_________________________ flower.


Then you throw away the skin
Which is just like a four-sepalled calyx,
After you have taken off the blossom, with your lips.


But the vulgar way
Is just to put your mouth to the crack, and take out the flesh in one bite.


Every fruit has its secret.


D.H. Lawrence

sexta-feira, setembro 15, 2006


Se os poetas fossem menos patetas


Se os poetas fossem menos patetas
E se fossem menos preguiçosos
Faziam toda gente feliz
Para poderem tratar em paz
Dos seus sofrimentos literários
Construíam casas amarelas
Com grandes jardins à frente
E árvores cheias de zaves
De mirliflautas e lizores
De melharufos e toutiverdes
De plumuchos e picapães
E pequenos corvos vermelhos
Que soubessem ler a sina
Havia grandes repuxos
Com luzes por dentro
Havia duzentos peixes
Desde o crusco ao ramussão
Da libela ao papamula
Da orfia ao rara curul
E da alvela ao canissão
Havia um ar novo
Perfumado do odor das folhas
Comia-se quando se quisesse
E trabalhava-se sem pressa
A construir escadarias
De formas antes nunca vistas
Com madeiras raiadas de lilás
Lisas como elas sob os dedos

Mas os poetas são uns patetas
Escrevem para começar
Em vez de se porem a trabalhar
E isso traz-lhes um remorso
Que conservam até à morte
Encantados de ter sofrido tanto
Dedicam-lhes grandes discursos
E são esquecidos num dia
Mas se trabalhassem mais
Só seriam esquecidos em dois



BÓRIS VIAN
Canções e Poemas
Ed. Assírio e Alvim
Lisboa/ Coleção Rei Lagarto

terça-feira, setembro 12, 2006



VIA



qual é este caminho que nos separa
através do qual eu retenho a mão do pensamento
uma flor está escrita ao final de cada dedo
e o final do caminho é uma flor que caminha contigo



tristan tzara
Tradução de Virna Teixeira

quarta-feira, setembro 06, 2006



VODU


Me espete aqui:

o poro da folha não é meu, mas eu sinto.

A reta da tinta não desalinha
o itinerário na palma da mão

(onde me perco, mais que na vida)

nem o rosto desse esforço
com olhos de contas e boca de feltro
é máscara rebelada do que fui ou fujo

de ser. Está livre de mim, o poema.
Eu, não, dele, de mim, do seu chumaço
e arame, do seu engenho e arte.

Me espeto aqui, se espete.



o ar das cidades
sérgio alcides

sexta-feira, setembro 01, 2006



ATLÂNTIDA


Tendo se decidido a ir
Para Atlântida
Você descobrira é claro
Que somente a Nau dos Insensatos
fará nesse ano a viagem,
Pois vendavais anormais
São previstos, e você
Deve portanto estar pronto
A comportar-se de maneira suficientemente absurda
A passar-se por Um dos Rapazes,
Parecendo pelo menos gostar
De aguardente, vaquejada e barulho.

Tendo tempestades, o que pode muito bem acontecer,
Feito você ancorar uma semana
Em algum velho porto
Da Jônia, então converse
Com os seus espirituosos eruditos, homens
Que provaram não ser possível
Existir lugar como Atlântida:
Aprenda a lógica, mas repare
Como a sutileza deles trai
A sua enormemente simples amargura;
E eles devem ensinar a você a maneira
De duvidar que você possa acreditar.

Se, mais tarde, faltar-lhe chão
Nos promontórios da Trácia
Onde com tochas pela noite inteira
Uma nua raça bárbara
Volteia alucinada ao som
De búzios e dissonantes surdos;
Nessa selvagem praia de pedra
Dispa-se e dance, pois
A não ser que você seja capaz
De se esquecer completamente
Da Atlântida, você
Jamais terminará a sua jornada.

E, alcançando chegar à alegre
Cartago ou Corinto, caia
Em sua infinita gandaia;
E se num bar uma putinha

Enquanto acaricia o seu cabelo, dissesse
“Isto é Atlântida, queridinho”
Ouça com atenção
A história da vida dela: A não ser que
Você agora já saiba de
Todos os refúgios que tentam
Falsificar Atlântida, como
Você poderá saber o que é verdadeiro?

Imaginando que você aproasse, finalmente
Perto da Atlântida, e começasse
A adentrar a sua terrível trilha
Através do mato esquálido e de geladas
Tundras onde logo se perdesse;
Se ao abandono então quedasse
Banido de todo lugar,
Pedra e neve, silêncio e ar,
Ó lembre-se do grande morto
E honre o destino que é você
Viajante e atormentado
Dialético e bizarro.

Cambaleie para trás em júbilo;
E mesmo então se, talvez
Ante a última passagem, você tombasse
Com toda a Atlântida
Brilhando, aos seus pés
Ainda assim você não poderia
Descer, você poderia no entanto orgulhar-se
Ao ter-lhe sido, pelo menos, permitido
Uma rápida espiada da Atlântida
Em uma visão poética:
Agradeça e quede-se em paz,
Tendo visto a sua salvação.

Todos os deusinhos domésticos
Põem-se em pranto, mas diga
Adeus então, e vá ao mar.
Adeus, queridos, adeus: possa
Hermes, padroeiro das estradas,
E os quatro anões Kabiri,
Proteger e servir a você sempre:
E possa o Ancião dos Dias
Prover para tudo o que você deva fazer
Sua mão invisível,
Fazendo pairar, querido, sobre você
A luz de Sua face.


W. H. Auden
Tradução de Carlos Figueiredo

segunda-feira, agosto 28, 2006

daqui pra acolá


Ide, caminhantes!
Fora, passantes!

Levem o milho para o deus, enquanto me divirto com as pipocas!

- Simples assim: quando o dragão está de olhos fechados, é porque ele está acordado. O contrário nem sempre é verdadeiro. E existem controvérsias. É que os deuses, quando não tem o que fazer, assistem Sex and City. Preciso colocar a mesma música pra tocar? Quantas diversas vezes? Cada um lerá o que lhe interessar. Divirta-se. Crie-se, ó engraçado! Tome consigo seu melhor vestido.

Quer pipoca?

.............................

Já Passou


Já passou, já passou
Se você quer saber
Eu já sarei, já curou
Me pegou de mal jeito
Mas não foi nada, estancou

Já passou, já passou
Se isso lhe dá prazer
Me machuquei, sim, supurou
Mas afaguei meu peito
E aliviou
Já falei, já passou

Faz-me rir
Ha ha ha
Você
saracoteando
Daqui pra acolá
Na Barra, na farra
No forró forrado
Na Praça Mauá, sei lá
No Jardim de Alah
Ou num clube de samba

Faz-me rir, faz-me engasgar
Me deixa catatônico
Com a perna bamba

Mas já passou, já passou
Recolha o seu sorriso
Meu amor, sua flor
Nem gaste o seu perfume
Por favor
Que esse filme
Já passou

Chico Buarque

sábado, agosto 26, 2006



Aos raios-violeta dos seus olhos,
uma tábula ultra imperfeita


ESTRELA NEGRA I

Nem tudo que acontece no céu espelha-se na terra;

ESTRELA NEGRA II

um diamante (1+34 zeros!) há 50 anos-luz é contido num porta-jóia
do tamanho do Sol;

ESTRELA NEGRA III

Vi num telescópio no Havaí. Abdell 2218 desviou e amplificou suas luzes em minhas lentes gravitacionais;

ESTRELA NEGRA IV

Só uma esmeralda pura viceja sem jardins - quente seca fria úmida.
Paisagens possíveis, deus do fogo. Folgo em sabê-lo;


ESTRELA NEGRA V

Saúdo à beleza. A existência de duas imagens indica fenômeno em órbita. Spin dois.
Marcho abstrata. O mês é Março.



Zoe de Camaris
2004



terça-feira, agosto 22, 2006



SEGREDO

A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.

Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.

Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.


Carlos Drummond de Andrade

domingo, agosto 20, 2006




Punk Musa

Isso que nós somos são amores ?
Me pergunto ao te ver emputecida
Masoquista insensível a tantas dores
Cutucando com prazer nossa ferida

Alquimista de socos beijos e licores
Mexe o caldeirão doida druida
Esquisita sem tirares nem pores
Dispensa gregos e moicanos distraída

E contrata muitos outros de quaisquer cores
Só pra judiar, minha querida ?
Sinistra magnética hipnóticos horrores
Surge tão bem-vinda e me escapa ainda mais linda

Sérgio Viralobos e Marcos Prado
15 de agosto de 2006




Chutado dos Malocabillies, na cara dura, aproveitando ainda o texto do Sérgio:

O poema Punk Musa, postado neste blog, foi feito nesta semana, tomando por base as orientações que Marcos passou pra mim na carta abaixo, de algum dia de 1984:

sérgio,

o ferreira me pediu uma letra onde a musa fosse uma punk, pra uma canção de amor que ele fez. a música é genial. vou te mandar frases esparsas. se tiver saco, monte, inclua outras, mexa o caldeirão, o diabo:
alquimista de socos beijos e licores (rimando com violenta sem tirares nem pores)
dispensa gregos e moicanos distraída
sinistra
magnética
hipnótica
invisível
a que surge, desaparece, dá e desce
moderna
não muito sensível
de quem você foge e sempre te persegue, mas que na hora h sai fora.
a que você não sabe onde mora e não te namora.
quem você adora e não te adora.
a que virar uma rua, sempre é a quinta avenida, mesmo que vire XV ruas.

a idéia é fazer uma letra bem romântica mesmo para uma anti-musa violenta, uma canalha sem coração, uma pária sem par. não sei se dá pra aproveitar muita coisa disso aí em cima, mas o clima já deu pra você sentir, né ?
você tem dinheiro pra sê-lo. não demore. escreva. ana também.

marcos prado

sábado, agosto 19, 2006




Que este amor não me cegue nem me siga


Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.


Hilda Hilst




Não tens que me amar


Não tens que me amar
Só pelo facto de seres todas as mulheres
Que sempre desejei
Nasci para te seguir
todas as noites
enquanto for
os muitos homens que te amam

Estás sentada à mesa
Tomo o teu pulso entre as minhas mãos
num táxi solene
e acordo só
a minha mão na tua ausência
num dormitório de uma casa de correcção

Escrevi todas estas canções para ti
queimei círios vermelhos e negros
com formas de homens e mulheres
Casei-me com o fumo
de duas pirâmides de sândalo
Rezei por ti
Rezei para que me amasses
e para que não me amasses


Leonard Cohen
p.s.: aí ao lado, no player, um poema de Leornard Conhen, " A Thousand Kisses Deep". Os leitores que me perdoem, por ora, a falta de créditos quando insiro uma música ou poema em áudio. Ainda não sei como fazer, mas já aprendo.

The Three Fates


As parcas


Mais um verão, mais um outono, ó Parcas,
Para amadurecimento do meu canto
Peço me concedais.
Então saciado do doce jogo, o coração me morra.

Não sossegará no Orco a alma que em vida
Não teve a sua parte de divino.
Mas se em meu coração acontecesse
O sagrado, o que importa, o poema, um dia:

Teu silêncio entrarei, mundo das sombras,
Contente, ainda que as notas do meu canto
Não me acompanhem, que uma vez ao menos
Como os deuses vivi, nem mais desejo.


Holderlin
tradução de Manuel Bandeira

quinta-feira, agosto 17, 2006

Xul Solar "With Lasers"


Jefa Honra / Xul Solar


En un Hades fluido...

Es un Hades fluido, casi vapor, sin cielo, sin suelo, rufo, color en ojos cerrados so el sol ,
agitado en endotempestá, vórtices, ondas y hervor . En sus grumos i espumas dismultit ú
ornes flotan pasivue, disdestellan, hai también solos, mayores, péjoides, i perluzen suavue .
Se transpenvén fantasmue las casas i gente i suelo de una ciudá sólida terri, sin ningu n
rapor con este Hades, qes aora ló real .
Toda esta región rufa densa se montona redor gran hueco ho valle sin fondo, de aire azu l
gris, do floto en vientos oscuros, con polvareda gente, i otros ornes solos ávoides i glóboides .
Aqí se flota más upa . I siga fantasmue la ciudá sólida yu i su pópulo .
Paso luego a mejor vida, gris plata . Yi qierflotan flojue muchos grupos, procesionan o
pensan reúnidos. Yi bogan nubes con qioscos grises -de nácar, metal, fieltro -con pénsores
circunsiéntados .
Lentue me hallo en cielo leve ciéleste . Su ánimo es de tarde verani, niebli .
Plantas de a un zigzag se biomuevan i canturrian . Xu color qiervaría de granate a róseo .
Están sobrs loma floti del mismo aire mas denso, soesfúminse . Yi yuxtavuelan pájaros com o
huevos pintos, no con alas, sino con muchas cintas .
Otrur hai muchas columnas color, sin suelo, qe sostienen nube techo : es templo floti e n
qe oran muchos. Cuando se teocoexaltan se hinchan, xus auras irradian vita, talue qe alza n
la nube techo i circunseparan las columnas, i todo se ferviagranda i sanluze.
Otrur hai obelisco ancho ho torre, bambolea por su base flotifloja . Su primer piso, d e
iibros piedra, encima libros barro, encima libros leña, encima libros rollo, la cima libros .
Casi como torre naipes, erizada de cintas papel i banderolas, perivuélada de letrienjambre s
moscue, yuxtarodeada de qizás mangente vaga estudi . En el poco suelo floti sueñan muchos,
yi mérgidos .
Floto voi allén lejos . Hónduer en niebla plurcambicolor veo ciudá . Sas biopalacios i
biochozas, de armazón i pienso . Se pertransforman, se agrandan o achican ; ya son de poste s
i cimbras i cúpulas, ya de muros lisos en parches fosfi, ya pululan en biocúmulos, ya tembleqean
de andamios seudocristal . Se desplazan, suben, se hunden, se interpenetran, se separa n
i reídem .
Casas hai qe arden, flamean upa, pero no se destruyen, se ñe construyen más . Xu fuego esvita,
i a mayor incendio, más palacio senancha i crece . Casas hai qe contagian incendian a la s
vecinas qe ídem ídem, i así sextiendan los barrios . Xu yi gente también, coflamea i s e
coabulta : debe ser ella la causa fuegui, por pensiardor .
Casas hai qe fervihiervan hasta qe revientan como bomba ho geiser o humo ; pero no se ñ e
destruyen, se circunreconstruyen ; xas trozos fervicrecen en sucursales lejos qe alfín se
crecijuntan, dismontón torre mahimás, sobre circumbaldío menoimenos.
Casas hai qe suicrecen en todo séntido, sesgüe, horizue, yuso, upa, gordue ; i zumban ,
chirrian, crujen, disparlan .
Casas hai que se atrofian i encojen hasta no verse más, cuando xa gente muertinace a
mejor vida en mejor cielo .
Casas hai de ilusión sobre cerros humo : se cambipierden .
Entonces abarco el suelo desa ciudad, el qes una sûnnube, qes varios titanes vagos floti -
acuéstados .
Grandes mangas o tubos ñe circunsalgan a lô vacuo: serían cloacas o chúpores, no sé .
I so esa ciudá hai otra ciudá'l revés, hosca, oscura i lenta qe vive i crece yuso, i sa gent e
también . El nadir es hondo, hosco, oscuro, brúmoso : qizás el manmundo, algún gran yermo .
Reveo la otra ciudá upa . Columnatas como cienpiés viajan a distrancos . Son discípulo s
tiesos, llevan maestros cúpulas, de rópaje ancho techue . A tumbos sobre chusma cieli suifeliz,
qierrevuelta en bruma i cuágulos i bocetos de pienso : gelatina menti . Van a lejos, a lô vacuo .
Veo hai algunas mui moles pagodas de solos iibros, qe se incuerpan a xus tantos léctores
-qe no leen, masbién vitichupan ciencia i sofia .
Sexpandan, ondulan voceríos de todas las linguas i de muchas otras pósibles . I xas enjambres
letras, i marañas glifos, i disfonéticas i copluracentos, corno muchos qierhumos, s e
apartan o juntan, se contramueven o aqietan, en orden o no, forman, reforman séntid o
argu siempre neo.
Estrellas, sólcitos, lunas, lúnulas, luciérnagas, linternas, luces, lustres ; doqier se vidienredan
a la ciudá se constelan i disconstelan, se qeman, se apagan, cholucen, llueven, vuelan .
Es un perflujo i reflujo de brisa i flúido i ráfaga i sones i humos olor ; la luz percambia ,
en lampos color, calor, claroscuros, en ánimo.
Yo ya veicánsado me aturdo i olvido, disveo .
Todo palidece, i se borra . Ya parece qentro a mayor cielo qes otra noche, qes luego má s
noche, qes más, teonoche honda sólida negra . qe mantemo i mistiamo ; yo me yi exdisolverío.
Pero algo vago inmenso se interpone'ntre mî i lô teonoche ; como gas plurcolor . Se define
más, i es un mandivo indefinido, cielidiámetro . Su testa tras mî, sus piés ante mî, en e l
contrahorizonte, i sus manos sobre m r, ganchipuntitóqinse, son oranje ; su rópaje, cambicolor
indeciso en parches .
Sobre su testa florece aora flor luz blanca . Su cuore punzó irradia luz rósea, su pudend a
granate's sólodeluz .
Sento como qentro al mandivo, qe me yi arrobo .
Pero ya la llámada desta Terra desde yu me oprime'l pecho cuerpi ; i vuelvo a mî mui
perpenue .

(Publicado en la revista Imán, París, 1931)
Xul Solar

# Comunidade no Orkut dedicada à obra de Xul Solar #
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=232459

quarta-feira, agosto 16, 2006


Igor Skalican/Ciúme

ENSAIO DE CIÚME


Como vai indo com a outra?
Tão fácil, não? — basta um impulso
no remo — com a orla, a minha
imagem se borra, se afasta,

vira ilha flutuante (no céu,
— na água, não!).

Alma e alma,
irmãs, sim — mas, amantes, não!
Uma é destino; outra — sem fim!


Que tal viver com tal pessoa
comum — vida sem divindades?
Jogou do trono-olimpo a deusa-
rainha, abdicou — e a coroa


de sua vida, como fica?
Ao despertar, como pagar
o preço de imortal banal-
idade — como? Menos rica?


“Chega de susto e suspeita!
Quero um lar!.” Mas... e a vida
só — com uma mulher qualquer —
Você — eleito de uma eleita?


Ah... e a comida? Apetitosa?
Você se queixa quando enjoa?
Depois do topo do Sinai,
ir conviver com uma à-toa


da parte baixa da cidade,
uma coitada? Gostou da anca?
O açoite-vergonha de Zeus
ainda não vincou-lhe a estampa?


Viver com uma boneca de gesso
— de feira!? Você me acha cara?
Depois de um busto de Carrara,
um susto de papier-mâché?


(O deus que eu escavei de um bloco
só me deixou os ocos.) Enleva
viver com uma igual a mil,
quem já teve a Lilit primeva?


Não lhe matou a fome a boa
bisca, que atendeu aos pedidos?
Como viver com a simplória,
que só possui cinco sentidos?

Enfim, por fim... você é feliz,
no sem-fundo dessa mulher?
Pior, melhor, igual a mim,
nos braços de um outro qualquer?


Marina Tsvietáieva (1892/1941)
Tradução de Décio Pignatari

segunda-feira, agosto 14, 2006

Justen na Cabeça




Amanhã, dia de Marte, hora de Mercúrio, no Porão Loquax (Wonka, Rua Trajano Reis, 362), a Eloqüência "Juvenil" (entre aspas porque discordo) do poeta Ivan Justen Santana.

Ivan é um cara ímpar, sempre só. Sempre bem acompanhado. Uma figura rápida e calada, que não perde tempo com bobagens, comentários previsíveis sobre a vida. Tem cara de tigre e é um gato. Sua sacada (felina) é pontual, seja nos poemas de própria lavra, seja nas recriações-traduções. Ataca e não deixa restos. É um dos melhores poetas da nova geração. E já que Ivanzinho vai dar o que falar, se eu fosse você não perdia o momento histórico. Chegue antes da 23h. Mais informações, no blog Relaxando Furiosamente.


Zoe
p.s.: Foto roubada do Íntima Loucura. Grata pelo empréstimo, Priscila.
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

Um Poema do Ivan:


a dor que agora dói ne mim
a dor que agora dói ne mim
não é qualquer dorzinha assim

a dor que agora dói ne mim
não é qualquer riminhazinha que dá fim

a dor que agora dói ne mim
não dá pra te explicar timtim por timtim

a dor que agora dói ne mim
não some nem com pó de pirlimpimpim

a dor que agora dói ne mim
não é por te saber tão perto e longe enfim

não é por tantos nãos e im
perfeições que escrevo aqui

talvez então seja porque
eu hoje não ouvi

não compreendi
pedi pra você repetir

sentindo a dor que agora dói ne mim
na palavrinha que você me disse sim


Ivan Justen Santana

domingo, agosto 13, 2006

À Rita




A Rita levou meu sorriso
No sorriso dela
Meu assunto
Levou junto com ela
E o que me é de direito
Arrancou-me do peito
E tem mais
Levou seu retrato, seu trapo, seu prato
Que papel!
Uma imagem de são Francisco
E um bom disco de Noel

A Rita matou nosso amor
De vingança
Nem herança deixou
Não levou um tostão
Porque não tinha não
Mas causou perdas e danos
Levou os meus planos
Meus pobres enganos
Os meus vinte anos
O meu coração
E além de tudo
Me deixou mudo
Um violão


Chico Buarque
1965


..........................................

A última vez que encontrei Rita Pavão foi na esquina da Senador Alencar Guimarães com a Emiliano Perneta. Estávamos as duas com pressa, mas conversamos um pouco. Gostei muito de reencontrar a fera. Fiz jazz com ela durante um tempo - não era bolinho. Uma professora exigente que, um dia, me disse: - "Escuta, pára de tentar gravar a coreografia com a cabeça. O corpo tem memória, deixa ela funcionar". Como um passe de mágica, funcionou.
Ontem, uma amiga chegou aqui em casa e me contou que Rita se foi. Procuramos até cansar no Google alguma nótícia mas o Paraná Online me sacaneou. Sem chance. Tinha visto uma foto dela há dois dias no blog do Solda e pensei comigo: - olha aí a Rita. Mal sabia que era uma homenagem do cartunista à bailarina.
Bem, Rita encerrou seus assuntos no dia primeiro de agosto de 2006, dando início ao mês do cachorro louco. E com certeza levou consigo o sorriso de muita gente.

Zoe

quinta-feira, agosto 10, 2006

TAPA NA PANTERA



Visitando meus links "amigos", achei um vídeo genial na página POESILHA do Marcelo Sahea. Imperdível, o tapa na pantera.
Recomendo que vocês acionem o play, abaixem o som, e depois de um tempinho retornem. Demora pra carregar mas vale a pena. E depois aumentem o som, é óbvio...
besos,
Zoe

segunda-feira, agosto 07, 2006



Árvore adentro


Cresceu em minha fronte uma árvore.
Cresceu para dentro.
Suas raízes são veias,
nervos suas ramas,
Sua confusa folhagem pensamentos.
Teus olhares a acendem
e seus frutos de sombras
são laranjas de sangue,
são granadas de luz.
_________________Amanhece
na noite do corpo.
Ali dentro, em minha fronte,
a árvore fala.
________________Aproxima-te. Ouves?


Octavio Paz
Tradução de Antônio Moura

sábado, agosto 05, 2006


ESCRITO COM TINTA VERDE


A tinta verde cria jardins, selvas, prados,
folhagens onde gorjeiam letras,
palavras que são árvores,
frases de verdes constelações.

Deixa que minhas palavras, ó branca, desçam e te cubram
como uma chuva de folhas a um campo de neve,
como a hera à estátua,
como a tinta a esta página.

Braços, cintura, colo, seios,
fronte pura como o mar,
nuca de bosque no outono,
dentes que mordem um talo de grama.

Teu corpo se constela de signos verdes,
renovos num corpo de árvore.
Não te importe tanta miúda cicatriz luminosa:
olha o céu e sua verde tatuagem de estrelas.


Octavio Paz
Libertad bajo palabra
Tradução de Haroldo de Campos


:: Poison Ivy, ou Hera Venenosa: Uma botânica bastante promissora, a jovem Pamela Isley acabou se envolvendo sem querer na vida criminosa. Durante um roubo, foi traída e envenenada por seu companheiro. Mas o veneno - extraído de substâncias tiradas de plantas - se uniu ao seu organismo e desenvolveu imunidade a qualquer veneno. Em compensação, ela acabou enlouquecendo e deixando levar-se por uma vida criminosa como Hera Venenosa. Ao passar dos anos, criou uma ligação com as plantas e conseguiu produzir monstros a partir delas. Ultimamente age mais como aliada (por interesses dela), mas Batman sempre tem um pé atrás com a vilã.
TRANSBLANCO
(terceiro fragmento)



no muro a sombra do fogo_______chama rodeada de leões
no fogo tua e minha sombras_____leoa no círculo das chamas
_____________________________alma animando sensações

o fogo te ata e desata
Pão Graal Áscua_____________frutos de fogos-de-bengala
_____________Mulher________os sentidos se exabrem
teu riso — nua_______________na noite magnética
entre os jardins da chama
___________Paixão de brasa compassiva



Octavio Paz
Blanco, 1966
Translatio


a chamada nébula Caranguejo
uma costelação de reversos
na desgaláxia dos buracos negros

ou a órbita excêntrica de Plutão
meditada em Austin Texas
num party em lavaca Street

tomei mescalina de mim mesmo
e passei esta noite em claro
traduzindo "Blanco" de Octavio Paz


Haroldo de Campos, 1981

..............

Ainda me supreendem algumas"coincidências". Depois de postar os poemas cancerianos numa lan house em São Paulo, volto para Curitiba e me cai no colo o livro Transblanco de Octavio Paz, transcriado por Haroldo de Campos. O trecho acima é escrito por Haroldo em missiva para o poeta mexicano, que responde o seguinte:

"Recebi seu breve poema, escrito depois de ter traduzido "Blanco" sob a antiluz da nebulosa de Câncer, na órbita excêntrica de Plutão, iluminado pela única mescalina que nos faz transpassar o buraco negro da antigaláxia: a mescalina que produz o cérebro do poeta numa noite de insônia e criação. Um dia se descobrirá que, assim como há cores com luz própria que iluminam a escuridão interplanetária sem necessidade de sóis e estrelas - conforme acreditavam Bruno e Duchamp -, também há escrituras que brilham em plena noite (...)"
Se Achante


Era um caranguejo muito se achante.
Ele se achava idôneo para flor.
Passava por nossa casa
Sem nem olhar de lado.
Parece que estava montado num coche
de princesa.
Ia bem devagar
Conforme o protocolo
A fim de receber aplausos.
Muito se achante demais.
Nem parou para comer goiaba.
(Acho que quem anda de coche não come
goiaba.)
Ia como se fosse tomar posse de deputado.
Mas o coche quebrou
E o caranguejo voltou a ser idôneo para
Mangue.

Manoel de Barros
p.s.: isso é que é um canceriano com ascendente em Leão, bom não esquecer. E viva o retorno ao mangue, ou melhor, à velha e doce Curitiba de Todos os Pântanos.

terça-feira, julho 25, 2006



Pequena ilha ao leste do mar
Brinco à luz da areia com um caranguejo
A face molhada de lágrimas.


Takuboku Ishikawa
Tankas
Trad. de Masuo Yamaki e Paulo Colina
A Concha Verde de um Caranguejo


Não exatamente verde:
mais para o bronze
preservado em boa salmoura,

alguma coisa recobrada
de naufrágio greco-romano,
patinada e estranhamente

muscular. Não podemos
saber como suas fantásticas
pernas foram –

embora evidências
sugiram oito
complexas, dobráveis

e velozes obras
de armamento, coroadas
pelas garras dianteiras

em gesto de ameaça
e poder. Uma gaivota
devorou seu centro,

deixando esta cavidade
– tamanho de meia-taça –
aberta para revelar

surpreendente azul de Giotto.
Embora recenda
a algas e ruínas,

este pequeno escrínio navegante
vem com tal profuso forro!
Imagine-se respirar

rodeado pela
brilhante exaguadura
de firmamento no verão.

De que cor é
o avesso da pele?
Nada mal se ao morrer

pudéssemos ser abertos
até isto –
se as menores cavidades

de nós mesmos,
similarmente,
revelassem algum céu.


Mark Doty
Trad. de Heleno Godoy


..................................

O CARANGUEJO


Ele diz não com a cabeça
mas diz sim com o coração.
Ele diz sim só ao que ama
mas diz não ao professor.
Está de pé e o interrrogam
mas são problemas demais.
Morre de rir - de repente -
e apaga tudo o mais:
os algarismos e os nomes
as datas e as palavras
e as frases de emboscada.
O professor o ameaça
sob a vaia dos meninos
( os geniozinhos da classe)
mas ele, ele trabalha:
com giz de todas as cores
no quadro-negro das dores
desenha o rosto da felicidade.

Jacques Prevért
Tradução de Maria do Carmo Ferreira


LE CANCRE


Il dit non avec la tête
mais il dit oui avec le coeur
il dit oui à ce qu’il aime
il dit non au professeur
il est debout
on le questionne
et tous les problèmes sont posés
soudain le fou rire le prend
et il efface tout
les chiffres et les mots
les dates et les noms
les phrases et les pièges
et malgré les menaces du maître
sous les huées des enfants prodiges
avec des craies de toutes les couleurs
sur le tableau noir du malheur
il dessine le visage du bonheur.

Jacques Prevért

p.s.: Le cancre, o caranguejo, em linguagem familiar,
designa também o menino preguiçoso ou vadio.
O caranguejo


O terrível caranguejo que devora
seios, pâncreas, próstatas,
afunda suas patas de insistência fixa
em um grande útero de plástico.
Destino limitado, pois não tem
carne de sua escolha para morder,
água potável ou sangue.

Talvez não se tenha querido
oferecer todo o quadro.
O Zôo, no entanto,
mostra o principal, nem mais nem menos
que em outras capitais importantes.

À direita, junto ao gângster.



NICOLÁS GUILLÉN
Trad.Marcelo Tápia


.............................................

Caranguejola


Ah, que me metam entre os cobertores,
e não me façam mais nada!...

Que a porta do meu quarto fique sempre fechada
que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...

Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...

Façam apenas com que eu tenha sempre ao meu lado
bolos de ovos e uma garrafa de madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.

Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...

Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?

Não fui feito pra festas. Larguem-me!

Deixem-me sossegar...

Noite sempre pelo meu quarto. As cortinas corridas, e eu aninhado a dormir, bem quentinho – que amor!...

Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor pelo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas.

Se me doem os pés e não sei andar direito,
pra que ei de teimar em ir para as salas, de Lord?

Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?

E quem posso eu esperar, com minha delicadeza?...

Deixa-te de ilusões, Mário! Bom edredon, bom fogo
e não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.

Pra que hei de então andar aos tombos, numa inútil correria?

Tenham dó de mim.

Co'a breca! Levem-me pra enfermaria!

Isto é, pra um quarto particular que o meu pai pagará; justo. Um quarto de hospital, higiênico, todo branco, moderno e tranqüilo; em Paris é preferível, por causa da legenda...

Daqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda; e depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas–feiras, se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.

Agora no meu quarto é que não entras, mesmo com as melhores maneiras...

Nada a fazer, minha rica. O menino dorme.

Tudo o mais acabou.


Mário de Sá-Carneiro
O nativo de câncer
(fragmento)


Tessitura do arcano, equipagem noturna,
alva rede balança. Juramento nem lei
a ligam à pátria. Cordas e fronteiras
não a prendem:

Esta é Tisbe,
onde as pombas adejam ruidosas.
Esta Eleusis,
de Ceres e de Mário a mais amada.

E, grudado ao negro cabrestame, equinócios
de visgo, luas, peixes, nas quilhas
dessa rede itinerante.

Ó Alcino, sogro e rei, às tuas praias
de perenes lembranças retornei,
pois, se das águas salvo fui um dia,
das voragens do amor não me salvei,
e nessa nau que vês, nutriz de sonhos,
a Óbidos, aos deuses consagrada,
a inupta consorte levarei.
E dois agora somos nesse barco,
mas, se a Circe somarmos somos três.

Ruy Barata
(1920-1990)

terça-feira, julho 11, 2006

casamento de viúva




você não via que eu chorava porque chovia
aquele não sei o quê que eu gaguejei
era tudo que eu conseguia

a chuva molhou o que eu quase disse
você teria dito o que eu deveria dizer
se o seu guarda-chuva não se abrisse

lembro só da chuva quando caia
me olhava por dentro e havia sol
enquanto aqui fora chovia


T.Wojciechowski e M. Prado

domingo, julho 09, 2006

Traquinagem Colossal



Tremendo cara-de-pau, esse tal de Cupido. E tremendo, quem não fica quando ele se aproxima? Atena larga seu escudo, Ártemis resolve ir morar na cidade grande, Afrodite surta - não há quem não tema o poder do garoto mimado. Se emburrece até os deuses... e ainda faz essa carinha linda, muito pior que a do gatinho-de-botas do Shrek.

Padre Antônio Vieira procura esclarecer. Mas não adianta nada.

............

(...) no Mundo e entre os homens, isto que vulgarmente se chama amor, não é amor, é ignorância. Pintaram os Antigos ao amor menino; e a razão, dizia eu o ano passado, que era porque nenhum amor dura tanto que chegue a ser velho. Mas esta interpretação tem contra si o exemplo de Jacob com Raquel, o de Jonatas com David, e outros grandes, ainda que poucos. Pois se há também amor que dure muitos anos, porque no-lo pintam os sábios sempre menino? Desta vez cuido que hei-de acertar a causa. Pinta-se o amor sempre menino, porque ainda que passe dos sete anos, como o de Jacob, nunca chega à idade de uso da razão. Usar de razão e amar, são duas cousas que não se juntam. A alma de um menino que vem a ser? Uma vontade com afetos e um entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém teve a vontade febricitante, que não tivesse o entendimento frenético. O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar se é amor. Nunca o fogo abrasou a vontade, que o fumo não cegasse o entendimento. Nunca houve enfermidade no coração, que não houvesse fraqueza no juízo. Por isso os mesmos pintores do amor lhe vendaram os olhos. E como o primeiro efeito ou a última disposição do amor, é cegar o entendimento, daqui vem que isto que vulgarmente se chama amor tem mais partes de ignorância; e quantas partes tem de ignorância, tantas lhe faltam de amor. Quem ama porque conhece, é amante; quem ama porque ignora é néscio. Assim como a ignorância na ofensa diminui o delito, assim no amor diminui o merecimento. Quem, ignorando, ofendeu, em rigor não é delinquente; quem, ignorando, amou, em rigor não é amante.

Pe. Antonio Vieira
Sermão do Mandato, 1645


psiu: o som que eu escolhi, se quiser escutar, taí no cantinho.
é o thadeu cantando, a letra é dele e do marcos.

EM MEU OFÍCIO OU ARTE TACITURNA






Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.


Dylan Thomas
tradução de Ivan Junqueira

sábado, julho 08, 2006




sintaxe-me


rima um poema de me amar
cisma comigo
não me bar, não me linhe, não me areie,

do último ao íntimo
índigo

um poema de me amar

me
mínima

imescuidamente
harmônica


Z>o>e

quinta-feira, junho 29, 2006



A poesia



Essa angústia de fazer o melhor,
Essa saudade daquilo que não tive,
Um bom poema sempre sabe decor,
Na ponta da língua, o som que o motive

A fazer da dor apenas um out-door,
Onde em letras garrafais sobrevive
Toda emoção feita de sangue, suor
E lágrimas, que o coração exige,

Pra se sentir vivo dentro do peito.
Mas se o poema não diz a que veio
Então não deveria nem ter nascido,

Já que a alma, espelho da beleza,
Não será, não é e nem terá sido
A expressão real da sua natureza!

segunda-feira, junho 26, 2006



Sempre adorei fazer aniversário. Acordava na hora em que nasci, feliz feliz feliz. Um dia me achando o máximo, de verdade. Presentes bem vindos, mas tanto fazia se vermelho ou azul. Era meu aniversário e ponto. Hoje foi diferente. Sonhei com meu único desejo. Deixei passar a hora certa. Não fui arrumar as madeixas, não fiz as unhas, dormi até a hora que pude, querendo agarrar o sonho pelo cabelo. Mas os cabelos do sonho são feitos de pequenos chicotes imateriais - quando existem. Incontroláveis, como todos os desejos. Tomei meu café, atendi telefonemas, abri minha caixa postal. Tenho amigos. Tudo conspira. Ganhei uma segunda-feira bonita, ao abrir a janela. Curitiba de bom humor. O gatinho amarelo está mais afável, dorme agora no meu colo como um novelo. Com o que sonha? O iogurte na geladeira acabou, o que não é bom. A casa está uma bagunça e eu vou enfrentar o shopping. Não há como escapar do Natal, do Ano Novo. Hoje, quis escapar do meu dia, mas não está dando certo. O mundo me ama, vou ter que parar de fazer birra.

Sou obrigada a ser feliz. Minha e feliz.


26.06.06

sábado, junho 17, 2006





Não te queria quebrada pelos quatro elementos.
Nem apanhada apenas pelo tacto;
ou no aroma;
ou pela carne ouvida, aos trabalhos das luas
na funda malha de água.
Ou ver-te entre os braços a operação de uma estrela.
Nem que só a falcoaria me escurecesse como um golpe,
trêmulo alimento entre roupa
alta,
nas camas.
________________Magnificência.
________________________________Levantava-te
em música, em ferida
- aterrada pela riqueza -
a negra jubilação. Levantava-te em mim como uma coroa.
Fazia tremer o mundo.
E queimavas-me a boca, pura
colher de ouro tragada
viva. Brilhava-te a língua.
Eu brilhava.
Ou que então, entrecravados num só contínuo nexo,
nascesse da carne única
uma cana de mármore.
E alguém, passando, cortasse o sopro
de uma morte trançada. Lábios anônimos, no hausto
de árdua fêmea e macho
anelados em si, criassem um órgão novo entre a ordem.
Modulassem.
E a pontadas de fogo, pulsavam os rostos, emplumavam-se.
Os animais bebiam, ficavam cheios da rapidez da água.
Os planetas fechavam-se nessa
floresta de som unânime
pedra. E éramos, nós, o fausto violento, transformador
da terra

Nome do mundo, diadema.



Herberto Helder

segunda-feira, junho 12, 2006





Conversar


Em um poema leio:
Conversar é divino.
Mas os deuses não falam:
fazem, desfazem mundos
enquanto os homens falam.
Os deuses, sem palavras,
jogam jogos terríveis.

O espírito baixa
e desata as línguas
mas não diz palavra:
diz luz. A linguagem
pelo deus acesa,
é uma profecia
de chamas e um desplume
de sílabas queimadas:
cinza sem sentido.

A palavra do homem
é filha da morte.
Falamos porque somos
mortais: as palavras
não são signos, são anos.
Ao dizer o que dizem
os nomes que dizemos
dizem tempo: nos dizem,
somos nomes do tempo.
Conversar é humano.


Octavio Paz
tradução de Antônio Moura

quinta-feira, junho 01, 2006

Sou Lexossexual Sim, e daí?



LEXO-SEXO MANIFESTO



lero-lero é tudo no lexo-sexo /

toda letra fará diferença /

lexo-sexo, só com teclas /

disléxicos serão discriminados /

lexossexuais só se comprometem com uma idéia perdida /

metalexossexuais serão bem vindos, mas entre /(entre o ouro e a prata, o cobre)

economia com garra (s) /

lexossexuais, ao alimentar-se, alargam-se nos gestos /

(um) lexossexual (bêbado) sabe que a obra prima de hoje é o lixo de amanhã /

todo bom lexossexual sabe dar sardelas /

o silêncio só será entre sílabas /

entre as letras não há silêncio /

a verdade é única, mas não necessária /

a língua é lingua, substância e abstrata /

lexossexual e lexotan não se bicam /

há controvérsias /

as papilas gustativas serão sinapses /

e a oposição, desconsiderada /

excesso de lexo-sexo causa LER
mas o contrário não se sustenta.


..................................

se você não entendeu, não é lexossexual

. (ponto)


Zoe de Camaris
psiu! a idéia é minha mas algumas figuras engraçadas ajudaram.
créditos, depois.

segunda-feira, maio 29, 2006





FORMAS DO NU (I)


A aranha passa a vida
tecendo cortinados
com o fio que fia
do seu cuspe privado.

Jamais para velar-se:
e por isso são ralos.
Para enredar os outros
é que usa enredados.

Ela sabe evitar
que a enrede seu trabalho,
mesmo se, dela mesma,
o trama autobiográfico.

E em muito menos tempo
que tomou em tramá-lo,
o véu que não a velou
aí deixa, abandonado.


João Cabral de Melo Neto

sexta-feira, maio 26, 2006




Tua casinha branca, teu tranqüilo jardim abandonarei.

Minha vida passará a ser solitária e radiosa.

Mas a ti, a ti eu celebrarei em meus versos,

como mulher alguma jamais fez.

Tu, querido, relembrarás a tua amada

no paraíso que criaste para os olhos dela.

Enquanto isso, eu comercio esses tesouros:

teu amor, tua ternura, vou vendê-los.



Anna Akhmatova
1913

segunda-feira, maio 22, 2006


Idéia de chuva


Segunda-feira, vinte e dois de maio,
Curitiba amanheceu de cara azeda.
Frio, é hoje que de casa eu não saio,
E, pra esse frio com chuva, a receita

É fazer o que me der na veneta.
Está bom pra escrever, não dá trabalho,
É só sentar a bunda na banqueta
E algo acontece quando me distraio!

Um bom poema cai do céu como um raio,
Dá pra ver quando o poeta tem estrela.
A idéia, por incrível que pareça,

Surge do nada, vem, bate de estalo,
Se ajusta à palavra que a esclareça
E pronto, está feito o estrago!


Antonio Thadeu Wojciechowski
o polaco da barreirinha
e beijo AA força, aqui e lá, pra esquentar

sexta-feira, maio 19, 2006


anna akhmátova posando para modigliani



Falou que não há outra igual. Que sou

Mulher de alguma espécie nunca vista

No duro inverno, a terna luz do sol,

Canção selvagem que a mãe-terra incita.

Mas eu morrer não vai cair em pranto

Nem desvairado, gritar:"Ressuscita!"

De súbito vai ver que não há vida

Para o corpo sem sol, a alma sem canto.

...E aí, como fica?



Anna Akmátova

tradução de Augusto de Campos
e André Vallias.

quarta-feira, maio 17, 2006



KLIMT / The Expectation

SONETO DE OUTONO


O teu olhar me diz, claro como cristal:
“Bizarro amante, o que há em mim que mais te excita?”
- Sê bela e cala! O meu coração, que se irrita,
Por tudo, exceto a antiga candura animal,

Não te quer revelar seu segredo infernal,
Embalo cuja mão a um longo sono incita,
Nem a sua negra lenda a ferro e fogo escrita.
Abomino a paixão e a alma me faz mal!

Amemo-nos em paz. Amor, numa guarida,
Tenebroso, emboscado, entesa o arco fatal.
Conheço-lhe os engenhos do velho arsenal:

Crime, horror e loucura! - Ó branca margarida!
Não serás tu, como eu, triste sol outonal,
Ó minha branca, ó minha branca Margarida?


Charles Baudelaire
tradução de Ivan Junqueira

terça-feira, maio 09, 2006




Poema do diário de Frida Kahlo


Diego. princípio
Diego. construtor
Diego. meu bebê
Diego. meu noivo
Diego. pintor
Diego. meu amante
Diego. meu marido
Diego. meu amigo
Diego. meu pai
Diego. minha mãe
Diego. meu filho
Diego. eu
Diego. universo
Diversidade na unidade.

Porque é que lhe chamo Meu Diego?
Ele nunca foi e nem será meu.
Ele pertence a si próprio.

1944
p.s.: em ZOE TAROT , mais sobre Frida Kahlo.

quarta-feira, maio 03, 2006


A PALAVRA SEDA


A atmosfera que te envolve
atinge tais atmosferas
que transforma muitas coisas
que te concernem, ou cercam.

E como as coisas, palavras
impossíveis de poema:
exemplo, a palavra ouro,
e até este poema, seda.

É certo que tua pessoa
não faz dormir, mas desperta;
nem é sedante, palavra
derivada da de seda.

E é certo que a superfície
de tua pessoa externa,
de tua pele e de tudo
isso que em ti se tateia,

nada tem da superfície
luxuosa, falsa, acadêmica,
de uma superfície quando
se diz que ela é “como seda”.

Mas em ti, em algum ponto,
talvez fora de ti mesma,
talvez mesmo no ambiente
que retesas quando chegas,

há algo de muscular,
de animal, carnal, pantera,
de felino, da substância
felina, ou sua maneira,

de animal, de animalmente,
de cru, de cruel, de crueza, que sob a palavra gasta
persiste na coisa seda.


João Cabral de Melo Neto
Quaderna, 1956-1959