sexta-feira, agosto 06, 2004

NUT




Negra e inalterada
Por trás das grades
Lembro
Não era mais um olhar
Era uma idéia

Rainer Maria Rilke




Além da sombra projetada até perder-se nas árvores estendia-se o tapete da noite. O manto da pantera cobria o céuveludo, sinais de orvalho e prata no mais absoluto silêncio. Dona da Terra, andava tomando o mundo.

Eu era criança. O maciço das barras frias tocando o nariz - devo ter chegado muito perto. Um estreito fio de limo nos separava, conseguia me debruçar. Retornei várias vezes, hipnotizada. As pegadas fotografadas na retina. Não sentia medo, nenhum medo. É desnecessário acovardar-se frente a uma rainha.

Quando não ia vê-la Nut dava um jeito de aparecer. Quimera, surgia em papel-origami ou ainda negra e metálica habitando casas de vidro. Ignorava solenemente as correntes que confundiam-lhe as patas, brilhando à luz difusa do sol. Rugia, e tudo vibrava.

É quando paraliso. Se aproxima e lança em minha anca uma cabeçada amigável - meu coração pensa em sair pela boca (é uma rainha). Respiro fundo, fecho os olhos. Ela rosna em círculos, desequilibrando-me com seus carinhos de pantera. Sinto as presas no dorso da mão esquerda e estremeço. Morde e inocula um veneno suave. Mergulha sob a pele num sussurro rouco, elétrico. Agora é pequena, pequenina. Se move pelas veias, sinuosa. Nut passeia dentro de mim. Arrebenta minha pele. Acaricio o pêlo úmido como quem toca um simulacro do manto celeste. E sente choques na ponta dos dedos quando passa uma estrela.

Às vezes, vem rasgando. É maior do que minha alma e se projeta com violência na parede exigindo comida. Está nervosa. Ameaça-me com o pó negro da morte, abisma precipícios, ruge assombrosamente. Se não há alimento, eletrifica o sangue em feixes de dores moventes e lágrimas. Dócil, danço para a deusa, como faziam as sacerdotisas da Lua e Plutão.

Se desaparece por muito tempo fico atenta. Ou está muito perto ou muito longe. Saudosa, deito fumaças no espelho de obsidiana e estendo a pele de lebre branca aos seus pés. Deposito suas relíquias e me demoro em pensar-lhe o rastro em transe.

Numa noite de chuva Nut voltou. Deitou-se cansada ao meu lado. Contou-me de suas andanças, das caçadas, o mundo canino lá fora. Queria alento e companhia. Perguntei-lhe sobre seu coração e ela rosnou sonolenta, aninhando-se no meu colo. Os batimentos, o peso da pata sobre o meu ombro, as vibrissas. Acaricio seus flancos e observo minha pantera dormindo. Seu perfume é doce. Algo mudou, os movimentos prenhes de filhotes. Calo meus pensamentos. E os vejo habitando o quarto, derrubando o vaso de rosas, a cortina azul arranhada. Crianças.

Naquela manhã, Nut não estava mais. Nut nunca mais voltou. Por algum motivo que desconheço a lembrança não me desola. Reconheço seu perfume quando meu corpo vibra, reconheço suas patas ao correr apressada, reconheço os dentes e as cicatrizes. Farejo vítimas com facilidade. Se me aborreço, ela salta-me aos olhos e agita meus músculos, esticando a espinha dorsal.

Então, volto a dançar.


Zoe de Camaris

2 comentários:

Rosa disse...

Zoe:

Tenho uma atracção enorme por Nut a deusa do céu egipcio e achei extraordinário este seu texto, mas nunca tinha associado Nout a uma pantera...
Me conte...

Um abraço

Rosa Leonor
Tenho um poema com o nomem de Nut...

Zoe de Camaris disse...

oi Rosa,

que honra receber a sua visita ! quem diria que um dia eu teria um blog e vc viria me visitar...fico super feliz. olha, eu conheci essa pantera na infância, no zoo. e quando comecei a lembrar dela com mais insistentência, foi esse o nome que me veio à cabeça.
pelo que sei, nada relaciona a deusa Nut aos felinos.
gostaria de conhecer seu poema. manda pra mim?

beso