Quinta-feira, Julho 30, 2009
Terça-feira, Junho 30, 2009
O ADEUS DA PANTERA

de Mário Bortolotto
Michael Jackson morreu. Tá certo. Ele era realmente um gênio. Talentoso pra caralho e o escambau. Mas na verdade nunca me interessou. Fora uma música ou outra do Jackson Five e do começo da carreira solo, nada do que ele fez me chamava a atenção. Acho o disco "Thriller" chato pra caralho, como aliás acho aquela época toda muito chata. Mas em nenhum momento estou aqui questionando a qualidade do cara. Ele era realmente bom pra caralho. Assim como acho Guimarães Rosa um gênio, só que eu não tenho saco pra ler Guimarães Rosa. Eu não tenho que ler tudo que é bom. Já disse por aqui, e fui muito criticado por isso, que tenho referenciais definidos e interesses definitivos. Posso ser fã de muita coisa do Sylvester Stalone, por exemplo, mas não suporto Pasolini. E com isso estou querendo dizer que Stalone é melhor que Pasolini? De maneira nenhuma. Só estou dizendo que prefiro assistir "Rambo 1" por exemplo, a ver qualquer coisa do Pasolini, só isso. Em resumo, me interessa muito mais ver o soldado John Rambo fazendo o xerife Will Teasle mijar nas calças a ver um bando de jovens comendo merda na suposta crítica ao fascismo de Saló. Então quero deixar claro que acho o Michael fodaço, mas que ele nunca me interessou. Só tenho em casa um compacto do começo de carreira e um MP3 do Jackson Five. E tá bom pra caramba.
Mas a Farrah Fawcett morreu. E essa sim foi muito importante pra mim. Eu tinha um poster na parede do meu quarto, que aliás eu dividia com meu irmão e depois com minha irmã. O quarto, não o poster. Esse era só meu, caramba. Mas o poster ficou lá na parede durante muito tempo. Assistia "As Panteras" só pra ver aquela loura magnífica em ação. Depois descobri que ela era esposa do Lee Majors (O Homem de 6 milhões de dólares) e confesso que tinha um certo cíume dele. Raciocinava assim: Como é que eu posso competir com um cara de 6 milhões de dólares? Logo eu, que não tenho sequer uma grana pra comprar uma tubaína? Aí eu ia junto com os outros coroinhas lavar o salão paroquial e então o padre dava uma grana e a gente ia até o boteco do seu Manoel e comprava tuba-cola e coxinha (sempre as famigeradas coxinhas). E eu nunca conseguia guardar nenhum dinheiro. Sendo assim, jamais poderia me equiparar ao sujeito que valia 6 milhões de dólares. Então ontem quando fiquei sabendo que Farrah Fawcett tinha morrido, foi como se um pedaço de minha infância tivesse morrido também. Uma infância singela e mais ou menos sacana, de um tempo que era possível imaginar que Farrah Fawcett estava na esquina da rua de nossa casa. O Marcelo Montenegro me disse ontem que a sua pantera preferida era a Kate Jackson. Eu sou mais óbvio que o Marcelo. Eu queria a Farrah Fawcett que pra mim só conseguiu ser substituída pela Adele Fátima de "Histórias que as nossas babás não contavam". Sem essa de Cheryl Ladd. Isso sim que é trocar a loira pela mulata. Mas eu nunca esqueci Farrah Fawcett. Nem quando gamei na Sandrinha, minha primeira paixão. Eu não conseguia tirar a Farrah da parede do meu quarto. Achava que a Sandrinha tinha obrigação de entender. E dessa vez, ela finalmente vai cair lentamente de lá, daquela parede de tábuas velhas pintadas de azul. Minha irmã finalmente vai se ver livre da visão daquela loura espetacular. Acho que hoje Fausto Fawcett (porque você acha que esse é o nome dele?) e eu estamos muito tristes. E ninguém vai nos tirar a razão. Tô até ouvindo o tema do seriado na minha cabeça nesse momento e aquele malaco do Charlie falando alguma merda. Boa noite, Farrah. Você nunca foi menos que impressionante.
Michael Jackson morreu. Tá certo. Ele era realmente um gênio. Talentoso pra caralho e o escambau. Mas na verdade nunca me interessou. Fora uma música ou outra do Jackson Five e do começo da carreira solo, nada do que ele fez me chamava a atenção. Acho o disco "Thriller" chato pra caralho, como aliás acho aquela época toda muito chata. Mas em nenhum momento estou aqui questionando a qualidade do cara. Ele era realmente bom pra caralho. Assim como acho Guimarães Rosa um gênio, só que eu não tenho saco pra ler Guimarães Rosa. Eu não tenho que ler tudo que é bom. Já disse por aqui, e fui muito criticado por isso, que tenho referenciais definidos e interesses definitivos. Posso ser fã de muita coisa do Sylvester Stalone, por exemplo, mas não suporto Pasolini. E com isso estou querendo dizer que Stalone é melhor que Pasolini? De maneira nenhuma. Só estou dizendo que prefiro assistir "Rambo 1" por exemplo, a ver qualquer coisa do Pasolini, só isso. Em resumo, me interessa muito mais ver o soldado John Rambo fazendo o xerife Will Teasle mijar nas calças a ver um bando de jovens comendo merda na suposta crítica ao fascismo de Saló. Então quero deixar claro que acho o Michael fodaço, mas que ele nunca me interessou. Só tenho em casa um compacto do começo de carreira e um MP3 do Jackson Five. E tá bom pra caramba.
Mas a Farrah Fawcett morreu. E essa sim foi muito importante pra mim. Eu tinha um poster na parede do meu quarto, que aliás eu dividia com meu irmão e depois com minha irmã. O quarto, não o poster. Esse era só meu, caramba. Mas o poster ficou lá na parede durante muito tempo. Assistia "As Panteras" só pra ver aquela loura magnífica em ação. Depois descobri que ela era esposa do Lee Majors (O Homem de 6 milhões de dólares) e confesso que tinha um certo cíume dele. Raciocinava assim: Como é que eu posso competir com um cara de 6 milhões de dólares? Logo eu, que não tenho sequer uma grana pra comprar uma tubaína? Aí eu ia junto com os outros coroinhas lavar o salão paroquial e então o padre dava uma grana e a gente ia até o boteco do seu Manoel e comprava tuba-cola e coxinha (sempre as famigeradas coxinhas). E eu nunca conseguia guardar nenhum dinheiro. Sendo assim, jamais poderia me equiparar ao sujeito que valia 6 milhões de dólares. Então ontem quando fiquei sabendo que Farrah Fawcett tinha morrido, foi como se um pedaço de minha infância tivesse morrido também. Uma infância singela e mais ou menos sacana, de um tempo que era possível imaginar que Farrah Fawcett estava na esquina da rua de nossa casa. O Marcelo Montenegro me disse ontem que a sua pantera preferida era a Kate Jackson. Eu sou mais óbvio que o Marcelo. Eu queria a Farrah Fawcett que pra mim só conseguiu ser substituída pela Adele Fátima de "Histórias que as nossas babás não contavam". Sem essa de Cheryl Ladd. Isso sim que é trocar a loira pela mulata. Mas eu nunca esqueci Farrah Fawcett. Nem quando gamei na Sandrinha, minha primeira paixão. Eu não conseguia tirar a Farrah da parede do meu quarto. Achava que a Sandrinha tinha obrigação de entender. E dessa vez, ela finalmente vai cair lentamente de lá, daquela parede de tábuas velhas pintadas de azul. Minha irmã finalmente vai se ver livre da visão daquela loura espetacular. Acho que hoje Fausto Fawcett (porque você acha que esse é o nome dele?) e eu estamos muito tristes. E ninguém vai nos tirar a razão. Tô até ouvindo o tema do seriado na minha cabeça nesse momento e aquele malaco do Charlie falando alguma merda. Boa noite, Farrah. Você nunca foi menos que impressionante.
Quarta-feira, Junho 03, 2009

O POETAÇO E O POETENTO
O poetaço e o poetento
trombaram (que susto!) um com o outro –
o verbo veio violento
à boca do que era o mais douto:
“Eu faço, eu verso, eu aconteço
e esse universo vai ver só:
reconheces não haver preço
em meu cantar de tom tão só?”
O mais humilde, nojentinho,
viu fim no meio do caminho
e disse ao vizinho, mesquinho:
“Não, não beberei deste vinho
passado que você fermenta.”
– enquanto a tardinha, agourenta,
morria sem um som plangente,
antipaticissimamente.
Ivan Justen Santana
Sábado, Maio 23, 2009

Obituário do Zé Rodrix
(mantendo o email exatamente como zé mandou):
Por... Zé Rodrix!!!
Data: Qua Jun 2, 2004 7:34 pm
Assunto: Re: [M-Música] . Re: [M-Música] . Re: Paul McCartney - (era:
Rock in Rio Lisboa…)
Felipe:
Em resposta a seu completissimo questionario passo-lhe às mãos minhas especificações para passamento e eventual necrologio..
Há alguns anos, gostaria de ter a causa-mortis preferida de meu pai: assassinado aos 98 anos de idade com um tiro dado por um marido ciumento que o tivesse pego em pleno ato… mas hoje nao mais. Pode ser de fulminante ataque cardiaco, dentro da minha biblioteca, perto o suficiente da familia e dos amigos mas afastado o bastante para que, alertados pelos cachorros da casa, ja me encontrem morto, com um sorriso nos labios.
Pode sepultar-me em pleno mar, sob a forma de cinzas, ja que nao poderei ser sepultado in totum no jardim da minha casa. Se conseguirem isso, no entanto, que nao cobrem entradas para visitação, à moda do irmão da princesa: deixem que alem das pessoas os passarinhos e os animais da casa se refestelem no lugar, renovando diariamente o eterno ciclo da Natureza.
Ao enterro devem, atraves de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançåmentos de livro: nada mais parecido com um velorio do que isso.
Peço parcimonia nos efluvios emocionais: já as risadas devem ser francas e sem limite. Creio inclusive que prepararei com antecedencia uma fita de piadas gravadas para animar o velorio e manter o pessoal na boa.
Como dizia o Bozo, "sempre rir, sempre rir…."
La so deixarei a mim mesmo: mesmo os inimigos que comparecerem para ter certeza de que estou realmente morto podem voltar para casa em paz. Nao pretendo puxar a perna de ninguem à noite e nem assombra-los depois de morto.
Já os amigos podem contar comigo: havendo vida após a morte, volto para avisar, da maneira mais pratica e menos assustadora que me for possivel. A cremação deve ser feita depois que todos forem embora cuidar de seus proprios afazeres: enfrentar as chamas do forno terrestre ja será um gardne introito para a vida eterna.
Se conseguir, tentarei ser crooner da grande Orquestra de Jazz do Inferno, vulgarmente chamada de SATANAZZ ALL-STARS: como ja vou chegar la tenente ou capitão, dada a minha imensa taxa de maldades realizadas sobre a Terra, creio que nao será dificil. Meu castigo certamente será cantar MPBdQ por toda a eternidade, mas mesmo com isso ainda se pode encontrar algum prazer, assim na terra como no inferno….é o que veremos a seguir.
No enterro podem tocar de tudo, menos as musicas que eu tenha feito. Mnha morte servirá certamente para que se livrem nao apenas de mim mas tambem de minhas obras. Os herdeiros tambem nao merecem ouvi-las, sabendo que nada herdarão de minha lavra, porque, sendo eu adepto da politica do VAI TRABALHAR, VAGABUNDO, como meu pai fez comigo, ja tomei providencias para que essas musicas nao lhes rendam nem um tostão furado. Sendo um velorio moderno, recomendo musicas de carnaval antigo, as indiscutiveis, claro, com algumas discretas serpentinas e confetes jogadas sobre o caixão, fechado, naturalmente.
Morrer num Sabado à tarde, ser enterrado num Domingo antes do almoço, e estar completamente esquecido na manhã de Segunda, sem atrapalhar a vida profissional de ninguem: eis a perfeição que desejo na minha morte.
Muito grato.
beijos
Z
Terça-feira, Maio 19, 2009

viceversa
tenho medo de te ver
necessidade de te ver
esperança de te ver
pernas bambas de te ver
tenho vontade de te encontrar
preocupação de te encontrar
certeza de te encontrar
pobres dúvidas de te encontrar
tenho urgência de te ouvir
alegria de te ouvir
boa sorte de te ouvir
e temores de te ouvir
ou seja
resumindo
estou fodido
e radiante
talvez mais o primeiro
do que o segundo
e também
viceversa.
Mário Benedetti
tradução de Leo Gonçalves
tenho medo de te ver
necessidade de te ver
esperança de te ver
pernas bambas de te ver
tenho vontade de te encontrar
preocupação de te encontrar
certeza de te encontrar
pobres dúvidas de te encontrar
tenho urgência de te ouvir
alegria de te ouvir
boa sorte de te ouvir
e temores de te ouvir
ou seja
resumindo
estou fodido
e radiante
talvez mais o primeiro
do que o segundo
e também
viceversa.
Mário Benedetti
tradução de Leo Gonçalves
Segunda-feira, Março 30, 2009
E Daí?

Estudante, os mais íntimos colegas
Já viam nele um grande gênio então;
Ele também; e agiu segundo as regras
Passando em claro as suas noites negras.
E daí? canta a sombra de Platão.
Seus escritos lhe dão notoriedade;
Ao cabo de alguns anos ganha tão
Bem que não passa mais necessidades;
Seus amigos, amigos de verdade.
E daí? canta a sombra de Platão.
Seus sonhos todos vêm à luz do dia:
Casa boa, mulher, filhos, carrão,
Horta e pomar onde tudo crescia,
Poetas e Sábios sobre ele choviam.
E daí? canta a sombra de Platão.
Obra completa, já maduro, tosse:
"Meu projeto de jovem concluí;
Que os tolos clamem; um senão que fosse;
Pois algo ao nível do perfeito eu trouxe."
E a voz mais alto: E daí? E daí?
W. B. Yeats
Tradução de Ivo Barroso
Terça-feira, Março 03, 2009

ACERTE OU ERRE
(Pares de premissas em busca de conclusões)
Nenhum careca necessita pente;
Nenhum lagarto tem cabelo.
Alfinetes não são ambiciosos;
Agulhas não são alfinetes.
Algumas ostras estão caladas;
Pessoas caladas não são divertidas.
Rãs não escrevem livros;
Algumas pessoas usam tinta para escrever livros.
Certas montanhas são intransponíveis;
Todos os estilos podem ser transponíveis.
Nenhuma lagosta é insensata;
Nenhuma pessoa sensata espera impossibilidades.
Nenhum fóssil pode ser em amor cruzado;
Uma ostra pode ser em amor cruzada.
Um homem prudente evita hienas;
Nenhum banqueiro é imprudente.
Nenhum sovina é altruísta;
Só os sovinas guardam cascas de ovo.
Nenhum militar escreve poesia;
Nenhum general é civil.
Todas as corujas são satisfatórias;
Certas desculpas são insatisfatórias.
Lewis Carroll
(tradução de José Lino Grünewald)
~*~
Domingo, Fevereiro 01, 2009
Terça-feira, Dezembro 16, 2008
Carrasco de Peru de Natal
Em homenagem ao poeta Marcos Prado que faria hoje, dia 15 de dezembro, 47 anos, uma canção com letra de Marcos, Trindade e Thadeu.
Direto de Londres, Carrasco de Peru de Natal. Mais informações, no comentário do Trindade.
Direto de Londres, Carrasco de Peru de Natal. Mais informações, no comentário do Trindade.
Sábado, Outubro 11, 2008
Quinta-feira, Julho 03, 2008

A Maçã - vol.2.
Se e quando algum deus a desenhou, a caneta estava falhando ou a impressora era antiga; caso no princípio tenha mesmo sido o Verbo, algumas palavras devem ter-se prendido na ponta da Língua. Qualquer que fosse a cosmogênese, o fato é que a garota nasceu pontilhada.
Nos primórdios, teve que lidar com seu eu arquipélago com a disciplina da marinha grega, tantas as lacunas do seu domínio e tamanho o medo de invasores: muitos calcanhares não definem um herói. Foi quando aprendeu a ler e a escrever, e passou a entender as garatujas que vinham nas garrafas enviadas pelos seus eus sobreviventes dos naufrágios, quanta solidão em cada um.
Talvez tenha vindo daí o gosto pelas garrafas, mas isso já é outra história: o importante é que as mensagens uniram pontos e ela começou a se tracejar primeiro em código morse, depois enfileirando hexagramas do I Ching. Muitas e pequenas mortes: em um dia era só sorriso, em outro não existia até o mês seguinte - ou sei lá quando, crescimento orgânico, vai saber, não tem padrões previsíveis.
Mas ela ainda tentava prever quando ele apareceu, contando os passos para não cair nos descontínuos abismos de sua pele. Teve medo quando ele achou que o suposto do seu traçado era uma insinuação ontológica, e até tentou guilhotiná-lo com o movimento de suas placas subcutâneas, mas ele também era poroso e os dentes dela só morderam-se a si mesmos. Ela não tinha mais nada a que se apegar, fora ao que se enlaçava voluntariamente às esquinas dos seus traços sobrepostos.
Agarrou-se a isso, então. Foi quando o labirinto de desenho brusco virou curvas concêntricas, uma só caverna de vazio reunido, galáxia pulsando no ritmo descontínuo dos músculos dele e do mundo, e suas lacunas viraram mil bocas de um vulcão que respirava o tempo e era erodido por todos os dias da vida.
E então, naquele segundo antes da vontade do cigarro, enquanto o que sobrara dela concluía que dissolver-se era mais divertido do que a ilusão do reunir-se, talvez tenha sido o Verbo a voz que cantava em coro contínuo que a volatilidade era sua ressurreição.
ERIKA HIRS
Nos primórdios, teve que lidar com seu eu arquipélago com a disciplina da marinha grega, tantas as lacunas do seu domínio e tamanho o medo de invasores: muitos calcanhares não definem um herói. Foi quando aprendeu a ler e a escrever, e passou a entender as garatujas que vinham nas garrafas enviadas pelos seus eus sobreviventes dos naufrágios, quanta solidão em cada um.
Talvez tenha vindo daí o gosto pelas garrafas, mas isso já é outra história: o importante é que as mensagens uniram pontos e ela começou a se tracejar primeiro em código morse, depois enfileirando hexagramas do I Ching. Muitas e pequenas mortes: em um dia era só sorriso, em outro não existia até o mês seguinte - ou sei lá quando, crescimento orgânico, vai saber, não tem padrões previsíveis.
Mas ela ainda tentava prever quando ele apareceu, contando os passos para não cair nos descontínuos abismos de sua pele. Teve medo quando ele achou que o suposto do seu traçado era uma insinuação ontológica, e até tentou guilhotiná-lo com o movimento de suas placas subcutâneas, mas ele também era poroso e os dentes dela só morderam-se a si mesmos. Ela não tinha mais nada a que se apegar, fora ao que se enlaçava voluntariamente às esquinas dos seus traços sobrepostos.
Agarrou-se a isso, então. Foi quando o labirinto de desenho brusco virou curvas concêntricas, uma só caverna de vazio reunido, galáxia pulsando no ritmo descontínuo dos músculos dele e do mundo, e suas lacunas viraram mil bocas de um vulcão que respirava o tempo e era erodido por todos os dias da vida.
E então, naquele segundo antes da vontade do cigarro, enquanto o que sobrara dela concluía que dissolver-se era mais divertido do que a ilusão do reunir-se, talvez tenha sido o Verbo a voz que cantava em coro contínuo que a volatilidade era sua ressurreição.
ERIKA HIRS
Terça-feira, Junho 24, 2008

Seu corpo é uma praia deserta
onde uma música desperta
numa onda esperta e a deserda:
espumas a ferem como pétalas.
Desterra, em tradução infinita,
pérolas na orla do olhar, ilha
que ainda está por ser escrita.
Rodrigo Garcia Lopes
p.s.: Dia primeiro de Julho, no Porão Loquax do W0nka, a música e poesia de Rodrigo + o lançamento da Revista Coyote números 16 e 17.
Segunda-feira, Junho 02, 2008
POLACO DUCA

sou feito de curitiba
já quis morar em nova york das muitas gentes
amsterdam de todos os bagulhos
tóquio dos mil sóis nascentes
e até são paulo coberta de entulhos
mas não, fui ficando por aqui mesmo
o mundo é pequeno pra mais de uma cidade
e minha vida é tudo que tenho
curitiba entrou nela e, pra minha felicidade,
no seu ecossistema existiam potys leminskis
soldas prados trevisans mirans vellozos
ivos alices buenos buchmanns guinskis
koproskis rogérios pilares franças rettamozos
paixões backs bárbaras shoembergers hirschs
minha mãe meu pai tios avós irmãos primos
pessoas do mundo inteiro como meus vizinhos
já quis morar em outros planetas, outras galáxias
mas eu sou feito de curitiba da cabeça aos pés
corre em minhas veias seus bosques, ruas, praças
vanzolins, marildas, coronas, diedrichs, josés
em cada uma de minhas moléculas, átomos, partículas
collins kolodys lours farias tataras cardosos
leprevosts góes vulcanis smaniottos claudetes
dantes flávios recchias bettegas setos viralobos
sneges justens pryscillas arnaldos octávios bergers
e fui ficando cada vez mais parecido com curitiba
e fui algemado a essa minha alma gêmea
estrela de cada dia estendida por toda minha vida
minha mulher, minha puta, minha santa, minha fêmea
eu, do berço ao túmulo, minha caminhada inteirinha
antonio thadeu wojciechowski, polaco da barreirinha
Thadeu W
Sexta-feira, Maio 30, 2008
Radio Caos
É, vou lá gravar de novo. Por ora, alguns antes não ditos, neste domingo, dia primeiro de junho, às 19 horas, na 91,3 MHz.
Segunda-feira, Maio 26, 2008

FEITO ESQUECENDO...
Feito esquecendo as pulsões mais brutais
Encantasse fácil as almas puras
E administrando delícias nos sais
Das palavras travadas de amarguras
Pudesse mesmo arrelvar com carícias
As passadas pesadas de rotinas
Sem que o medo patético partisse as
Rimas com saturações assassinas,
Eu levaria os versinhos na veia
Feito o flautista aos ratos da aldeia
E aos obrigados diria: de nada!
Mas tem sempre um porém em toda via
E a minha inspiração ficou vazia
Lamentando a saliva derramada.
Quarta-feira, Maio 14, 2008

eu não fui barrada no aeroporto da Espanha. eu não sou cachorro não. eu não tenho uma irmã gêmea. eu não tive o rim roubado. eu não canto mais em bares. eu nunca vi um UFO. eu não bebo cerveja. eu não reenvio spams. eu não sou louca por chocolate. eu não gosto de ir em supermercado. eu nunca fui casada pela segunda vez. eu nunca fui processada. eu nunca bati o carro. eu não preciso de muito dinheiro, graças a deus, e não me importa não. eu não tive apendicite. eu não li crime e castigo. eu não mato mais cactus de sede. eu não sou regida por plutão. eu não sou cética, muito menos crédula. eu não sou antipática. eu não odeio ninguém. eu não sou um horror, nem má, nem madrasta. eu nunca fui diplomata. eu não faço chapinha nem uso lentes de contato. eu não freqüento nenhum tipo de igreja. eu não leio um livro de cada vez. eu não ligo muito para as pessoas, nem as que eu tenho MUITAS saudades. eu nunca morei fora do Brasil. eu não durmo em filmes. eu nunca pulei de bungee jump. eu nunca fiz uma cirurgia plástica. eu não atuo em nenhum partido político. eu nunca fugi de casa. eu não faço yoga. eu não tenho orgulho de ser humana. eu não gosto de guardar a louça. eu até desculpo mas não perdôo. eu não estou em nenhuma comissão julgadora. eu não gosto de aspargos. eu nunca fui batizada. eu nunca pisei na neve. eu não trabalho em banco, nem sou designer, nem professora de inglês, nem empresária. eu não suporto mentira ou gente falsa. eu não entendo pessoas que abandonam seus filhos. yo no creo en brujas pero que las hay... las hay. eu não acredito em duendes nem em conto de fadas. eu, ás vezes, não sou eu.
Estrela Leminski
Estrela Leminski
Segunda-feira, Maio 12, 2008
Segunda-feira, Abril 28, 2008
edgar allan poe
Ei-lo, quieto, a cismar, como em grave sigilo,
vendo tudo através a cor verde dos olhos,
onça que não cresceu, hoje é um gato tranqüilo.
A sua vida é um "manso lago", sem escolhos...
Não ama a lua, nem telhado a velho estilo.
De uma rica almofada entre os suaves refolhos,
prefere ronronar, em gracioso cochilo,
vendo tudo através a cor verde dos olhos.
Poderia ser mau, fosforescente espanto,
pequenino terror dos pássaros; no entanto,
se fez um professor de silêncio e virtude.
Gato que sonha assim, se algum dia o entenderdes,
vereis quanto é feliz uma alma que se ilude,
e olha a vida através a cor de uns olhos verdes.
Cassiano Ricardo
Sexta-feira, Abril 04, 2008
Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008

não há nenhum lugar melhor que o deserto para as idéias
ponha-se o nada sobre ou sob o absoluto e tudo será areia
o destino traçado e a rota escolhida do pensamento não calçam as mesmas pegadas
quando um homem pensa sozinho pensa por todos
não há liberdade maior do que estar sozinho no deserto nem sofrimento maior também
as idéias são como fragmentos de areia que se espalham e só
se juntam com exuberância quando
como dunas
cada dia num lugar diferente
quanto ao céu
ele não existe neste deserto por enquanto
onde ele está ninguém que caminha pelo deserto tem a mínima idéia
Marcos Prado
Quarta-feira, Fevereiro 13, 2008

PEGADAS INTACTAS
Ela mora na cidade
submarina
Prisoneira dos piratas
prisioneira dos sonhos
Quero estar c/ ela
quero que ela veja
As coisas que eu criei
conchas que sangram
Sementes sensíveis
De navios de guerra impossíveis
Libélula paira
& oscila & provoca
as algas & suas asas
furiosamente terríveis
Jim Morrison
Ela mora na cidade
submarina
Prisoneira dos piratas
prisioneira dos sonhos
Quero estar c/ ela
quero que ela veja
As coisas que eu criei
conchas que sangram
Sementes sensíveis
De navios de guerra impossíveis
Libélula paira
& oscila & provoca
as algas & suas asas
furiosamente terríveis
Jim Morrison
Tradução de Rodrigo Garcia Lopes
Segunda-feira, Dezembro 31, 2007
Sábado, Dezembro 29, 2007
Amor Líquido

O escorpião
Era uma vez um escorpião que decidiu não casar nunca. Tinha medo de ficar viúvo. Sabia que todos escorpiões podiam, de repente, suicidar. Mas o coração tem razões que até a razão desconhece. Caiu de amores por uma donzela escorpião. Sorte, era correspondido, mas ela também tinha, como ele, medo de perder seu amado. Preferiu não escutar o coração.
Por muito tempo, permaneceram sozinhos. O que os mantinha vivos era a curiosidade de saber o que o outro faria.
Um dia, ela decidiu procurá-lo e passavam horas na dança do amor, um tentando evitar ferir o outro e ser ferido. O medo da solidão sempre rondava. Vigiavam-se mutuamente, para evitar a morte.
A tal ponto que, sufocados, decidiram separar-se.
Desde então, passam a vida a se olharem de quando em quando, sempre indecisos entre o medo de ficar juntos e o risco do abandono.
Guiomar de Grammont
Caderno de pele e pêlo
Quinta-feira, Dezembro 13, 2007
Meu (D)Jim

o que aprendi com os amigos
não reneguei nem esqueci
não me acho o melhor dos vivos
e até hoje, que eu saiba, não morri
aprendi, sim, e com maestria
dos todos que até hoje encontrei
o amor pelo que chamam poesia
que é hoje tudo que tenho e sei
imaginei-me ontem o pior de todos
porque almejo algo acima do solo
como se em meu cérebro eletrodos
me jogassem dos 34 anos para o colo
hoje, porém, nascendo o dia azul
olhei pela janela e tudo amarelo –
havia em mim uma espécie de exul
tação aos amigos, à poesia, ao belo
Marcos Prado (1962-1996)
Domingo, Dezembro 09, 2007

colagem e pintura em prato de vidro / maria tereza prado
série releituras de Fornasetti, Themes and Variantions
foto / fabiola pereira
série releituras de Fornasetti, Themes and Variantions
foto / fabiola pereira
noites e dias entre duas cidades tamanha ilusão
de nada serve
mesmo que o telefone toque neste instante
nós já temos um passado ouvi um dia
o ataque do presente contra o restante do tempo foi um filme que perdi
e mesmo assim ainda te quero
isso não se pontua entre duas cidades
o telefone toca e neste instante
tamanha ilusão cresce
uma espécie e presente arranca o restante do tempo
esse filme que quero ver
e sinto que mais e mais te quero
um ponto fugindo do fim
tereza prado






