segunda-feira, janeiro 17, 2005

LORELEI





LORELEI


Não existe nenhuma noite para nos afogarmos:
lua cheia, um rio correndo
negro sob um suave reflexo de espelho,

névoas azuis da água gotejando
de malha para malha como redes de pesca
embora os pescadores durmam,

torres sólidas do castelo
multiplicando-se num espelho
todo ele silêncio. Mas estas formas flutuam

em minha direção, perturbando o rosto
da quietude. Do nadir
erguem os seus membros plenos

de opulência, cabelos mais pesados
que o mármore esculpido. Cantam
um mundo mais cheio e límpido

do que aquele que existe. Irmãs, a vossa canção
traz uma carga demasiado pesada
para ser escutada pelas espirais do ouvido,

aqui, num país onde um sensato
senhor governa equilibradamente.
Ao serem perturbadas pela harmonia

que existem além da ordem deste mundo,
as vossas vozes fazem um cerco. Estais alojadas
nos recifes em declive do pesadelo,

prometendo um abrigo certo;
de dia, estendem-se para além dos limites
da inércia, das saliências

que existem também nas altas janelas. Pior
ainda que esta canção de enlouquecer
é o vosso silêncio. Na origem

do apelo do vosso coração gelado
- a embriaguez das grandes profundezas.
Ó rio, como vejo serem arrastadas

lá no fundo do teu curso de prata,
aquelas grandes deusas da paz.
Pedra, pedra, leva-me lá para baixo.

Silvia Plath

(tradução de Maria de Lourdes Guimarães)


...

LORELEI


It is no night to drown in:
A full moon, river lapsing
Black beneath bland mirror-sheen,

The blue water-mists dropping
Scrim after scrim like fishnets
Though fishermen are sleeping,

The massive castle turrets
Doubling themselves in a glass
All stillness. Yet these shapes float

Up toward me, troubling the face
Of quiet. From the nadir
They rise, their limbs ponderous

With richness, hair heavier
Than sculptured marble. They sing
Of a world more full and clear

Than can be. Sisters, your song
Bears a burden too weighty
For the whorled ear's listening

Here, in a well-steered country,
Under a balanced ruler.
Deranging by harmony

Beyond the mundane order,
Your voices lay siege. You lodge
On the pitched reefs of nightmare,

Promising sure harborage;
By day, descant from borders
Of hebetude, from the ledge

Also of high windows. Worse
Even than your maddening
Song, your silence. At the source

Of your ice-hearted calling --
Drunkenness of the great depths.
O river, I see drifting

Deep in your flux of silver
Those great goddesses of peace.
Stone, stone, ferry me down there.

Silvia Plath

2 comentários:

sub rosa disse...

stupefact!
Flabbergasted.
Estou absolutamente encantada com tanta beleque e riqueza de idéias de compilações, felicidade de escolhas.
Posso dizer que esse problema que ocorreu no SubRosa
http://meguimaraes.com/subrosa - e me fez mudar provisoriamente para cá, já me compensou com esse presente: o Palavra de pantera que já está como favorito.
Um grande abraço de parabéns e um beijo.
Meg
Mas como não nos conhecemos antes?!

Ivan disse...

Não é por ser mulher (nem por ser portuguesa) que invoquei com a tradutora do Lorelei da Plath.

Talvez seja por ciúme, ou ainda porque dá pra ver que além dela não ter nem tentado recriar o esquema de rimas (que não são perfeitas, mas que seguem o lindo padrão da terza rima dos tercetos dantescos), a tal Maria de Lourdes conseguiu comer bola e arruinar alguns versos mesmo tentando fazer uma tradução literal.

Então resolvi que isso era um trabalho para o supereu.

Espero que você não tome as dores da Maria...

Veja só o que saiu:


LORELEI

Não é uma noite pra se afogar dentro:
Uma lua cheia, rio decaindo
Negro entre brando brilho-espelho,

Os vapores d´água azuis pingando
Fios após fios feito redes de pesca
Apesar dos pescadores estarem dormindo,

Os torreões maciços do castelo
Duplicando-se numa superfície
Toda mansidão. Mas flutuam estas

Formas até mim, perturbando a face
Da quietude. Do ponto mais baixo
Se erguem, seus membros graves

De riqueza, cabelo mais pesado
Que mármore esculpido. Cantam
Sobre um mundo mais cheio e claro

Que o possível. Irmãs, seu canto
Carrega uma carga densa em demasia
Pra audição do ouvido espiralado

Aqui, numa terra bem dirigida,
Sob um governante destro.
Transtornando pela harmonia

Muito além da ordem terrestre,
Suas vozes armam cerco. Hospedam-se
Nos recifes agudos do pesadelo,

Prometendo acolhida certa;
De dia, descantam dos limites
Da hebetude, das altas janelas

Também na beira. Pior ainda que
Seu enlouquecedor canto,
O seu silêncio. Na origem

Do seu apelo de coração gelado –
Bebedeira das grandes profundidades.
Oh rio, eu vejo derivando

No fundo do teu fluxo prateado,
Aquelas grandes deusas de paz.
Pedra, pedra, me leve lá pra baixo.


Sylvia Plath

Versão brasileira: Ivan Justen Santana