terça-feira, janeiro 16, 2007




O Perfume



Leitor, terás um dia respirado
Com embriaguez, lento degustar,
O grão de incenso que domina o altar
Ou de um sachê o almíscar apurado?

Com magia, profundo delirar,
Do presente que revive o passado,
Assim o amante no corpo adorado
Colhe na memória uma flor sem par.

Da solta e densa cabeleira dela,
Incenso da alcova, vivo sachê,
Vinha um aroma, felino buquê,

E as roupas de veludo ou de flanela,
Impregnadas do seu frescor tão bom,
Soltavam um perfume de vison.


Charles Baudelaire
Tradução de
Jorge Pontual

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Le parfum


Lecteur, as-tu quelquefois respiré
Avec ivresse et lente gourmandise
Ce grain d'encens qui remplit une église,
Ou d'un sachet le musc invétéré ?

Charme profond, magique, dont nous grise
Dans le présent le passé restauré !
Ainsi l'amant sur un corps adoré
Du souvenir cueille la fleur exquise.

De ses cheveux élastiques et lourds,
Vivant sachet, encensoir de l'alcôve,
Une senteur montait, sauvage et fauve,

Et des habits, mousseline ou velours,
Tout imprégnés de sa jeunesse pure,
Se dégageait un parfum de fourrure.


Baudelaire
Les Fleurs du Mal

5 comentários:

jose disse...

(trad. 17 Jan ’07)

O Perfume

Leitor, alguma vez hás respirado
Com embriaguez e lenta gulodice
Grão de incenso que em igreja subisse,
Ou dum saquitel o almíscar inveterado ?

Encanto profundo, mágico, nos cativa
Para o presente o passado restaurado !
Assim o amante sobre um corpo adorado
Da recordação colhe a flor nativa.

Dos seus cabelos elásticos e fartos,
Vivo saquitel, incensório de alcova,
Uma essência subia, selvagem e nova,

E da musselina ou veludo de seus fatos,
Tão impregnados de sua juventude pura,
Evolava um perfume de pêlo e de natura.

Zoe de Camaris disse...

Grata José,

É sempre legal ler suas soluções.
Lindo poema, não?

beso,

jose disse...

(agradeço o acolhimento; arrisco uma outra tradução na hora do poema de Baudelaire 'Le Serpent qui danse', pescado na página de Jorge Pontual - recordando, salvo erro, que esse é um arquétipo que lhe interessa)

A Serpente que dança

Adoro ver, cara indolente,
De teu corpo tão bel’,
Como tecido fremente,
Reverberar a pele!

Sobre tua cabeleira profunda
Ancha de acres perfumes,
Maré odorífera vagabunda
De vagas azuis e cardumes,

Como um navio que desperta
De manhã ao vento,
Minh’alma sonhadora s’acerta
Para um distante firmamento.

Teus olhos, onde nada transparece
De doce nem amargo,
São duas jóias frias onde acresce
O ouro e o ferro largo.

Ao ver-te cadência que avança,
Desprendida beleza rara,
Dir-se-ia serpente que dança
Na ponta de uma vara.

Sob o fardo da indolência
Tua cabeça de infante
Balança com a dormência
De um jovem elefante,

E teu corpo se curva e alonga
Como batel sem mágoa
Que todo adorna e efonda
Suas vergas na água.

Como vaga que o degelo forma
Dos glaciares ferventes,
Quando a água de tua boca s’entorna
No bordo de teus dentes,

Julgo beber um vinho da Boémia,
Amargo e vencedor,
Um céu qual líquida académia
Asperge d’estrelas meu amor!

Saramar disse...
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Saramar disse...

Vim, por indicação da Clau e não me arrependi nada.
Ao contrário, nem consigo sair daqui.

beijo