segunda-feira, março 05, 2007

FUNERAL BLUES


casal eterno- esqueletos de 5 mil anos
são achados abraçados


Que parem os relógios
cale o telefone.
Jogue-se ao cão
um osso e que
não ladre mais,
que emudeça o piano e
que o tambor sancione
a vinda do caixão com
seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo
acima e em alvoroço,
escrevam contra o céu
o anúncio: ele morreu
Que as pombas guardem
luto - um laço
no pescoço.
E os guardas usem finas
luvas cor-de-breu.

Era meu Norte, Sul
meu Leste, Oeste,
enquanto viveu,
meus dias úteis, meu
fim-de-semana
meu meio-dia,
meia-noite, fala e canto:
quem julgue o amor
eterno, como eu fiz,
se engana.

É hora de apagar
estrelas - são molestas,
guardar a lua,
desmontar o sol
brilhante,
de despejar o mar,
jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar
certo doravante.


W.H. Auden
tradução de Nelson Ascher

6 comentários:

Anônimo disse...

Que belo poema!!! Beso,

Claudio Daniel

Ricardo Rayol disse...

Uma bela composição entre o texto e a imagem.. muito bem bolada!

jose disse...

Lamentos de Funeral (W. H. Auden)

Parem todos os relógios, evitem telefonar,
Ao cão dêem um osso suculento para ele não ladrar,
Silenciem os pianos e com um surdo rufar de tambor
Tragam o caixão, que os enlutados carreguem a dor.

Que aviões andem em círculos lamentosos lá no céu
Sarrabiscando no alto a mensagem Ele Morreu,
Ponham coroas roxas nos alvos pescoços das pombas então,
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.

Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,
A minha semana de trabalho e o Domingo que me reste,
Meu meio-dia, minha meia-noite, minha fala, minha canção;
Pensei que o amor duraria para sempre: enganei-me em vão.

As estrelas agora são desnecessárias; extingam seu rol;
Embrulhem a lua e desmantelem o sol;
Esvaziem o oceano e varram a floresta;
Que tudo agora é coisa que não presta.

(trad. 2 Fev. ’07)

Zoe de Camaris disse...

Adoro Auden, Cláudio. Vou xeretar sua página já!
..................

Ricardo, você é filho do Aguinaldo Timóteo? Hehehe, como eu sou engraçadinha. Sim, achei perfeita a composção. Ás vezes as coisas confluem.

..........
Jose,

Bacana a tradução! E você foi o único que aceitou o desafio.

besos,

david disse...

Passei para conhecer teu cantinho por recomendação da Claudia. Por ser fã do Lemisnki, ela me indicou o Marcos e por consequência, cá estou eu.

Um abraço e fica bem.

cid braz disse...

por trás desse saco de ossos deve haver uma história terrível. seria ainda terrível mesmo se bela a história. mesmo se fraude. perto da força esmagadora dessa imagem o poema de Auden se reduz a pó e vento.