segunda-feira, maio 29, 2006





FORMAS DO NU (I)


A aranha passa a vida
tecendo cortinados
com o fio que fia
do seu cuspe privado.

Jamais para velar-se:
e por isso são ralos.
Para enredar os outros
é que usa enredados.

Ela sabe evitar
que a enrede seu trabalho,
mesmo se, dela mesma,
o trama autobiográfico.

E em muito menos tempo
que tomou em tramá-lo,
o véu que não a velou
aí deixa, abandonado.


João Cabral de Melo Neto

3 comentários:

Klatuu o embuçado disse...

Grande entre os maiores!
Dark kiss.

bia disse...

cat woman, minha moniquinha!! Você me surpreende cada dia!

catatau disse...

belíssimo véu, obra única, radicalmente singular... lembra o 'poema inédito', de Batista de Pilar.