sexta-feira, setembro 01, 2006



ATLÂNTIDA


Tendo se decidido a ir
Para Atlântida
Você descobrira é claro
Que somente a Nau dos Insensatos
fará nesse ano a viagem,
Pois vendavais anormais
São previstos, e você
Deve portanto estar pronto
A comportar-se de maneira suficientemente absurda
A passar-se por Um dos Rapazes,
Parecendo pelo menos gostar
De aguardente, vaquejada e barulho.

Tendo tempestades, o que pode muito bem acontecer,
Feito você ancorar uma semana
Em algum velho porto
Da Jônia, então converse
Com os seus espirituosos eruditos, homens
Que provaram não ser possível
Existir lugar como Atlântida:
Aprenda a lógica, mas repare
Como a sutileza deles trai
A sua enormemente simples amargura;
E eles devem ensinar a você a maneira
De duvidar que você possa acreditar.

Se, mais tarde, faltar-lhe chão
Nos promontórios da Trácia
Onde com tochas pela noite inteira
Uma nua raça bárbara
Volteia alucinada ao som
De búzios e dissonantes surdos;
Nessa selvagem praia de pedra
Dispa-se e dance, pois
A não ser que você seja capaz
De se esquecer completamente
Da Atlântida, você
Jamais terminará a sua jornada.

E, alcançando chegar à alegre
Cartago ou Corinto, caia
Em sua infinita gandaia;
E se num bar uma putinha

Enquanto acaricia o seu cabelo, dissesse
“Isto é Atlântida, queridinho”
Ouça com atenção
A história da vida dela: A não ser que
Você agora já saiba de
Todos os refúgios que tentam
Falsificar Atlântida, como
Você poderá saber o que é verdadeiro?

Imaginando que você aproasse, finalmente
Perto da Atlântida, e começasse
A adentrar a sua terrível trilha
Através do mato esquálido e de geladas
Tundras onde logo se perdesse;
Se ao abandono então quedasse
Banido de todo lugar,
Pedra e neve, silêncio e ar,
Ó lembre-se do grande morto
E honre o destino que é você
Viajante e atormentado
Dialético e bizarro.

Cambaleie para trás em júbilo;
E mesmo então se, talvez
Ante a última passagem, você tombasse
Com toda a Atlântida
Brilhando, aos seus pés
Ainda assim você não poderia
Descer, você poderia no entanto orgulhar-se
Ao ter-lhe sido, pelo menos, permitido
Uma rápida espiada da Atlântida
Em uma visão poética:
Agradeça e quede-se em paz,
Tendo visto a sua salvação.

Todos os deusinhos domésticos
Põem-se em pranto, mas diga
Adeus então, e vá ao mar.
Adeus, queridos, adeus: possa
Hermes, padroeiro das estradas,
E os quatro anões Kabiri,
Proteger e servir a você sempre:
E possa o Ancião dos Dias
Prover para tudo o que você deva fazer
Sua mão invisível,
Fazendo pairar, querido, sobre você
A luz de Sua face.


W. H. Auden
Tradução de Carlos Figueiredo

Um comentário:

Diego Barreto Ivo disse...

Eis um poema muito bom. Para falar a verdade, nunca tinha lido nada do Auden.