domingo, outubro 22, 2006



A Rosa Secreta
W. B. Yeats


Longínqua, tão secreta, inviolada Rosa,
Envolve-me na minha hora das horas; onde aqueles
Que te buscaram no Santo Sepulcro,
Ou no tonel de vinho, moram mais além dos tumultuosos e
Vencidos sonhos; e profundamente
Entre macilentas pálpebras, pesadas de tanto sono
Os homens nomearam a beleza. Tuas grandes folhas ocultas
As antigas barbas, os elmos de ouro e rubi
Dos coroados Reis Magos; e o rei cujos olhos
Viram as Mãos Crucificadas e a Cruz de sabugueiro elevar-se
Em druídicos vapores, extinguindo as tochas;
Até que o inútil clamor despertou e ele morreu; e aquele
Que encontrou Fand caminhando entre flamejante orvalho
Junto à sombria costa onde nunca soprava o vento,
E perdeu mundo e Emer por um beijo;
E aquele que os deuses levou para fora dos seus domínios
E durante cem rubras alvoradas se entregou ao festim e chorou
Os túmulos dos seus mortos;
E o rei sonhador e altivo que mágoa e coroa arremessou,
Convocando bobo e bardo,
Em profundos bosques habitava com os errantes filhos do vinho;
E aquele que vendeu campos, casa e bens,
E durante inumeráveis anos por terra e mar procurou,
Encontrou enfim, entre riso e lágrimas,
Essa mulher tão radiosa em sua beleza
Que à meia-noite os homens trabalhavam o cereal
Por um sorriso, um brevíssimo sorriso roubado. Eu também aguardo
Essa hora, a hora das tempestades do teu ódio, do teu amor.
Quando se soltarão do céu as estrelas
Como chispas de uma forja, quando morrerão?
É chegada a tua hora, teus grandes ventos acordam
Longínqua, secretíssima, inviolada Rosa?


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THE SECRET ROSE


Far-off, most secret, and inviolate Rose,
Enfold me in my hour of hours; where those
Who sought thee in the Holy Sepulchre,
Or in the wine-vat, dwell beyond the stir
And tumult of defeated dreams; and deep
Among pale eyelids, heavy with the sleep
Men have named beauty. Thy great leaves enfold
The ancient beards, the helms of ruby and gold
Of the crowned Magi; and the king whose eyes
Saw the pierced Hands and Rood of elder rise
In Druid vapour and make the torches dim;
Till vain frenzy awoke and he died; and him
Who met Fand walking among flaming dew
By a grey shore where the wind never blew,
And lost the world and Emer for a kiss;
And him who drove the gods out of their liss,
And till a hundred moms had flowered red
Feasted, and wept the barrows of his dead;
And the proud dreaming king who flung the crown
And sorrow away, and calling bard and clown
Dwelt among wine-stained wanderers in deep woods:
And him who sold tillage, and house, and goods,
And sought through lands and islands numberless years,
Until he found, with laughter and with tears,
A woman of so shining loveliness
That men threshed corn at midnight by a tress,
A little stolen tress. I, too, await
The hour of thy great wind of love and hate.
When shall the stars be blown about the sky,
Like the sparks blown out of a smithy, and die?
Surely thine hour has come, thy great wind blows,
Far-off, most secret, and inviolate Rose?

William B. Yeats

5 comentários:

josé (porto) disse...

A Secreta Rosa

Longínqua, mui secreta, e inviolada Rosa,
Envolve-me ao chegar a minha hora; radiosa
Onde os que te buscaram no Santo Túmulo,
Ou na adega, moram para lá do tumulto
E agitação dos delidos devaneios; onde ao abandono
Por entre pálidas pálpebras, pesadas de sono
Os homens nomearam a beleza. Tuas largas pétalas a si
Cingem as vetustas barbas, os elmos d’ouro e rubi
Dos coroados Magos; e o rei cujos olhos antigos
Viram as cravejadas Mãos e o Crucifixo erguidos
Em Druídica névoa que torna a tocha trémule;
Até que vão afã o acordou e ele morreu; e aquele
Que achou Fand a andar sobre o orvalho cintilante
Por cinzenta costa onde o vento nunca foi errante,
E perdeu o mundo e Emer por um beijo;
E esse que os deuses arredou de seu ensejo,
E até que uma centena de amores-perfeitos rubra floriu
Festejou, e as aras de seus mortos carpiu;
E o orgulhoso rei sonhador que a coroa rejeitou
Mais a mágoa, e o bardo e o palhaço convocou
E entre vagabundos bêbedos na mata foi morar:
E esse que casa, teres e haveres foi delapidar
E buscou por terras e ilhas anos sem aviso,
Até encontrar, entre lágrimas e um sorriso,
Uma mulher de tão radiosa esp’rança
Que homens debulhavam grão à noite por uma trança,
Uma pequena trança roubada. Eu, também, agora
De teu grande vento de amor e ódio aguardo a hora.
Quando irão as estrelas saltar do céu a arder,
Como fagulhas soltas duma forja, e morrer?
Será que tua hora é chegada, que tua ventania é poderosa,
Longínqua, mui secreta, e inviolada Rosa?

(trad. 23 Out ’06)

(“Fand era uma mulher-fada amante do herói irlandês Cuchulain; Emer era a esposa de Cuchulain; a obra ‘Cuchulain de Muirthemne’, de Lady Gregory, expõe a versão da lenda provavelmente mais familiar a W. B. Yeats”) (na Wikipedia)

Ivan disse...

*concede meio antebraço a torcer e aplaude a tradução, com um ligeiro rosnado admoestatório*:

tem um verso longo demais (mas isso é mero detalhe), delapidar aqui se escreve dilapidar, trémule rimando com aquele ficou extremamente exquisito, mas o vaticínio final é:

bela tradução para um portuga...

Zoe de Camaris disse...

Não ligue, José, o Ivan está com ciúmes - cotovelo em chamas.

Se ele comentou é porque adorou.

beso,

josé (porto) disse...

portuga é tosco, porventura, / e eu mais estragado que composto / portuga é esboço e sede de aventura / mas só no Brasil é bem disposto / (just now, 23 Out '06)

Maria disse...

Posso sugerir a alteração duma palavrinha só?

"... que os homens debulhavam o trigo à meia-noite, à luz
dum fio de cabelo, um pequeno fio roubado..."

O trigo debulha-se quando o sol vai alto. O fio de cabelo (ou a madeixa, mas è mais difícil roubar uma madeixa!)era tão luminoso que à sua luz se podia trabalhar como à luz do sol.

Sim, a consrução não é muito vulgar, ou antes, não se dá muito por ela: "reading by a window" é geralmente "ler à (luz da)janela".

É que a versão está tão boa que tive mesmo de fazer o reparo.

Cump.
M.L. Assis