domingo, novembro 19, 2006




estava no mafalda quando uma menininha bem linda entrou e ofereceu uns adesivos. olhei, tinha da betty boop e da sininho. dois reais. a cleu ganhou uma rosa de papel e eu também. a garota fez as flores com perícia, eu mesma gosto de brincar. não olhou para mim nem por um segundo. o mundo estava em primeiro plano. eu era uma amiguinha invisível.
em casa lembrei - ele há de se lembrar - de uma outra menina pequena, muito pequenininha ainda, que chegou perto da gente um dia.

ela estava bem suja e tinha os cabelos raspados. piolhos. a camisola era digna da garota dos fósforos ou de uma retirante mirim de um hospital psiquiátrico.

bem diferente da outra que entrou bonita, impassível, criança lá no mafalda a essa hora da noite. grampos de brilhinhos assim como brilhavam a betty boop e a sininho.

ensinei como fazer para que um canudinho de refrigirafas virasse uma espécie de torcido que talvez imitesse a vez de um caule ou de um tecido. aquela pobrinha, de antes, que não tinha fósforos mas sim canudinhos.

ela não aprendeu. e nem nós que insistíamos no mesmo bar no meio da tarde como se no mundo nada houvesse a fazer. tardes densas como quaisquer outras tardes.

ela reapareceu e aprendeu o torcido. fizemos vários, como um segundo treino. vimos a menina só mais uma vez - se não me engano - dentro de um carrinho de coisas recicláveis, perto do mercadorama.

Zoe

2 comentários:

Cleusagomes@uol.com.br disse...

Monica, querida, que lindo! Participei desse acontecimento contigo no sábado logo após a peça bárbara do Mário Bortolotto - Homens, Santos e Desertores, mas somente vc para escrever com tanta sensibilidade e talento.

Bjos, Cleu

Zoe de Camaris disse...

Grata, querida. É que fiquei viajando aqui se uma seria a outra.

besos,